- O cordel é minha terra e minha praia, é meu santo e meu altar, por ele não mato (sou um frouxo) nem morro (sou covarde), mas me arrisco (sou ousado).
- Cada vez me convenço mais que a crítica brasileira, essa que anda aí elegendo seus cânones, é movida apenas pelo gosto pessoal, pelo comadrio e até pelo jabá. É flagrante sua ignorância, seu bairrismo, suas fichinhas carimbadas, seus tin-tins.
- Fui ao lançamento de um livro de um amigo e ouvi alguém referir-se a mim como o cara que só sabe falar de cordel. Mas a pessoa falava como quem queria evitar-me a toda custo, para não ouvir minhas intermináveis divagações sobre cordel e cordelistas. Nessa noite caiu minha ficha: estou no caminho certo.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
A terra do sal
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Cordel em tempos de guerra
1.
Em tempos de retomada de território, a brigada do cordel deve se situar entre a bala e o ballet, entre o fuzil e o fusilli, entre o militar e a militância, entre o estilhaço e o estiloso, entre o coronel e a coronária, entre a intelligentzia e a inteligência, entre o preso e o prazo, entre o Beltrame e o Belchior.
2.
O cordel consolidou-se como o principal traficante poético do Brasil: ensanguentou Suassuna na Pedra do Reino, desovou Zé Lins nos labirintos do canavial, cegou Raquel de Queiroz com um copo de água gelada, expulsou João Cabral da casa de Sivirino e recentemente jogou Glauco Mattoso de uma catarata.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
As três marias
1.
Durante as palestras que tenho ministrado sobre cordel, uma das perguntas mais frequentes é: — Qual a origem do cordel? Respondo: — Há três teorias para a origem do cordel: uma diz que o cordel é originário da península ibérica e que chegou até nós trazido pelos colonizadores. Discordo dessa vertente pois não se tem notícias de cordel português em solo brasileiro. Um ou dois aqui chegaram.
2.
Outra vertente diz que o cordel é a face escrita da poética dos cantadores repentistas. Discordo dessa corrente por constatar que a sextilha do cordel é completamente diferente da sextilha do repente, embora conserve a mesma armadura, mas abandona a deixa, marca indelével do repente. Além do mais, a sextilha foi introduzida no repente tardiamente, visto que os desafios eram feitos em quadras.
3.
A terceira é na qual acredito: no cordel genuinamente brasileiro. Dialoga com Portugal e com os repentistas, mas rompe com ambos. É como a música: não se nega uma música brasileira genuína, mas a música já habitava o velho mundo e a música dos nossos autóctones, que deveria ser a música brasileira, tem pouca influência. No cordel consolidou-se nossa independência poética.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Os mais vendidos
Em primeiríssimo: A chegada de Lampião no Inferno
2. O Pavão Misterioso
3. A briga de dois matutos por causa de um jumento
4. João Soldado, o valente soldado que colocou o diabo em um saco
5. Lampião, Rei do Cangaço
6. Visita de Lampião a Pe. Cícero no Céu
7. A peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho
8. Presepadas de Chicó e astúcias de João Grilo
Destaques:
A mulher que casou 14 vezes e continuou donzela
O Negrão do Paraná e o Seringueiro do Norte
Como se nota, os clássicos são os campeões, dentre eles Lampião ainda é a figura mais apreciada, pois 3 dos 8 mais vendidos têm sua chancela. Os destaques para A moça que casou 14 vezes... e o Negrão do Paranáforam surpreendentes. Títulos muito chamativos cujo teor não decepcionou. Outra observação é que na lista figuram dois novíssimos escritores: Varneci Nascimento, com Visita de Lampião a Pe. Cícero no Céu e Marco Haurélio, com Presepadas de Chicó e astúcias de João Grilo. Perceba-se que ambos estão com a marca de quatro mitos nordestinos: Lampião e Pe. Cícero, Chicó e João Grilo.
Entre os folhetos no tamanho pequeno 11X15, os mais vendidos:
1. Dez mandamentos do preguiçoso, de Varneci Nascimento
2. Pergunta idiota, tolerância zero, de Varneci Nascimento
3. Chicó, o menino das cem mentiras, de Pedro Monteiro
4. Abolição, um sonho de liberdade, de Benedita Delazari
5. A escravidão negra e o Quilombo dos Palmares, de Benedita Delazari
6. O casamento da Chapeuzinho Vermelho, de Cleusa Santo
Entre os pequenos, destacam-se os folhetos de autoria feminina, de duas mulheres que não são nordestinas, o que prova que o cordel é nacional. Na soma total, Varneci Nascimento é o autor mais procurado, com um título entre os folhetos coloridos e dois entre os pequenos de duas cores.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
A escolha
Não é o poeta quem escolhe o cordel. É o cordel quem escolhe o poeta.
Logo, não adianta labutar no lodaçal. Se o poeta não consegue construir um poema em cordel, com mais de 30 sextilhas, é bom repensar seu intento. Se consegue escrever 28 apenas, tem uma luz, mas só. O cordel requer fôlego.
Da mesma forma, o poeta que escreve cinco sextilhas e diz que escreveu cordel, delira. Escreveu tão somente cinco sextilha, utilizou apenas a técnica do cordel, não escreveu um cordel.
Lembremos que uma sextilha solitária extraída de um poema de cordel, perde sua aura cordelística. É unicamente uma sextilha, um pintainho de acauã que do ninho caiu. E morreu.
Repito ainda:
O poeta de cordel tem que respirar cordel, mas precisa comer várias outras guloseimas.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Nossos poetas
1.
Inicio essa nova rodada de apropriações, apropriando-me de Afrânio Coutinho, adaptando-o ao cordel:
Divorciado de uma tradição, o poeta de cordel sente-se separado de seus predecessores, que ignora, da sociedade, que o desconhece, ou de seus pares, a que não presta atenção...
2.
Continuando:
É marca indelével de nossa vida intelectual a completa desatenção do escritor ao trabalho de outros escritores passados ou contemporâneos. Resultam o isolamento e o marginalismo em vida, e o esquecimento rápido com a morte, como se construísse sobre a areia. E resulta a impressão de que as obras são feitas de espuma, desaparecendo com o tempo.
3.
Ainda parodiando Afrânio:
A fé no espontâneo, na arte natural, na inspiração telúrica, faz com que (o poeta de cordel) despreze o estudo e a formação técnica. Constitui motivo de jactância ou endeusamento, e critério de aferição de valores, o pouco ou nenhum estudo, a virgindade de alma, a incultura... refletidos na rapidez e abundância da produção, no descuido e desinteresse pelo aperfeiçoamento.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Em resumo
pois resume e anuncia.
É tradição e vanguarda:
pois respeita e avança.
É continuidade e ruptura:
pois represa e deixa fluir.
É corpo e alma:
pois adormece e todos os dias nunca dorme,
alerta e transcendente.