2. Sim!!! Eu falava, ou escrevia, do meu encontro com Bráulio Tavares. Era o Bar de Seu Dedé. Foi lá, meio à cachaça brejeira, rodeado de gente, que Bráulio cantou Caldeirão dos Mitos, gravada em seguida por Elba Ramalho, constituindo-se num sucesso nacional. Depois vi o show do cabeludo de Campina Grande no palco do Colégio Santa Rita: Balada do andarilho Ramon e Meu nome é trupizupe nunca mais saíram de minha parada de sucesso particular, do meu cânone. Transformaram-se em meu queijo-do-reino. Talvez os colegas leitores não saibam da simbologia para nós, paraibanos do interior, da periferia das cidades periféricas, desse artigo lácteo. O queijo-do-reino era o nosso mais elaborado sonho de Natal. Uma mínima fatia seria o máximo na ceia que nunca tínhamos. Era raro entre nós, era cara sua cara de bola.
3. Um dia, na feira livre da cidade, masquei, por engano, uma pimenta-do-reino. Aquilo ardeu-me dias, além de intoxicar meus intestinos até hoje. Eu era uma criança curiosa. Peguei medo de pimenta-do-reino. Já aliviei minhas tripas quanto a isso, mas vou devagar. Nunca soube, nem sequer pesquisei, porque chamam-na de pimenta-do-reino. O mesmo vale para o queijo do reino. Só sei que o queijo ficou-me como marca do prazer e a pimenta, do sofrer. Agora, voltando ao caso de João Pessoa, o político, a história fala de seu assassinato por parte do advogado João Dantas, primo da mãe de Ariano Suassuna. É também sabida a história de João Suassuna, pai de Ariano, morto num episódio anterior, de natureza covarde, pelas costas, por um partidário de João Pessoa. O autor de O auto da compadecida, neste ano de comemoração de seus 80 anos ficou ainda mais rouco de tanto contar essa história. Excelente contador que é.
4. O Movimento Armorial idealizado por Ariano foi outro dos meus queijos. O maestro Cussy de Almeida, à frente da Orquestra Armorial regia uma versão de Sem lei, nem rei, de Capiba. Uma canção dolente, um pôr-do-sol doente, o gado tilintando seus chocalhos, essas imagens da seca nordestina e eu sonhando. Transportar a música para a realidade (ou aproximá-las) foi meu primeiro exercício intelectual arrazoado. Minha imaginação conseguia unir o caldeirão de Bráulio ao caldeirão Armorial, embora fossem caldeirões diferentes e diferençados. E neste ano de ouro para Ariano, Bráulio Tavares tentou levar a cabo a empreitada de aproximar o Armorial da imagem, verteu em roteiro para a TV Globo A pedra do reino. E essa versão foi uma pimenta-do-reino tão violenta que vai ser difícil de me curar. Pois o Trupizupe conseguiu partir o queijo-do-reino e deixá-lo cair nas águas turvas do Rio Taperoá em tempo de cheia. A Pedra rolou para longe. O pobre expectador conhecedor de O auto da compadecida sofreu com a esquisita adaptação. Foi tortuoso. Tanta expectativa resultou em pouco entendimento.
5. Atenção, colegas: minha reflexão é apenas opinativa, passional. Reflete solitariamente o meu parco olhar e sei que me perco, ou por não estar preparado, ou por ser ignorante. Ou, mesmo, por viver as duas anti-qualidades ao mesmo tempo, o que é mais certo. Deixa ser mais preciso: quem tiver a coragem de ler A pedra do reino vai comungar da visão verdadeira da saga formadora de nossa gente. É um romance grosso e cabeludo. A determinação do adaptador e sua maestria não garantiriam, como não garantiu, o êxito da travessia. É um caso para muitas mortes. É um canto para muitos motes. O movimento restaurador, que quer o nome de Parahyba para a capital dos paraibanos e a mudança da bandeira, faz-me acreditar na possibilidade do reencontro do povo consigo mesmo e seus reflexos nos indivíduos. A adaptação de A pedra... para a televisão poderá ser revista por mim num futuro próximo, talvez depois de contemplá-la no cinema. Por enquanto ficam meus sabores mais arraigados: A pedra do reino, quebrando meus lábios de títere; o queijo do reino, povoando minhas papilas ancestrais; a pimenta-do-reino, arranhando-me, como uma lixa 14, o tubo digestivo. Ôpa!! É bom ressaltar para os mais ousados que não julgo ter havido, na adaptação, nem covardia, tampouco assassinato!
mas foi mesmo muito chata. o diretor pegou uma fórmula de sucesso anterior e tentou enfiar a Odisséia no soneto.
ResponderExcluirTem razão mestre, nenhuma ignorância.
paz e bem