Tratar da presença da Literatura de Cordel nos estudos sobre literatura brasileira é tratar de sua ausência. Vejamos. Nenhum dos nossos reconhecidos estudiosos a inserem em suas obras principais. Sabendo-se que
Leandro Gomes de Barros
foi o primeiro a publicar seus folhetos e editá-los sistematicamente, não lhe é devida nenhuma citação nem em
Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos,
de Antonio Candido,
nem em
A Literatura Brasileira,
de José Aderaldo Castelo,
ou na
História Concisa da Literatura Brasileira,
de Alfredo Bosi.
Dá-se o mesmo em Ronald Carvalho, Nelson Werneck Sodré e José Veríssimo.
Sílvio Romero chega a citar o Cordel em seus Estudos sobre a poesia popular, mas como algo finado.
Quanto aos livros didáticos, o que se apresenta é uma periodização das Épocas Literárias desde Portugal. Mesmo atribuindo valor ao trovadorismo português, ao cancioneiro de Garcia de Resende, às cantigas de Martim Codax e D. Dinis, ou Joan Airas de Santiago, escritos primevos, nada sobre Literatura de Cordel. É como se esse fenômeno não tivesse acontecido. Deve-se ao trabalho de pesquisadores particulares, paladinos e quixotes, a tentativa de integração e enquadramento dessa literatura no todo literário brasileiro, exemplo seguido por algumas instituições como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Pernambuco, citando as mais conhecidas, mas sem a força fundamental da mudança.
Não fosse a intervenção de uma professora de Filologia Românica, que pediu-me para fazer uma explanação sobre "Literatura de Cordel" em duas salas - que não a minha - , o assunto teria passado em branco nos anos em que cursei Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia, Campus VI - Caetité.
ResponderExcluirPor outro lado, a mediocridade modernista - em poesia, entenda-se - fustigou nossos ouvidos para além do tolerável.
Nada de Leandro Gomes de Barros, Delarme, Manoel d'Almeida...
Apenas uma vez, por conta de uma citação de uma carta de Mário de Andrade, onde ele referia-se aos "Leandros" e "Athaydes", alguém quis saber, afinal, do que se tratava, ante a perplexa professora de Literatura Brasileira, que nunca se sentira instigada a ir além do manual que ora tinha em mãos.
Esta a afirmação de Mário de Andrade contida na Carta a Raimundo Morais, publicada no Diário Nacional de são Paulo, em 20 de novembro de 1931. Citado por Silvano Peloso em O Canto e a Memória, p. 190
“Um Leandro, um Athayde nordestinos, compram no primeiro sebo uma gramática, uma geografia, ou um jornal do dia, compõem com isso um jornal de sabença, ou um romance trágico de amor, vivido no Recife. Isso é o Macunaíma e esses sou eu”.
Se não me falha a memória, o mesmo trecho aparece em A Literatura Brasileira, de José Aderaldo Castelo, de onde teria surgido a deixa para uma discussão mais ampla, que acabou se encerrando na breve descrição biográfica que fiz dos "rapsodos" citados.
E Ariano Suassuna, mestre? É cabra universal que levou muita gente ao cordel através de sua dramaturgia. Ou não acha isso? Vale a pena um post sore ele?
ResponderExcluirAbraço