quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um acróstico de Marco Haurélio

Alguém aí deve se lembrar de Jovino dos Santos Neto. Se não lembra ou não conhece é só fazer a tradicional e já manjada busca no Google, o nosso melhor amigo neste fim de tempos. Pois bem, Jovino conseguiu um patrocínio pela Petrobrás e fez jus ao prêmio, produziu o CD Alma do Nordeste, algo superior em termos de música instrumental e poesia. Poesia? É, poesia! Jovino teve a delicadeza de convidar o poeta Marco Haurélio (que aparecerá nos créditos como Marcus, nome de batismo) para ilustrar sua música. É coisa de primeira. O motivo de eu comentar aqui, agora, é o fato de uma resenha que li no prestigioso site jazzístico All About Jazz escrita pelo consultor do site Martin Gladu ignora totalmente os versos de Haurélio (ele também não precisa entender, claro) e diz a certa altura:

"Exemplificando o velho ditado que toda música é tradicional, a faixa que abre o disco "Festa na Macuca" relembra o toque do acordeon ouvido em ocasiões festivas na Louisiana. Dentro da herança africana e consequentemente mais ritualística, "Passareio" é uma vinheta percussiva, com um par de flautas "chorando" sobre sons naturais com ritmo repetitivo da batida da bateria."


Festa na Macuca foi inspiração de Lousiana, segundo Gladu. O Jovino pode até ter ouvido sanfona em Lousiana, mas aquela da alma talvez tenha sido ouvida em algum arrastapé.

A Fazenda da Macuca fica em Pernambuco e sedia um lúdico festival de Jazz todos os anos, geralmente em dezembro.

Citei o Marco Haurélio porque detive-me no seu cordel A história de Belisfronte, o filho do pescador, mais um título da Luzeiro. Deixo aqui o acróstico, que é uma outra característica da poesia tradicional dos folhetos de cordel para evitar a pirataria:

H oje ainda se comentam
A s façanhas do rapaz,
U m monarca valoroso
R einando sobre os demais,
E ternizado na história,
L evando seu nome à glória
I ndo colher na vitória
O s frutos da Santa Paz.

Invocação

Uma das partes nas quais se compõe a poesia épica é a Invocação. E Os Lusíadas, Camões a inicia na Estância 4 do Primeiro Canto:

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipoerene


e segue pedindo inspiração e engenho e arte para escrever o grandíloquo poema. Na Odisséia, Homero diz:

Ó Musa, fala-me do solerte varão, que, depois de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras, viu as cidades de numerosas gentes e conheceu-lhes os costumes; e, por sobre o mar, sofreu no seu coração aflições sem conta, no intento de salvar a sua vida e de conseguir o regresso dos companheiros. Mas, não obstante o seu desejo, não os salvou, pois pereceram por desatino próprio os insensatos, que devoraram as vacas do Sol, filho de Hiperíone, pelo que este não os deixou ver o dia do regresso. Deusa, filha de Zeus, conta- nos a nós também algumas dessas empresas, começando por qualquer delas.


Com esses dois exemplos clássicos quero comentar que a Invocação passou à Poesia de Cordel. Resume assim, no recentemente publicado pela Editora Luzeiro, a Peleja de Aloncio com Dezinho, o poeta Varneci Nascimento, esta característica dos cordelistas.

Pedir o saber a Deus
É praxe dos cordelistas
E o mesmo eu faço agora
Pedindo a Jesus as pistas
Para narrar a contenda
Entre dois bons repentistas.


A invocação é parte importante para se observar aos que querem se iniciar na arte do bom e contemporâneo Cordel.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Onde o Cordel?

Tratar da presença da Literatura de Cordel nos estudos sobre literatura brasileira é tratar de sua ausência. Vejamos. Nenhum dos nossos reconhecidos estudiosos a inserem em suas obras principais. Sabendo-se que

Leandro Gomes de Barros

foi o primeiro a publicar seus folhetos e editá-los sistematicamente, não lhe é devida nenhuma citação nem em

Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos,
de Antonio Candido,

nem em

A Literatura Brasileira,
de José Aderaldo Castelo,

ou na

História Concisa da Literatura Brasileira,
de Alfredo Bosi.

Dá-se o mesmo em Ronald Carvalho, Nelson Werneck Sodré e José Veríssimo.

Sílvio Romero chega a citar o Cordel em seus Estudos sobre a poesia popular, mas como algo finado.

Quanto aos livros didáticos, o que se apresenta é uma periodização das Épocas Literárias desde Portugal. Mesmo atribuindo valor ao trovadorismo português, ao cancioneiro de Garcia de Resende, às cantigas de Martim Codax e D. Dinis, ou Joan Airas de Santiago, escritos primevos, nada sobre Literatura de Cordel. É como se esse fenômeno não tivesse acontecido. Deve-se ao trabalho de pesquisadores particulares, paladinos e quixotes, a tentativa de integração e enquadramento dessa literatura no todo literário brasileiro, exemplo seguido por algumas instituições como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Pernambuco, citando as mais conhecidas, mas sem a força fundamental da mudança.

O sertão

O Brasil nasceu no Nordeste. No litoral. É no sertão, todavia, que o Brasil sobrevive. É no Sertão, na seca e amaldiçoada terra do sertão, que o Brasil se firma.

Lá a vida é o mandacaru, o juazeiro.
É a pedra-de-fogo e os lajedos perenes na poeira do tempo que não passa.
Lá, naquelas paragens acariciadas pela mão rude da seca,
fincou-se o pau da bandeira
e cravou-se o tronco da cruz nas costas dos homens.

Aqueles que chegam ao sertão, oriundos do barulho do mar de motores e gentes sonâmbulas, são atropelados pela descoberta mais fatal e o encontro mais terrível: consigo mesmo.

Indagar-se sobre si e sob si enlouquecer.

Afrânio Peixoto cai em si:

“O sertão é o recesso, é o íntimo do deserto...”.

Ivanildo Vila Nova, dos maiores cantadores que já vi e ouvi

Sertanejos morrendo de magote
A bandeira rasgada era um molambo
O quartel sem guarita era um mucambo
A trincheira era a grimpa de um serrote
A metralha um feioso clavinote
Baioneta era a lança do carreiro
A corneta o búzio do vaqueiro
Parapeito e gibão sua roupagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antônio Conselheiro

Conselheiro

O episódio de Canudos, como está n’Os Sertões, abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões,

promove um massacre,
estabelece o terror,
o Apocalipse,
o Armagedom.

Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático.

Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino.
Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu.
Um ogro voraz,
um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira.

As insígnias, entretanto, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

Voltei a pensar, a ação se fez

1.
Pensemos com Augusto dos Anjos em Os doentes

Mas, diante a xantocróide raça loura,
Jazem caladas todas as inúbias,
E agora sem difíceis nuanças dúbias,
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!
(...)

As reflexões do poeta são a janela para os nossos próprios olhos. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família.

Um índio chamado Galdino.
Um índio chamado Jesus.
Dos Santos.

2.
O que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

Arrancou-se-lhe o cobertor,
virou-se-lhe a cama,
incendiou-se-lhe o sono,
fecundou-se-lhe o pesadelo.

3.
Gonçalves Dias, O Canto do Piaga


Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade –
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracá.


Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

(...) Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!


O silvo alertando para a cova profunda,
boca aberta,
escancarada, para sorver mata, índio, memória.