1. Por ocasião da chegada de uma moça formosa que se sentara na platéia
— Observe a obra rara
Que Deus fez para nós vermos
Mente sã e corpo são
O Belo em todos os termos
Fitoterapia e química
Deixando nós dois enfermos!
— Labirinto a nos perdermos,
Entranhas da Natureza.
Quais mãos esculpiram a Ninfa
Com tanto esmero e destreza?
É Céu e Geena juntos
Deixando a gente mais presa!
— Considere esta surpresa
Na tênue luz de um quarto:
Boca, seios, glúteos, coxas,
dorso e cabelo farto
corpo-fruta acidulado
Deixando ao poeta.. infarto!
— É como se fosse um parto
Tendo a ação dividida
Parturiente e parteira
Sentindo ambas a vida
A sudorese e o sorriso
Deixando a dor sem saída!
2. Por ocasião de um galo ter cantado por volta da meia-noite enquanto a cantoria seguia
— Os galos de minha terra
São galos-maracanãs
Acordam com sua música
Cabras, ovelhas, marrãs
Riscando com o bico-canto
A leve tez das manhãs
— Deslizam qual rolimãs
Sua pauta musical
Estendem suas bandeiras
Nas cercas do meu quintal
Terreno sonoro extenso
Todo dia, por igual.
— Nenhum galo canta mal
Todos têm o mesmo encanto
Mas têm cantos diferentes
Uns de riso, outros de pranto
Uns porque morreu um louco,
Outros, por nascer um santo!
— Todo embrulhado em um manto
Para amenizar o frio,
O tilintar dos meus dentes
E as águas desse meu rio.
E os galos indiferentes
Cantando horas a fio.
3. Por ocasião de duas crianças terem homenageado os poetas com ramalhetes de flores no intervalo da cantoria
— Flores, perfumadas flores
Por mãos de botões trazidas
As rimas do nosso rumo
São estampas coloridas
flores e rimas efêmeras
Eternas lembranças idas
— As cores de nossas vidas
Saem de um prisma talhado
Em cristal, pedra-de-fogo,
Polido quartzo incrustrado
Na Serra da Borborema
Dentro da pedra gestado
— O sertão é um cercado
De pedras que são humanas
De homens que são de pedra
De dias que são semanas
E de séculos dissolvidos
Num só bater de pestanas
— Há secas que são insanas
E chuvas benevolentes
Há crianças como essas
Que trazem flores contentes
E há flores mudando a vida
De dois poetas cadentes.
4. Por ocasião de um professor chamado Abrão, ter pedido por escrito que os poetas opinassem sobre o conceito de imitação platônica
— Subentenda-se um novelo
Contido em um simulacro
E este por sua vez,
Como um objeto sacro,
Escravizado por outro
Em uma caixa que eu lacro.
— Verei se desencalacro
O conceito de Platão:
Há um pão que está no céu
Outro que está no balcão
O padeiro imita Deus.
E aos dois a palavra PÃO!
— Palavra e imperfeição
Distando em terceiro grau:
Imita o produto humano
Que imita o celestial
Guardado fora do mundo
Na noite mais ancestral
— Prender nosso cabedal
Com o grilhão da vossa estética
É querer que um desregrado
Leve vida mais ascética
É nos dar o cadafalso,
Enforcar nossa Poética.
5. O verso de improviso encafifando os críticos ignorantes na arte da cantoria
— O verso de improviso
É momentânea ilusão
Espera-se que o poeta
Quebre o pé da criação
Deixe-o manco, ferido
Como um ferro retorcido
Cuja única serventia
É ser aleijão disforme
Um monstro que nunca dorme
Deformando a Poesia.
— O poeta, todavia,
De boa cepa gerado
Constrói no barro do verso
Um vaso bem adornado
Dá-lhe cores, apetrechos,
Capaz de lhes dar desfechos
Surpreendendo a platéia
Que ao crítico literário
Ensina o abecedário
Com toques de cefaléia.
6. Porque um poeta formado nas academias não sabe improvisar e por isso rotula essa arte, a do improviso, de arte menor
— O poeta de bancada
Sentado em seu gabinete
Passa a vida reescrevendo
Seu verso para um banquete
Diz: “Poesia é Trabalho”
E insiste em dar mais um talho
Naqueles versos ranzinzas.
Por vezes o resultado
É papangu desolado
Na Quarta-Feira de Cinzas.
— Enquanto que o repentista
em seu furor instantâneo
Formula e burila o verso
No caldeirão de seu crânio
O que duraria um mês
Dura um segundo ou três
E eclode quente e bem feito
O ouvido que escuta
Reconhece ali labuta
E acabamento perfeito.
É! Acho que chega de maltratá-los.
Puxa, mestre, se isso for apenas "ensaio", creio que devo enrolar meus papiros manchados de tinta e enfiá-los num baú, e o que existe virtualmente marcar como oculto! =]
ResponderExcluirAbraço. (e parabéns)
Mano mestre, cá estou de volta e me dou com seus versos de repente. De repente, os versos, a poesia bem craniada no arroubo do momento. Gostei demais.
ResponderExcluirDe outra, gastei de catar um diluidor de saudades pra superar a distância passada.
Paz e bom humor, mestre Aderaldo.
É na prática da leitura
ResponderExcluirInstigando o pensamento,
E vislumbrando horizontes
Pra melhor discernimento,
É que iremos alçar
O vôo do conhecimento.