quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Viver é...

0. Viver é como dormir: uns têm pesadelos, outros não querem acordar e há aqueles, como eu, que são acalentados pela insônia.

1. Viver é como cantar: uns desafinam, outros se afinam e há aqueles, como eu, que apenas dublam com playback.

3. Viver é como chorar: uns se desesperam teatralmente, outros deixam apenas a lágrima tímida descer pela face e há aqueles, como eu, que fingem nem ligar.

4. Viver é como blogar: uns o fazem intensamente, todos os dias, outros esperam meses para dizer alguma coisa e há aqueles que, como eu, gostam mesmo é de ler o blog dos outros e invejá-los.

Fragmentos de alguma coisa

1. Estou em conflito com minha tese de doutorado. Ela está ganhando o cabo de guerra. Teima em não sair do lugar e seu peso é grave, seus pés se enterraram na terra e dali não avançam nem um milímetro. Cometi um erro de avaliação e estou pagando o preço. Abandonei antigos projetos e o novo projeto pede mais gás. E para mim, todo gás agora, é de efeito estufa. Estou estufando. Vou tentando e cada vez que me sento para escrever, vem uma voz e me diz: – Não vai sair, não vai sair, não vai sair!” Daqui a pouco é todo mundo gritando: “– Não vai sair, não vai sair!”, como naquela música louca e diabólica de Roberto Carlos “Guerra dos meninos”, num interminável "lá, lá, lá, lá, rá, lá! lá, lá, lá, lá,rá,lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!lá, lá, lá, rá, lá, lá!" Arre, diabos!

2. Me meti a adaptar para a Literatura de Cordel “A Metamorfose”, aquela história do Franz Kafka. Mas expliquei aos editores que meu plano é um cordel-quadrinhos no qual cada sextilha corresponde a um quadrinho, expostos lado a lado. Entretanto o quadrinho não quero desenhado explicando nem representando a sextilha, nem um retrato da situação. Deve ser a leitura do ilustrador. Os seus sentimentos diante do escrito, assim cada quadrinho não deve representar a narrativa e talvez tenha mesmo um outro olhar estranho, uma outra história. Os editores acharam muito complicado e me acuaram a desistir do projeto. E eu desisti dos editores, mesmo cometendo essas coisas grifadas!

3. “O Rio São Francisco estava ali bem na sua frente. Era o primeiro rio de verdade que Pedro via. Tinha água marrom. Eram águas de inverno. Do lado de cá uma cidade chamada Juazeiro, do lado de lá, Petrolina. Viu coisas que nunca imaginara ver. Viu uvas e mangas, morangos e cajus. Alguém comentou que aquelas frutas eram produzidas ali mesmo com água do rio que tinha nome de santo. Tudo que ouvira até ali sobre o Nordeste é que era uma terra seca, de famintos. Mas uva e morango? Ali? Aquilo não era o que chamavam de sertão? Pedro começava a ver as verdades amadurecendo em seus olhos!” Escrever é cortar o “que”! Tente quem quiser!

4. Não venha para cá conversar besteira. Sei que você não leu a “Peleja virtual de Glauco Mattoso com Moreira de Acopiara”! Muito menos as “Traquinagens de João Grilo” de Marco Haurélio. Tampouco “As Aventuras do Matuto Zé Ruela” de Cacá Lopes. “O Cangaço Sustentado Pelos Coronéis” de Varneci Nascimento, então, é alienígena para você. Não leu, né? É pedir demais para você, não? Pois bem, meu filho, esse seu preconceito, essa sua falsa cultura, essa bazófia sua, tudo isso, que você alardeia, até suas leituras esquizofrênicas sobre Heidegger e suas câmaras de gases... Você já leu Costa Senna?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O desenho na areia

Eu quis desenhar um sol
na areia, bem perto ao mar
para que as águas deste
pudessem lhe refrescar
a maré subiu sem regras:
impossível ao sol brilhar!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

GRAVADORA KUARUP ENCERRA SUAS ATIVIDADES

Recebi a seguinte mensagem:

Depois de 31 anos dedicados à melhor música brasileira, a gravadora independente carioca Kuarup Discos decidiu encerrar suas atividades nesta virada de ano.

Ao longo dos últimos anos, as vendas de produtos físicos sofreram queda vertiginosa, nem de longe compensada pelas vendas por download da internet. Entendemos que a crise do CD é irreversível e tornou inviável nosso modelo de negócio, inteiramente calcado na produção e comercialização de música de qualidade.

Agradecemos aos nossos funcionários, representantes, amigos, clientes e fornecedores, e sobretudo aos nossos artistas, que continuarão a carregar a bandeira desta música brasileira que ajudamos a divulgar durante todos estes anos.

Kuarup Produções Ltda/ Kuarup Discos


Fato lamentável pois o elenco da Kuarup é (ou era) da maior competência e importância para a o meio cultural brasileiro. Estamos todos os de minha geração órfãos musicais. Foi com a música produzida por ela que crescemos e descobrimos a qualidade de nossos compositores. Entramos no mundo com o primeiro Cantoria, no qual Elomar, Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo nos embalavam, e continuamos até o último dvd de Sivuca. De muita tristeza essa notícia. Semelhante ao que nos consternou com o desaparecimento da Marcus Pereira e da Rosenblit, mais antigamente!

Chico César vai comer na minha mão

Pois é, o disco Francisco Forró Y Frevo de Chico César desde que entrou aqui em casa pelas mãos de minha esposa, como presente para mim, tem causado abalos culturais. A maestria dos arranjos, a sensibilidade das letras, as parcerias, a voz doce, as sanfonas, os metais, os efeitos mecânicos, os personagens Claudionor Germano, o Rei do Frevo, Zabé da Loca, a Rainha do Pife, Armandinho, o Rei do Pau Elétrico. É uma coisa. Cada vez que escuto acho uma coisa nova, um efeito subliminar, um bendito, uma denúncia, uma dedicatória. Não é só!

Acontece que minha filha de cinco anos também descobriu o sujeito e agora anda vivendo, acho eu, o seu primeiro alumbramento. Cantarolando para lá e para cá o xote Comer na Mão. Foi fuçar meus cds e dvds e encontrou mais coisa e quer ouvir e quer saber quem é e escreveu carta e desenhou o rapaz e quer que eu mande essas coisas para ele e quer saber tudo da vida. Consultei uma amiga psicanalista para um aconselhamento informal e fui esclarecido que é coisa normal. Não se passa um dia em que ela não cita o nome do dito cujo pelo menos três vezes.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Fábulas

1.
Medusa mirava-se no espelho
e penteava a longa cabeleira


2.
Um chato de galochas repousava
encostado a um pêlo pubiano
de um gato de botas

3.
Duas centopéias
despediram-se em um longo e interminável abraço!

4.
um elefante esqueceu de dar o nó em sua gravata borboleta

5.
O Patinho Feio, de passagem pela França, descobriu-se
um lindo e maravilhoso
Foie Gras!

O paraíba

Pedro, agora, tinha certeza de uma coisa: todos aqueles que o chamavam de paraíba não sabiam onde ficava a Paraíba, nem que a Paraíba era tão longe.

O malfadado

O fracasso, na primeira metade do século XX, da teoria do bem-estar movido pelo progresso além de ter reflexos sociais claros, vide os acontecimentos da primeira e da segunda guerras mundiais, entremeadas pela consolidação da Revolução Russa de 1917, resultou no malogro de um projeto estético a que se chamou de modernidade. As ruínas da Europa foram sua assinatura mais cruel, o holocausto sua mancha mais discutida e as bombas de Hiroshima e Nagasaki o passaporte para o futuro. O longevo século XX foi a união de setenta anos de intenso reconstruir de fronteiras, espremendo nações, mediados por trinta anos de conflitos étnicos e guerra fria. Em suma, aquele século, que deveria ser o grande herdeiro das luzes, o colheitador dos frutos plantados, foi um algoz malfadado, o senhor da morte, o guardião da desesperança. Os acontecimentos recentes em Gaza só consolidam este pensamento.

Apresentação para um trabalho acadêmico que não vingou

Este conjunto de escritos contém três partes distintas. Representam: a primeira, mapa ou organograma dos estudos e leitura feitas no segundo semestre de 2005 para compreensão do que está acontecendo no mundo no que diz respeito a cultura e produção artística na era globalizada. Foram leituras feitas em inglês tratando da presença do movimento Hip Hop nas culturas européia, japonesa e islâmica. A importância para o tema da tese é relevante na medida em que a violência assume o papel de musa inspiradora e o cenário social de seus ativistas é a rua, o gueto, a segregação, as drogas, o sexo, o lixo, a desigualdade social, a diferença atribulada e outros.

A segunda parte são anotações feitas em inglês sobre a Modernidade Reflexiva e o Risco Global. Temas abordados durante as aulas do professor Eduardo Portella que se mostraram extremamente ricos para o entendimento das novas poéticas periféricas e excluídas. O risco está em toda parte e ele mesmo se transforma em musa e agente artístico-literário. O funk carioca é um de seus porta-vozes e a literatura de Ferréz um ícone desse fazer. O aparecimento da CUFA, Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro é um fato importante para confluência militante e exemplifica o título da tese: a cidade dos lázaros.

A terceira parte é o trabalho inicial desse caminhar. A reflexão sobre progresso, tecnologia e bem-estar social. O tema é a utopia do futuro. A partir da leitura de futurólogos como Hermann Kahn, Alvin Toffler e John Naisbitt construímos um esboço de cenário, ou pano de fundo para a emergência dessas novas manufaturas artísticas, dissidentes do cânon acadêmico.

Queremos ainda pensar sobre Terrorismo e literatura, O Islã e seu caminho poético, Arquitetura e medo urbano e Poéticas de celebração. Procuramos o caminho, sabendo que ele se faz ao caminhar, basta olhar para trás e se verá os próprios passos.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Entre os desenganos e a esperança

1. Quando de meu profundo desengano ante o caminho dos estudos literários, já exauridos, encontrei três breves bálsamos, loções de algum ânimo, fagulhas de remota esperança. Foram os acenos para o meu reencontro, na encruzilhada central, com tênues luzes no horizonte:

a) O professor Eduardo Portella nos seus cursos sobre a baixa modernidade (ele, um dos últimos cabedais da decência intelectual);

b) A escritora Helena Parente Cunha com um paiol de atitudes benevolentes (grávida de compreensão e de paciência);

c) A Revista Confraria (bastião da arte e da literatura, como anuncia seu sub-título, em logos e praxis).

Eles, como As Três Marias, o Cinturão de Órion, cintilam na noite protuberante dos meus tempestuosos e encolerados céus e mares.

2. André Comte-Sponville cita-nos Pascal quando diz que todos os homens buscam a felicidade, até mesmo aquele que vai se enforcar. Pois bem, na aridez do meu suicídio diário, de minhas investidas contra as facas e os canhões, acreditando esperançosamente, na superação de todos os obstáculos, incluía-me nessa nação de homens ávidos rumo ao riso perene no lábio, à paz duradoura na mente, à mansidão do mais profundo lago espiritual. Não preciso (ou preciso) dizer quais eram esses obstáculos. Nós que lidamos com a palavra, e com ela mesma na sala de aula e ainda com ela impressa, conhecemos as tenebrosas procelas circundantes: são panelinhas e panelões e paneladas; são faculdades e donos e chefes incompetentes e loucos; e política e politicagem e preconceito e perseguição política. Esse o mapa. Para onde nos viramos, ali estão. Aqui abundam.

3. O filósofo romeno Constantin Noica foi quem enquadrou-me quando apresentou-me as seis doenças do espírito contemporâneo. Não vou deter-me sobre elas, mas naquela em cujas abas espreguicei-me. O meu sofrer começou nos tempos de graduação quando a revista Cult começou a aparecer nas bancas de jornais da Paraíba, cemitério onde eu cavava minha sepultura todos os dias. Aquela revista parecia-me de uma superficialidade estéril, era de látex, não havia tônus sob sua pele intransigente. Folheava, folheava e pensava em Augusto dos Anjos sussurrando: “Parece muito doce aquela cana... ilusão treda...” Aquela necessidade de ver a árvore verdadeira, suas folhas de verdade e frutos e fibras, doía-me como se atingido por uma panela de ferro marciano. Noica diagnosticou-me: todetite. É a doença-resultado fruto da carência da coisa verdadeira. Assegurou-me ainda a igualdade entre literatura e vida. Sem literatura não há vida e a vida é ávida (vivo a repetir esse bordão). Mas eu sofria.

4. Um dia, quando descobri Urs Von Balthasar, urdi uma teoria (outra pretensão?) cuja hipótese era: há duas coisas que não param nunca, o tempo e a vida. Matem-se o tempo e a vida e continuarão mais acelerados. No ensaio de Balthasar encontrei eco, ou eu era o eco:

O fim do homem, o fim da humanidade e do mundo, isto é, a sua meta, é simultaneamente o problema do seu sentido. Se a história tem um fim, esse fim é precisamente uma conjunção no além com as realidades últimas. É esse sentido último o único capaz de dar sentido autêntico a todas as realidades parciais que são objetos das ciências exatas, a não ser que se negue, pura e simplesmente, a existência dessas realidades últimas — existência post mortem, juízo de Deus, eternidade feliz ou desgraçada — e se intente resolver o problema do sentido da vida adentro dos limites da existência finita e temporal, prescindindo de saber se existe ou não um além. Uma coisa é certa: em qualquer dos casos, a vida terrena há-de viver-se como tendo sentido.


5. Precisamos de homens que se regozijem juntos, que celebrem sobretudo suas diferenças (as semelhanças já são cultuadas).

sábado, 10 de janeiro de 2009

Céu de chumbo sobre o Rio de Janeiro


A doçura do meu céu:
algodão doce de chumbo;
Preso ao chão, marionete,
me esperneio e retumbo,
de asas não sei de asas,
sei das orelhas de Dumbo!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Um cordeiro para lá de brabo

O amigo cordelista e interventor cultural Arievaldo Viana da Terra de Iracema, cumprimentou-me enviando-me um cordel inédito de Cordeiro Brabo. Claro que é uma paródia sobre o nome do velho Pacífico Pacato Cordeiro Manso (haja serenidade). O título do cordel é Recado de um poeta aos dotô niversitaro. Tratando de um tema muito vivo meio à Literatura de Cordel: a presença de pesquisadores mal resolvidos que, com miopia avançada, catarata ou glaucoma terminal, são incapazes de distinguir o joio do trigo no que tange à poesia cordelista. Apaixonam-se pelo canto da sereia e, com preguiça de averiguação mais cuidadosa e aplicada, desandam pelo mundo a propagar sua ignorância e a fazer adeptos. Desconhecem os verdadeiros e adoram os embustes.

E atenção: o Orkut está emprenhado de comunidades sobre cordel. O que menos se vê lá, entretanto, é o Cordel. São lotes e lotes de motes, centenas de "teoria do cordel", barbaridades sobre métrica e outras aberrações. "Poetas" enfastiados vomitando rimas. Há aquelas, como sempre, que salvam a lavoura.

Nós, brasileiros, temos uma prática de boa vizinhança que nos leva a comungar com certas coisas, sem nos pronunciarmos. Pois bem, Ari é o culpado de trazer-me o verso malcriado e verdadeiro de Cordeiro Brabo:

Pesquisador tem mania
De aplaudir o que não presta
Pegando um cordel mal feito
Bate palma, faz a festa,
Se for poeta matuto
Grita logo, resoluto,
- Ô cabra bom da mulésta!

E se vier de Sorbone
Ou dos Estados Unidos
Se achar um velho matuto
De recantos esquecidos
Fazendo verso mal-feito
Só se dá por satisfeito
Se gravar seus alaridos.

Se encontrar um gravurista
Cortando tacos de pau
Ou mesmo um verso mal feito
De CUÍCA, ELE... O TAL!
Pensando ser coisa séria
Cria logo uma matéria
E publica no jornal.


Não vou publicar aqui o cordel todo. Cabe ao Arievaldo dá-lo a luz. Cito uma última estrofe na qual cita o pai da arte de fazer cordel:

Da Europa chegam doutores
Quase todo santo dia,
Para pesquisar Rodolfo,
Cuíca, Zé Melancia,
Porém não sabem o meandro
E desconhecem LEANDRO
O mestre da poesia!


Querem mais? A última estrofe do petardo, então:

Pesquisador quer saber
De pé-quebrado e gravura
Poetas que passam fome
Na beira da sepultura,
São estes que eles proclamam!
É isso que eles chamam
POPULAR LITERATURA.


Nada mal!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um acróstico de Marco Haurélio

Alguém aí deve se lembrar de Jovino dos Santos Neto. Se não lembra ou não conhece é só fazer a tradicional e já manjada busca no Google, o nosso melhor amigo neste fim de tempos. Pois bem, Jovino conseguiu um patrocínio pela Petrobrás e fez jus ao prêmio, produziu o CD Alma do Nordeste, algo superior em termos de música instrumental e poesia. Poesia? É, poesia! Jovino teve a delicadeza de convidar o poeta Marco Haurélio (que aparecerá nos créditos como Marcus, nome de batismo) para ilustrar sua música. É coisa de primeira. O motivo de eu comentar aqui, agora, é o fato de uma resenha que li no prestigioso site jazzístico All About Jazz escrita pelo consultor do site Martin Gladu ignora totalmente os versos de Haurélio (ele também não precisa entender, claro) e diz a certa altura:

"Exemplificando o velho ditado que toda música é tradicional, a faixa que abre o disco "Festa na Macuca" relembra o toque do acordeon ouvido em ocasiões festivas na Louisiana. Dentro da herança africana e consequentemente mais ritualística, "Passareio" é uma vinheta percussiva, com um par de flautas "chorando" sobre sons naturais com ritmo repetitivo da batida da bateria."


Festa na Macuca foi inspiração de Lousiana, segundo Gladu. O Jovino pode até ter ouvido sanfona em Lousiana, mas aquela da alma talvez tenha sido ouvida em algum arrastapé.

A Fazenda da Macuca fica em Pernambuco e sedia um lúdico festival de Jazz todos os anos, geralmente em dezembro.

Citei o Marco Haurélio porque detive-me no seu cordel A história de Belisfronte, o filho do pescador, mais um título da Luzeiro. Deixo aqui o acróstico, que é uma outra característica da poesia tradicional dos folhetos de cordel para evitar a pirataria:

H oje ainda se comentam
A s façanhas do rapaz,
U m monarca valoroso
R einando sobre os demais,
E ternizado na história,
L evando seu nome à glória
I ndo colher na vitória
O s frutos da Santa Paz.

Invocação

Uma das partes nas quais se compõe a poesia épica é a Invocação. E Os Lusíadas, Camões a inicia na Estância 4 do Primeiro Canto:

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene


e segue pedindo inspiração e engenho e arte para escrever o grandíloquo poema. Na Odisséia, Homero diz:

Ó Musa, fala-me do solerte varão, que, depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de salvar a sua vida e de conseguir o regresso dos companheiros. Mas, não obstante o seu desejo, não os salvou, pois pereceram por desatino próprio os insensatos, que devoraram as vacas do Sol, filho de Hiperíone, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta- nos a nós também algumas dessas empresas, começando por qualquer delas.


Com esses dois exemplos clássicos quero comentar que a Invocação passou à Poesia de Cordel. Resume assim, no recentemente publicado pela Editora Luzeiro, a Peleja de Aloncio com Dezinho, o poeta Varneci Nascimento, esta característica dos cordelistas.

Pedir o saber a Deus
É praxe dos cordelistas
E o mesmo eu faço agora
Pedindo a Jesus as pistas
Para narrar a contenda
Entre dois bons repentistas.


A invocação é parte importante para se observar aos que querem se iniciar na arte do bom e contemporâneo Cordel.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Onde o Cordel?

Tratar da presença da Literatura de Cordel nos estudos sobre literatura brasileira é tratar de sua ausência. Vejamos. Nenhum dos nossos reconhecidos estudiosos a inserem em suas obras principais. Sabendo-se que

Leandro Gomes de Barros

foi o primeiro a publicar seus folhetos e editá-los sistematicamente, não lhe é devida nenhuma citação nem em

Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos,
de Antonio Candido,

nem em

A Literatura Brasileira,
de José Aderaldo Castelo,

ou na

História Concisa da Literatura Brasileira,
de Alfredo Bosi.

Dá-se o mesmo em Ronald Carvalho, Nelson Werneck Sodré e José Veríssimo.

Sílvio Romero chega a citar o Cordel em seus Estudos sobre a poesia popular, mas como algo finado.

Quanto aos livros didáticos, o que se apresenta é uma periodização das Épocas Literárias desde Portugal. Mesmo atribuindo valor ao trovadorismo português, ao cancioneiro de Garcia de Resende, às cantigas de Martim Codax e D. Dinis, ou Joan Airas de Santiago, escritos primevos, nada sobre Literatura de Cordel. É como se esse fenômeno não tivesse acontecido. Deve-se ao trabalho de pesquisadores particulares, paladinos e quixotes, a tentativa de integração e enquadramento dessa literatura no todo literário brasileiro, exemplo seguido por algumas instituições como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Pernambuco, citando as mais conhecidas, mas sem a força fundamental da mudança.

O sertão

O Brasil nasceu no Nordeste. No litoral. É no sertão, todavia, que o Brasil sobrevive. É no Sertão, na seca e amaldiçoada terra do sertão, que o Brasil se firma.

Lá a vida é o mandacaru, o juazeiro.
É a pedra-de-fogo e os lajedos perenes na poeira do tempo que não passa.
Lá, naquelas paragens acariciadas pela mão rude da seca,
fincou-se o pau da bandeira
e cravou-se o tronco da cruz nas costas dos homens.

Aqueles que chegam ao sertão, oriundos do barulho do mar de motores e gentes sonâmbulas, são atropelados pela descoberta mais fatal e o encontro mais terrível: consigo mesmo.

Indagar-se sobre si e sob si enlouquecer.

Afrânio Peixoto cai em si:

“O sertão é o recesso, é o íntimo do deserto...”.

Ivanildo Vila Nova, dos maiores cantadores que já vi e ouvi

Sertanejos morrendo de magote
A bandeira rasgada era um molambo
O quartel sem guarita era um mucambo
A trincheira era a grimpa de um serrote
A metralha um feioso clavinote
Baioneta era a lança do carreiro
A corneta o búzio do vaqueiro
Parapeito e gibão sua roupagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Conselheiro

O episódio de Canudos, como está n’Os Sertões, abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões,

promove um massacre,
estabelece o terror,
o Apocalipse,
o Armagedom.

Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático.

Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino.
Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu.
Um ogro voraz,
um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira.

As insígnias, entretanto, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

Voltei a pensar, a ação se fez

1.
Pensemos com Augusto dos Anjos em Os doentes

Mas, diante a xantocróide raça loura,
Jazem caladas todas as inúbias,
E agora sem difíceis nuanças dúbias,
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!
(...)

As reflexões do poeta são a janela para os nossos próprios olhos. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família.

Um índio chamado Galdino.
Um índio chamado Jesus.
Dos Santos.

2.
O que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

Arrancou-se-lhe o cobertor,
virou-se-lhe a cama,
incendiou-se-lhe o sono,
fecundou-se-lhe o pesadelo.

3.
Gonçalves Dias, O Canto do Piaga


Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade –
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracá.


Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

(...) Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!


O silvo alertando para a cova profunda,
boca aberta,
escancarada, para sorver mata, índio, memória.