sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Outras paródias

1.

Inicio outra rodada de paródias com Georges Mathieu, em entrevista a Vintila Horia:— É evidente que o poeta de cordel se prepara para escrever. O problema está em saber ou prever se o fará de forma sábia ou demencial.

2.

Thomas Heggen a Budd Schulberg: Leandro Gomes de Barros (o criador do cordel) foi sábio o bastante para logo perceber que a carreira de um escritor não é uma escada rolante, nem uma palmeira para que suba por ela, como macaco, se apoiando nas mãos. Um escritor, quando continua escrevendo é uma cordilheira... sou uma cordilheira, desço, subo, tenho chapadas, deslizes e até quedas.

3.

Vicente Huidobro: esses quase-poetas contemporâneos são muito interessantes, mas seu interesse não me interessa. 

A terra do sal

  • O cordel é minha terra e minha praia, é meu santo e meu altar, por ele não mato (sou um frouxo) nem morro (sou covarde), mas me arrisco (sou ousado).
  • Cada vez me convenço mais que a crítica brasileira, essa que anda aí elegendo seus cânones, é movida apenas pelo gosto pessoal, pelo comadrio e até pelo jabá. É flagrante sua ignorância, seu bairrismo, suas fichinhas carimbadas, seus tin-tins.
  • Fui ao lançamento de um livro de um amigo e ouvi alguém referir-se a mim como o cara que só sabe falar de cordel. Mas a pessoa falava como quem queria evitar-me a toda custo, para não ouvir minhas intermináveis divagações sobre cordel e cordelistas. Nessa noite caiu minha ficha: estou no caminho certo.
 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Cordel em tempos de guerra


1.
Em tempos de retomada de território, a brigada do cordel deve se situar entre a bala e o ballet, entre o fuzil e o fusilli, entre o militar e a militância, entre o estilhaço e o estiloso, entre o coronel e a coronária, entre a intelligentzia e a inteligência, entre o preso e o prazo, entre o Beltrame e o Belchior.



2.
O cordel consolidou-se como o principal traficante poético do Brasil: ensanguentou Suassuna na Pedra do Reino, desovou Zé Lins nos labirintos do canavial, cegou Raquel de Queiroz com um copo de água gelada, expulsou João Cabral da casa de Sivirino e recentemente jogou Glauco Mattoso de uma catarata.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

As três marias


1.
Durante as palestras que tenho ministrado sobre cordel, uma das perguntas mais frequentes é: — Qual a origem do cordel? Respondo: — Há três teorias para a origem do cordel: uma diz que o cordel é originário da península ibérica e que chegou até nós trazido pelos colonizadores. Discordo dessa vertente pois não se tem notícias de cordel português em solo brasileiro. Um ou dois aqui chegaram.




2.
Outra vertente diz que o cordel é a face escrita da poética dos cantadores repentistas. Discordo dessa corrente por constatar que a sextilha do cordel é completamente diferente da sextilha do repente, embora conserve a mesma armadura, mas abandona a deixa, marca indelével do repente. Além do mais, a sextilha foi introduzida no repente tardiamente, visto que os desafios eram feitos em quadras.




3.
A terceira é na qual acredito: no cordel genuinamente brasileiro. Dialoga com Portugal e com os repentistas, mas rompe com ambos. É como a música: não se nega uma música brasileira genuína, mas a música já habitava o velho mundo e a música dos nossos autóctones, que deveria ser a música brasileira, tem pouca influência. No cordel consolidou-se nossa independência poética.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os mais vendidos

Durante o fim de semana, entre 4 e 7 de novembro, aconteceu o festival Cubatão Danado de Bom. A Editora Luzeiro expôs seus cordéis para venda: 500 títulos. A seguir a lista dos mais vendidos:

Em primeiríssimo: A chegada de Lampião no Inferno

2. O Pavão Misterioso

3. A briga de dois matutos por causa de um jumento

4. João Soldado, o valente soldado que colocou o diabo em um saco

5. Lampião, Rei do Cangaço

6. Visita de Lampião a Pe. Cícero no Céu

7. A peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho

8. Presepadas de Chicó e astúcias de João Grilo

Destaques:

A mulher que casou 14 vezes e continuou donzela

O Negrão do Paraná e o Seringueiro do Norte


Como se nota, os clássicos são os campeões, dentre eles Lampião ainda é a figura mais apreciada, pois 3 dos 8 mais vendidos têm sua chancela. Os destaques para A moça que casou 14 vezes... e o Negrão do Paranáforam surpreendentes. Títulos muito chamativos cujo teor não decepcionou. Outra observação é que na lista figuram dois novíssimos escritores: Varneci Nascimento, com Visita de Lampião a Pe. Cícero no Céu e Marco Haurélio, com Presepadas de Chicó e astúcias de João Grilo. Perceba-se que ambos estão com a marca de quatro mitos nordestinos: Lampião e Pe. Cícero, Chicó e João Grilo.


Entre os folhetos no tamanho pequeno 11X15, os mais vendidos:





1. Dez mandamentos do preguiçoso, de Varneci Nascimento
2. Pergunta idiota, tolerância zero, de Varneci Nascimento
3. Chicó, o menino das cem mentiras, de Pedro Monteiro
4. Abolição, um sonho de liberdade, de Benedita Delazari
5. A escravidão negra e o Quilombo dos Palmares, de Benedita Delazari
6. O casamento da Chapeuzinho Vermelho, de Cleusa Santo

Entre os pequenos, destacam-se os folhetos de autoria feminina, de duas mulheres que não são nordestinas, o que prova que o cordel é nacional. Na soma total, Varneci Nascimento é o autor mais procurado, com um título entre os folhetos coloridos e dois entre os pequenos de duas cores.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A escolha

Repito enfaticamente:

Não é o poeta quem escolhe o cordel. É o cordel quem escolhe o poeta.


Logo, não adianta labutar no lodaçal. Se o poeta não consegue construir um poema em cordel, com mais de 30 sextilhas, é bom repensar seu intento. Se consegue escrever 28 apenas, tem uma luz, mas só. O cordel requer fôlego.

Da mesma forma, o poeta que escreve cinco sextilhas e diz que escreveu cordel, delira. Escreveu tão somente cinco sextilha, utilizou apenas a técnica do cordel, não escreveu um cordel.

Lembremos que uma sextilha solitária extraída de um poema de cordel, perde sua aura cordelística. É unicamente uma sextilha, um pintainho de acauã que do ninho caiu. E morreu.

Repito ainda:

O poeta de cordel tem que respirar cordel, mas precisa comer várias outras guloseimas.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nossos poetas


1.
Inicio essa nova rodada de apropriações, apropriando-me de Afrânio Coutinho, adaptando-o ao cordel:

Divorciado de uma tradição, o poeta de cordel sente-se separado de seus predecessores, que ignora, da sociedade, que o desconhece, ou de seus pares, a que não presta atenção...


2.
Continuando:

É marca indelével de nossa vida intelectual a completa desatenção do escritor ao trabalho de outros escritores passados ou contemporâneos. Resultam o isolamento e o marginalismo em vida, e o esquecimento rápido com a morte, como se construísse sobre a areia. E resulta a impressão de que as obras são feitas de espuma, desaparecendo com o tempo.


3.
Ainda parodiando Afrânio:

A fé no espontâneo, na arte natural, na inspiração telúrica, faz com que (o poeta de cordel) despreze o estudo e a formação técnica. Constitui motivo de jactância ou endeusamento, e critério de aferição de valores, o pouco ou nenhum estudo, a virgindade de alma, a incultura... refletidos na rapidez e abundância da produção, no descuido e desinteresse pelo aperfeiçoamento.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Em resumo

O cordel é síntese e profecia:
pois resume e anuncia.

É tradição e vanguarda:
pois respeita e avança.

É continuidade e ruptura:
pois represa e deixa fluir.

É corpo e alma:
pois adormece e todos os dias nunca dorme,
alerta e transcendente.

Do sertão e do brejo


1.
Desde a primeira edição de Os Sertões que se repete o refrão: "O sertanejo é antes de tudo um forte.". Não resta dúvida que o é, mas Gilberto Freyre nos alerta para o fato de o Nordeste não ser apenas sertão, barro vermelho, terra seca, brocas e mandacarus. Há o Nordeste da cana-de-açúcar, cujo caboclo é tão forte quanto o sertanejo euclidiano.




2.
Mas há também o Nordeste de Jorge Amado cujos trabalhadores do mar e do cacau equivalem em força, bravura e destemor aos sertanejo e brejeiro. O que dizer dos homens do caranguejo? E dos babaçueiros? Querer reduzir o Nordeste e seu Homem ao sol com raios wolverínicos é assassinato antropológico.




3.
Essa redução passou à poesia. Passou ao cordel. É comum se louvar a poesia sertaneja como aquela de melhor cepa. Mais comum ainda chamar o cordel de poesia sertaneja. Ora, ora, o maior clássico do cordel (A História do Pavão Misterioso) é de um brejeiro, José Camelo. O País de São Saruê é de outro brejeiro, Manoel Camilo. Não por acaso, ambos de Guarabira.




4.
Mesmo nos primórdios, o brejo paraibano teve seu papel de suma importância: João Martins de Ataíde é do Ingá. Francisco das Chagas Batista trabalhou em Areia e morou em Guarabira. Azulão é de Sapé. João de Cristo Rei, de Areia. E assim se vai: a poesia não tem pátria, nem classe social, ninguém é seu dono, tampouco seu senhor e o sertão não é o El Dorado poético.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Aqui, além

Aqui, além

do tema
do mistério encantatório
da poesia,

lembro

do que ela nos ensina ao
pedir e propor
novas leituras.

Um bom poema nos dá vontade

de ler de novo
e aí, maravilha,
ele nos revela algo mais.

Assim vai
nos ensinando
o prazer do mergulho e da concentração.

Eduardo Tornaghi
http://papopoetico.blogspot.com
Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um pitaco e uma assertiva

1. O pitaco:
Outro dia falei que o encontro do cordel e da xilogravura não oferta aos pesquisadores o direito de dizer que esta é sinônimo daquele. Ora, muitos astros de Holywood povoaram as capas de cordéis e nem por isso foram transformados em seus ícones. Aliás, muitos estudiosos ignoram essa façanha.

2. A assertiva:
Silvino Pirauá de Lima criou o romance em versos e talvez tenha escrito o primeiro cordel; Leandro Gomes de Barros deu forma ao cordel como ele é conhecido, a partir da publicação do primeiro folheto; João Martins de Ataíde emprestou a publicação em série ao cordel e contratou poetas para trabalhar em escala industrial; Francisco das Chagas Batista pensou em um cordel de capa dura, com atrativos gráficos superiores.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Paródias

1.
Quero parodiar Wang Chong: "O cordel deve ser fácil de compreender e difícil de escrever e não difícil de compreender e fácil de escrever."


2.
Parodio, também, Jean Paulhan:"O cordel também é uma linguagem e (embora nem sempre seja visível) uma festa para todo mundo, para a qual todo o mundo é convidado."


3.
Finalizo a série de paródias, parodiando Marcel Arland: "Imagino facilmente o cordel como uma Ordem."

terça-feira, 12 de outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Da vaidade

1.
A vaidade foi a desgraça de Lampião.

2.
Corrigir um texto em cordel é prazeroso e trabalhoso. Corrigir o texto de um poeta vaidoso, seja ele quem for, é criar uma inimizade que durará ad saeculum.

3.
Convencer o poeta de cordel sobre a necessidade de seu texto sofrer intervenções para curar-lhe vícios de linguagens, repetições desnecessárias, adequações gramaticais, supressão de cacófatos, excessos estilísticos, mantras obsessivos, problemas de acentuação ritmica e outras observações, pois bem, convencer o poeta de cordel é um trabalho que deve ser regrado pela paciência.

Metro, rima e oração

1.

Há muito habita entre os cordelistas a tríade sobre qual o cordel está plantado: METRO, RIMA e ORAÇÃO. Mas isso diz tão pouco que chega a soar hermético para os não iniciados. Urge complementação e expansão desses conceitos para melhor enquadramento da poética cordelística.



2.

Considerando que em poesia, por ter como princípio as possibilidades da palavra, haverá sempre rima, por mais que os versos sejam brancos e soltos; considerando que sempre haverá metro, visto que todo verso contém sílabas poéticas, e que tudo, mesmo uma só vírgula, tem significado, aquela suposta tríade do cordel perde sentido. Por quê? Porque a poesia é maior que o cordel, sendo o próprio cordel forma poética.



3.

Por isso a necessidade de complementação: para o cordel vale o verso setissilábico; vale a rima soante, disposta na sextilha com a rubrica xaxaxa (onde os versos x não rimam entre si e os a, rimam; e o significado oracional está preso à sintaxe da língua portuguesa. Esse último ítem, entretanto, carecendo de maior aprofundamento e até de questionamento.



4.

Ainda sobre aquela tríade RIMA, METRO e ORAÇÃO, talvez o primeiro poeta a confessá-la tenha sido Antonio Teodoro dos Santos no cordel Lágrimas de Palhaço. O narrador abre assim:



Neste livro eu vou fazer
Rimas, oração e traço
Não quero que meu leitor
Na letra tenha embaraço
Saiba que agora vai ler
As "Lágrimas de um Palhaço".

Infelizmente não há data de publicação, mas é da Editora Prelúdio, antecessora da Luzeiro.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Citações

1. Reproduzo o quase sempre esquecido Salim Miguel:
"Eu disse, no começo desta nossa conversa, que os temas com que o escritor trabalha são relativamente os mesmos desde o início dos tempos. Agora, no meu caso, não tenho personagens nem temas. Temas ou personagens é que me procuram. Para alguns digo: 'tudo bem, vamos trabalhar'; para outros: 'procure outro escritor porque não consigo chegar aonde tu queres'."



2. Reproduzo o que disse João Antonio:
"Em se tratando de literatura brasileira, o sujeito que achar que sabe alguma coisa, ou que acreditar na glória literária, é um puro e simples idiota, é um otário, como diriam os meus personagens, absolutamente desavisado. A realidade brasileira é muito superior ao que a arte brasileira já fez; nós ainda não temos uma literatura à altura da multiplicidade de realidades brasileiras e da grandiosidade dessas realidades. Por exemplo: nós não temos uma boa literatura sobre futebol, nós não temos uma boa literatura sobre favela, nós não temos uma boa literatura sobre samba, nós não temos uma boa literatura sobre êxodo rural; nós não temos obras tópicas, por exemplo, as coisas de Graciliano Ramos, Lima Barreto, e outros exemplos bons."

sábado, 25 de setembro de 2010

Lançamentos

1.

Seguindo o seu rumo, na senda do cordel, a Editora Luzeiro, relança, repaginado e com nova capa, o clássico de Antonio Teodoro dos Santos, Lampião, o Rei do Cangaço. Biografia do famoso capitão Virgulino, esse cordel tem como aspecto marcante a utilização das cantigas populares, louvando ou condenando o cangaceiro.

2.

O Mistério da Pele da Novilha é o novo livro em cordel do poeta Josué Gonçalves de Araújo. Uma narrativa forte e original. Com essa obra, o autor se consolida entre os cordelistas mais interessantes dessa geração. Se com O Coronel Avarento já se revelava uma ótima pena, com esse, ele se supera. E mais material bélico a sair.

3.

A Visita de Lampião a Padre Cícero no Céu é mais um lançamento da Luzeiro. O cordel de Varneci Nascimento é um divisor, pois reavalia o mito lampiônico a partir do mito católico da salvação. As personalidades controversas dos dois herois sertanejos, a la Virgílio, perambulam pelos também controversos Céu e Inferno, estabelecimentos e repartições da mitologia cristã. Cordel que dialoga com o lançamento no cinema de Nosso Lar.

Anotações para uma poética cordelial V

1.
Há uma insistência entre os pesquisadores e alguns poetas em vincular a xilogravura ao cordel. Em certo momento da década de 50 do século passado, essas duas artes se encontraram, mas são autônomas. A xilogravura é só mais um processo ilustrativo do cordel. Não o representa, nem é uma sua extensão.

2.
O romance sumiu do cordel. O cordel de gracejo, o cordel pedagógico, o cordel das adaptações estão tomando o lugar das pelejas, dos romances, das aventuras originais. Os cordéis sobre seu Lunga são best-sellers, sobre o peido, sobre a bunda, etc. Mas e os romances? Quem tem fôlego para o cordel original? Motivos não faltam? Faltarão poetas?

Anotações para uma poética cordelial IV

1.
O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, afirmou-me: vejo o cordel não como poesia, mas como gênero literário. E eu concordo, discordando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!

Responde o amigo Cláudio Portella:

Amigo Aderaldo, eu não afirmei isso. Eu disse que talvez possa ser assim. Não sou um estudioso do cordel, nem pretendo ser. Só fomentei a crítica sobre o assunto. Nada mais! Já vai longe meu tempo de afirmações. Abração carinhoso do seu, CP.


Obrigado pelo puxão de orelhas.

Comment by Cláudio Portella — 26 September 2010 @ 10:23 pm
2.
Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.

3.
Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.

4.
Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

Anotações para uma poética cordelial III

1.
O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda.

2.
O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3.

3.
Passo a acreditar que cordelista não é só aquele que produz o poema em cordel, mas todo mundo que, de alguma forma, contaminou-se enamorado por esse fenômeno poético. Assim, são cordelistas os que o fazem, escrevendo, lendo, ouvindo ou estudando. Até os que se negam a recebê-lo, o são.

4.
O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

Anotações para uma poética cordelial II

1.
As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.

2.
Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.

3.
O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.

4.
Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.

Anotações para uma poética cordelial

1.
Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.

2.
Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.

3.
Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.

4.
O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

A Bagaceira



No prefácio de A Bagaceira, o célebre livro de José Américo de Almeida (que vi morrer solitário), está um decálogo interessante. Diz um dos mandamentos:
"— Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: É não ter o que comer na terra de Canaã."


A Bagaceira, publicado em 28, como sabemos, inaugurou o ciclo do Romance Regionalista brasileiro, da década de 30.

A Arte de Escrever, por Schopenhauer

Citando Schopenhauer em A Arte de Escrever:

“Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros."

domingo, 23 de maio de 2010

Entrevista à Rádio Unesp

Minha entrevista ao jornalista Oscar d'Ambrosio no Perfil Literário da Rádio Unesp. Clique no microfone:

quarta-feira, 19 de maio de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

Rumos Literatura, Itaú Cultural


Abertas as inscrições para o edital RUMOS LITERATURA 2010-2011 do Itaú Cultural

O programa Rumos Literatura 2010-2011, conta com o apoio da Anpoll - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e em Lingüística (http://www.anpoll.org.br/site/).

Inscrições gratuitas: de 3 de março a 31 de julho de 2010.

Público alvo: todas as pessoas interessadas nos temas propostos, independente do nível escolar e atividade profissional.

Em sua quarta edição, o programa Rumos Literatura é dirigido aos interessados em desenvolver textos reflexivos sobre literatura e crítica literária brasileira contemporânea. A novidade desta edição é a possibilidade de estrangeiros se inscreverem. O programa busca colaborar no desenvolvimento de potencialidades ao estimular a formação do interessado em literatura na ampliação de sua rede de relacionamentos intelectuais e profissionais e, posteriormente, lançar e divulgar uma publicação com sua produção autoral.

O programa está dividido em duas categorias:
1. Produção Literária, para projetos de ensaio que tratem de um tema relativo à produção literária brasileira a partir do início dos anos 1980.
2. Crítica Literária, para projetos de ensaio sobre a produção crítica na literatura brasileira realizada a partir do início dos anos 1980.

Importante: o interessado não precisa escrever o ensaio final, apenas o projeto que será desenvolvido em 2011, conforme consta no edital.

. Leia o edital completo, regulamento, prêmios e saiba com se inscrever na página http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2708.
. Dentre os prêmios, os selecionados receberão apoio financeiro mensal e remuneração referente ao licenciamento dos direitos autorais do trabalho concluído e aprovado.
. E-mail tira dúvida: rumosliteratura@itaucultural.org.br

Acompanhe as notícias e comentários sobre o programa Rumos no blog http://rumositaucultural.wordpress.com/.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Quero escrever um cordel

Os meus amigos poetas cobram-me a escritura de um cordel. Ainda não criei coragem para isso. Falta-me peito. Temo os mestres, amedronto-me com os espíritos pioneiros. Sou um Manoel-Borra-Botas. Por enquanto, sigo os caminhos da crítica e da mímica poética. Por isso, deixo aqui partes de meu novo livro Do que disseram os poetas que quisera fosse poesia. Aliás, a professora Heloísa Buarque de Holanda disse-me, frente a diversas testemunhas, que meu livro O auto de Zé Limeira seria um ensaio. Talvez esse próximo também o seja. Os dois fazem parte de uma trilogia que se encerrará em 2011 com Os aspectos do boi. Essa trilogia é assinada por Aderaldo Cangaceiro, mas vamos ao que interessa. Do que disseram os poetas é uma cantoria que registrei e passei para a escrita, oferecendo um acréscimo aqui e ali, adulterando os versos originais. Como os cantadores não se opuseram, amarrei-lhes uma forma e coloquei o nome de um alter ego. Trata-se, portanto, de uma apropriação.

1. Por ocasião da chegada de uma moça formosa que se sentara na platéia

— Observe a obra rara
Que Deus fez para nós vermos
Mente sã e corpo são
O Belo em todos os termos
Fitoterapia e química
Deixando nós dois enfermos!

— Labirinto a nos perdermos,
Entranhas da Natureza.
Quais mãos esculpiram a Ninfa
Com tanto esmero e destreza?
É Céu e Geena juntos
Deixando a gente mais presa!

— Considere esta surpresa
Na tênue luz de um quarto:
Boca, seios, glúteos, coxas,
dorso e cabelo farto
corpo-fruta acidulado
Deixando ao poeta.. infarto!

— É como se fosse um parto
Tendo a ação dividida
Parturiente e parteira
Sentindo ambas a vida
A sudorese e o sorriso
Deixando a dor sem saída!


2. Por ocasião de um galo ter cantado por volta da meia-noite enquanto a cantoria seguia

— Os galos de minha terra
São galos-maracanãs
Acordam com sua música
Cabras, ovelhas, marrãs
Riscando com o bico-canto
A leve tez das manhãs

— Deslizam qual rolimãs
Sua pauta musical
Estendem suas bandeiras
Nas cercas do meu quintal
Terreno sonoro extenso
Todo dia, por igual.

— Nenhum galo canta mal
Todos têm o mesmo encanto
Mas têm cantos diferentes
Uns de riso, outros de pranto
Uns porque morreu um louco,
Outros, por nascer um santo!

— Todo embrulhado em um manto
Para amenizar o frio,
O tilintar dos meus dentes
E as águas desse meu rio.
E os galos indiferentes
Cantando horas a fio.

3. Por ocasião de duas crianças terem homenageado os poetas com ramalhetes de flores no intervalo da cantoria

— Flores, perfumadas flores
Por mãos de botões trazidas
As rimas do nosso rumo
São estampas coloridas
flores e rimas efêmeras
Eternas lembranças idas

— As cores de nossas vidas
Saem de um prisma talhado
Em cristal, pedra-de-fogo,
Polido quartzo incrustrado
Na Serra da Borborema
Dentro da pedra gestado

— O sertão é um cercado
De pedras que são humanas
De homens que são de pedra
De dias que são semanas
E de séculos dissolvidos
Num só bater de pestanas

— Há secas que são insanas
E chuvas benevolentes
Há crianças como essas
Que trazem flores contentes
E há flores mudando a vida
De dois poetas cadentes.


4. Por ocasião de um professor chamado Abrão, ter pedido por escrito que os poetas opinassem sobre o conceito de imitação platônica

— Subentenda-se um novelo
Contido em um simulacro
E este por sua vez,
Como um objeto sacro,
Escravizado por outro
Em uma caixa que eu lacro.

— Verei se desencalacro
O conceito de Platão:
Há um pão que está no céu
Outro que está no balcão
O padeiro imita Deus.
E aos dois a palavra PÃO!

— Palavra e imperfeição
Distando em terceiro grau:
Imita o produto humano
Que imita o celestial
Guardado fora do mundo
Na noite mais ancestral

— Prender nosso cabedal
Com o grilhão da vossa estética
É querer que um desregrado
Leve vida mais ascética
É nos dar o cadafalso,
Enforcar nossa Poética.

5. O verso de improviso encafifando os críticos ignorantes na arte da cantoria

— O verso de improviso
É momentânea ilusão
Espera-se que o poeta
Quebre o pé da criação
Deixe-o manco, ferido
Como um ferro retorcido
Cuja única serventia
É ser aleijão disforme
Um monstro que nunca dorme
Deformando a Poesia.

— O poeta, todavia,
De boa cepa gerado
Constrói no barro do verso
Um vaso bem adornado
Dá-lhe cores, apetrechos,
Capaz de lhes dar desfechos
Surpreendendo a platéia
Que ao crítico literário
Ensina o abecedário
Com toques de cefaléia.



6. Porque um poeta formado nas academias não sabe improvisar e por isso rotula essa arte, a do improviso, de arte menor

— O poeta de bancada
Sentado em seu gabinete
Passa a vida reescrevendo
Seu verso para um banquete
Diz: “Poesia é Trabalho”
E insiste em dar mais um talho
Naqueles versos ranzinzas.
Por vezes o resultado
É papangu desolado
Na Quarta-Feira de Cinzas.

— Enquanto que o repentista
em seu furor instantâneo
Formula e burila o verso
No caldeirão de seu crânio
O que duraria um mês
Dura um segundo ou três
E eclode quente e bem feito
O ouvido que escuta
Reconhece ali labuta
E acabamento perfeito.

É! Acho que chega de maltratá-los.