a) O professor Eduardo Portella nos seus cursos sobre a baixa modernidade (ele, um dos últimos cabedais da decência intelectual);
b) A escritora Helena Parente Cunha com um paiol de atitudes benevolentes (grávida de compreensão e de paciência);
c) A Revista Confraria (bastião da arte e da literatura, como anuncia seu sub-título, em logos e praxis).
Eles, como As Três Marias, o Cinturão de Órion, cintilam na noite protuberante dos meus tempestuosos e encolerados céus e mares.
2. André Comte-Sponville cita-nos Pascal quando diz que todos os homens buscam a felicidade, até mesmo aquele que vai se enforcar. Pois bem, na aridez do meu suicídio diário, de minhas investidas contra as facas e os canhões, acreditando esperançosamente, na superação de todos os obstáculos, incluía-me nessa nação de homens ávidos rumo ao riso perene no lábio, à paz duradoura na mente, à mansidão do mais profundo lago espiritual. Não preciso (ou preciso) dizer quais eram esses obstáculos. Nós que lidamos com a palavra, e com ela mesma na sala de aula e ainda com ela impressa, conhecemos as tenebrosas procelas circundantes: são panelinhas e panelões e paneladas; são faculdades e donos e chefes incompetentes e loucos; e política e politicagem e preconceito e perseguição política. Esse o mapa. Para onde nos viramos, ali estão. Aqui abundam.
3. O filósofo romeno Constantin Noica foi quem enquadrou-me quando apresentou-me as seis doenças do espírito contemporâneo. Não vou deter-me sobre elas, mas naquela em cujas abas espreguicei-me. O meu sofrer começou nos tempos de graduação quando a revista Cult começou a aparecer nas bancas de jornais da Paraíba, cemitério onde eu cavava minha sepultura todos os dias. Aquela revista parecia-me de uma superficialidade estéril, era de látex, não havia tônus sob sua pele intransigente. Folheava, folheava e pensava em Augusto dos Anjos sussurrando: “Parece muito doce aquela cana... ilusão treda...” Aquela necessidade de ver a árvore verdadeira, suas folhas de verdade e frutos e fibras, doía-me como se atingido por uma panela de ferro marciano. Noica diagnosticou-me: todetite. É a doença-resultado fruto da carência da coisa verdadeira. Assegurou-me ainda a igualdade entre literatura e vida. Sem literatura não há vida e a vida é ávida (vivo a repetir esse bordão). Mas eu sofria.
4. Um dia, quando descobri Urs Von Balthasar, urdi uma teoria (outra pretensão?) cuja hipótese era: há duas coisas que não param nunca, o tempo e a vida. Matem-se o tempo e a vida e continuarão mais acelerados. No ensaio de Balthasar encontrei eco, ou eu era o eco:
O fim do homem, o fim da humanidade e do mundo, isto é, a sua meta, é simultaneamente o problema do seu sentido. Se a história tem um fim, esse fim é precisamente uma conjunção no além com as realidades últimas. É esse sentido último o único capaz de dar sentido autêntico a todas as realidades parciais que são objetos das ciências exatas, a não ser que se negue, pura e simplesmente, a existência dessas realidades últimas — existência post mortem, juízo de Deus, eternidade feliz ou desgraçada — e se intente resolver o problema do sentido da vida adentro dos limites da existência finita e temporal, prescindindo de saber se existe ou não um além. Uma coisa é certa: em qualquer dos casos, a vida terrena há-de viver-se como tendo sentido.
5. Precisamos de homens que se regozijem juntos, que celebrem sobretudo suas diferenças (as semelhanças já são cultuadas).
Mestre Aderaldo,
ResponderExcluircomeço bem 2009 com este seu post. Tempo sempre foi meu enigma favorito. Não o tempo cronológico - meio dia, meia noite, hora e meia - o que pode ser medido. Mas aquilo que conhecemos como "algo que passa" e ao qual estamos todos presos. O tempo é um plano tal qual o espaço? Não é. É um fio de navalha sobre o qual todos permanecemos. Um xamã de Rondônia (da união do vegetal) disse que tudo que percebemos "está acontecido" e que o tempo é apenas um modo que nossa mente encontra para organizar o caos desses todos acontecidos que existem no que chamamos passado, presente e futuro.
Assim, no ano 2030 um músico palestino já estripou um rabino no muro das lamentações, mas ainda não ordenamos o fato, embora ele seja um entre todo infinito de acontecidos.
O tempo é o muro no qual quebro a cara.
Grande abraço, mestre.
Adorei visitar teu blog, com certeza estarei mais vezes por aqui. Parabéns!
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