terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Entre os desenganos e a esperança

1. Quando de meu profundo desengano ante o caminho dos estudos literários, já exauridos, encontrei três breves bálsamos, loções de algum ânimo, fagulhas de remota esperança. Foram os acenos para o meu reencontro, na encruzilhada central, com tênues luzes no horizonte:

a) O professor Eduardo Portella nos seus cursos sobre a baixa modernidade (ele, um dos últimos cabedais da decência intelectual);

b) A escritora Helena Parente Cunha com um paiol de atitudes benevolentes (grávida de compreensão e de paciência);

c) A Revista Confraria (bastião da arte e da literatura, como anuncia seu sub-título, em logos e praxis).

Eles, como As Três Marias, o Cinturão de Órion, cintilam na noite protuberante dos meus tempestuosos e encolerados céus e mares.

2. André Comte-Sponville cita-nos Pascal quando diz que todos os homens buscam a felicidade, até mesmo aquele que vai se enforcar. Pois bem, na aridez do meu suicídio diário, de minhas investidas contra as facas e os canhões, acreditando esperançosamente, na superação de todos os obstáculos, incluía-me nessa nação de homens ávidos rumo ao riso perene no lábio, à paz duradoura na mente, à mansidão do mais profundo lago espiritual. Não preciso (ou preciso) dizer quais eram esses obstáculos. Nós que lidamos com a palavra, e com ela mesma na sala de aula e ainda com ela impressa, conhecemos as tenebrosas procelas circundantes: são panelinhas e panelões e paneladas; são faculdades e donos e chefes incompetentes e loucos; e política e politicagem e preconceito e perseguição política. Esse o mapa. Para onde nos viramos, ali estão. Aqui abundam.

3. O filósofo romeno Constantin Noica foi quem enquadrou-me quando apresentou-me as seis doenças do espírito contemporâneo. Não vou deter-me sobre elas, mas naquela em cujas abas espreguicei-me. O meu sofrer começou nos tempos de graduação quando a revista Cult começou a aparecer nas bancas de jornais da Paraíba, cemitério onde eu cavava minha sepultura todos os dias. Aquela revista parecia-me de uma superficialidade estéril, era de látex, não havia tônus sob sua pele intransigente. Folheava, folheava e pensava em Augusto dos Anjos sussurrando: “Parece muito doce aquela cana... ilusão treda...” Aquela necessidade de ver a árvore verdadeira, suas folhas de verdade e frutos e fibras, doía-me como se atingido por uma panela de ferro marciano. Noica diagnosticou-me: todetite. É a doença-resultado fruto da carência da coisa verdadeira. Assegurou-me ainda a igualdade entre literatura e vida. Sem literatura não há vida e a vida é ávida (vivo a repetir esse bordão). Mas eu sofria.

4. Um dia, quando descobri Urs Von Balthasar, urdi uma teoria (outra pretensão?) cuja hipótese era: há duas coisas que não param nunca, o tempo e a vida. Matem-se o tempo e a vida e continuarão mais acelerados. No ensaio de Balthasar encontrei eco, ou eu era o eco:

O fim do homem, o fim da humanidade e do mundo, isto é, a sua meta, é simultaneamente o problema do seu sentido. Se a história tem um fim, esse fim é precisamente uma conjunção no além com as realidades últimas. É esse sentido último o único capaz de dar sentido autêntico a todas as realidades parciais que são objetos das ciências exatas, a não ser que se negue, pura e simplesmente, a existência dessas realidades últimas — existência post mortem, juízo de Deus, eternidade feliz ou desgraçada — e se intente resolver o problema do sentido da vida adentro dos limites da existência finita e temporal, prescindindo de saber se existe ou não um além. Uma coisa é certa: em qualquer dos casos, a vida terrena há-de viver-se como tendo sentido.


5. Precisamos de homens que se regozijem juntos, que celebrem sobretudo suas diferenças (as semelhanças já são cultuadas).

2 comentários:

  1. Mestre Aderaldo,
    começo bem 2009 com este seu post. Tempo sempre foi meu enigma favorito. Não o tempo cronológico - meio dia, meia noite, hora e meia - o que pode ser medido. Mas aquilo que conhecemos como "algo que passa" e ao qual estamos todos presos. O tempo é um plano tal qual o espaço? Não é. É um fio de navalha sobre o qual todos permanecemos. Um xamã de Rondônia (da união do vegetal) disse que tudo que percebemos "está acontecido" e que o tempo é apenas um modo que nossa mente encontra para organizar o caos desses todos acontecidos que existem no que chamamos passado, presente e futuro.
    Assim, no ano 2030 um músico palestino já estripou um rabino no muro das lamentações, mas ainda não ordenamos o fato, embora ele seja um entre todo infinito de acontecidos.
    O tempo é o muro no qual quebro a cara.
    Grande abraço, mestre.

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  2. Adorei visitar teu blog, com certeza estarei mais vezes por aqui. Parabéns!

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