terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Quilombo de Benedita Delazari



Chegou-me à mão o cordel A escravidão negra e o Quilombo dos Palmares de Benedita Delazari. A autora nasceu em Sales, São Paulo, e sua autoria em cordel vem quebrar um paradigma fictício por cujas regras o cordel obrigatoriamente teria de ser produzido por nordestinos. O equívoco dessa prerrogativa é flagrante diante do trabalho literário. Sendo o cordel uma forma poética, qualquer poeta pode, desde que o queira, abraçar-lhe o engenho e emprestar-lhe a arte. E foi isso que moveu Benedita.

Publicado pela Editora Luzeiro, a principal casa publicadora de cordeis brasileira, o folheto desde já se insere no produto poético brasileiro como um achado, uma descoberta. Se no passado a produção de cordel ressentia-se da autoria feminina, Benedita aos poucos vem suprindo essa lacuna. Tendo lançado em 2005 As aventuras do menino Jesus, fruto das histórias ouvidas, lidas e vividas em sua fé e crença, a autora seguiu os passos de sua ascendência e nos oferece, além de sua versão para a saga dos nossos afro-descendentes, uma boa página poética.

Em 64 sextilhas o folheto conta resumidamente os fatos e desarranjos decorrentes de todo o processo escravocata em solo brasileiro. O seu narrador é seco, mas criativo, fazendo cumprirem-se a todo momento as regras do cordel, sem ceifar das estrofes a necessária compreensão, nem cometer a maldade das maldades: quebrar o pé do verso. Mesmo em sextilhas truncadas como as três primeiras, é necessário notar o esforço técnico e o respeito ao rigor para não macular a forma. Assim:

Na história da humanidade
Muitos feitos são contados,
Quero citar o exemplo
Dos nossos antepassados,
Heróis de um povo forte,
Para a luta preparados.

Belo exemplo encontrei:
Gladiadores romanos,
Ao libertarem escravos
Das mãos de nobres tiranos,
Muito tempo resistiu
Exército de espartanos.

Com a história do Brasil
Faço uma comparação,
De um fato acontecido
No tempo da escravidão,
Por um quilombo de negros
Formando rebelião.


Quando escrevo “truncadas” não quero dizer trancadas. Explico: a compreensão não é prejudicada pelo artifício na busca do respeito à métrica e à estrófica do cordel. Para essa adequação é fundamental a supressão de palavras e, certas vezes, de termos, deixando apenas a indicação para que a intuição do leitor, ou seu cabedal cordelístico, lhe confira compreensão. Voltemos ao truncamento das sextilhas. A primeira deixa ao leitor séria dúvida: a que povo forte refere-se o narrador? Aos negros africanos ou aos gladiadores romanos que vêm logo a seguir na segunda estrofe? Quem são os herois desse povo forte preparados para a luta? Tenho dito que a primeira estrofe de um poema de cordel deve ser perfeita em todos os sentidos. Para seduzir o leitor, prendê-lo, acorrentá-lo às surpresas do que virá.

A segunda estrofe deixará seus dois últimos versos quase órfãos, senão totalmente órfãos. Por quê “Muito tempo resistiu/ Exército de espartanos”? Qual a função desses dois versos na estrutura da estrofe? Aparentemente eles nada dizem. E atenção: não estou afirmando que o verso seja ruim! Não. A autora tem o domínio poético e métrico e, talvez por isso, para respeitar as rígidas regras do cordel, tenha se permitido essa construção que soa duvidosa quanto à pertinência. Para a terceira estrofe ficará o quinhão mais difícil. Vejamos.

Onde reside a semelhança entre a nossa história de escravidão e as ações dos gladiadores romanos libertando escravos de “nobres tiranos”? Citando elementos historicamente distantes e sem relação alguma, essa comparação necessita de base para ser edificada. Há, porém, a seguir dois pontos a observar: o termo “quilombo de negros” é redundante. Bastaria a palavra “quilombo”, pois essa é a palavra para designar a associação de negros fugidos e refugiados em aldeia no coração do sertão brasileiro. E faz-se necessário esclarecer o fato de que os quilombos não fizeram rebelião, criaram resistência. Essas observações deveriam ter sido proferidas quando da revisão. São questionamentos que o revisor deve colocar, sem constrangimentos, para o autor. A decisão final é do autor, mas a obrigação de alertá-lo para esses pequenos deslizes é do revisor. São essas feridas responsáveis por todo tipo de críticas contra o cordel, mas o poema de Benedita não são apenas essas três estrofes.

As estrofes lidas anteriormente perdem força quando a quarta estrofe, na virada de página, anuncia magistralmente:

Muitos livros de história
Contaram essa aventura,
O assunto é muito fértil
E o interesse perdura.
Ofereço aos estudantes
Um livro em miniatura.

Estrofe redonda. Prima. Lúcida. O folheto de Benedita começa aí e desconfio, de verdade, que essa tenha sido a primeira estrofe construída para ele. E se não o foi, deveria ter sido. A partir dela o folheto toma um rumo crescente, em poesia e história. Para escrever sobre Palmares, bem como sobre qualquer fato histórico, o pre-requesito é a pesquisa e a autora a fez diligentemente. Encontraremos outros pequenos deslizes, mas nada que uma boa revisão não os estirpe, sem haver necessidade de grandes mudanças textuais. Também encontraremos momentos de intenso teor poético, como este:

Relembro o Navio Negreiro
O porão escuro e fundo,
Como escreveu o poeta:
“Infecto, apertado, imundo”
O morto de fome ou peste
Atirado ao mar profundo.


Ou este:

Em caso de rebeldia
O negro recém chegado,
Era levado às caldeiras
Pelos pés agrilhoado,
Ali trabalhando meses
Noite e dia atormentado.


O desenho da capa feito por Cícero Soares é ponto alto do cordel. Em apenas duas cores, preto e marrom, seu jogo de sombras, com Zumbi, no plano americano, tendo ao fundo paisagem quilombola, na qual figuram o trabalhador, a mulher e a criança, a habitação e a mata, suprem a imagem de um vigor realístico fascinante. Preciso anotar, entretanto, que o título em caixa alta é uma armadilha pois confunde o topônimo com o resto do texto, não sendo possível a identificação das letras maiúsculas. O recurso de “negritar” o artigo “A” lhe concede destaque inóquo, quando bem poderia ter servido de traço distintivo para o “Q” de quilombo e o “P” de Palmares. Outro senão é o texto do miolo todo em itálico. Sabe-se que o uso desse recurso serve para destacar uma palavra ou um termo, não cabendo o seu uso indiscriminado sobre todo o corpo poético. Coisas a serem reparadas na segunda edição.

No mais, Benedita usa e abusa do seu talento, terminando seu poema com a tradicional ruptura em acróstico, só que ao invés de seu nome, ela crava BRASIL, assim:

Brasil terra de heróis
Revelando seu valor
A sua “Constituição”
Simboliza com louvor:
Igualdade de direitos
Liberdade, paz e amor!

Quero lembrar que o papel do crítico é ingrato e doloroso, mas fundamental para a discussão sobre o fazer poético. É bom acrescentar que sem o poeta, a figura do crítico jamais existirá. Por isso, vida longa aos poetas. Vida longa à pena de Benedita Delazari.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

São Paulo e o cordel

A semana passada estive em São Paulo por 5 dias para inteirar-me do movimento, que virou escola, Caravana do Cordel. Diante desses empreendimento de poetas cordelistas em torno do seu principal produto cultural, o cordel, tudo parece pequeno. A produção continua firme, as publicações também. As editoras aos poucos estão abraçando a causa. E os meios de comunicação, decobrindo o material. Aliás, ontem, dia 26, foi para o ar pela Rede Internacional de Televisão, a RIT, da Igreja da Graça, do missionário R.R. Soares, matéria no Nosso Programa, programa de variedades, à tarde com os cordelistas João Gomes de Sá e Varneci Nascimento. Esse fato é pontual na história do cordel. Foi alvissareiro ver na tela imagens do cordel Homossexualidade: história e luta, de Varneci e Nando Poeta. Bem como Os dez mandamentos do preguiçoso, do mesmo Varneci. A Caravana está forte e crescendo.

Desse encontro surgiu a palestra sobre Leandro Gomes de Barros, no dia 19, para uma plateia de cordelistas e músicos. No meio deles achava-se Gregorio Nicoló, dono da Editora Luzeiro, a mais antiga casa de publicação de cordel no Brasil e uma das primeiras editoras de São Paulo. Gregorio tem sido peça chave na consolidação do cordel publicando autores novos e consagrados e recebendo com rara sensibilidade estudiosos que queiram olhar o seu acervo. Desse nosso encontro saiu a parceria para novos empreendimentos em termos de publicação de Antologias de cordel.

Passei, ainda, na Editora Nova Alexandria, na qual trabalha o poeta Marco Haurélio, figura ao redor da qual se construiu a Caravana. Marco é curador da já afamada coleção Clássicos do Cordel. É um homem cuja pena de poeta complementa o tino de pesquisador e a visão de mercado. Acabou de publicar pela Paulus a Lenda do Saci Pererê, em cordel, com ilustrações da pernambucana Elma. Uma edição magnifica, de luxo. Veio juntar-se a O príncipe que via defeito em tudo, publicado anteriormente pela Acatu, com ilustrações de Nireuda Longobardi.

Além dos consagrados tive a oportunidade de travar amizade com Pedro Monteiro, cordelista estreante autor de Chicó, o menino das cem mentiras, quando retoma o personagem clássico do cordelismo brasileiro, menos conhecido do que seu parceiro João Grilo, mas tão importante quanto. Pedro Monteiro é um autor síntese cuja produção é regida pela pesquisa e pelo rigor. Apesar de estar começando, seu traço poético deixa entrever um futuro promissor. Começar no mundo do cordel com Chicó é ousadia e conquista.

Outro de quem me acheguei foi Nando Poeta. Já com alguns títulos no matulão, Nando é o poeta engajado. Ativista político, trouxe para o cordel as lutas sociais. Assim seus folhetos 1º de maio, Assédio moral é crime e Educação não é mercadoria preenchem uma lacuna, sem se despedir do essencial no cordel: a poesia. Alertado para o fato de não cair no panfletarismo, Nando busca o equilíbrio entre o lírico e o épico. Mas é necessário andar devagar para dosar as cores sem exageros.

No dia 19, quando de minha palestra, foi lançado um cordel de Benedita Delazari intitulado A escravidão negra e o quilombo dos Palmares, com ilustração de capa de Cícero Soares. Em duas cores, preto e marrom, esta capa impressiona pela maestria, colocando por água a tese de que o cordel tem que ter obrigatoriamente uma capa de xilogravura. Em tópicos futuros apresentarei um por um esses cordeis e falarei mais dos cordelistas em São Paulo, disputando a vanguarda com o Ceará. Vanguarda que já foi paraibana, mesmo produzida a partir de Recife. Outra história.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Os clássicos em cordel e a Caravana do Cordel

Quando o poeta Marco Haurélio trabalhou na arrumação editorial da Luzeiro, mantivemos intenso contato sobre a maneira mais justa de respeitar o autor de cordel e oferecer-lhe dignidade editorial. Concluíamos que a atribuição do ISBN às obras de cordel poderia contemplar nosso anseio. As dificuldades vividas pela Luzeiro não permitiram essa tarefa. Um catálogo aproximado de mil títulos e sem pessoal para a realização do trabalho, nem capital para investimentos e relançamentos de títulos fundamentais, fizeram a carroça do esforço estacionar. Marco Haurélio passou para a Editora Nova Alexandria para encabeçar o projeto editorial de Clássicos em Cordel, uma coleção de clássicos da literatura universal adaptados para o cordel.

A partir dessa coleção, o plano de dignificação autoral dos cordelistas iniciou-se e o cordel teve, nesse momento, um marco em sua produção e comercialização. Marco Haurélio, compreendendo essa aura, trouxe para junto de si aquilo que chamamos de a geração coroada: poetas como Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Moreira de Acopiara, Varneci Nascimento, João Gomes de Sá, Costa Sena, Cacá Lopes, alguns já com sua adaptação dos clássicos publicadas e outros investidos na Caravana do Cordel, movimento de divulgação do cordel em São Paulo.

A Caravana se apresentará dia 7 de novembro, na Rua Augusta, 1239 – Espaço Cineclubista, às 19:00 h, apresentação de aniversário de um ano, homenageando o poeta maior da Literatura de Cordel, Leandro Gomes de Barros. E no dia19 de novembro, Dia Nacional do Cordelista (data de nascimento de Leandro) haverá novo encontro, desta vez com a nossa participação.

sábado, 31 de outubro de 2009

Repercussões de Literatura de Cordel: visão e re-visão

Palavras recebidas de vários poetas cordelistas por ocasião da defesa de minha tese de doutorado:

Doutor Aderaldo

Aderaldo Luciano, paraibano radicado no Rio de Janeiro, pesquisador, professor, músico e poeta, agora é, também, doutor. Doutor em Literatura. E, mais: sua tese vai na contramão dos estudos sobre o cordel, os antigos e os “mudernos”, ancorados em argumentos frágeis, pouco criteriosos, desrespeitadores da individualidade poética, responsáveis pelas paliçadas erguidas entre uma suposta literatura erudita e a – assim chamada – popular.

Parabéns, mestre, ou melhor, doutor!

Marco Haurélio, poeta e curador da coleção Clássicos do Cordel, da Editora Nova Alexandria.


Este sabe o que diz. Doutor Aderaldo, como dizem aqui no Ceará: - Você tá no rumo!

Arievaldo Viana, poeta e agitador cultural no Ceará de luz!


Procure o Doutor:

Agora temos um doutor para
nos "receitar" preventivamente e medicar umas "meisinhas" para curar alguns delizes no universo cordeliano.
E aí vai: como uma manifestação literária genuinamente brasileira,
desprezada pela cultura acadêmica, denominada gênero nemor ou subliteratura ou ainda manifestação marginal em verso é tão popular?
Agora, requer, em verdade, um amplo debate, simpósio, fórum para aparelharmos com fundamentação as nossas ideias e teses.
Um abração para o Cangaceiro Doutor ou
Doutor Cangaceiro da Serra da Borborema!
Parabéns!

João Gomes de Sá, poeta e dono da cultura em Guarulhos-SP



Sou potiguar e um curioso sobre a literatura de cordel. Aliás, também colecionador. Já acompanhei Aderaldo Luciano em duas edições do programa "De Lá Prá Cá", da TV Brasil: Mestre Vitalino e Patativa do Assaré. Boas intervenções.
Espero que em breve, essa tese seja transformada em livro, para o devido acesso ao seu precioso conteúdo.
Parabéns!

Carlos Alberto, cordeleiro de Natal-RN


Aderaldo Luciano, como simples aprendiz da poesia de cordel, apenas quero lhe agradecer pela grande contribuição que você veio nos trazer. Certamente sua tese de doutoramento vem para corrigir muitas distorções sobre o cordel, pois não são poucos os equívocos que vemos por aí. Assistindo sua palestra, há um ano, em Guarulhos, no primeiro Salão do Cordel, pude ver seu grande conhecimento, e sei que não é diferente a sua tese. Estou ávido por lê-la. Bem vindo, poeta doutor, ou doutor poeta, saiba que você encontra em nós cordelistas verdadeiros irmãos. Parabéns por mais essa conquista!

Varneci Nascimento, poeta maior da Ordem Franciscana Menor, de São Paulo


Passe para frente o seu
Valioso aprendizado.
Não retenha este poder
Pra não ser penalizado,
Com a dor na consciência
Vendo o povo atrasado.

Parabéns poeta Doutor.

Que os horizontes se alarguem, e até o debate se acalore! Mas a sede do aprender, possa ser saciada.

Pedro Monteiro, a pedra angular da poesia, de São Paulo.


Valeu, Aderaldo. Agora só me resta esperar o momento certo para ler a sua tese, que, espero, seja publicada em formato de livro, para que os mais atentos tenham acesso. Não vejo a hora.
Grande abraço desse seu admirador,

Moreira de Acopiara, poeta, repentista, ícone do cordel, de São Paulo.


A todos meu muito obrigado.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Circo! Lua! Baião!

O texto abaixo foi escrito para o programa do espetáculo Baião - a homenagem do circo a Luiz Gonzaga, encenado pela trupe do Circo Crescer e Viver, dirigido por Ernesto Piccolo, com roteiro de Rogério Blat e direção musical de Daniel Gonzaga:

O interior do Nordeste foi marcado pela presença do circo. E o circo, pela presença litúrgica de um palhaço desbocado. Havia, porém, um ponto alto todos os dias. Era a segunda parte do espetáculo: a encenação de um drama. Vimos centenas de vezes a Paixão de Cristo. Além de sofrermos solidários ao Cristo crucificado, regozijavamo-nos com Judas se enforcando. Era uma limpeza de alma, uma calma para o espírito.

O circo ficava entre nós geralmente por um mês e nós, da cidade, terminávamos por conhecer as famílias circenses e participar de sua dura vida na perpetuação de sua arte. Muitos partiram com o circo e nunca mais voltaram. Tivemos essa vontade, mas vontade dá e passa. Os circos maiores traziam, de vez em quando, um cantor da moda, que tocava no rádio, e lotava a arquibancada.

Entre encenações de dramas, palhaços infames e cantores bissextos, vimos certa vez um negro vestido de cangaceiro, tocando sanfona e cantando “no gogó”, sem microfone, transformando o circo num arrasta-pé. Mais tarde saberíamos tratar-se de Luiz Gonzaga, fazendo o maior forró do mundo, preenchendo o nosso vazio, construindo o nosso itinerário. Aquela voz poderosa reside ainda hoje, fazendo eco, em nosso coração.

Foi a união da fantasia do circo e da música gonzagueana que deu-nos coragem de arribar e fazer o nosso verão. Foi com ela que embalamos nossos sonhos, malabaristas que somos na corda-bamba do tempo. Foi com ela que, como bons filhos, voltamos ao chão de onde brotamos e respiramos o ar de nossos tempos idos. Luiz Gonzaga é o arquétipo nordestino por excelência e o picadeiro é a vida a encenar-se.

Hoje voltamos para dentro da lona e compreendemos o que vem a ser o círculo. Como naqueles antigos circos sertanejos, retornando sempre na mesma época do ano, cá estamos nós, esperançosos para ver a cortina se abrir e lá, de um misterioso e secreto lugar, ver o Lua surgir, crescendo e se fazendo vivo, abrindo a sanfona branca e arrancando do peito a voz mais terna e saudosa a cantar: — Eu vou mostrar pra vocês... como se dança o Baião!

domingo, 11 de outubro de 2009

Toda adaptação dá origem a uma nova obra. Aqui também. A adaptação de Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, por João Gomes de Sá é, de fato, uma outra obra. O poeta reuniu coragem para transpor a história passada na Paris medievalesca para o sertão nordestino.

João Gomes de Sá é alagoano e autor profícuo, tendo escrito A luta de um cavaleiro contra o Bruxo Feiticeiro, profundamente enraizado na tradição cordelística. Em O Corcunda de Notre Dame, a adaptação de Notre Dame de Paris, ele se supera em maestria. Suas sextilhas iniciais são primordiais:

O romance do Corcunda
De Notre Dame, leitor,
Escrito por Victor Hugo,
Aquele grande escritor.
Em versos vou recontá-lo
Sua atenção, por favor.

Antes, porém, quero dar
Essa breve explicação:
O cenário do Corcunda
Eu trago para o sertão;
O Nordeste brasileiro
É palco de toda ação.



Além da mudança do cenário para Santana de Cajazeira, denominação nordestina, alguns personagens também mudam de nome. Quasímodo passa a Quasimudo e seu guardião a Padre-Mal. Para nós é de extrema sagacidade a transposição da história. Ao poeta deve ser dado o direito de, na hora da adaptação, escolher cenário e nomes novos, sem alterar o enredo e o argumento original, já que o objetivo da coleção é apresentar a obra, incentivar o leitor a contactar a matriz. Além de nutrir a tradição do cordel narrativo adaptado de ousadia, na transposição do cenário, João Gomes assina seu cordel com o tradicional acróstico grafado JGSACORDEL:

Jamais o pobre Corcunda
Galgou deixar seu cantinho.
Santana de cajazeira
Abastece seu caminho,
Como elo para pedidos,
O norte para o bom ninho;
Recebe todo romeiro,
Dando-lhe muito carinho;
E espera ver seus fiéis
Libertos de tanto espinho.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Literatura de cordel: visão e re-visão

Sobre o cordel, minha tese retira as seguintes conclusões:

a) o nome literatura de cordel é de origem lusa, mas má empregada em relação aos nossos folhetos de cordel, visto que são fenômenos distintos, havendo mais divergências do que semelhanças entre eles;

b) não se sabe quem primeiro atribuiu esse nome aos folhetos. Alguns dizem ter sido Sílvio Romero, em 1879, mas as evidências contradizem a afirmação;

c) quem sistematizou a publicação de folhetos de cordel foi, sem dúvida, Leandro Gomes de Barros, embora Silvino Pirauá tenha sido o criador do romance em versos;

d) a literatura tradicional ibérica foi adaptada no amanhecer do século XX para o formato do cordel, mas não é o assunto principal do gênero;

e) a literatura de cordel não é a versão escrita do universo dos cantadores e repentistas nordestinos, é produto estritamente escrito, tendo inclusive, o cordel, influenciado as modalidades da cantoria;

f) as tentativas de conceituar o cordel foram sempre regidas pela sua apresentação material, nunca pela sua forma literária;

g) a literatura de cordel sempre foi tida como um subproduto popular;

h) o autor de cordel é um poeta como outro qualquer, escreve porque tem necessidade vital;

i) a literatura de cordel é literatura brasileira e como tal deve ser estudada;

j) os estudiosos do cordel foram incapazes de dar à literatura de cordel sua verdadeira dimensão literária;

k) as novas gerações de cordelistas consagram o cordel como o gênero de maior vitalidade na literatura brasileira.


Salientem ainda:

a) a literatura de cordel não tem cunho efetivamente rural. É fruto da confluência do mundo rural com o mundo urbano, do sertão com a cidade;

b) a cidade do Recife é o local onde nasce a literatura de cordel tal como hoje ela é, em sua forma e veículo de difusão;

c) quatro nomes contemporâneos são os responsáveis pela consolidação da literatura de cordel: Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde e Francisco das Chagas Batista.

d) Leandro Gomes de Barros é definitivamente o pai da literatura de cordel e seu maior escritor;

e) Estudiosos e pesquisadores desatentos ou preguiçosos foram os responsáveis por disseminar informações equivocadas, conceitos errados e enganos formais sobre a literatura de cordel.

Finalizamos:

a) Propomos uma nova classificação para a literatura de cordel, começando já pela abreviação do nome para cordel, por entendermos que esse termo já pressupõe pela tradição o seu produto literário;

b) O fazemos por entender que o cordel traz em si todos os elementos distintivos da literatura;

c) As classificações temáticas ou em ciclos não contemplam a autoria em cordel, agrupando temas e segregando os autores, sob a marca do folclórico;

d) O cordel é forma poética fixa complexa que requer subdivisões classificatórias;

e) O cordel, por nossa classificação, compreende o narrativo, o dramático e o lírico;

f) A nossa classificação é embrionária necessitando apreciações aprofundadas com o intuito de introduzir o cordel no todo literário brasileiro e na teoria dos gêneros literários como forma originalmente brasileira.

A explicação

Quando escrevi o projeto POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE e o submeti aos centros culturais da cidade do Rio de Janeiro, fui indagado por algumas pessoas o porquê de o título ser escrito assim "poesia" com "Z", "tradicional" com "CC" e "nordeste" com "H". Busquei explicação no meu mapa astral e eis o que os búzios me disseram, corroborados pelo tarô e pela cabala:

Poezia porque não aguento mais o "S" querendo ter o som de "Z" e a poesia nordestina tem fortes traços orais onde o Z será sempre o Z mesmo representado por S. Olhando bem o S é um Z embriagado.

Tradiccional porque vem de World Trade Center.

Nordheste porque tive um sonho no qual ouvia uma voz que me dizia: — Coloque um H depois D senão não teremos HD.

E foi assim que fiz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Aula inaugural na Universidade das Quebradas

O caso do Pavão

Temos defendido que o cordel influenciou as cantorias e não só estas inluenciaram .Esta estrofe do cantador Dimas Batista abona o que dizemos, com clareza:

Basta um cabra não ter disposição
Pra viver do serviço de alugado,
Pega numa viola e bota ao lado,
Compra logo o Romance do Pavão,
A peleja do diabo e Riachão,
E a História de Pedro Malasarte,
Sai no mundo a gabar-se em toda parte
E a berrar por vintém em mei da feira,
Parasitas assim desta maneira
É que tem relaxado a minha arte.


O alerta de Dimas Batista deixa-nos convictos de que o poeta repentista, o cantador, se sente superior ao poeta de bancada, como eram chamados os poetas cordelistas, e, desgraça das desgraças, era encontrar-se um repentista que decorara versos de outrem para se gabar. Sabemos que o Romance do Pavão a que se refere o poeta é o Romance do Pavão Misterioso, clássica história de cordel cuja autoria foi motivo de controvérsias e hoje, a partir do depoimento do poeta Manoel d’Almeida Filho, se atribui a José Camelo de Melo Resende, que em suas reedições passa a esclarecer:

Quem quiser ficar ciente
Da história do pavão
Leia agora este romance
E preste bem atenção.
Que verá que esta história
é minha e de outro não.

Há muitos anos versei
Esta história, e muitos dias,
Fiz uso dela sozinho
Em diversas cantorias,
Depois dei a cópia dela
Ao Cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
Mostrou-a a um camarada,
— A João Melquíades Ferreira,
E ele fez-me a cilada
De publicá-la, porém,
Está toda adulterada.

E como muitas pessoas
Enganadas tem comprado
A diversos vendelhões
O romance plagiado
Resolvi levá-la ao prelo
Para causar mais agrado.

Portanto eu vou começar
A história verdadeira
Na estrofe imediata
E no fim ninguém não queira
Dizer que ela é produção
De João Melquíades Ferreira.

Na Turquia, a muitos anos,
Um viúvo capitalista
morreu, deixando dois filhos:
Batista e Evangelista
Todos os dois eram João,
Sendo o mais velho o Batista.


Vê-se tanto no corpo do folheto de João Camelo, como na estrofe de Dimas, que era comum o recitar e cantar histórias em cordel nas cantorias, mais uma vez abalizando o que viemos dizendo que o cordel influenciou o repente. Os outros cordéis citados por Dimas são A peleja do Diabo e Riachão, de Leandro Gomes de Barros, e A vida de Pedro Malazartes, de Antonio Teodoro dos Santos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Tomando de assalto espaços e platéias

A oportunidade de ocupar locais de excelência para o estudo, reflexão e entretenimento guiados pela cultura nordestina incluídos na rede de teatros, bibliotecas, centros culturais de todo o Brasil é de se celebrar nesses tempos de pouca substância e muita imagem.

O nosso propósito é fazer perpetuar os gêneros poéticos-musicais nordestinos pela propagação de sua força e origem, fomentando o fazer poético a partir do conhecimento dos mesmos. Dessa forma acreditamos estar prestando contas à sociedade atuando pedagógica, artística e socialmente na formação de platéias críticas e senhoras de suas responsabilidades.

Sobre o POEZIA

O Projeto Poezia Tradiccional do Nordheste – Arcqueologias é uma tentativa de aclarar o ensombreado paradigma poético-musical nordestino no qual Forró, referindo-se à música, e Literatura de Cordel, à poesia, tornaram-se nomes genéricos para modalidades diversas daquele produto cultural. O forró viu-se paulatinamente reduzido a toda música na qual haja o instrumento conhecido por sanfona, esta mesma tendo vários outros nomes pelo nordeste a dentro: concertina, fole, acordeona, acordeão entre outros, sendo, inclusive, confundida com seu irmão menor em tamanho físico fole de oito baixos, o pé-de-bode. Por sua vez a literatura de cordel serviu de guarda-chuva para todo tipo de manifestação poética cujas métrica e rima se consumavam na declamação ou no cantar de poetas repentistas, emboladores de coco, poetas matutos e glosadores.

Para lançar luzes sobre a questão, este Projeto parte do trabalho investigativo para apresentar um resultado que mescle pedagogia/entretenimento/cultura no desmembramento das categorias Forró em xotes, baiões, xaxados, rojões, frevos e arrasta-pés e Literatura de Cordel em poemas matutos, cordel, emboladas, glosas e modalidades da cantoria nordestina. Pensando em resolver os conflitos resultantes da falta desse conhecimento é que propomos este experimento. Esperamos, com isso, abrir o horizonte para que as gerações futuras procurem fomentar a inserção dessas categorias em seus devidos lugares, ou em seu devido lugar, ou seja: o universo poético da literatura e da música brasileira.

POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE

Estreamos o espetáculo POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE no dia 11 de setembro, na Aldeya Yacarepaguá da Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá.
Aderaldo Luciano e Beto Quirino na Escola Sesc

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sobra Patativa do Assaré: entrevista

O centenário de Patativa do Assaré foi comemorado em alguns lugares e por alguns órgãos. A TV Brasil, pelo programa De Lá Pra Cá, deu sua contribuição aos festejos com um programa dedicado ao poeta cearense. Fui um dos entrevistados. A entrevista está abaixo:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=OZJ5rvPVi3M&hl=pt-br&fs=1&]

Infelizmente ainda reside uma certa miopia em alguns setores acadêmicos que teimam em ignorar a contribuição poética oriunda das classes pobres. Daí serem, os chamados "poetas populares", alijados de qualquer evento produzido pelas elites, salvo quando querem dar uma de filantropas. É triste.

Poetas cordelistas, todavia, se encontraram em Brasília e construíram um encontro sensacional com a presença do presidente Lula e de estudiosos e amantes do cordel. Estava lá o poeta Rouxinol do Rinaré que nos passou estes versos feitos quando da morte do Patativa:

PATATIVA DO ASSARÉ
DEIXA O NORDESTE DE LUTO

Que dura realidade
A morte se encheu de orgulho
Marcando o oito de julho
Como o dia da saudade
Aos noventa e três de idade
O poeta deixa a vida
Patativa que na lida
Foi guerreiro resoluto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Alçou voo o Patativa
Deixou choroso o nordeste
Foi para a corte celeste
Na angelical comitiva
Sua poesia viva
Jamais será esquecida
Na sua Assaré querida
Não há um só olho enxuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

O defensor dos roceiros
Rompeu o sagrado véu
Foi recebido no céu
Na corte dos violeiros
Gonzaga e mil sanfoneiros
Vieram dar-lhe acolhida
Na terra a voz dolorida
De todo o povo eu escuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Adeus poeta do povo
"Inspiração Nordestina"
Com tua lira tão fina
Quem nos cantará de novo?
No meu versejar promovo
Com a pena comprometida
Eu quero uma estátua eguida
Deste poeta matuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Cessou toda melodia
Assaré emudeceu
O Patativa morreu
Abalou-se a poesia
A noite triste surgia
Com o manto da despedida
Curvou-se a musa sentida
Num silêncio absoluto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Nas asas da esperança
Ultrapassou a fronteira
Além-pátria brasileira
É estudado na França
Em Assaré por lembrança
Há uma casa erigida
No céu recebeu guarida
Descanso em absoluto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida.

Sinto uma lágrima cair
Em cima de minha arte
Não vejo em nenhuma parte
Mais "um verso se bulir"
Foi Deus quem quis se servir
Da poesia mais lida
Da voz que foi tão ouvida
Nem um som sequer escuto
O nordeste está de luto
Por sua triste partida!

Ao saudoso menestrel
Patativa do Assaré
Rouxinol do Rinaré
Faz homenagem em cordel
Pela musa mais fiel
Minha mão foi conduzida
Com a face umedecida
Eis ao mestre o meu tributo
Pois também estou de luto
Por sua triste partida!


Rouxinol do Rinaré


Alguns comentários que me chegaram por e-mail:

"... estou colocando em uma das páginas mais vistas de Blocos (com quase 50.000 páginas on line). É só clicar no link abaixo:
http://www.blocosonline.com.br/literatura/servic/sernotic.php#informacoes "
Leila Mícolis


"Sua entrevista sobre Patativa do Assaré esteve ótima. Desenvoltura, empatia para com as coisas aqui de nós, sensibilidade e inteligência respondem pelo seu perfil de cantador e poeta cangaceiro."
Hildeberto Barbosa Filho



"eu vi no dia mesmo, aderaldo, parabéns!"

Elaine Pauvolid


"Aderaldo, vi a reportagem e não sabia que você tinha intimidade com o violão... Parabéns."
Antonio Gouveia


"Vi ontem a noite a apreciei bastante a tua intervenção.
Parabéns e, finalmente, conheci o prof. Aderaldo...
Gostei!!!"

Kydelmir Dantas

terça-feira, 28 de abril de 2009

Entrevista a Ancelmo Góis

O programa De Lá Pra Cá, da TV Brasil, vai ao ar às segundas-feiras a partir das 22:00h, apresentado por Ancelmo Góis e Vera Barroso. No programa sobre o mestre Vitalino de Caruaru fui um dos entrevistados falando sobre as intersecções entre a vida e a obra do mestre do barro e a Literatura de Cordel. Editei a matéria e o resultado está aqui:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=yMs4e2n4D4g&hl=pt-br&fs=1]

Para a entrevista, pensando em emoldurar ludicamente a matéria, pedi a alguns poetas de cordel a gentileza de produzirem algo para que eu pudesse ler no programa, para provar a atualidade e o tom memorialístico do “deus do barro do Alto do Moura”. Como o tempo do programa é pouco, na edição foi para o ar apenas a leitura das estrofes de Rouxinol do Rinaré. Os que me enviaram, pedi licença para postar aqui os seus versos.

Marco Haurélio, pesquisador, poeta, autor de diversos cordéis, fã de Cancão de Fogo e João Grilo, curador da Coleção Clássicos do Cordel da Editora Nova Alexandria, enviou o seguinte:

Salve, Mestre Vitalino!

Salve, Mestre Vitalino,
Herdeiro da tradição,
Oleiro sacro divino,
Que criou com sua mão
Vida, pulsante e agreste,
O folclore do Nordeste,
A tradição pastoril,
A gesta dos cangaceiros,
Epopéia de guerreiros,
A alma deste Brasil.

Vem de Ribeira dos Campos
Este artista singular,
Que igualmente aos pirilampos
Nasceu para iluminar
A fatigante existência,
Tendo o barro por essência
De sua recriação
E, assim de modo preciso,
Faz lembrar Paraíso
Quando Deus criou Adão.

Ó bela Caruaru!
Impávido Leão do Norte
Caboclo selvagem, nu,
Terra augusta, a tua sorte
É semear a cultura,
É fazer bela figura
Nesse solo nordestino,
Que há cem anos viu nascer,
E jamais verá morrer
A arte de Vitalino.

Já o “frei” Varneci Nascimento, cordelista consolidado, historiador, agitador cultural, escreveu:

MESTRE VITALINO

Filho de mãe artesã
E um pai agricultor
Vitalino inda menino
Tornou-se observador,
Da mãe, pra poder depois,
Mostrar todo seu valor.

A mamãe com todo amor
De barro dava o restinho
Vitalino começou
Fazer boneco e jeguinho
De cerâmica modelando,
Um cangaceiro, um pratinho.

Trabalhando com carinho
Virou mestre e muito mais
De modo que sua obra
Tem dimensões mundiais,
Levando brasilidade
Para os centros culturais.

Sua mão tão perspicaz
O fez muito respeitado
Deu forma ao que ninguém
Ainda havia formado,
Com sua obra nós temos
Até cordel ilustrado!

Hoje imortalizado
Está esse nordestino
Que com o barro mostrou
O sertão de sol a pino,
E agora o cordel demonstra
Quem foi mestre Vitalino.

O cordel que é nosso hino
Do presente e do passado,
Como Vitalino foi,
Um ceramista arretado,
Jamais por nós, os poetas,
Deixará de ser lembrado!


Outro poeta, Celso Góis, profícuo e livre em sua arquitetura poética, lá de Canindé, no Ceará, mandou:

MESTRE VITALINO

Em julho do ano nove
(Século XX) nasceu
Nosso Mestre Vitalino
Que o mundo reconheceu
Fez da arte sua tribuna
Famoso mas sem fortuna
Muito pobre inda morreu.

Pernambuco foi seu berço
Seu torrão de nascimento
Tentou destaque na música
Mas tinha outro talento
Como na história de Adão
Retirou vida do chão
No barro do seu sustento.

Nascido em Caruaru
E lá mesmo residia
Não conheceu a escola
Não lia nem escrevia
Mas honrava seus irmãos
Com a cultura das mãos
Que para o Brasil fazia.

Sua arte encantou
E encanta ainda a nação
Admirado no mundo
Ao Brasil deu projeção
Grande Mestre Vitalino
Orgulho do nordestino
Que ama e cultua o chão.


Na reflexão profunda sobre o mito criador, com sagacidade, o poeta Bem-te-vi Neto, enviado por Arievaldo Viana:

Diz a Sagrada Escritura

Que Adão foi feito de barro
Mas essa história eu não narro
Porque é mentira pura...
Inda tem gente que jura
Que tudo isso é passado,
Deus é um Santo Sagrado,
Ele nunca foi "loiceiro"
Pra estar dentro dum barreiro
Fazendo cabra safado!

E os versos completos de Rouxinol de Rinaré:

CENTENÁRIO DE MESTRE VITALINO

Agora em dois mil e nove
Festeja-se o centenário
De Vitalino Pereira
Que em seu itinerário
Virou “Mestre Vitalino”,
Artista extraordinário!

Talento e imaginação
Não faltou ao ceramista.
Como Deus formou Adão
(Cá no meu ponto de vista)
O barro ganhava formas
Nas mãos desse grande artista.

Luis Gonzaga cantou
O Nordeste em seu baião.
Mestre Vitalino, em barro,
Moldava com precisão
Cenários e personagens
Que via pelo sertão.

Nasceu em Caruaru,
Mas percorreu o país.
A arte rompe fronteiras,
Existe um jargão que diz,
E a arte de Vitalino
Chegou ao Louvre, em Paris!


Agradeço demais a todos que contribuíram e aos que não puderam, pois o chamado foi na véspera da gravação do programa na Chácara do Céu, em Santa Teresa no Rio de Janeiro. Lembrando que a simpatia de Ancelmo Góis e o bom humor e descontração de toda a produção do programa são coisas que merecem ser anotadas.

Deixando alguns créditos ainda: solfejei a música Caldeirão dos Mitos, de Bráulio Tavares, gravada por Elba Ramalho. Essa música ouvi pela primeira vez com o próprio Bráulio cantando num dos Festivais de Arte da cidade de Areia, na Paraíba. Na época eu era um menino que queria ser artista.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=CNr8im5cKRs&hl=pt-br&fs=1]

Durante a entrevista citei ainda a música O deus do barro, cantado por Petrúcio Amorim. Na edição final do programa não foi para o ar, mas posto aqui o clipe.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=2tWXGCaz4KI&hl=pt-br&fs=1]

Não posso esquecer os bons préstimos de Arievaldo Viana, poeta e nosso professor de cordel, pela vontade com que mobilizou outros poetas. A ele agradeço o cordel de Arlene Holanda, com quem pude trocar meia dúzia de palavras. Tampouco esquecerei de João Gomes de Sá, amigo recente, poeta cordelista antigo, sempre amável e receptivo aos meus pedidos.

É isso.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O caminho

1.
Não
caminho apenas para a frente
vou em todas
as direções

sobretudo
caminho para trás
para tentar achar novamente
o bom caminho

2.
Não
há uma pedra no meio do caminho
todo o caminho
é pétreo

sobretudo
o céu acima
por onde fica cada vez mais
difícil caminhar

3.
Entretanto meu pé-aço
é antigo e batizado
fura a pedra, acerta as bordas
desliza se for chamado
caminha vezes pra trás:
pensa o trecho caminhado.

sábado, 14 de março de 2009

Provérbios escritos em vários lugares pela internet

1. Branca de Neve era uma mulher rodeada de miudezas!

2. Zeus já Hera.

3. O sertão vai virar Marte.

4. Cristo está votando.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

E Lampião?

A produção cordeliana encontrando o seu herói épico,

Lampião,
não existe outro de tão forte identidade quanto ele,

baixa os fundamentos de nossa epopéia.

Ele, Lampião, sintetiza: o

Brasil pré-cabralino, herdeiro dos antigos Tapuias do sertão nordestino;

a resistência à desordem estabelecida pelas oligarquias

e

o mito primordial brasileiro do viver sem lei, nem Rei, nem fé.

É histórico, reconhecido pela

Igreja,
em sua certidão de batismo;

Estado,
representado pela instituição da Polícia Militar

e

é maravilhoso,
épico-burlesco,
herói-cômico,

nas façanhas do outro lado da vida.

Por tudo isso reivindicamos seja a Literatura de Cordel o caminho para uma poética dos nossos heróis degolados.

O cordel é aqui

Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, nos pegamos àquele fato no qual todas as tentativas de escrever-se uma epopéia nacional tenham sido,

de certa forma,
ou
de forma certa,

infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a

Literatura de Cordel


resistiu,
fundou sua própria poética,
consagrou poetas,
penetrou em todas as camadas sociais,
influenciou escritores e estudiosos,
transformou-se num

símbolo,
ícone,
índice,
signo
e
sinal


de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior

Lampião,


estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira

identidade.

Literatura de Cordel como tal, só acontece no Brasil.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sempre e para sempre o cordel

O cordel continua







E vai mesmo

E transcende!

Precisa de palavras? Precisa! O cordel é fundamental e os olhos de quem não enxerga esse pormenor sejam vazados pela espada certeira de Carlos Magno e os pares de França!

Ai, que saudade de Campina Grande!

A primeira cidade onde morei depois que fui embora de Areia, aos 16 anos, foi Campina Grande. Eu venerava a cidade Rainha da Borborema e cantava com lágrimas a célebre canção de Luiz Gonzaga e Raimundo Asfora, Tropeiros da Borborema:

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos
tropeiros da Borborema

São tropas de burros que vêm do sertão
Trazendo seus fardos de pele e algodão
O passo moroso só a fome galopa
Pois tudo atropela os passos da tropa
O duro chicote cortando seus lombos
Os cascos feridos nas pedras aos tombos
A sede e a poeira o sol que desaba
Rolando caminho que nunca se acaba

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos
tropeiros da Borborema

Assim caminhavam as tropas cansadas
E os bravos tropeiros buscando pousada
Nos ranchos e aguadas dos tempos de outrora
Saindo mais cedo que a barra da aurora
Riqueza da terra que tanto se expande
E se hoje se chama de Campina Grande
Foi grande por eles que foram os primeiros
Ó tropas de burros, ó velhos tropeiros.


E continuo me emocionando. Tanto pela cidade, quanto pela música!

Algo sobre Janaína Azevedo, a jovem contista paraibana

Alguém apontou para o fim das grandes narrativas. Outros atestam a consolidação do romance histórico. Ainda outrem percebem formas experimentais para narrativas mixadas. Tempo de experimentos, tentativas de neo-vanguardas. A arte tomou ares de espaço, transformou-se em intervenção, trânsito, performance, piscar d'olhos. A literatura encontrou sua encruzilhada.

E a escrita de Janaína Azevedo, por onde vai?

Filha da escrita regionalista, ela não quer cantar os cenários de sua vetusta cidade, tampouco os recantos e conflitos sociais de seu nordeste medieval. Suas ações transcorrem demarcadas. E essa área de ação é definida pelas relações familiares. A base do patriarcalismo nordestino é a fundação mais profunda da família ibérica, com suas amarras religiosas extensivas à sociedade. Essas amarras são legitimadas pela tradição. A tradição perde-se no tempo e toda e qualquer novidade é medida pela sua régua. A família, laboratório literário, de Janaína encontrará mulheres

sonhadoras,
sonâmbulas,
mal-amadas,
loucas,
avançadas,
tristes.

Raras livres!

Janaína tem dois volumes de contos:

Marias. João Pessoa: Editora da UFPB, 1999. (Prêmio Novos Autores Paraibanos)

e

Orquídea de cicuta. João Pessoa: Ed. Manufatura, 2002. (Coleção Olho D’Água)

O passado trouxe-me um presente

O Nordeste brasileiro é terra fértil. Longe daquele cenário de aridez contundente, de terra rachada e rezes secando ao sol, de almas peregrinas e corpos esqueléticos, há uma terra viva e pujante. Basta uma chuvinha para a paisagem transmudar-se do vermelho para o verde, dos rostos rasgados em rugas protuberantes para o sorriso atenuante das misérias. Naquele infinito resguardam-se, em axilas geográficas e sociais, resquícios mais recônditos de tempo imóvel ou lento. No dizer de Gilberto Freyre:
Diga-se de início do Nordeste brasileiro que, considerado numa perspectiva histórico-social que seja também antropocultural, além de ecológica, é não um só, porém dois ou três: um tropicalmente úmido, outro tropicalmente árido, um terceiro intermediário; que do seu homem do litoral - área canavieira ou agrária - se pode dizer vir sendo, à sua maneira, tão válido quanto o sertanejo glorificado pelos Euclides da Cunha; que é região que se apresenta, quanto à biologia da sua população, como a mais amplamente miscigenada do Brasil, com a mistura europeu-ameríndio-africana variando em proporções, numas sub-regiões predominando, depois do europeu, o ameríndio, noutras, o africano; que assim miscigenado o Nordeste vem dando ao Brasil, desde os dias coloniais, líderes políticos, líderes militares, intelectuais, religiosos, artistas; que essa capacidade de liderança, ao lado da combativa, antecipou-se em revelar-se no século XVII, quando a gente nordestina, nem sempre auxiliada, como devia ter sido, pelas metrópoles, portuguesa ou espanhola, expulsou do Brasil o invasor norte-europeu e protestante. Liderança, então, significativamente de um branco já da terra - Vidal de Negreiros; de um ameríndio - Felipe Camarão; de um negro ou africano de origem - Henrique Dias.

Ora, os três nordestes têm nome mais apropriado, no dizer do povo:
um é o

sertão,

aquele filho maltratado e esquecido por longas datas, no qual se viu florescer uma certa “indústria da seca”, por onde filhos do solo herdaram de sua condição sub-humana atitudes atrozes, os cangaceiros, e outros apegaram-se ao transcendente, romeiros, ambos com a estampilha do fanatismo timbrado em seus invólucros e conteúdos.

O outro é o

mar,

aquele no qual se estende o que, supostamente, seja o melhor dos trópicos, a fartura de água, a palmeira, a sensualidade, as ladeiras, um rol de maravilhas para onde o primeiro Nordeste aspira.

É tão violenta a diferenciação que se transformaram em antípodas essas duas condições, ao ponto de o messiânico Antonio Conselheiro preconizar a célebre exclamação “— O sertão vai virar mar!”.

O Romance Social de 30 cantou os dois cenários. Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz abriram as portas da “seca terrível que tudo devora”, enquanto Jorge Amado banhou-nos com seu mar baiano.

Há o terceiro nordeste: aquele que situa-se entre os outros dois. Conhecido como

Zona da Mata ou Zona Canavieira.

José Lins do Rego e o mesmo Jorge Amado nos apresentam essa faixa de terra mais fértil, mais fria e mais miscigenada, como aponta o Freyre.

Por ser um entreposto meio aos dois caminhos recebeu influências de quem passa para o litoral e de quem atravessa para o sertão. Os conflitos daí resultantes, também as intersecções e acordos, sincretismos e discrepâncias, são a matéria mais visível nos estudos sócio-culturais e antropológicos. É nessa faixa de terra, nesse meio, que se encontra a conhecida região do brejo paraibano. E é nesse brejo que encontraremos o cenário para minhas inquietações político-espirituais: a fantasmagórica cidade de Areia, pequena, pacata, adormecida e pagando seus pecados sob os olhos furiosos de casarões malassombrados e um passado de terrores!

E todos estão acordados e loquazes em meu quarto insone!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Viver é...

0. Viver é como dormir: uns têm pesadelos, outros não querem acordar e há aqueles, como eu, que são acalentados pela insônia.

1. Viver é como cantar: uns desafinam, outros se afinam e há aqueles, como eu, que apenas dublam com playback.

3. Viver é como chorar: uns se desesperam teatralmente, outros deixam apenas a lágrima tímida descer pela face e há aqueles, como eu, que fingem nem ligar.

4. Viver é como blogar: uns o fazem intensamente, todos os dias, outros esperam meses para dizer alguma coisa e há aqueles que, como eu, gostam mesmo é de ler o blog dos outros e invejá-los.

Fragmentos de alguma coisa

1. Estou em conflito com minha tese de doutorado. Ela está ganhando o cabo de guerra. Teima em não sair do lugar e seu peso é grave, seus pés se enterraram na terra e dali não avançam nem um milímetro. Cometi um erro de avaliação e estou pagando o preço. Abandonei antigos projetos e o novo projeto pede mais gás. E para mim, todo gás agora, é de efeito estufa. Estou estufando. Vou tentando e cada vez que me sento para escrever, vem uma voz e me diz: – Não vai sair, não vai sair, não vai sair!” Daqui a pouco é todo mundo gritando: “– Não vai sair, não vai sair!”, como naquela música louca e diabólica de Roberto Carlos “Guerra dos meninos”, num interminável "lá, lá, lá, lá, rá, lá! lá, lá, lá, lá,rá,lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!" Arre, diabos!

2. Me meti a adaptar para a Literatura de Cordel “A Metamorfose”, aquela história do Franz Kafka. Mas expliquei aos editores que meu plano é um cordel-quadrinhos no qual cada sextilha corresponde a um quadrinho, expostos lado a lado. Entretanto o quadrinho não quero desenhado explicando nem representando a sextilha, nem um retrato da situação. Deve ser a leitura do ilustrador. Os seus sentimentos diante do escrito, assim cada quadrinho não deve representar a narrativa e talvez tenha mesmo um outro olhar estranho, uma outra história. Os editores acharam muito complicado e me acuaram a desistir do projeto. E eu desisti dos editores, mesmo cometendo essas coisas grifadas!

3. “O Rio São Francisco estava ali bem na sua frente. Era o primeiro rio de verdade que Pedro via. Tinha água marrom. Eram águas de inverno. Do lado de cá uma cidade chamada Juazeiro, do lado de lá, Petrolina. Viu coisas que nunca imaginara ver. Viu uvas e mangas, morangos e cajus. Alguém comentou que aquelas frutas eram produzidas ali mesmo com água do rio que tinha nome de santo. Tudo que ouvira até ali sobre o Nordeste é que era uma terra seca, de famintos. Mas uva e morango? Ali? Aquilo não era o que chamavam de sertão? Pedro começava a ver as verdades amadurecendo em seus olhos!” Escrever é cortar o “que”! Tente quem quiser!

4. Não venha para cá conversar besteira. Sei que você não leu a “Peleja virtual de Glauco Mattoso com Moreira de Acopiara”! Muito menos as “Traquinagens de João Grilo” de Marco Haurélio. Tampouco “As Aventuras do Matuto Zé Ruela” de Cacá Lopes. “O Cangaço Sustentado Pelos Coronéis” de Varneci Nascimento, então, é alienígena para você. Não leu, né? É pedir demais para você, não? Pois bem, meu filho, esse seu preconceito, essa sua falsa cultura, essa bazófia sua, tudo isso, que você alardeia, até suas leituras esquizofrênicas sobre Heidegger e suas câmaras de gases... Você já leu Costa Senna?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O desenho na areia

Eu quis desenhar um sol
na areia, bem perto ao mar
para que as águas deste
pudessem lhe refrescar
a maré subiu sem regras:
impossível ao sol brilhar!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

GRAVADORA KUARUP ENCERRA SUAS ATIVIDADES

Recebi a seguinte mensagem:

Depois de 31 anos dedicados à melhor música brasileira, a gravadora independente carioca Kuarup Discos decidiu encerrar suas atividades nesta virada de ano.

Ao longo dos últimos anos, as vendas de produtos físicos sofreram queda vertiginosa, nem de longe compensada pelas vendas por download da internet. Entendemos que a crise do CD é irreversível e tornou inviável nosso modelo de negócio, inteiramente calcado na produção e comercialização de música de qualidade.

Agradecemos aos nossos funcionários, representantes, amigos, clientes e fornecedores, e sobretudo aos nossos artistas, que continuarão a carregar a bandeira desta música brasileira que ajudamos a divulgar durante todos estes anos.

Kuarup Produções Ltda/ Kuarup Discos


Fato lamentável pois o elenco da Kuarup é (ou era) da maior competência e importância para a o meio cultural brasileiro. Estamos todos os de minha geração órfãos musicais. Foi com a música produzida por ela que crescemos e descobrimos a qualidade de nossos compositores. Entramos no mundo com o primeiro Cantoria, no qual Elomar, Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo nos embalavam, e continuamos até o último dvd de Sivuca. De muita tristeza essa notícia. Semelhante ao que nos consternou com o desaparecimento da Marcus Pereira e da Rosenblit, mais antigamente!

Chico César vai comer na minha mão

Pois é, o disco Francisco Forró Y Frevo de Chico César desde que entrou aqui em casa pelas mãos de minha esposa, como presente para mim, tem causado abalos culturais. A maestria dos arranjos, a sensibilidade das letras, as parcerias, a voz doce, as sanfonas, os metais, os efeitos mecânicos, os personagens Claudionor Germano, o Rei do Frevo, Zabé da Loca, a Rainha do Pife, Armandinho, o Rei do Pau Elétrico. É uma coisa. Cada vez que escuto acho uma coisa nova, um efeito subliminar, um bendito, uma denúncia, uma dedicatória. Não é só!

Acontece que minha filha de cinco anos também descobriu o sujeito e agora anda vivendo, acho eu, o seu primeiro alumbramento. Cantarolando para lá e para cá o xote Comer na Mão. Foi fuçar meus cds e dvds e encontrou mais coisa e quer ouvir e quer saber quem é e escreveu carta e desenhou o rapaz e quer que eu mande essas coisas para ele e quer saber tudo da vida. Consultei uma amiga psicanalista para um aconselhamento informal e fui esclarecido que é coisa normal. Não se passa um dia em que ela não cita o nome do dito cujo pelo menos três vezes.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Fábulas

1.
Medusa mirava-se no espelho
e penteava a longa cabeleira


2.
Um chato de galochas repousava
encostado a um pêlo pubiano
de um gato de botas

3.
Duas centopéias
despediram-se em um longo e interminável abraço!

4.
um elefante esqueceu de dar o nó em sua gravata borboleta

5.
O Patinho Feio, de passagem pela França, descobriu-se
um lindo e maravilhoso
Foie Gras!

O paraíba

Pedro, agora, tinha certeza de uma coisa: todos aqueles que o chamavam de paraíba não sabiam onde ficava a Paraíba, nem que a Paraíba era tão longe.

O malfadado

O fracasso, na primeira metade do século XX, da teoria do bem-estar movido pelo progresso além de ter reflexos sociais claros, vide os acontecimentos da primeira e da segunda guerras mundiais, entremeadas pela consolidação da Revolução Russa de 1917, resultou no malogro de um projeto estético a que se chamou de modernidade. As ruínas da Europa foram sua assinatura mais cruel, o holocausto sua mancha mais discutida e as bombas de Hiroshima e Nagasaki o passaporte para o futuro. O longevo século XX foi a união de setenta anos de intenso reconstruir de fronteiras, espremendo nações, mediados por trinta anos de conflitos étnicos e guerra fria. Em suma, aquele século, que deveria ser o grande herdeiro das luzes, o colheitador dos frutos plantados, foi um algoz malfadado, o senhor da morte, o guardião da desesperança. Os acontecimentos recentes em Gaza só consolidam este pensamento.

Apresentação para um trabalho acadêmico que não vingou

Este conjunto de escritos contém três partes distintas. Representam: a primeira, mapa ou organograma dos estudos e leitura feitas no segundo semestre de 2005 para compreensão do que está acontecendo no mundo no que diz respeito a cultura e produção artística na era globalizada. Foram leituras feitas em inglês tratando da presença do movimento Hip Hop nas culturas européia, japonesa e islâmica. A importância para o tema da tese é relevante na medida em que a violência assume o papel de musa inspiradora e o cenário social de seus ativistas é a rua, o gueto, a segregação, as drogas, o sexo, o lixo, a desigualdade social, a diferença atribulada e outros.

A segunda parte são anotações feitas em inglês sobre a Modernidade Reflexiva e o Risco Global. Temas abordados durante as aulas do professor Eduardo Portella que se mostraram extremamente ricos para o entendimento das novas poéticas periféricas e excluídas. O risco está em toda parte e ele mesmo se transforma em musa e agente artístico-literário. O funk carioca é um de seus porta-vozes e a literatura de Ferréz um ícone desse fazer. O aparecimento da CUFA, Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro é um fato importante para confluência militante e exemplifica o título da tese: a cidade dos lázaros.

A terceira parte é o trabalho inicial desse caminhar. A reflexão sobre progresso, tecnologia e bem-estar social. O tema é a utopia do futuro. A partir da leitura de futurólogos como Hermann Kahn, Alvin Toffler e John Naisbitt construímos um esboço de cenário, ou pano de fundo para a emergência dessas novas manufaturas artísticas, dissidentes do cânon acadêmico.

Queremos ainda pensar sobre Terrorismo e literatura, O Islã e seu caminho poético, Arquitetura e medo urbano e Poéticas de celebração. Procuramos o caminho, sabendo que ele se faz ao caminhar, basta olhar para trás e se verá os próprios passos.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Entre os desenganos e a esperança

1. Quando de meu profundo desengano ante o caminho dos estudos literários, já exauridos, encontrei três breves bálsamos, loções de algum ânimo, fagulhas de remota esperança. Foram os acenos para o meu reencontro, na encruzilhada central, com tênues luzes no horizonte:

a) O professor Eduardo Portella nos seus cursos sobre a baixa modernidade (ele, um dos últimos cabedais da decência intelectual);

b) A escritora Helena Parente Cunha com um paiol de atitudes benevolentes (grávida de compreensão e de paciência);

c) A Revista Confraria (bastião da arte e da literatura, como anuncia seu sub-título, em logos e praxis).

Eles, como As Três Marias, o Cinturão de Órion, cintilam na noite protuberante dos meus tempestuosos e encolerados céus e mares.

2. André Comte-Sponville cita-nos Pascal quando diz que todos os homens buscam a felicidade, até mesmo aquele que vai se enforcar. Pois bem, na aridez do meu suicídio diário, de minhas investidas contra as facas e os canhões, acreditando esperançosamente, na superação de todos os obstáculos, incluía-me nessa nação de homens ávidos rumo ao riso perene no lábio, à paz duradoura na mente, à mansidão do mais profundo lago espiritual. Não preciso (ou preciso) dizer quais eram esses obstáculos. Nós que lidamos com a palavra, e com ela mesma na sala de aula e ainda com ela impressa, conhecemos as tenebrosas procelas circundantes: são panelinhas e panelões e paneladas; são faculdades e donos e chefes incompetentes e loucos; e política e politicagem e preconceito e perseguição política. Esse o mapa. Para onde nos viramos, ali estão. Aqui abundam.

3. O filósofo romeno Constantin Noica foi quem enquadrou-me quando apresentou-me as seis doenças do espírito contemporâneo. Não vou deter-me sobre elas, mas naquela em cujas abas espreguicei-me. O meu sofrer começou nos tempos de graduação quando a revista Cult começou a aparecer nas bancas de jornais da Paraíba, cemitério onde eu cavava minha sepultura todos os dias. Aquela revista parecia-me de uma superficialidade estéril, era de látex, não havia tônus sob sua pele intransigente. Folheava, folheava e pensava em Augusto dos Anjos sussurrando: “Parece muito doce aquela cana... ilusão treda...” Aquela necessidade de ver a árvore verdadeira, suas folhas de verdade e frutos e fibras, doía-me como se atingido por uma panela de ferro marciano. Noica diagnosticou-me: todetite. É a doença-resultado fruto da carência da coisa verdadeira. Assegurou-me ainda a igualdade entre literatura e vida. Sem literatura não há vida e a vida é ávida (vivo a repetir esse bordão). Mas eu sofria.

4. Um dia, quando descobri Urs Von Balthasar, urdi uma teoria (outra pretensão?) cuja hipótese era: há duas coisas que não param nunca, o tempo e a vida. Matem-se o tempo e a vida e continuarão mais acelerados. No ensaio de Balthasar encontrei eco, ou eu era o eco:

O fim do homem, o fim da humanidade e do mundo, isto é, a sua meta, é simultaneamente o problema do seu sentido. Se a história tem um fim, esse fim é precisamente uma conjunção no além com as realidades últimas. É esse sentido último o único capaz de dar sentido autêntico a todas as realidades parciais que são objetos das ciências exatas, a não ser que se negue, pura e simplesmente, a existência dessas realidades últimas — existência post mortem, juízo de Deus, eternidade feliz ou desgraçada — e se intente resolver o problema do sentido da vida adentro dos limites da existência finita e temporal, prescindindo de saber se existe ou não um além. Uma coisa é certa: em qualquer dos casos, a vida terrena há-de viver-se como tendo sentido.


5. Precisamos de homens que se regozijem juntos, que celebrem sobretudo suas diferenças (as semelhanças já são cultuadas).

sábado, 10 de janeiro de 2009

Céu de chumbo sobre o Rio de Janeiro


A doçura do meu céu:
algodão doce de chumbo;
Preso ao chão, marionete,
me esperneio e retumbo,
de asas não sei de asas,
sei das orelhas de Dumbo!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Um cordeiro para lá de brabo

O amigo cordelista e interventor cultural Arievaldo Viana da Terra de Iracema, cumprimentou-me enviando-me um cordel inédito de Cordeiro Brabo. Claro que é uma paródia sobre o nome do velho Pacífico Pacato Cordeiro Manso (haja serenidade). O título do cordel é Recado de um poeta aos dotô niversitaro. Tratando de um tema muito vivo meio à Literatura de Cordel: a presença de pesquisadores mal resolvidos que, com miopia avançada, catarata ou glaucoma terminal, são incapazes de distinguir o joio do trigo no que tange à poesia cordelista. Apaixonam-se pelo canto da sereia e, com preguiça de averiguação mais cuidadosa e aplicada, desandam pelo mundo a propagar sua ignorância e a fazer adeptos. Desconhecem os verdadeiros e adoram os embustes.

E atenção: o Orkut está emprenhado de comunidades sobre cordel. O que menos se vê lá, entretanto, é o Cordel. São lotes e lotes de motes, centenas de "teoria do cordel", barbaridades sobre métrica e outras aberrações. "Poetas" enfastiados vomitando rimas. Há aquelas, como sempre, que salvam a lavoura.

Nós, brasileiros, temos uma prática de boa vizinhança que nos leva a comungar com certas coisas, sem nos pronunciarmos. Pois bem, Ari é o culpado de trazer-me o verso malcriado e verdadeiro de Cordeiro Brabo:

Pesquisador tem mania
De aplaudir o que não presta
Pegando um cordel mal feito
Bate palma, faz a festa,
Se for poeta matuto
Grita logo, resoluto,
- Ô cabra bom da mulésta!

E se vier de Sorbone
Ou dos Estados Unidos
Se achar um velho matuto
De recantos esquecidos
Fazendo verso mal-feito
Só se dá por satisfeito
Se gravar seus alaridos.

Se encontrar um gravurista
Cortando tacos de pau
Ou mesmo um verso mal feito
De CUÍCA, ELE... O TAL!
Pensando ser coisa séria
Cria logo uma matéria
E publica no jornal.


Não vou publicar aqui o cordel todo. Cabe ao Arievaldo dá-lo a luz. Cito uma última estrofe na qual cita o pai da arte de fazer cordel:

Da Europa chegam doutores
Quase todo santo dia,
Para pesquisar Rodolfo,
Cuíca, Zé Melancia,
Porém não sabem o meandro
E desconhecem LEANDRO
O mestre da poesia!


Querem mais? A última estrofe do petardo, então:

Pesquisador quer saber
De pé-quebrado e gravura
Poetas que passam fome
Na beira da sepultura,
São estes que eles proclamam!
É isso que eles chamam
POPULAR LITERATURA.


Nada mal!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um acróstico de Marco Haurélio

Alguém aí deve se lembrar de Jovino dos Santos Neto. Se não lembra ou não conhece é só fazer a tradicional e já manjada busca no Google, o nosso melhor amigo neste fim de tempos. Pois bem, Jovino conseguiu um patrocínio pela Petrobrás e fez jus ao prêmio, produziu o CD Alma do Nordeste, algo superior em termos de música instrumental e poesia. Poesia? É, poesia! Jovino teve a delicadeza de convidar o poeta Marco Haurélio (que aparecerá nos créditos como Marcus, nome de batismo) para ilustrar sua música. É coisa de primeira. O motivo de eu comentar aqui, agora, é o fato de uma resenha que li no prestigioso site jazzístico All About Jazz escrita pelo consultor do site Martin Gladu ignora totalmente os versos de Haurélio (ele também não precisa entender, claro) e diz a certa altura:

"Exemplificando o velho ditado que toda música é tradicional, a faixa que abre o disco "Festa na Macuca" relembra o toque do acordeon ouvido em ocasiões festivas na Louisiana. Dentro da herança africana e consequentemente mais ritualística, "Passareio" é uma vinheta percussiva, com um par de flautas "chorando" sobre sons naturais com ritmo repetitivo da batida da bateria."


Festa na Macuca foi inspiração de Lousiana, segundo Gladu. O Jovino pode até ter ouvido sanfona em Lousiana, mas aquela da alma talvez tenha sido ouvida em algum arrastapé.

A Fazenda da Macuca fica em Pernambuco e sedia um lúdico festival de Jazz todos os anos, geralmente em dezembro.

Citei o Marco Haurélio porque detive-me no seu cordel A história de Belisfronte, o filho do pescador, mais um título da Luzeiro. Deixo aqui o acróstico, que é uma outra característica da poesia tradicional dos folhetos de cordel para evitar a pirataria:

H oje ainda se comentam
A s façanhas do rapaz,
U m monarca valoroso
R einando sobre os demais,
E ternizado na história,
L evando seu nome à glória
I ndo colher na vitória
O s frutos da Santa Paz.

Invocação

Uma das partes nas quais se compõe a poesia épica é a Invocação. E Os Lusíadas, Camões a inicia na Estância 4 do Primeiro Canto:

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene


e segue pedindo inspiração e engenho e arte para escrever o grandíloquo poema. Na Odisséia, Homero diz:

Ó Musa, fala-me do solerte varão, que, depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de salvar a sua vida e de conseguir o regresso dos companheiros. Mas, não obstante o seu desejo, não os salvou, pois pereceram por desatino próprio os insensatos, que devoraram as vacas do Sol, filho de Hiperíone, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta- nos a nós também algumas dessas empresas, começando por qualquer delas.


Com esses dois exemplos clássicos quero comentar que a Invocação passou à Poesia de Cordel. Resume assim, no recentemente publicado pela Editora Luzeiro, a Peleja de Aloncio com Dezinho, o poeta Varneci Nascimento, esta característica dos cordelistas.

Pedir o saber a Deus
É praxe dos cordelistas
E o mesmo eu faço agora
Pedindo a Jesus as pistas
Para narrar a contenda
Entre dois bons repentistas.


A invocação é parte importante para se observar aos que querem se iniciar na arte do bom e contemporâneo Cordel.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Onde o Cordel?

Tratar da presença da Literatura de Cordel nos estudos sobre literatura brasileira é tratar de sua ausência. Vejamos. Nenhum dos nossos reconhecidos estudiosos a inserem em suas obras principais. Sabendo-se que

Leandro Gomes de Barros

foi o primeiro a publicar seus folhetos e editá-los sistematicamente, não lhe é devida nenhuma citação nem em

Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos,
de Antonio Candido,

nem em

A Literatura Brasileira,
de José Aderaldo Castelo,

ou na

História Concisa da Literatura Brasileira,
de Alfredo Bosi.

Dá-se o mesmo em Ronald Carvalho, Nelson Werneck Sodré e José Veríssimo.

Sílvio Romero chega a citar o Cordel em seus Estudos sobre a poesia popular, mas como algo finado.

Quanto aos livros didáticos, o que se apresenta é uma periodização das Épocas Literárias desde Portugal. Mesmo atribuindo valor ao trovadorismo português, ao cancioneiro de Garcia de Resende, às cantigas de Martim Codax e D. Dinis, ou Joan Airas de Santiago, escritos primevos, nada sobre Literatura de Cordel. É como se esse fenômeno não tivesse acontecido. Deve-se ao trabalho de pesquisadores particulares, paladinos e quixotes, a tentativa de integração e enquadramento dessa literatura no todo literário brasileiro, exemplo seguido por algumas instituições como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Pernambuco, citando as mais conhecidas, mas sem a força fundamental da mudança.

O sertão

O Brasil nasceu no Nordeste. No litoral. É no sertão, todavia, que o Brasil sobrevive. É no Sertão, na seca e amaldiçoada terra do sertão, que o Brasil se firma.

Lá a vida é o mandacaru, o juazeiro.
É a pedra-de-fogo e os lajedos perenes na poeira do tempo que não passa.
Lá, naquelas paragens acariciadas pela mão rude da seca,
fincou-se o pau da bandeira
e cravou-se o tronco da cruz nas costas dos homens.

Aqueles que chegam ao sertão, oriundos do barulho do mar de motores e gentes sonâmbulas, são atropelados pela descoberta mais fatal e o encontro mais terrível: consigo mesmo.

Indagar-se sobre si e sob si enlouquecer.

Afrânio Peixoto cai em si:

“O sertão é o recesso, é o íntimo do deserto...”.

Ivanildo Vila Nova, dos maiores cantadores que já vi e ouvi

Sertanejos morrendo de magote
A bandeira rasgada era um molambo
O quartel sem guarita era um mucambo
A trincheira era a grimpa de um serrote
A metralha um feioso clavinote
Baioneta era a lança do carreiro
A corneta o búzio do vaqueiro
Parapeito e gibão sua roupagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Conselheiro

O episódio de Canudos, como está n’Os Sertões, abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões,

promove um massacre,
estabelece o terror,
o Apocalipse,
o Armagedom.

Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático.

Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino.
Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu.
Um ogro voraz,
um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira.

As insígnias, entretanto, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

Voltei a pensar, a ação se fez

1.
Pensemos com Augusto dos Anjos em Os doentes

Mas, diante a xantocróide raça loura,
Jazem caladas todas as inúbias,
E agora sem difíceis nuanças dúbias,
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!
(...)

As reflexões do poeta são a janela para os nossos próprios olhos. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família.

Um índio chamado Galdino.
Um índio chamado Jesus.
Dos Santos.

2.
O que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

Arrancou-se-lhe o cobertor,
virou-se-lhe a cama,
incendiou-se-lhe o sono,
fecundou-se-lhe o pesadelo.

3.
Gonçalves Dias, O Canto do Piaga


Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade –
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracá.


Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

(...) Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!


O silvo alertando para a cova profunda,
boca aberta,
escancarada, para sorver mata, índio, memória.