domingo, 16 de dezembro de 2007

Bíblicas

Bíblicas

1.

O pênis torto de Abrahão
é de Isaac

O tênis roto que esfola o chão
é de araque

de Isaac: o Ser holocausto.
de araque: querer-se Fausto.


2.
Em nossa cama, ó rainha,
Jorra leite
Jorra mel

E tua vulva é um sarcófago:
ave para o Xeol!

3.
(São Sebastião
É incômodo para quem o fela )

Enquanto o outro, estático,
Pensa em outrem
A boca que se doa
Morre aos poucos de braços abertos.
E o templo nem tem véu
Para rasgar-se!


4.
A Anunciação não veio pelo correio
Pela veia-veio
Pois ali
Na protuberância do ante-braço
Gabriel acelerou-me o coração
E meu útero abocanhou-lhe a glande!

5.
O asno fugiu para o Egito piramidal
Em seu dorso:

Eu, mamãe e Freud!


6.
Na hora nona
Deu-se o caso:

Sobre um fundo púrpura
Alguém se derramava
Lendo Carlos Zéfiro.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Preparando o CD

Depois do sucesso de lançamento da Confraria, dia 8 passado, embarcamos na construção e confecção de nosso CD com música experimental. Quem quiser conferir é só clicar no link Babeliana e ouvir. Se quiser opinar ficarei grato!

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Não se esqueçam

Duas ou mais coisas que dão pano para manga

Quando a cara pulsa
qualquer hipocrisia
se revela


A maior agressão está
na recepção
não no discurso


Quando se confunde
agressão com ironia
come-se o pão do amargor


A ironia é uma figura,
a agressão
só desfigura


Quando a carapuça
se revela
morre-se de hidropisia

O queijo do reino, a pimenta-do-reino e A Pedra do Reino

1. Conheci Bráulio Tavares no final da década de 70 e início dos 80 lá no mesmo lugar onde nasci, na fantasmagórica cidade de Areia, no brejo da Paraíba, cuja capital é João Pessoa. Aliás, meus colegas, há um movimento social legítimo mexendo com as tripas políticas da terra de Ariano. Como sabemos, aquele estado, terra de bravos, mas também de bravateiros, ostenta em sua bandeira rubro-negra, a palavra NEGO, em letras brancas. É uma alusão ao fato de, nas eleições presidenciais de 1929, João Pessoa, o presidente da Paraíba, ter negado apoio à candidatura de Júlio Prestes, o candidato oficial de Washington Luiz, o presidente. Aliás, a bandeira da Paraíba é vermelha pelo sangue derramado (João Pessoa seria assassinado no ano seguinte) e negra pelo luto com o qual a Paraíba se cobriu. Simbologias exaltadas e hoje já sem nenhum significado mais abrangente. O certo é a presença ativa desse movimento restaurador: quer restaurar o antigo nome Parahyba, esse sim, mais legítimo, segundo seus partidários, para depois restaurar a bandeira do estado.

2. Sim!!! Eu falava, ou escrevia, do meu encontro com Bráulio Tavares. Era o Bar de Seu Dedé. Foi lá, meio à cachaça brejeira, rodeado de gente, que Bráulio cantou Caldeirão dos Mitos, gravada em seguida por Elba Ramalho, constituindo-se num sucesso nacional. Depois vi o show do cabeludo de Campina Grande no palco do Colégio Santa Rita: Balada do andarilho Ramon e Meu nome é trupizupe nunca mais saíram de minha parada de sucesso particular, do meu cânone. Transformaram-se em meu queijo-do-reino. Talvez os colegas leitores não saibam da simbologia para nós, paraibanos do interior, da periferia das cidades periféricas, desse artigo lácteo. O queijo-do-reino era o nosso mais elaborado sonho de Natal. Uma mínima fatia seria o máximo na ceia que nunca tínhamos. Era raro entre nós, era cara sua cara de bola.

3. Um dia, na feira livre da cidade, masquei, por engano, uma pimenta-do-reino. Aquilo ardeu-me dias, além de intoxicar meus intestinos até hoje. Eu era uma criança curiosa. Peguei medo de pimenta-do-reino. Já aliviei minhas tripas quanto a isso, mas vou devagar. Nunca soube, nem sequer pesquisei, porque chamam-na de pimenta-do-reino. O mesmo vale para o queijo do reino. Só sei que o queijo ficou-me como marca do prazer e a pimenta, do sofrer. Agora, voltando ao caso de João Pessoa, o político, a história fala de seu assassinato por parte do advogado João Dantas, primo da mãe de Ariano Suassuna. É também sabida a história de João Suassuna, pai de Ariano, morto num episódio anterior, de natureza covarde, pelas costas, por um partidário de João Pessoa. O autor de O auto da compadecida, neste ano de comemoração de seus 80 anos ficou ainda mais rouco de tanto contar essa história. Excelente contador que é.

4. O Movimento Armorial idealizado por Ariano foi outro dos meus queijos. O maestro Cussy de Almeida, à frente da Orquestra Armorial regia uma versão de Sem lei, nem rei, de Capiba. Uma canção dolente, um pôr-do-sol doente, o gado tilintando seus chocalhos, essas imagens da seca nordestina e eu sonhando. Transportar a música para a realidade (ou aproximá-las) foi meu primeiro exercício intelectual arrazoado. Minha imaginação conseguia unir o caldeirão de Bráulio ao caldeirão Armorial, embora fossem caldeirões diferentes e diferençados. E neste ano de ouro para Ariano, Bráulio Tavares tentou levar a cabo a empreitada de aproximar o Armorial da imagem, verteu em roteiro para a TV Globo A pedra do reino. E essa versão foi uma pimenta-do-reino tão violenta que vai ser difícil de me curar. Pois o Trupizupe conseguiu partir o queijo-do-reino e deixá-lo cair nas águas turvas do Rio Taperoá em tempo de cheia. A Pedra rolou para longe. O pobre expectador conhecedor de O auto da compadecida sofreu com a esquisita adaptação. Foi tortuoso. Tanta expectativa resultou em pouco entendimento.

5. Atenção, colegas: minha reflexão é apenas opinativa, passional. Reflete solitariamente o meu parco olhar e sei que me perco, ou por não estar preparado, ou por ser ignorante. Ou, mesmo, por viver as duas anti-qualidades ao mesmo tempo, o que é mais certo. Deixa ser mais preciso: quem tiver a coragem de ler A pedra do reino vai comungar da visão verdadeira da saga formadora de nossa gente. É um romance grosso e cabeludo. A determinação do adaptador e sua maestria não garantiriam, como não garantiu, o êxito da travessia. É um caso para muitas mortes. É um canto para muitos motes. O movimento restaurador, que quer o nome de Parahyba para a capital dos paraibanos e a mudança da bandeira, faz-me acreditar na possibilidade do reencontro do povo consigo mesmo e seus reflexos nos indivíduos. A adaptação de A pedra... para a televisão poderá ser revista por mim num futuro próximo, talvez depois de contemplá-la no cinema. Por enquanto ficam meus sabores mais arraigados: A pedra do reino, quebrando meus lábios de títere; o queijo do reino, povoando minhas papilas ancestrais; a pimenta-do-reino, arranhando-me, como uma lixa 14, o tubo digestivo. Ôpa!! É bom ressaltar para os mais ousados que não julgo ter havido, na adaptação, nem covardia, tampouco assassinato!

    quarta-feira, 17 de outubro de 2007

    Quadrão quirino (idealizado por João Rolim sobre original de Jessier Quirino)

    1.
    A noite cai, o céu se rasga pela lua cheia
    Uma candeia acesa e rica em chama poderosa
    Noite gostosa meu barco paira no oceano prata
    a serenata da estrela guia a mais luminosa
    e eu, todo prosa, lanço meu grito, busco uma sereia,
    Sangue na veia muito mais quente (é chama rugosa)
    por vezes dosa o medo seco de esperançado
    e esperançado somente o medo por vezes me dosa!


    2.
    Modalidade muito boa, preciosa e rara
    Se equipara a outras tantas de difícil cria
    Se todo dia fizermos versos que nos pedem brilho
    Fora do trilho o nosso trem constrói neo-ferrovia
    O cancão pia, a porca torce o rabo em parafuso
    fazer bom uso da pena indócil que tudo copia
    Com maestria buscando brilho mais original
    Do original busco a essência: fé com maestria!


    3.
    Fogo na lenha, a noite esfria e é preciso colo!
    Eu me enrolo nesse cabelo (edredom quentinho).
    quero carinho tenho de sobra todo que preciso
    imortalizo o corpo inteiro em lençóis de linho.
    Digo baixinho: — Chega mais perto, roça aqui teu pêlo!
    Ao meu apelo sinto a penugem, o seio durinho,
    parece um pinho o corpo nu da mulher que me enlaça
    e nos enlaça a labareda que parece um pinho!

    4.
    O novo causa nos incautos o estranhamento
    Um alimento que, ao contrário, rouba a vitamina.
    É uma mina de ouro e luz essa modalidade
    Traz de verdade o desafio, o jogo, a disciplina.
    Matéria fina que exige esmero, olhar meticuloso,
    Requer que o gozo se demore, espere na oficina.
    Cumprindo a sina reflito sério que quem for poeta
    Se for poeta tente o quadrão cumprindo a sua sina!

    <5.
    Onde os poetas? Em que lugar se escondem trovadores?
    Mostrem as cores. Entrem em campo trovando o quadrão.
    Inspiração? Busquem no fundo, mais profundo canto
    Onde o espanto cedeu lugar à realização.
    Siga o João, siga a Tessa e também siga a mim
    Fazendo assim vamos além da simples criação
    Na escuridão se busca a luz, se encontra a lamparina
    E a lamparina guia teu passo na escuridão!

    6.
    A língua trava contemplando a entranha inexprimível
    Inexequível construir frases sem matéria exata
    Um sol de lata, um céu de aranha, um arranha-céu,
    som de tetéu, de arapongas com bicos de prata
    bigorna intacta, o ferro em fogo é a língua em brasa
    em cova rasa sepultar-se-á o poeta-pirata.
    Sua pena rata é má, vilã, é cópia malfadada
    E malfadada se auto-acusa sua pena rata.
    >

    7.
    Qual a matéria que este quadrão por ela velará?
    O Opará? O rio grande salvador dos bichos?
    Os carrapichos? Essas estrelas perfuro-cortantes?
    Talvez brincantes? Mambembes astros com os seus cochichos?
    Os largartixos? Machos/calangos/teús/papa-ventos?
    Os sentimentos? Fofocas/falas/delações/bochichos?
    — Jamais os lixos que nos ofertam e que nos consomem
    E até consomem a gente toda, mas jamais os lixos!!

    8.
    Pedras calcáreas: meu coração nelas se fere e morre
    Nada socorre meus membros rotos, descascados, tortos,
    Ervas são portos: cadê o cais para que eu atraque?
    De baque em baque, meus olhos cegos, mais que cegos, mortos!
    Pés absortos nas trilhas magras de um destino seco,
    Sou um boneco, marionete que produz abortos.
    Andei por hortos transfigurando meu semblante em luz.
    Busquei a luz nos olhos Teus, fiz de Teus braços hortos!

    9.
    Mamãe morreu faz quinze anos, lembro todo dia
    Da alegria que era tê-la sempre do meu lado
    sentir-me amado, protegido do mundo estranho e duro
    e do apuro que para mim era o viver pisado,
    o agregado, aquele que trabalha ao sol diário,
    cujo salário é ver seu cenho sempre enrugado.
    Desse legado, mamãe livrou-me todo santo dia
    E todo dia deu sua vida contra esse legado!

    10.
    Andei calado pelas esquinas dos desiludidos
    dos desvalidos que já perderam fé e esperança
    (uma criança de quem roubou-se o olho e o sorriso)
    de improviso armei barraca e escondi minha lança.
    Não quis a dança acabrunhado no canto da sala;
    Fui à senzala viver com os meus, sonhar que se alcança
    aventurança no suportar as dores sem fazer alarde
    Mas fiz alarde: só no quadrão há bem-aventurança!

    terça-feira, 4 de setembro de 2007

    MUHAMMAD IBRAHIM BU'ALLU

    Traduzi para a revista Confraria dois pequenos textos do escritor marroquino Muhammad Ibrahim Bu'allu. Doutor em Filosofia e professor na Universidade de Rabat, Marrocos, escreveu "O jinete e o cavalo". É a primeira tradução para o português, mesmo que insignificante, de sua pena. Parte de suas Historietas em minuto


    A árvore

    Sentaram-se debaixo da árvore para, sob sua sombra, protegerem-se do sol, tiraram a comida de suas marmitas, colocaram diante de si e começaram a comer em grupo; logo deitaram no chão antes que terminasse o tempo do almoço e da sesta e tivessem que voltar ao trabalho duro novamente.

    A sonolência desceu sua mão pesada sobre suas pálpebras, enquanto as folhas compunham a música da canção que embalava seus sonhos. Já têm com essa árvore encontros diários que se repetem desde que ali chegaram; mais ainda, ela se converteu em sua sala de jantar, na qual almoçam e compartilham o pão.

    Um deles pensou: é a única árvore por aqui. E estava certo. Este lugar antes era um verde de árvores, no entanto eles mesmos, era seu trabalho, as arrancavam pela raiz. Casas tomariam conta da paisagem.

    Alguns pássaros iniciaram uma sinfonia, um diálogo musical com as folhas, ramos e galhos, e a música os reconfortou e quiseram ficar ali, à sombra fresca, por mais tempo; todavia alguém grita, ferindo a harmonia, o fim do descanso.

    Levantados, seguiriam de volta ao trabalho, porém a voz rouca dava ordem para permanecerem ali; veio até eles, postou-se ao centro, definiu suas ordens e se foi.

    O tempo pareceu suspender-se frente ao silêncio profundo de seus olhares. Não se sabe de sua comoção, sabe-se apenas que com suas picaretas arrancaram-na pela raiz, afugentando os pássaros.




    O homem silencioso

    Em qualquer botequim, bar ou lugar de reuniões ele está lá; sempre presente, pensativo com seu cigarro entre os lábios, que, de vez em quando, segura com a mão e bate a cinza.

    Todas as línguas repetem seu nome; seu lugar está guardado em todos os encontros, festivos ou não. Se alguém quer conhecê-lo, basta saudá-lo com o olhar, balançando a cabeça. Ele responderá da mesma forma. Ninguém, entrementes, é capaz de conhecer sua opinião sobre isso ou aquilo.

    Sabe escutar; pelo menos é o que parece; se não escuta seu interlocutor, da mesma maneira que não fala, não é possível demonstrar e só ele poderia confessá-lo.

    Todos acham que não é perigoso; mas quem seria capaz de provar tal fato sobre um indivíduo presente em todas as rodas sem que ele expresse opiniões sobre o que se fala...

    Alguém tentou. E esteve com ele diversas vezes; conversou com ele sobre diversos assuntos; o homem silencioso movera sua cabeça afirmativamente em relação a tudo que ouvira. Então este alguém convenceu-se de que ele não era perigoso, pois expusera uma idéia que ele aceitara, para, logo, lançar outra idéia, de sentido oposto, e ele também concordara. Na verdade, o homem silencioso escuta mas não ouve e está presente em toda parte e o mundo todo o conhece.

    Três coisas as quais eu não quero nem devo esquecer

    1. A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina.

    2. É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia-a-dia, na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais, privando-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Mas não sem antes tentar espelir-me, tomando chás amargos para abortar. Todavia eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes àquele útero quente e promissor.

    3. O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

    sexta-feira, 31 de agosto de 2007

    O desenho no tapete, como diria Henry James (windows retiradas dos editoriais da Revista Confraria, com autorização)

    1. Os fundamentos. “A terra é redonda como uma laranja”, afirmara José Arcádio Buendía à sua amada Úrsula. Esta convenceu-se de sua loucura, mas Macondo cumpria sua saga e nada poderia deter a civilização. Perplexo diante das maravilhas trazidas pelos ciganos, entre elas um tapete voador, Buendía idealizava instrumentos, solitário. Seu modo de ver o mundo, circunscrito aos limites de sua aldeia, tornava-se um elemento incômodo à vida pacata e leve dos seus conterrâneos.


    2. Os alicerces. Se a loucura é uma marca de exclusão, seja ela, a loucura, doença ou saúde mental, nós adentramos os seus labirintos. Entretanto, olhando pela janela, fica-nos a pergunta sempre imutável de Augusto dos Anjos: “Para onde iremos, montados nesse cavalo de eletricidade?” Sabe-se apenas de uma parada gay sob bombas em Jerusalém. De um Papai Noel pedófilo, preso em Nova York. De uma bomba-atômica testada com sucesso na Coréia do Norte.

    3. As estruturas. Antes do Natal, antes do Ano Novo, ouçamos atentos os conselhos dos tarólogos: aprendamos com quem dá as cartas. Se cartas marcadas, se cartas na manga, se cartas de navegação: sejam todas epístolas de bem-aventurança, de boas novas. Todavia não esqueçamos que haverá sempre um lugar em que nada se cria, nada se transforma e tudo se perde. Não seja aqui. Navegar será sempre preciso, viver é que é impreciso!


    4. Os tijolos. “Quando ando pelas ruas do Rio e de Salvador, os signos corporais transformam meu corpo europeu num outro ser”. Isso foi dito por Henri-Pierre Jeudy. Quando esteve pela décima vez no Brasil, em 2005, e lançou seu livro Espelho das Cidades, o filósofo-sociólogo-escritor pensava na espetacularização das cidades como mote de suas propagandas. Sobre o Brasil e a América Latina pensaríamos mais abrangentemente. O espetáculo é geral, horizontal e verticalmente, uma parábola. Ali na esquina dos mundos estão nossos governantes espetaculares, brandindo discursos e cerrando os punhos para a CNN. Que a terra lhes seja leve.


    5. A cimentação. Quando nos deparamos com o naipe afro-cubano de Buena Vista Social Club e sua sensualidade, não vemos Habana Vieja espetacularizada. Seremos videntes e veremos espectros. Ghosts de um mundo antigo, de fausto apócrifo, de riquezas saqueadas, ruínas da história. Wim Wenders o gravou em vídeo digital. A tecnologia mais avançada resgatando a tradição mais conservadora. Seria o ouro sobre o barro. Ou o diamante sobre as asas, ou o desejo do ouro e a necessidade de possuir asas.


    6. As lajes.
    O maior herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais pertence. Éramos a nação Senna num bólide a 300 Km/h. Até o muro da Tamborello, em Imola. A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os pós-modernos alardeam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria preenchida.

    terça-feira, 28 de agosto de 2007

    O preço da leitura (Flip, flap, flip, flap)

    Outro dia ouvi não sei quem dizer (talvez João Ubaldo, não lembro) que seus personagens vão tomando vida e se alforriando de seu senhor, no caso, dele, o autor. Estou para desenterder-me (se é que já entendi) desses casos da criação literária. Estou mesmo à beira de desacreditar e duvidar de toda e qualquer referência à literatura. O caso é que à beira da derrota descobri, finalmente, duas figuras opostas em seu ofício de escreviver. E encontrei-os no mesmo lugar. Na TV, fora de qualquer coisa que se pareça com o texto escrito, esbarrei com Amós Oz e Tom Clancy. Dois nomes conhecidos, para mim apenas referências, pois nunca os havia lido. E saí atrás de suas penas. Do primeiro pus-me a caçar O mesmo mar. Do outro, Caçada ao Outubro Vermelho. E deparei-me com eles em sebo. Amós Oz estava num sebo do Largo da Carioca. Tom Clancy numa barraca em Vicente de Carvalho. Tão distantes um do outro, tanto na escrita como na geografia. Essa caçada em busca do mesmo mar fez-me pensar que vender livro também é um negócio. Pelo primeiro paguei R$ 9,90 e pelo segundo R$ 5,00. Em bom estado. E corri para casa. O próximo passo seria usufruir dos R$ 14,90 que investi nas compras. Mas será que esse prazer (o de ler, não o de consumir) vale mesmo o preço pago? Não sei avaliar, pois os mesmos livros, buscando-os num desses sites que fazem comparação de preços de produtos na internet, variavam seu preço em vários porcentos. Oz alcançava o teto de R$ 48,00 e Clancy bateu os R$ 39,00. Já fui me sentindo melhor, começara o prazer de não ter gasto R$ 87,00 pelos meus colegas, já que eles não pagariam isso por mim.


    Logo depois, fui convidado para ir à Festa Literária de Parati. Não foi a organização da festa que me convidou, nem qualquer figurão literata. Foi um amigo de mesa de bar. Confessei-me avesso a esse tipo de evento. Acho que não contribui para a Literatura e sua desmistificação de coisa da elite resolvida financeiramente. Mas ele tentou convencer-me com o argumento de que Amós Oz estaria lá, numa tenda, chamada Tenda dos Autores. E eu pensei: “Pôxa, que legal, os autores ficam numa tenda, independente de seu status.” Eu pensava que era uma tenda de verdade, daquelas de acampamento, e que os autores estariam lá, por amor à literatura, acampados, conversando com os transeuntes. Seriam gente comum, já que estariam numa festa aberta ao público. Não, não era. Eu teria que pagar R$ 26,00 para entrar, sentar sem me mexer, com mais não sei quantas pessoas. Ou R$ 6,00 para ver num telão numa outra tenda chamada Tenda da Matriz. Aí pensei que isso não era para mim, era para ti, leitor amigo!


    À noite, depois de rejeitar o convite do colega, fui aparteado por Márcio-André, o poeta recém-chegado ébrio e radioativo da Europa, dando-me conta de que fora convidado para a Flap. Imaginei os altos vôos do bardo já que, até então, a Flap era apenas uma revista dedicada à aviação. Não, não! Flap é a festa literária alternativa à Flip. E tem como bandeira observar o comportamento da literatura alheia ao (ou fora do) circuito comercial. Perguntei-me como se pode estar fora desse mercado, se qualquer autor que publicar um livro, um livreto, um opúsculo, uma plaquete, um cordel, está dentro? Ah! Sim! São aqueles que ainda não entraram no pequeno círculo dos convidados à mesa da Tenda dos Autores em Parati. Penso que no Brasil só um poeta conseguiu ser alternativo até o fim, sem necessitar do mercado editorial, nem de tenda: Gregório de Matos, o sobrevivente. Desejei boa sorte ao Márcio-André em seu encontro alternativo.


    Entretanto, além do aparte do André, recebi também minha fatura de cartão de crédito, R$ 49,00. Mas não foi só. Nela, à parte, uma oferta imperdível: toda a obra de Paulo Coelho por R$ 99,00. Tremi, assim meio que tomado por uma energia estranha. Uma energia cósmica. E compreendi meu destino: Maktub! Aquilo era uma senha. E era premente que eu me apoderasse dessa benção. Liquidação, Paulo Coelho estava sendo liquidado. Toda a obra: R$ 99,00. E eu tinha crédito no cartão. Felizmente saí do transe rápido graças ao Mauro Halfeld e seu alerta: não ceda às tentações. Não cedi. No sebo o Coelho sai por R$ 1,00. Se vale ou não, mago leitor, resolve com tua tenda pessoal.


    Outra surpresa aquela noite me traria. Ao abrir o e-mail, recebia, ali no écran, o orçamento para a publicação de meu livro, minha dissertação de mestrado: R$ 5.000,00. Com direito a lançamento na Bienal. Quando li esse nome, Bienal, desestimulei-me novamente da literatura. E passou-me pela cabeça tudo que vivi para ir à Bienal no Riocentro. Paguei R$ 15,00 para estacionar, já havia pago aproximadamente R$ 3,00 de pedágio na Linha Amarela. Mais R$ 30,00 para eu e minha esposa, mais meia para minha sogra, que é idosa, e meia para minha filha. Comemos uma pizza horrível com refrigerante quente. Fechamos a conta em R$ 100,00 numa noite. Comprei livros infantis a um vendedor encervejado e nada mais. A média do preço dos livros, na época, era de R$ 40,00. Fiquei vacinado e cético. Por isso acredito que os personagens, como ouvi alguém dizer (talvez João Ubaldo, não lembro), tomam vida própria e se alforriam da vontade do seu senhor, no caso o autor. E devem, como nós, pagar um alto preço pela ousadia!

    domingo, 1 de julho de 2007

    O coração da madeira (atualizado)

    1. Tocar a alma da terra
    Sentir o pulso de tudo
    Ouvir os sons inaudíveis
    ver no caminho o escudo
    do signo de Salomão,
    os pés e o falo de Adão,
    O fruto da macieira
    É o mel de quem procura,
    talha, lixa, corta e fura
    O coração da madeira


    2. Sulcar a tez, superfície,
    com traços tortos ao inverso
    do que se vê refletido
    no espelho, cristal anverso.
    Com o sangue da própria mão
    lambuçar a criação
    soprar-lhe vida, videira,
    É o mel de quem procura,
    talha, lixa, corta e fura
    O coração da madeira!

    3. No coração da madeira
    vi sulcos formando gente
    uma vasta cabeleira
    sendo alinhada num pente
    Uma mão tocando as cordas
    outra desenhando bordas
    um homem com seu chapéu
    Um jacaré muito bravo
    e um menino que era escravo
    de sua pipa, no céu!


    4. Quando perdi a visão
    pude passear meus dedos
    no coração da madeira
    para saber seus segredos
    como o corpo da amada
    senti a curva marcada
    montes,vales, pulsação
    chorei um choro baixinho
    como um menino sozinho
    sem pai, nem mãe, nem irmão!

    5. Perguntei para mim mesmo:
    quem trabalhou desse jeito
    O coração da madeira
    para deixá-lo perfeito?
    A mesma fotografia
    que na minha vida eu via
    estava ali retratada.
    Até o olho incisivo
    que me fazia cativo,
    lá na imagem gravada!


    6. A madeira não dobrou-se
    aos meus caprichos de artista.
    Seu centro todo encrespou-se:
    nem veio, filão ou pista.
    Não encontrei dentro dela
    Uma minúscula janela
    para o sol da inspiração.
    Fugiu-me, assim, sorrateira.
    O coração da madeira
    da palma de minha mão!

    7. O véu do templo em pedaços
    E o céu chorando de dor
    A tarde com seus mormaços
    e o sangue com seu odor.
    Três espectros contra o fundo
    de púrpura num tom profundo:
    As cores da sexta-feira!
    Olhando paralisado
    vi Cristo crucificado
    No coração da madeira!


    8. Aviões estão no solo
    os vôos já cancelados
    No saguão procuro um colo
    todos estão ocupados
    Olhei para o celular
    Que não quer mais trabalhar
    Por falta de bateria
    Vou talhar esta bobeira
    No coração da madeira
    Pra me lembrar deste dia!

    9. Alguém me disse que a Terra
    está desequilibrada
    que os rios estão em guerra
    que a mata foi derrotada
    que o céu se abre em buracos
    que o mar invadirá nacos
    de firmeza para os pés.
    Na procissão domingueira
    o coração da madeira
    seduzirá os fiéis!


    10. E aqui no chão da cidade
    aos pés do Cristo incrustado
    há algo de fealdade
    circundando o Corcovado
    O morro entrou pelo mato
    os verbos fizeram um trato
    de longe ouviram seus ecos
    conluiando as alianças
    esquartejando crianças
    como se fossem bonecos

    11. E o que dizer dos amores
    que a vida nos legou?
    As frutas com seus odores?
    o que o vento soçobrou?
    o que nunca foi escrito?
    a nudez? um gesto? um grito?
    e um tesouro enterrado?
    O coração da madeira
    foi amigo de primeira
    Nas dores do meu passado!


    12. Os lábios de Iracema,
    Irene preta no céu,
    Retirante Severino,
    Leandro com seu cordel,
    Mulheres de Jorge Amado,
    Quixote aprisionado
    na lâmpada de Aladim.
    A literatura inteira
    No coração da madeira
    macia como um pudim!

    13. Esse cheiro de café
    com pão de queijo quentinho
    não tem sabor de mulher
    nem gosto de seu carinho
    mas entra como uma faca,
    como se fosse uma estaca
    cortando a pessoa inteira!
    No interior das Gerais
    somente aqui que se faz
    no coração da madeira!


    14. (Aquele preço do cedro
    condiz com o peso da cor)
    De avermelhado me medro
    no mar rugindo em furor:
    O casco de minha nau
    procura nas ondas vau
    por onde possa passar.
    Só há passagem certeira
    no coração da madeira
    que comecei a entalhar.

    15. Os sulcos de minha vida
    têm se tornado mais planos.
    Ficarão mais rente ao solo
    com a passagem dos anos.
    E quando chegar a hora
    em que eu precise ir embora
    para o outro lado do muro,
    haverá coisa certeira:
    O coração da madeira
    será meu porto seguro!

    sexta-feira, 15 de junho de 2007

    Orientações para a entrega das avaliações

    1. As avaliações devem ser entregues em PAPEL ALMAÇO (nunca em folha de caderno, nem papel de ofício ou A4); manuscritas; contendo cabeçalho com nome da faculdade, curso, nome, período e matrícula do aluno, na ordem de cima para baixo, alinhado à esquerda; com letra legível; limpas e sem rasura; datadas e assinadas.

    2. As respostas iguais serão julgadas cópias e avaliadas com a nota mínima.

    3. Serão recebidas até às 21:20h do dia 21 desse mês.

    A honestidade intelectual é uma ferramenta dos homens de bom caráter. O seu contrário é uma praga, uma doença que, infelizmente, infecta os bancos de nossas escolas. Não seja esse o nosso caso.

    Obrigado e boa sorte!

    Avaliação de Literatura Brasileira

    Caráter Individual

    Questão Única

    Analise, comparando-os e inserindo-os no contexto ideológico do Romance Social de 30, os trechos abaixo, retirados dos romances A Bagaceira, de José Américo de Almeida, O Quinze, de Rachel de Queiroz, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos:

    Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos, e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas. (A bagaceira)


    Em toda a extensão da vista, nem uma outra árvore surgia. Só aquele velho juazeiro, devastado e espinhento, verdejava a copa hospitaleira na desolação cor de cinza da paisagem. (O quinze)


    Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. (Vidas secas)


    Boa sorte! Amém?

    Avaliação de Literatura Portuguesa

    Caráter Individual

    Escolha uma das questões para responder

    1. O poema de José Neumanne Pinto, transcrito abaixo, é um típico texto no qual abunda a intertextualidade. Pede-se encontrar referências a personagens e fatos do livro Memorial do Convento, de José Saramago, relatando o papel de cada um na trama tecida pelo escritor português.

    A SEARA DE SARAMAGO

    Esta língua é minha semente,
    machado de mulato do morro,
    pátria de poeta lisboeta.

    Esta língua é minha visão,
    o sol do soldado caolho,
    a mão do soldado maneta.

    Esta língua é minha música,
    na palavra do padre pregador,
    no pássaro do padre voador.

    Esta língua é minha mulher
    tem cuidados de mãe
    no leito da amante.

    Esta língua é minha rosa,
    tem perfume dos sertões gerais,
    tem sabor de vinhos do Porto.

    Esta língua é meu cavalo
    para subir cidades e serras,
    que a brisa do Brasil beija e balança.

    Esta língua é fel com mel,
    cantigas a palo seco
    de ninar o futuro.

    Esta língua é meu coração,
    na tortura, na paixão
    e no sal amargo da purificação.

    Esta língua é jóia africana,
    ela caça a onça caetana,
    ela cruza a légua tirana.

    Esta língua é fruto de meu ventre,
    mata sede de amizade,
    me arma nos bons combates.

    Esta língua não é de viver,
    língua de navegar e de lamber
    e de dançar o tango argentino.

    Esta língua é meu berço,
    esta língua me conhece,
    esta língua é meu caixão.


    2. A partir da reflexão abaixo, disserte sobre o tema do livro e a posição do narrador de Os cus de Judas, de António Lobo Antunes:

    O branco veio com um chicote e bateu no soba e no povo.


    Boa sorte! Amém?

    terça-feira, 22 de maio de 2007

    As releituras no cordel e suas condenações

    As releituras têm seu valor, entretanto cabe-nos pensar em algo. Tenho defendido a inserção definitiva do cordel como parte crucial da formação da literatura brasileira e ele mesmo como literatura. O cordel é a base do Romance Social de 30 e do Movimento Armorial. Está no cerne de toda a música popular brasileira e do Cinema Novo. Revolução da comunicação social de massa e definidor da identidade cultural nordestina. Sendo assim fica-me impossível acreditar em releitura de clássicos do cordel. E explico: já se ouviu falar em releitura do Dom Quixote, de Os Lusíadas, de Iracema, de Macunaíma? Desconheço. A explicação é que é impossível reler a literatura (assim como a pintura, a fotografia, a escultura). Toda a releitura literária dá à luz outra obra, de valor diverso. É outra versão. A releitura é válida para a música e para o teatro, nos quais se conserva o que há de literário e atualiza-se o que há de sonoro (na música) e cenário (no teatro). Vejam-se as diversas releituras de Asa Branca (a última, magistral, de Sivuca, no disco Sivuca Sinfônico) e de Hamlet (inclusive uma releitura em desenho animado: O Rei Leão). Ou mesmo as releituras de Lamento Sertanejo, o Forró do Dominguinhos. Não há releituras para Mona Lisa de Leonardo, nem para O Pensador de Rodin ou para Serra Pelada de Sebastião Salgado. Por isso eu não chamaria de releitura, mas de nova versão.

    Gostaria de refletir sobre o caso de Coco Verde e Melancia . Uma das versões desse folheto, de 1958, editada pela Prelúdio Ltda, segundo página de rosto do folheto está registrada na Biblioteca Nacional sob nº 11452 traz como autor Manoel Pereira Sobrinho. A história é a mesma contada por José Camelo de Melo Resende, mudam-se os nomes dos personagens. No caso de Coco Verde, a versão de 58 é mais rica em termos gráficos, a capa é avançada para a época, com ilustrações bem cuidadas dentro do folheto, na verdade, três pranchas, que o colocariam à altura de outras publicação folhetinescas da época, cujo objetivo era atingir o público urbano, com foco no sexo feminino.

    Dois casos

    1.São Saruê: quando Manoel Camilo dos Santos escreveu Viagem a São Saruê não sabia no que estava se metendo. Certo dia recebeu a visita de Orígenes Lessa e ficou estupefacto com o alcance de seu folheto, que ele julgava despretensioso. Pois bem o folheto deu no documentário de Wladimir Carvalho, um marco, considerado o primeiro épico do sertão. Deu no livro infantil Aventuras em São Saruê, do próprio Lessa, que transforma Camilo em personagem. Resultou ainda em entrevista publicada em A Voz dos Poetas, da Casa de Rui Barbosa.


    2.O boi misterioso: Leandro Gomes de Barros ao contar a história do boi misterioso abriu a porteira para O Boi Aruá, de Luiz Jardim, considerado o mais belo livro desse gênero (infanto-juvenil) por Monteiro Lobato e para História do Boi Incantado, canção épica de Elomar.


    O que não posso afirmar é que essas versões, adaptações, releituras, fortaleceram a busca pelo cordel. Mas posso afirmar que definitavamente inseriram o cordel no contexto sócio-político-cultural do país.

    Acrósticos

    O acróstico é a assinatura do poeta cordelista. Sua marca contra a adulteração do seu trabalho. Mas essa assinatura em acróstico revela um fato comum no meio literário: a apropriação de obra de autor. Mesmo com leis protegendo os direitos autorais, ainda hoje é fato renitente. Transportou-se para o cordel aquilo normal na pintura: a assinatura como atestado de veracidade da autoria. . Minha contribuição:

    De A Praga de Gafanhoto no Sertão Paraibano, de Caetano Cosme da Silva:

    C om fé em Deus verdadeiro
    A pessoa que viver
    É feliz em todo canto
    T ambém tem muito prazer
    A lcança toda vitória
    N ão tirando da memória
    O Deus de tanto poder.


    De A Malassombrada Peleja de Francisco Sales com o "Negro Visão":

    F aço ponto meus amigos
    S obre a tremenda porfia
    A todos peço desculpas
    L endo esta poesia
    E spero de cada um
    S ua boa garantia


    De A Verdadeira História de Lampião e Maria Bonita, de Manuel Pereira Sobrinho:

    P rovou que quis viver bem
    E stimado e sendo amado
    R evoltou-se com razão
    E mbora sem resultado
    I mplantou o terrorismo
    R olou no véu do abismo
    A té o último intrigado


    É necessário observar que a confecção do acróstico requer estudo e reflexão. Os versos devem estar inseridos na narrativa. É a conclusão do trabalho, como uma máxima, a moral da história. Entretando o arranjo, e isso talvez já funcione como licensa poética, gostaria até que outros comentassem, interfere na estrutura geral do Cordel. Os exemplos que coloquei servem a essa observação. Vejam o acróstico do Caetano: o E vem acentuado, atrapalhando a pronúncia do seu nome. O caso do Francisco Sales, o segundo exemplo, no texto original vem assim F., com esse ponto abreviando o Francisco. No terceiro exemplo, acontece a seguinte curiosidade: o cordel é todo sextilhado. Percebendo que Pereira tem sete letras, o autor muda a estrutura das estrofes para sete versos. A constatação fica mais rica ao se perceber que essa mudança procede nas últimas sete estrofes do poema. Ou seja: um caso premeditado, um índice semiótico para o estudioso. Acho essas coisas fascinantes. E é isso que faz a riqueza do Cordel.

    Vejamos como termina o folheto A Chegada de Getúlio Vargas no Céu e seu Julgamento, o autor saberemos pela assinatura:

    Assim Getúlio foi salvo
    Do seu gesto delirante
    E breve virá à Terra
    Como um chefe triunfante
    Para ajudar o Poeta
    RODOLFO C. CAVALCANTE.


    Ora, não querendo interferir na estrutura geral do cordel, Rodolfo Coelho Cavalcante preferiu assinar-se no último verso com o nome completo, abreviando, artificialmente o Coelho.

    Agora, um outro caso encontrado em minhas pesquisas no folheto Morte, Saudade e Lembrança de Severino Ferreira, de Zé Saldanha:

    S obre a dívida da morte
    A nossa vida é quem paga,
    U m bom amigo da gente
    D aqueles que a gente afaga,
    A morte dura e malvada
    D á-lhe uma boa bordoada
    E le depressa se apaga

    D e Severino Ferreira
    É muito forte a lembrança
    S ua voz bonita e mansa
    E stilo bom de primeira
    V erso limpo sem zonzeira
    E ra o poeta da gente
    R ima rica e competente
    I mproviso belo e risonho
    N o mundo lindo de um sonho
    O nde Deus está presente


    Nesse exemplo Zé Saldanha abdica de sua assinatura e, numa atitude de reforço do sentimento de amizade, constrói como que um epitáfio, comum nas terras do Nordeste: Saudade de Fulano, no caso Severino Ferreira, o poeta.

    O poeta Marcus Accioly não é cordelista, é acadêmico, professor de literatura e um amante da poética do cordel. Depois de Nordestinados, uma de suas obras nas quais a poética dos cantadores aparece com profundidade e didatismo, apresentou um volume chamado Xilogravura, com ilustrações grandiosas xilogravadas num formato grande. Pois bem Accioly escreveu também Guriatã, um cordel para criança, ganhador de vários prêmios, ilustrado por Dila. No final ele assina:

    M as se o amigo buscado
    A contecer ter partido,
    R esta trazer o passado
    C omo o presente perdido,
    U rge ele vivo ou encantado
    S empre na bola-de-vidro.

    A migo leitor-menino
    C ontei o aquário do sonho
    C antando a sorte-destino
    I mprovisado no estranho
    O vo de bola-de-vidro:
    L ivro em redoma de livro,
    Y ara em redondo banho.


    Como disse, Accioly não é cordelista e não se sente preso à tradição da rima perfeita, soante, no cordel. Por isso dá-se ao direito de furar a rima como bem percebemos nas estrofes.

    quinta-feira, 17 de maio de 2007

    O fictício escritor Achille Droit no Brasil

    Move-se este artigo pela alvissareira notícia de que finalmente alguém no Brasil aceitou publicar Achille Droit. Venho trabalhando na tradução de suas obras há 30 anos. O desconhecimento, por aqui, de sua vasta e complexa escritura é uma afronta. Ninguém o sabe, ninguém o viu, ninguém o leu. Nem os doutos viajantes embrenhados no seio da Europa, às expensas do CNPq e da CAPES, deram notícia do marginal de St. Etienne. Marginal premiado, diga-se. Droit ganhou o prêmio Balzac de 1994 e o Napoleón, em 1995. Em 1996 teve seu nome rejeitado na lista de indicados ao Nobel pelo governo francês. Resultado: processou o governo por racismo, se auto-denominou negro e culpou o estado pela onda de “má literatura” produzida no país há 20 anos, citando o fato do mesmo governo ter concedido a comenda de Cavaleiro das Artes e das Letras a Paulo Coelho. Recusou o OULIPO (odiava Georges Perec) e inimizou-se com Italo Calvino, por causa de suas Fábulas Italianas, acusando-as de invencionices. Em 1998, publicou um vasto comentário sobre a literatura na França, matéria paga, no Le Monde e selou seu destino à margem. Agora, alguém vai publicá-lo no Brasil. Não a obra completa, mas a sua famosa trilogia.

    Nascido em 1945 na cidade de St. Etienne, onde vive, no coração da França, pertence a uma família de dois troncos, um italiano, talvez daí o seu primeiro nome, Achille, e outro gaulês, de onde o Droit. A infância, segundo ele, foi passada na pequena vila de Saint Just-Saint Rambert, em casa de um tio-avô chamado Bernard, com grandes necessidades, devido ao pós-guerra. O fato é que em 68 está em Paris marchando com as esperanças e em 70 será encontrado no interior do nordeste brasileiro. Interessado pela saga dos cangaceiros, é o primeiro pesquisador internacional a perfazer o caminho de Virgulino Ferreira, o Lampião. Dessas pesquisas resultaram dois livros-chaves na literatura de Droit: Quasímodo, de 73, e A biblioteca básica do capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, de 76, livro que funda a sua trilogia autobiográfica, composta pelos outros O inverossímil amor de Miguel de Valverde, de 76, e O fracasso essencial do desconhecido escritor A. D. Não é preciso dizer que essas iniciais do título são a do próprio autor. Claro que há algo de irônico nessa atitude. Durante toda a vida, Droit reitera não ser escritor. Quanto a desconhecido, pelo menos na Europa, não é bem assim. Suas obras foram traduzidas para os países da Comunidade Européia. Em relação ao fracasso, esse é um engodo. Droit vive do que escreve.

    Os detalhes de sua personalidade ou as nuanças de sua biografia não devem ser o fulcro de nosso texto. Quero ressaltar, entretanto, o fato de Droit ter vivido no Brasil praticamente incógnito. Não alardeou nem chamou para si os holofotes. Tão somente manteve-se fiel ao roteiro de suas pesquisas vasculhando o Nordeste. Há traços de suas passagens em Juazeiro do Norte, no Ceará, em Propriá, Sergipe, em Triunfo de Pernambuco e na outra Triunfo, no alto sertão paraibano. Foi ele quem conseguiu elementos para resolver o caso de Banjamin Abrahão, o libanês que conseguiu filmar e fotografar o bando de Lampião. Essas andanças definitivamente ofereceram subsídios para a escritura de Quasímodo. Mas não só. A leitura de Euclides, de Os Sertões, foi a outra baliza. A descrição do sertanejo e da terra vermelha do sertão foram confrontadas com a experiência do francês. Vejamos as semelhanças. Diz Euclides, logo depois do célebre “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, mote mais que revirado na cultura nacional:

    A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.


    É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos.


    Essa descrição euclidiana encontrará ecos em outros. Mário de Andrade, ao fazer o seu tour, em 28, pelo interior do Nordeste repete a mesma observação. Diz ele lá no seu Turista “carinhas fuinhas, bonitinhas, desagradáveis...” Voltemos a Droit. Como dizia, Euclides foi um de seus livros de cabeceira. O próprio título já é intersectivo. É assim que ele abre seu romance:

    Encontrei Quasímodo cambaleante, bêbado. Se torto era, mais ainda sua sombra. Estendida no pó vermelho, tez enrugada do sertão perene, entranha mais entrada no corpo da caatinga, escrevia, aquela sombra aguda, a imagem do sineiro malfadado, oriundo da Paris das Luzes, agora figura alegórica da Paraíba das trevas. Era quarta-feira. Semana Santa. E ele estava lá, amaldiçoado, implorando esmolas e misericórdia, a caridade do mundo.


    Diz Baudelaire, citado por Boisdeffre em suas Metamorfosis de la Literatura III, que a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, ou seja, intensamente exclusivista, mas que abra, ao mesmo tempo, os mais amplos horizontes. Por isso, não nego a influência euclidiana à pena de Droit, entretanto não deixarei de perceber a beleza do primeiro parágrafo de seu romance. Não é só belo, é construído na perfeição da palavra bem colocada, como diria Bilac, limada, com responsável bom senso, sem exagero. Essa mesma acuidade vê-se, encontra-se em sua trilogia. Para isso valeu-se, com disciplina e organização, de roteiros de pesquisa para a confecção do seu estilo e de seus temas e cenários. Influenciado por Arnold Vierniak Flemming, costumava fazer anotações matemáticas que nem sempre seguia à risca, flutuava, sem se afastar muito do tema. As anotações para O inverossímil amor de Miguel de Valverde, incluídas nos anexos da tradução nos mostram a prova.

    Infelizmente essas anotações não esclarecem algumas questões intertextuais. O romance inicia com a partida de Valverde, degredado para as Índias na esquadra de Cabral, mais precisamente embarcado na nau de Vasco de Ataíde, aquela que no 13º dia perdeu-se no oceano.

    Sendo um romance que pertence a uma trilogia autobiográfica de Droit, compreender-se-á as metáforas da solidão e da Inquisição. É a vida do escritor desfilando. Os dois primeiros romances dessa trilogia estão ligados profundamente ao Brasil. Aconteceu com o autor, talvez em maior escala, o mesmo acontecido a Juan Valera, o adido cultural espanhol no Brasil entre 1851 e 1853. Valera escreveu dois romances cujos cenários são a capital federal da época, o Rio de Janeiro. Chegou mesmo a escrever uma pequena história da poesia no Brasil. O autor de Pepita Jimenez ficaria desconhecido durante um século. Ultimamente, devido ao trabalho de espanistas sérios, a sua obra tem sido estudada e vasculhada com intenso fervor. O nosso escritor, Droit, talvez tenha que esperar um pouco mais, mesmo o Brasil sendo tema principal de seus mais influentes trabalhos. O primeiro A biblioteca básica do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião traz em sua introdução um estudo comparativo de nossa literatura. Nesse estudo, dentro de um romance histórico e jornalístico, há por exemplo uma comparação entre dois clássicos de nossa literatura: Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos, para explicar a presença dos mesmos dentro do corpus lido pelos cabras de Lampião.

    Droit conhecia a literatura brasileira. Sabia como e onde encontrá-la. Esse volume da trilogia, o de Lampião, nasceu de uma observação lida por ele no mesmo turista acidental de Mario de Andrade a respeito dos cangaceiros:

    Mas parece que Lampião tinha lá no grupo dele uns malandros cheios de curso escolar... De primeiro ele não era o que é, não. Os tais é que, cangacismo praticado, voltavam para roubar, estuprar o Cão! Lampeão... Lampeão era brasileiro da República (não sou monarquista) e se acostumou.


    Essa observação de que o grupo de Lampião continha elementos estudados, levou-o, Droit, a especular sobre qual literatura seria lida entre eles. E o que encontrou só lendo o volume primeiro da trilogia. O certo é que Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos estavam na estante dos cabras.

    Quanto ao último volume dessa obra tríptica, é o mais intimista, memorialista até. É narrada um pouco de sua infância e seu encontro com as primeiras letras e que tipo de literatura forjou sua personalidade e seu estilo. Narrada em primeira pessoa é uma descrição sensível do mundo em ruínas, do aprendizado. Ressalte-se o trecho em que apresenta ao leitor seu primeiro mestre, como o fez José de Alencar em seu Como e porque sou romancista, traçando um perfil do Sr. Januário Mateus Ferreira, diretor do Colégio de Instrução Elementar, onde o fundador de nosso romance fizera seus primeiros contatos com a cultura acadêmica. O primeiro mestre de Droit é o italiano Americo Perazzo, professor de grego e latim, conhecedor das Belas Letras. No capítulo referente a ele apresenta:

    Seu Américo me adotou. Abriu sua casa, sua biblioteca, seu coração. Ensinou-me o Latim. Nunca levantou-me a voz. Olhava-me como um objeto de estimação, muitas vezes como objeto de estudo. A cada avanço meu naquela língua estranha, aos meus olhos ele me parecia mais moço. Ensinou-me para que eu lesse o breviário. Pouco a pouco foi me introduzindo na liturgia católica. Salve Regina, mater misericordiae. Quis ensinar-me o grego, meus ancestrais em ebulição se insurgiram. Foi calamitoso. Se no latim fui além do ego sum qui sum, no grego não passei de alfa e, se fui além, fui analfa. O mestre não insistiu. Compreendendo que minha idade deveria ser tratada com mais leveza apresentou-me Fedro e Esopo, adorei. Antevendo o rebelde em que eu me transformaria deixou-me à vontade e passou a atender-me quando de minhas dúvidas em algumas dificuldades. E eu descobri o Decamerão. Bocaccio me falava mal da Igreja e tirava a roupa de padres e freiras. Me falava de sexo. E eu não o larguei mais. O mestre me entendeu e eu compreendi que do sagrado para o profano basta virar a página.


    Esse pequeno parágrafo elucidará o maior mistério de sua trilogia e, mesmo, o porquê de ela nunca ter aportado por aqui. O misterioso Droit cumprira uma tarefa que no século XX, aquele século das Vanguardas, se tornaria quase impossível de ser lida. Este motivo, este porquê, que vou revelar agora é, também, o responsável pelo longo tempo que levei para traduzi-lo. Tarefa árdua, mas agradável e recompensadora pois, agora, finalmente alguém vai publicar Achille Droit no Brasil. Ah, sim! O motivo: a trilogia autobiográfica de Droit foi escrita em latim e publicada com dinheiro do seu próprio bolso, já que todos os editores a rejeitaram.

    sexta-feira, 11 de maio de 2007

    De As marteladas

    Do prefácio e do verbo

    No prefácio da vida era Camões
    Lírico... épico... cego/míope.
    Mika Waltari... o egípcio... o etíope.
    Ulysses ou Joyce? ... mas foi Guimarães
    Ros’Alceu Amoroso nas manhãs.
    Poe... Breton. Trovas de um chanteur
    Quengas lindas, fino cabaré
    Onde há flores do bem e a vida dói
    ... sob as patas de um leão (Tolstoi)
    Patativa era o verbo de Assaré.


    De Cortázar, São Jorge e Rulfo


    O livro de Manuel, ele cort’asa
    D’araras, urubus e avestruzes
    Cujas fardas coloridas/negras
    Rubros fazem brotar o medo e a dor.
    Outro livro, aquele do Amado,
    Do suor dos homens do cacau,
    Tem a alma fiel da reportagem
    Dentr’um corp’infiel de ignorância
    No silêncio daqueles cavaleiros
    Vendo em chama o planalto se acabar


    Soledade

    Ao lembrar-me d’A Nau Catarineta
    Deu saudade em o meu olho d’ator
    Soledade é que nem um cantador
    Q’não cansa nem pára de cantar.
    Uma nódoa chegou a m’cegar
    (Violão cego, a viola ávida
    apossou-se). Q’nem um mandatário
    há três vidas Alá m’habita e mora
    mes’send’eu plebeu itinerante
    q’só tem o teatr’e pedra a mais.

    Uma pedra para recostar

    Nas cozinhas desse Nosso Senhor
    Há um misto de queijo+presunto
    Um x-tudo de beijo+defunto
    Um hot dog de american drugs
    E um caldo de cana com Pasteur.
    Já na sala de águas da Lagoa
    Santa Cora Coralina viajou
    Abraçada a Quintana que, de nobre,
    Foi Baco deleitando as criancinhas
    Com potes de mel e cola diet.


    Barriga cheia, pé...

    Do bumba-meu-boi eu quero o boi
    Morto. Vida pr’irmãos mortos, cem
    Vidas embevecidas de dor, esfomeadas
    Ao depois, ao durante e mesm’ao antes.
    Arlequins, Mateus e Catirinas
    Aos cantos de comida em desatino
    Do cavalo marinho no quintal,
    Numa festa de barro, lama e lodo,
    Aos gemidos de cinco violados
    Degustaram Bandeira+Cabral.

    terça-feira, 8 de maio de 2007

    É necessário perder a cabeça

    Ao fim da batalha de Canudos, uma comissão foi encarregada de encontrar o túmulo do Conselheiro. Ao encontrá-la, prosseguiram a exumação do cadáver e depois do reconhecimento, fotografaram-no e uma ata foi redigida. Depois baixaram-no à cova:

    Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita — e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores.
    Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio.


    Não queremos cantar um réquiem. Nem escancarar feridas. Move-nos o desejo de descrever lacunas, pensar sobre os vácuos, tentar pontes, mesmo que pênseis. O fenômeno Lampião é visto tantas vezes isolado, apontado como produto de séculos de desmandos e injustiças no país dos nordestinos.

    A colonização naquelas plagas nordestinas se deu por ciclos. O do açúcar requeria terra para os canaviais e mão de obra para tocá-los. Antes de forjar o coronelismo e seu poderio colonial, desbaratou as populações indígenas, expulsou-as rumo ao interior ou atou-lhes grilhões aos pés, mãos e almas. Aqueles resistentes sucumbiram às doenças. Os que conseguiram sobreviver foram se miscigenando, formando nova linhagem.

    A civilização do couro vem encontrar essa raça em segunda geração. Os costumes, todavia, permanecem ainda inalterados. Furar a caatinga necessitava de armadura, o couro serviu de matéria prima para chapéus e vestimentas. Lampião é o fruto desse cenário. Descendente do índio, selvagem que resistiu, o tapuia, unido ao couro desse que cuidava do gado, revoltado com os atropelos dos coronéis.

    Se os tapuias foram imortalizados em relatos de cronistas franceses a serviço do governo holandês, Lampião imortalizou-se no canto daqueles que, de tão injustiçados, não acreditavam na lei do Estado, nem na justiça dos homens. A maneira como foi imortalizado é que mudou. Da prosa descritiva daqueles cronistas, agora a sextilha e o verso de sete sílabas da poesia autêntica do Nordeste.

    Pensamos essa poesia, de cordel, como a provável cantora de nossos antepassados pré-cabralinos. Não o foi. A saga de destruição à cultura dos nossos povos foi encharcada por imitações do modelo europeu, tanto na forma como no conteúdo. A literatura brasileira colonial foi uma extensão européia. Mesmo a chegada do Romantismo não cantou a terra como deveria. A construção poética romântica transformou nossos índios em apolos dos salões. A busca da natureza como fonte de afirmação poética foi o passo para a brasilidade, é certo. Mas o arcadismo já cantara a mesma matéria. As epopéias árcades trazem esse indígena à cena. Assim vêm Cacambo em O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. Mas é em O Guesa, de Sousândre que se esconde o verdadeiro mito cantado americano. O Brasil é incluído no mundo americano e resgata seu passado sem a mácula da cor européia. A literatura de cordel poderia, caso lhe fosse oferecida passagem, cantar esse passado. É como se a cabeça de nossa ancestralidade tivesse sido cortada com a entrada do europeu em nossa cena. Aliás, é esse o nosso mote.

    Decepados nossos ancestrais, deceparam-se os nossos heróis. O destrato dedicado ao cordelismo é a mesma ação decapitadora sob a qual caíram os tapuias do Recife, Zumbi dos Palmares, Tiradentes das Gerais, Conselheiro de Canudos, Lampião do Nordeste.

    A cena de Os Sertões com que iniciamos essa nossa conclusão é, de fato a síntese. Quando exumaremos os nossos mortos para dar-lhes destinos decentes? Servir-nos-ia a voz do último cantor épico Marcus Accioly:

    Ah pudesse eu cantar os teus heróis
    (uns poucos que conheço em meu país)
    os de rifles lixados pelos sóis
    (de alpercatas-de-sola sem verniz
    sobre o couro curtido) os dos aiós
    da vida (há trinta anos por um triz
    da morte) e cartucheiras de cangaço
    em cruz no peito (as tais cangas-de-aço)

    vivendo cada dia o mesmo risco
    de cada noite (o tempo com um baralho
    cortado ao meio em lances de perigo)
    ó tarô da existência (ó jogo falho)
    ah pudesse eu cantar Lusbel-Corisco
    (Diabo-Louro) “uns sapatos do caralho”
    (como diria Márquez) Lampião
    com seu olho (à Camões) vendo o Sertão

    (sim) pudesse em cordel cantar (...)

    sábado, 5 de maio de 2007

    Algumas pegadas sobre rima e métrica

    Ao poeta cabe poetar, com rima ou sem rima, pé quebrado, verso mudo. Mas no cordel tem que obedecer regras. Ao conjunto dessas regras dá-se o nome de Poética e é conferido pela tradição. A tradição, essa que foi firmada desde Leandro Gomes de Barros, requer um pouco de observação. Mas não basta observar. Quanto às obras escritas para nortear os que buscam resolver questões de métrica e rima:

    1. Teoria do Texto, volume 2, de Salvatore D'Onofrio, editado pela Ática, tratando de toda teoria da lírica, inclusive as rimas;
    2. Gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra em seu Capítulo 22, sobre versificação.
    3. Vaqueiros e Cantadores, de Luís da Câmara Cascudo;
    4. Cantadores, de Leonardo Mota.


    Em Celso Cunha e Lindley Cintra

    Rima perfeita e rima imperfeita

    1. A rima é uma coincidência de sons, não de letras. Por exemplo, há RIMA SOANTE PERFEITA nestes versos de Alphonsus de Guimaraens:

    Céu puro que o sol trouxe
    Claro de norte a sul,
    O teu olhar é doce,
    Negro assim, qual se fosse
    Inteiramente azul.

    tanto entre sul e azul, como entre as formas trouxe, doce e fosse, que apresentam a mesma terminação grafada de três maneiras diferentes.


    2. Perfeita é também a rima de "tem" com "mãe" nestes versos de Fernando Pessoa:

    Tão jovem! que jovem era!
    (Agora que idade tem?)
    Filho único, a mãe lhe dera
    Um nome e o mantivera:
    "O menino de sua mãe."

    porque no falar lisboeta estas palavras soam normamelmente "tãe" e "mãe".



    Vejamos que coisa engraçada: jamais aqui no Brasil alguém rimaria "tem" com "mãe", certo? Seguindo o raciocínio de Celso Cunha teríamos uma rima perfeita também entre CÉU, CORDEL, PAPEL, CHAPÉU,TEO, MEL, etc, já que há coincidência de terminações sonoras para nós que somos do nordeste, norte, sudeste, centro-oeste, muito embora em alguns lugares do sul se pronuncie a consoante "l" no final das palavras.

    Fui procurar em Augusto dos Anjos algo semelhante e encontrei em seu poema OS DOENTES o seguinte verso

    Feriam-me o nervo óptico e a retina
    Aponevroses e tendões de Aquiles,
    Restos repugnantíssimos de bílis,
    Vômitos impregnados de ptialina.

    Ora, em alguns lugares seria impossível rimar "Aquiles" com "bílis". No Rio, onde vivo há a tendência de se pronunciar o "e" como "ê", logo a impossibilidade da rima soante perfeita. Mas Augusto, legítimo representante do falar nordestino faz equivaler o "e" a "i", construindo assim a rima com perfeita semelhança sonora.


    No mesmo Augusto em AS CISMAS DO DESTINO

    Um dia comparado com com um milênio
    Seja, pois, o teu último Evangelho...
    É a evolução do novo para o velho
    E do homogêneo para o heterogêneo.

    Rimar "milênio" com "heterogêneo" daria uma dor de cabeça em alguns poetas. Felizmente, no falar de Augusto, os sons se equivalem. Graças a Deus e seus representantes, os poetas!


    A elisão é um instrumento que o poeta adota ou não, dependendo apenas da ênfase que ele queira atribuir à palavra. É a antiga licença poética: uma carteirinha que o poeta tem e que, com ela, pode criar mil possibilidades para o verso, inclusive esta, acentuando a última sílaba:

    Que deixa firme a ALMÁ.


    Pode parecer estranho, entretanto, para fechar o verso em seus sete pés, pode-se apelar para esse subterfúgio. Exemplo, apresento dois. O primeiro refere-se a música Kriptônia, de Zé Ramalho, poeta paraibano que bebe nas nossas águas cordeliais, no verso em que ele diz:

    ... Um asteróide pequeno que todos chamam de TERRÁ (aqui se referindo a Terra).


    O outro é o contrário do que apresentei. Ao invés de acentuar a última sílaba para fechar em sete, antecipa-se o acento para a penúltima e evitar o excesso de versos. É assim que faz Zé Limeira numa décima já consagrada:

    Saíram lá de Belém
    Cristo e Maria José,
    Passaro por Nazaré,
    Foro pra Betelelém...
    Chupô cana num engém,
    Pediu arrancho num brejo,
    De noite armuçou um tejo
    Lá perto de Piancó,
    na sexta-feira malhó
    Foi que Judas traiu JÉSUS.


    O poeta pronuncia antecipando a acentuação de JESUS para JÉSUS tão somente para antecipar a rima e fechar os sete pés do verso. Em suma é a mesma figura que faz PARA transformar-se em PRA, ESTAVA em TAVA, IZABEL em ZABÉ. E assim vai! É arretado!

    terça-feira, 1 de maio de 2007

    Dois textos reeditados sobre identidade nordestina

    1. Forró

    A banda paraibana Cabruêra desceu ao sul e instalou-se no Rio de Janeiro em setembro de 2001. Lá, fundou a Cabrahouse, primeiro em Copacabana, depois em Santa Teresa, tradicional bairro de artistas. Ao chegar, debutou na TVE e lançou disco no palco da resistência cultural carioca, o Teatro Rival, e assim seguiu arrebanhando um cordão de adoradores. Zé Guilherme, o Munganzé, um dos melhores percussionistas do Brasil, um dos pilares da Cabruêra, vindo aqui em casa, incitou-me a explicar a origem do termo “forró” para uma oficina de percussão no Festival de Inverno de São João del Rey, em Minas Gerais, onde a banda tocaria.

    Pois bem. Discutíamos a gênese da palavra a partir de duas explicações para o que se passou a chamar de forró. A primeira está ligada à construção da malha ferroviária no interior de Pernambuco por engenheiros ingleses que, em suas horas de folga, patrocinavam pequenas rodas nas quais a liberdade, municiada pelo consumo de álcool, pontuou a descontração e a dança. Essas rodas eram “for all”, para todos, no idioma nativo dos ingleses. Daí a pronúncia aberta “forró”. Sem registro que legitime tal origem, fica-se no âmbito da lenda.

    A segunda é apresentada pelo folclorista Rodrigues de Carvalho, em seu Cancioneiro do Norte de 1903, aponta uma associação entre forró e forrobodó, festa popular das pontas de rua, baile popular aberto para toda a população pobre. Câmara Cascudo registra a mesma origem fazendo um levantamento da aparição do termo desde 1833, para encontrar um variante datada de 1952, num semanário chamado A Lanceta, sem indicação de local. O termo é forrobodança, uma espécie de dança chula popular.

    Acredito que essas duas teses sejam insuficientes, mesmo porque fica difícil determinar data para surgimento de qualquer palavra. Respeitando a pesquisa, talento e autoridade dos dois folcloristas, lanço uma terceira via. Quero aproximar o termo português forró, ao termo árabe alforria, liberdade dada aos escravos. Quando um destes era alforriado a palavra “fôrro” servia-lhe de epíteto, recebendo, inclusive um par de sapatos, se para dançar, não sabemos. Elomar, em sua cantiga O Violeiro, canta “Deus fez os home e os bicho tudo fôrro...”. De forria para fôrro, de fôrro para forró, celebração da liberdade, da quebra do jugo e dos grilhões. Não é isso que o forró faz?

    Os testemunhos populares na diferenciação entre as festas de São João, festa popular, marca indelével das tradições nordestinas, e Natal, tradição européia, servem de esteio para minha tese. Enquanto a festa de Natal é descrita como uma festa formal, o São João prega a liberdade, é festa livre e comunitária, não requer roupa nova, nem champanhe para comemorar. E todas as classes e raças são chamadas ao arrasta-pé, criando um valor fundamental para a miscigenação de raças e culturas, no dizer de Darcy Ribeiro, e imprescindível para a construção do humanismo, segundo Jorge Amado.

    O que nos interessa, também, é a divulgação desse ritmo propagada pelo pioneiro Luiz Gonzaga, primeiro nordestino a assumir compromisso com esse suposto novo estilo musical, depois de fazer o caminho do sul. Falar de Gonzaga é repetir-se, sempre. Sua história e sua vida estão na boca do povo e dos artistas, transformado em ícone institucional na etno-musicalidade brasileira. Muito embora construindo uma realidade folclórica do Nordeste, com seus vaqueiros e cangaceiros, plantou a semente da música popular regional nordestina em todo o Brasil. Asa Branca transformando-se na bandeira, estandarte dessa visão.

    Gonzaga sofre, entretanto, críticas oriundas de um outro mito: Jackson do Pandeiro. O ritmista paraibano apregoava que o baião originou-se do coco e que o feito do Rei do Baião não passava de um novo invólucro para um velho ritmo. Zé Guilherme me diz que o jornalista Rômulo Azevêdo, de Campina Grande, numa tentativa de conciliação entre os pilares formadores do forró, um paraibano e o outro pernambucano, defende o império imaginário de Parabuco, um híbrido situado entre Caruaru, a capital do forró, e Campina Grande, terra do maior São João do Mundo. Essa, talvez seja a melhor opção, o lúdico, a criatividade, a liberdade, a alforria.

    2. Cordel

    Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — ... Mas Deus está de que lado?

    Canudos, como está n’"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

    O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

    O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”

    O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.

    Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.

    Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

    Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.

    Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.

    Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal, em folhetos de oito páginas, se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.

    sexta-feira, 27 de abril de 2007

    O coração da madeira

    1. Tocar a alma da terra
    Sentir o pulso de tudo
    Ouvir os sons inaudíveis
    ver no caminho o escudo
    do signo de Salomão,
    os pés e o falo de Adão,
    O fruto da macieira
    É o mel de quem procura,
    talha, lixa, corta e fura
    O coração da madeira


    2. Sulcar a tez, superfície,
    com traços tortos ao inverso
    do que se vê refletido
    no espelho, cristal anverso.
    Com o sangue da própria mão
    lambuçar a criação
    soprar-lhe vida, videira,
    É o mel de quem procura,
    talha, lixa, corta e fura
    O coração da madeira!

    3. No coração da madeira
    vi sulcos formando gente
    uma vasta cabeleira
    sendo alinhada num pente
    Uma mão tocando as cordas
    outra desenhando bordas
    um homem com seu chapéu
    Um jacaré muito bravo
    e um menino que era escravo
    de sua pipa, no céu!


    4. Quando perdi a visão
    pude passear meus dedos
    no coração da madeira
    para saber seus segredos
    como o corpo da amada
    senti a curva marcada
    montes,vales, pulsação
    chorei um choro baixinho
    como um menino sozinho
    sem pai, nem mãe, nem irmão!

    5. Perguntei para mim mesmo
    quem trabalhou desse jeito
    O coração da madeira
    para deixá-lo perfeito
    a mesma fotografia
    que na minha vida eu via
    estava ali retratada
    até o olho incisivo
    que me fazia cativo
    Lá na imagem gravada!


    6. A madeira não dobrou-se
    aos meus caprichos de artista
    seu centro todo encrespou-se
    nem veio, filão ou pista.
    Não encontrei dentro dela
    Uma minúscula janela
    para o sol da inspiração.
    Fugiu-me, assim, de bobeira
    O coração da madeira
    da palma de minha mão!

    7. O véu do templo em pedaços
    E o céu chorando sua dor
    A tarde com seus mormaços
    e o sangue com seu odor
    Três espectros contra o fundo
    de púrpura num tom profundo:
    As cores da sexta-feira!
    Olhando paralisado
    Vi Cristo crucificado
    No coração da madeira!


    8. Aviões estão no solo
    os vôos já cancelados
    No saguão procuro um colo
    todos estão ocupados
    Olhei para o celular
    Que não quer mais trabalhar
    Por falta de bateria
    Vou talhar esta bobeira
    No coração da madeira
    Pra me lembrar deste dia!

    9. Alguém me disse que a Terra
    está desiquilibrada
    que os rios estão em guerra
    que a mata foi derrotada
    que o céu se abre em buracos
    que o mar invadirá nacos
    de firmeza para os pés.
    Na procissão domingueira
    o coração da madeira
    seduzirá os fiéis!


    10. E aqui no chão da cidade
    aos pés do Cristo incrustado
    há algo de fealdade
    circundando o Corcovado
    O morro entrou pelo mato
    os verbos fizeram um trato
    de longe ouviram seus ecos
    conluiando as alianças
    esquartejando crianças
    como se fossem bonecos

    11. E o que dizer dos amores
    que a vida nos legou?
    As frutas com seus odores?
    o que o vento soçobrou?
    o que nunca foi escrito?
    a nudez? um gesto? um grito?
    e um tesouro enterrado?
    O coração da madeira
    foi amigo de primeira
    Nas dores do meu passado!


    12. Os lábios de Iracema,
    Irene preta no céu,
    Retirante Severino,
    Leandro com seu cordel,
    Mulheres de Jorge Amado,
    Quixote aprisionado
    na lâmpada de Aladim.
    A literatura inteira
    No coração da madeira
    macia como um pudim!

    13. Esse cheiro de café
    com pão de queijo quentinho
    não tem sabor de mulher
    nem gosto de seu carinho
    mas entra como uma faca
    como se fosse uma estaca
    cortando a pessoa inteira
    No interior das Gerais
    somente aqui que se faz
    no coração da madeira!


    14. (Aquele cheiro do cedro
    condiz com o peso da cor)
    De avermelhado me medro
    no mar rugindo em furor:
    O casco de minha nau
    procura nas ondas vau
    por onde possa passar.
    Só há passagem certeira
    no coração da madeira
    que comecei a entalhar.

    15. Os sulcos de minha vida
    têm se tornado mais planos.
    Ficarão mais rente ao solo
    com a passagem dos anos.
    E quando chegar a hora
    em que eu precise ir embora
    para o outro lado do muro,
    haverá coisa certeira:
    O coração da madeira
    será meu porto seguro!

    Discussão sobre cordel

    A seguir reescrevo discussões que tive com poetas cordelistas sobre Literatura de Cordel. Qualquer discordância é só postar seu comentário. A leitura tem que ser feita de trás para frente a partir do tópico Temas do Cordel, para não se perder o fio da meada. Mas pode ser feita aleatoriamente, pois cada tópico tem vida própria.

    Mais uma vez cordel, Lampião mais uma vez

    1. Em nenhum recanto do Nordeste brasileiro vimos ou ouvimos alguém chamar cordão de cordel. Não, não existem cordéis por lá. Acreditamos mesmo que isso seja extensivo ao Brasil. A palavra cordel só se apresenta naquela literatura editada em folhetos de oito ou dezesseis páginas, raramente de trinta e duas, papel jornal, com uma xilogravura na capa, vendida em bancas pelo país afora, uma Literatura de Cordel, que muitos avaliam ter origem na Península Ibérica e que tenha se transportado para o Brasil. Defendo que a nomenclatura carece de conserto e de concerto. Precisa de revisão.

    2. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, reinou por vinte anos nos sertões nordestinos. Foi tema de cinema, de histórias-em-quadrinhos, de música popular, da literatura regional nordestina. Sua indumentária é símbolo de Nordeste. Aquele chapéu de Luiz Gonzaga teve como matriz o chapéu do cangaceiro. Os trios de forró, nos bailes, e as bandas de pífanos se vestiam, antes de serem descobertos pelo capital, como os cabras de Lampião. O Imperador do Sertão não temia emboscada, conhecia os lajedos e as locas, paramentava-se para o combate, enclausurava-se nos desertos quando necessário, rumava sobre cidades quando decidido. Foi a grande descoberta daquela literatura popular em verso, editada em folhetos. Foi a síntese da problemática social do Nordeste e herdeiro dos seus mais remotos habitantes. Era um bicho na guerra, um tapuia portando mosquetões, preciosos e precisos punhais.

    3. Os índios do litoral nordestino falavam o nheengatu, a língua boa. Os do interior, do sertão, eram donos da língua travada. Os tapuias, nômades e hostis, bravios, bárbaros, aliaram-se aos holandeses, lutaram contra os portugueses e desenvolveram uma arte completa de matar. Cortavam cabeças de inimigos e as dependuravam em suas cabanas, executavam seus prisioneiros a bordoadas e depois os comiam, num banquete sacro. Sua religião era um complexo sistema no qual feiticeiros incorporavam espíritos e entidades das matas. Viviam sempre em pé de guerra, não eram gregários e dominaram o sertão até o Levante dos Bárbaros em 1688 e seu completo extermínio, por volta de 1696, mortos de doença adquirida do homem branco. Foram dizimados, mas não sem antes deglutirem considerável número de inimigos que, quando os viam pintados hediondamente para o confronto, sentiam a alma lhes fugir.

    4. Esses três elementos conjuram-se no Nordeste. Hoje querem mais do que o exotismo. Exigem olhares mais comprometidos e engajados. A chamada Literatura de Cordel pede urgente enquadramento dentro do todo literário brasileiro. Um enquadramento que justifique a sua importância na formação da nação e identidade nordestina. Que deixe de ser abordada apenas em eventos sazonais, passe aos manuais de história da literatura brasileira, esteja presente nos livros didáticos. Requer respeito, por ser um ícone indelével de um povo, porta-voz infalível de uma região.

    5. Essa literatura, no encontro com Lampião, emancipou-se das novelas medievais e fundou sua poética, envolvendo-se em um ciclo épico determinante do seu valor. Lampião, a síntese, a mais perfeita encarnação do nosso mito primordial, herói épico lembrado e relembrado, vivo em cada nordestino. Esses três elementos, portanto, são a nossa averiguação, formando um todo, ou seja: Lampião, herdeiro tapuia, cantado na Literatura de Cordel.

    6. Elegemos três pilares para refletir:

    a) A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de alguns povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.

    b) O Romantismo marcou o início da brasilidade em nossa literatura e nela a ressurreição do índio. Um índio literário europeizado, é verdade, mas capaz de promover o aparecimento de uma literatura de conteúdo nacional. É em fins dessa escola literária que aparece no Nordeste a Literatura de Cordel. Iniciando com temas mágicos e religiosos, a Literatura de Cordel canta os mesmos heróis da Península Ibérica: Rolando, Carlos Magno e os doze pares de França, João de Calais, a influência árabe das Mil e Uma Noites, amor e desventuras entre casais de um “reino distante”. Na busca de uma identidade, passa a cantar heróis nacionais, entre os quais escolhemos Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, para analisar, nos folhetos que lhe são dedicados, a aparição do herói épico e sua posterior influência sobre a formação de uma identidade brasileira.

    c) Lampião, o homem e a lenda, herdeiro natural dos índios tapuias do sertão nordestino. Um herói-síntese, reinando entre os costumes tapuias e os costumes do bando de seus cangaceiros. Lampião épico: o herói degolado no reino dos mortos, entre Céu, Inferno e Purgatório. Cordel: literatura degolada das academias, adormecida no limbo. Tapuias: povo degolado pela sífilis européia nos seiscentos.

    Continuação

    Não é cantoria, pois esta é a celebração, o momento, a festa, obrigatoriamente regida pelo som das violas seguindo um cerimonial peculiar. Os poetas têm que correr por várias categorias da cantoria que aqui, no seco solo desse ecran, se tornam sem sentido, pois a melodia lhes será roubada, a pronúncia sequestrada, o canto suprimido e a platéia iludida. Por fim, não é glosa, porque essa também é oral, espontânea, momentânea, efêmera. Diferindo-se da cantoria pela ausência de instrumentos musicais que a conduzida e elegendo um número maior de participantes que não só um glosador. A glosa não se passa para a disputa, mas para a exibição. Não há contenda, mas aplausos.

    Continua o trinado

    A poesia exigirá coisas que talvez, agora, não estejamos delas senhores. Se é poesia ou não, o tempo revelará. Só digo uma coisa, que, inclusive, já disse. O que fazemos aqui nem é cordel, tampouco repente, nem cantoria, nem glosa. Não é cordel porque o traço fundamental do cordel é a narrativa, uma história, que terá começo, meio e fim. O cordel não é reflexivo, não se passa para reflexões subjetivas, exceto no caso do perfil de personagens. Se não tem história, não é cordel. Pode até ser poesia, mas não cordel! O repente, primeiro, não é escrito, se for escrito não é repente, mesmo escrevendo ao correr da pena, pois se assim o fosse, James Joyce seria repentista. O repente requer um tempo de resposta instantâneo, imediato. Coisa que aqui jamais acontecerá, pois obrigatoriamente teremos de ler o verso do anterior e armar estratégias de defesa. No repente a defesa se faz enquanto o outro pronuncia seu verso. A pena refaz o seu verso, a fala gaguejará, e aí veremos quem é cantador!

    Poético e não-poético

    Há o poético e o não poético. Entretanto não posso sobrepor um ao outro. Na Literatura tanto a prosa como a poesia têm seu valor. E há mesmo a prosa poética e a poética da prosa. Entretanto em se falando de arte há alguns aspectos fundamentais para a distinção. A emoção é um ótimo termômetro, mas pode ofuscar determinados elementos. Assim prefiro olhar a tradição e a ruptura, ambas elencando e autorizando-nos a distinguir o poético do blá-blá-blá. A literatura de cordel não necessita da poesia, já que é uma narrativa, mas sem essa, parecerá vazia, mesmo não estando!

    O erudito e o popular, na veia

    Primeiro: essa divisão entre erudito e popular é uma falácia. Não existe. Na mesma seara: elogiar o popular em detrimento do erudito é um equívoco. Vejamos: o poeta mais popular do Brasil, de quem todo mundo sabe um verso, nem os eruditos, a academia, souberam onde colocá-lo: Augusto dos Anjos. Terá poeta com linguagem mais erudita e tão querido pelo povo? Olha o verso que todo mundo sabe, seja erudito ou popular:

    Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
    O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
    A mão que afaga é a mesma que apedreja.


    Enquanto isso há poetas populares cuja construção poética excede tudo o que os eruditos ditam. Observemos Silvino Pirauá, poeta paraibano nascido no século 19:

    Temos palácios pomposos
    Dos grandes imperadores
    Ministros e senadores,
    e mais vultos majestosos;
    Temos papas virtuosos
    de uma vida regrada,
    Temos também a espada
    De soberbos generais.
    Comandantes, Marechais,
    e tudo vem a ser nada.


    Augusto e Silvino são dois poetas magníficos, nem tudo que escreveram, entretanto, são obras perfeitas. É simples: o bom cozinheiro, às vezes, erra no sal. Não deixa de ser cozinheiro. Seguindo a receita com muita cautela e observação e bom senso qualquer pessoa reproduz o prato do maior chef de cozinha. Qualquer Poeta pode fazer cordel. Infelizmente nem todo cordelista é poeta.

    Há muito cordel de construção poeticamente duvidosa. Assim como há poetas eruditos que apenas fazem versos. Porque há uma distância considerável entre Poema e Poesia. Para arquitetar versos há a receita. Para a poesia, não. Tenho tentado incluir o cordel no cerne da Literatura brasileira da seguinte forma: há duas formas de poesia: a Poesia Lírica e a Poesia Épica. A poesia lírica é subjetiva, o poema geralmente é curto, serve a reflexão das coisas da vida, desde as mais profundas até as mais cotidianas. Drummond:

    Mundo, mundo, vasto mundo
    Mais vasto é meu coração


    Quintana:

    Todos esses que aí estão
    Atravancando meu caminho,
    Eles passarão... Eu passarinho!

    José Laurentino:

    25 de janêro,
    da capitá do istado,
    Cumpadi Mané Cazuza
    Cuma você tem passado?


    Não importa se é erudita ou popular: é Lírica. A poesia épica tem outra inspiração. Aristóteles foi o primeiro a apresentar, 300 anos antes de Cristo, essas questões que estamos discutindo aqui. Ele diz que o poeta se distingue do historiador pois enquanto esse escreve sobre os fatos acontecidos, aquele (o poeta) escreve sobre como tudo poderia ter sido diferente. É aqui que entra a Poesia Épica. O único lugar no qual o poeta e o historiador se mesclam.

    A Poesia épica será sempre fiel à História. Seus poemas são longos e contam fatos acontecidos. Entram aí clássicos da literatura universal: Os Lusíadas, de Camões; A Divina Comédia, de Dante; Latinoamérica, de Marcus Accioly; Odisséia, de Homero; Eneida, de Virgílio. A característica é que o poeta junta à realidade, a História, o fantástico, o maravilhoso. Dessa forma Vasco da Gama encontra Adamastor e várias sereias e é regido pelos deuses do Olimpo. O poeta Vírgílio, segundo Dante, faz uma viagem pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ulisses é aprisionado numa ilha por sereias sedutoras. Mas tem que ser poeta para escrever uma epopéia. Tem que ser poeta para ser ser épico. Muitos tentaram, ficaram na forma, faltou-lhes a arte. Ora, o cordel se insere nesse espectro da poesia Épica. São poemas longos que contam uma história, juntando realidade e fantasia, essa é sua maior produção. Muitos tentaram ser cordelistas, ficaram no Cordel: repito, faltou-lhes a arte.

    A discussão continua

    Quanto a ABLC não posso afirmar que não seja um órgão sério. Porém é cópia da ABL, inclusive reproduzindo os mesmos males. Já vi cordelista criticar o fato de o Dr. Ivo Pitanguy ser da Academia Brasileira de Letras. Entretanto está faltando poeta cordelista nos quadros da ABLC. Defendo o que já disse: o poeta de cordel deveria se candidatar à ABL, onde se poderá com a mesma seriedade incluir definitivamente o Cordel como fundador da literatura brasileira mais original. Quanto as academias municipais e estaduais são cópias do mesmo jeito, reproduzindo também, os mesmos equívocos.

    Agora, quanto a Patativa, aí é unanimidade. Não há poeta maior. Entretanto é humano, logo, também exposto ao engano. Se formos olhar com os olhos dele o poema do compadre que reproduzi acima ele diria que não acha graça. Está lá no poema Aos Poetas Clássicos, que abre O Cante lá que eu Canto Cá. referindo-se ao poema sem rimas:

    Se o dotô me perguntá
    Se verso sem rima presta,
    Calado eu não vou ficá,
    A minha resposta é esta:
    — Sem a rima, a poesia
    Perde arguma simpatia
    E uma parte do primô;
    Não merece munta parma,
    É como um corpo sem arma
    E o coração sem amô.


    Convenhamos que não é bem assim, concorda, compadre? Por outro lado, admitindo a resignação, atenuada pelo orgulho de ser poeta de cordel, Patativa realmente dá-nos uma lição quando diz na apresentação do mesmo livro, em sua Autobiografia:

    "Não tenho tendência política. Sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes, talvez, da política falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia."

    No mais quero reiterar a importância dessas discussões. Para mim são valiosíssimas porque tenho a oportunidade grandiosa de mudar de opinião e até de me retratar e reconhecer meus equívocos, tão frequentes, mas, acredito, que perdoáveis.

    Ainda as diferenças popular e erudito

    Não disse que não se venda o cordel em barbante. Vende-se. E vende-se bem. Mas essa não é a tradição, compadre. O que vi e ouvi meus avós contarem é que sempre fora em tabuleiros. Tabuleiros como se fossem malas e ali, na parte de cima, na tampa, os folhetos dispostos, para todo mundo ver a capa, e na base, dividida em quadrados ou retângulos, outros folhetos espalhados para o manuseio dos compradores. O compadre deve saber que nas feiras do interior o vendedor de cordel não lia o cordel, ele os cantava, ainda trago aqui comigo várias dessas melodias. Cantava uma estrofe dramática e chamava a atençao dos ouvintes. Em determinado momento, já tido, hipnotizado todo mundo, ele dizia que quem quisesse saber o resto era só comprar o "romance".

    A minha rixa contra a denominação popular, compadre, é vê-la sendo utilizada apenas para as camadas menos favorecidas. Se o povo de um país é a reunião de todos os indivíduos não importando a sua classe, então por que popular, referindo-se à produção intelectual, refere-se apenas ao que faz por experiência? Sivuca, o sanfoneiro, se encontraria em qual lugar, então? Agora, gostar de ser popular é opção. Mas veja bem: outro dia, o compadre postou aqui o seguinte poema:

    Quase Poesia.

    (Compadre Lemos)

    Eu, quando escrevo este verso,
    não sou poeta,
    sou quase.

    Meu verso, quando o escrevo,
    não é poesia,
    é metade.

    Poesia, toda, completa,
    é quando se encontram – e se casam –
    o meu e o teu sentimentos.

    Escrevendo, construo a ponte.
    Lendo, tu passas por ela.
    Poesia... somos nós dois!...


    Pergunto: é erudito ou popular?

    A resposta vai alterar em alguma coisa a maestria de seu verso? Claro que não. Nem por isso o compadre deixará de optar por ser conhecido como poeta popular. Mas quando alguma crítico, e existem muitos, disser que é um poema escrito por um poeta popular, essa afirmação virá cheia de preconceito. É contra isso que grito.

    Detesto o epíteto "poeta popular"

    Amo jaca, a fruta. Dura e mole. Madura e algumas vezes "de vez". O doce. O caroço cozido. Amo jaca, adoro. Até esteticamente gosto de olhar, de bater assim com o dedo, para ouvi-la "inchada". Mas não posso mais comê-la. Me faz mal. Não consigo fazer a digestão. Ela fica lá no estômago por dois dias. E o médico disse: — Não coma mais! Parei de comer, mas não passei a odiá-la. Assim é com a poesia de cordel: adoro, entretando o nome me faz mal. Convivo com ele, aceito pois está consagrado. Sua origem me entristece.

    Certa vez, compadre, fui expulso por essas questões, na minha juventude, do Teatro Minerva, a casa que eu amava, lá na minha cidade. Garanto que não me senti menosprezado, mas garanto que naquele dia fui discriminado, fui ofendido, menosprezado, como indivíduo, cidadão e ser humano.

    Compadre se não houvesse essas coisas, se essas coisas não fossem tão latentes, tão presentes, não existiriam as leis para proteger os mais fracos, os idosos, os doentes, as crianças. Acredito que realmente, em algumas vezes, nós, por problemas interiores, desligamos a auto-estima e embarcamos na auto-depreciação. Aqui, na nossa discussão, o caso é político-social. De uma classe dominante determinando o caminho das outras, dominadas. A elite letrada sempre fez e desfez. Aliás, ler e escrever foram artigos de luxo há menos de vinte anos no Brasil.

    A atitude de se auto-denominar "Poeta de Cordel" é assumir a causa cordelista. Continuarei defendendo a causa do cordel, como estudioso, pois até agora, ainda não escrevi o meu cordel inicial. Quando o senhor assume com orgulho o fato e a denominação, lá dentro, essa atitude está assentada sobre a resistência. Aqui no Rio serei sempre o "paraíba". Foi horrível escutar um militar me encostar no muro: "— Mãos na cabeça, paraíba!" E depois falar para o outro: "— O paraíba quer ser doutor!" Tenho muito orgulho de ser paraibano, mas detesto ser o "paraíba".

    Porque não gosto do termo Literatura de Cordel

    1. Meu velho e bom e compadre Lemos, primeiro, recebi o folheto do Patativa via Valdir Oliveira, já o tinha lido no e-book, mas sou um chinês apaixonado pela folha de papel impressa, filho de Gutemberg. Está um primor, o seu trabalho e o acabamento gráfico da Canoa, espero que venham outros. Agora, respondendo a mincê: nunca vi folhetos sendo vendido como roupa colocada no varal, com pegador (vou apostar que o senhor também não!). Isso é básico, mas o termo Literatura de Cordel, que Deus tenha misericórdia de quem o criou, é pejorativo. Uma vingança da ignorância acadêmica contra o manancial poético de quem nunca estudou. Não se pode qualificar a Literatura pelo lugar no qual (aqui supostamente) ela é vendida. Se assim o fôsse teríamos nas Bienais por aí afora Literatura de Stand, Literatura de Feira de Livro, Literatura de Estante de Livraria, Literatura de Beco, de Barraca. Não, não é assim. Alguém, e eu ainda vou descobrir quem foi, para deixar bem marcado que aquela poesia não era feita por algum bilac, mas por um "zé ninguém" do povo. Isso me corrói. Um dos gêneros literários é a poesia (lírica ou épica). Aristóteles pegou a literatura grega e fez a divisão, não se importando com quem fazia, entrou tudo na classificação dele. Daí quando se fala Literatura de Cordel estirpa-se o termo POESIA (que como muitos pensam, inclusive alguns poetas de cordel, seria superior à prosa). Assim, para o sujeito que a rotulou, não é Poesia e quando é vem o novo rótulo Poesia Popular, criando, pejorativamente, nova partição, apartamento. Há alguma diferença entre a poesia de Patativa e a de Casimiro de Abreu? Se há é pela superioridade poética do Patativa. Então por que a poesia dele é popular? Porque causa inveja no acadêmico a causa de um homem sem estudo ser o maior poeta brasileiro. Como reconhecimento, mas com o pé atrás, convidam-no para homenagens. Mas Patativa por ser "popular" jamais seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. Quem? Um poeta de cordel? Jamais. Por isso minha ojeriza ao apartamento, ao termo.

    2. Sou contra, não engulo, e só o pronuncio pedindo licença quarenta vezes aos meus ancestrais. Chega de preconceito e se não der para mudar o nome, já que os apelidos que a gente mais odeia são aqueles que se perpetuam, colocarei sempre um asterisco para explicar o embrião preconceituoso dessa aberração social. Vou contar dois casos conhecidos que devem sempre ser lembrados: por ocasião da semana de arte moderna (que Deus também tenha misericórdia dos que ali se envolveram) resolveram vir ao Rio buscar um autor cuja lira é formidável: Lima Barreto. O que se sabe é Lima era um lunático, vivia ali pela Lapa, pela Praça Tiradentes, bebendo e contando histórias, sem um tostão no bolso. Quando Mario de Andrade o viu caído e todo sujo na calçada, voltou às pressa para São Paulo, com medo do monstro. E o Lima escreveu o Triste Fim de Policarpo Quaresma. O outro caso é o de Cruz e Souza que não foi eleito para a Academia de Letras, mesmo sendo um "negro de alma branca". Claro que surgirão sempre os defensores, os conscientes. Para mim é apartheid. Por isso também não aceito muito a criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É um clone. Os cordelistas devem se candidatar à ABL, fazer o estardalhaço, mostrar que um cordelista é POETA, ESCRITOR, vive de seu ofício, como um OURIVES. Criando a ABLC aceito a apartação, sou carneiro, morro em silêncio. NÃO! Desculpem o tom apaixonado. Sou passional, mas meus pés estão no chão!

    Temas do Cordel

    Às vezes, acho que há uma resistência dos poetas cordelistas ao debate, ao estudo, à averiguação de elementos básicos da literatura de cordel. Militar no cordel não é só desenvolver motes e glosas, é uma confissão, uma profissão de fé. Talvez por isso haja tanto equívoco e tanta rasura no rascunho cordélico. Este tópico é de fundamental importância para o conhecimento do embrião cordeliano. Diz respeito ao início oral desse gênero. Tenho discordado do parentesco fraternal entre cordel e oralidade. Dizer que o cordel teve raiz na poética dos cantadores (na oralidade), ao meu ver, embarca num equívoco de averiguação. A sextilha do cordel não é a sextilha da cantoria. Ao contrário: a sextilha do cordel é que deu origem à sextilha no repente. É um caminho inverso ao que aconteceu naturalmente em outros gêneros. Como sabemos a cantoria era, na origem, cantada em quadras. Em algum momento passou a sextilhas, influenciada, isso sim, pelo papel da sextilha cordélica. A sextilha, escrita, aparece já nas canções medievais e nos seiscentos, com Camões e outros. No Brasil, desde Anchieta que a sextilha escrita se faz presente. No romantismo, em 1848, Gonçalves Dias solidifica de vez a sextilha na literatura brasileira com as Sextilhas do Frei Antão. Considerando que a Literatura de Cordel (nome que me é indeglutível) apareceu no final do séc. XIX, portanto na vigência romântica, entendo provável a sua raiz erudita, trazendo como prova os primeiros "romances" (de romântico) para os folhetos.