terça-feira, 22 de maio de 2007

As releituras no cordel e suas condenações

As releituras têm seu valor, entretanto cabe-nos pensar em algo. Tenho defendido a inserção definitiva do cordel como parte crucial da formação da literatura brasileira e ele mesmo como literatura. O cordel é a base do Romance Social de 30 e do Movimento Armorial. Está no cerne de toda a música popular brasileira e do Cinema Novo. Revolução da comunicação social de massa e definidor da identidade cultural nordestina. Sendo assim fica-me impossível acreditar em releitura de clássicos do cordel. E explico: já se ouviu falar em releitura do Dom Quixote, de Os Lusíadas, de Iracema, de Macunaíma? Desconheço. A explicação é que é impossível reler a literatura (assim como a pintura, a fotografia, a escultura). Toda a releitura literária dá à luz outra obra, de valor diverso. É outra versão. A releitura é válida para a música e para o teatro, nos quais se conserva o que há de literário e atualiza-se o que há de sonoro (na música) e cenário (no teatro). Vejam-se as diversas releituras de Asa Branca (a última, magistral, de Sivuca, no disco Sivuca Sinfônico) e de Hamlet (inclusive uma releitura em desenho animado: O Rei Leão). Ou mesmo as releituras de Lamento Sertanejo, o Forró do Dominguinhos. Não há releituras para Mona Lisa de Leonardo, nem para O Pensador de Rodin ou para Serra Pelada de Sebastião Salgado. Por isso eu não chamaria de releitura, mas de nova versão.

Gostaria de refletir sobre o caso de Coco Verde e Melancia . Uma das versões desse folheto, de 1958, editada pela Prelúdio Ltda, segundo página de rosto do folheto está registrada na Biblioteca Nacional sob nº 11452 traz como autor Manoel Pereira Sobrinho. A história é a mesma contada por José Camelo de Melo Resende, mudam-se os nomes dos personagens. No caso de Coco Verde, a versão de 58 é mais rica em termos gráficos, a capa é avançada para a época, com ilustrações bem cuidadas dentro do folheto, na verdade, três pranchas, que o colocariam à altura de outras publicação folhetinescas da época, cujo objetivo era atingir o público urbano, com foco no sexo feminino.

Dois casos

1.São Saruê: quando Manoel Camilo dos Santos escreveu Viagem a São Saruê não sabia no que estava se metendo. Certo dia recebeu a visita de Orígenes Lessa e ficou estupefacto com o alcance de seu folheto, que ele julgava despretensioso. Pois bem o folheto deu no documentário de Wladimir Carvalho, um marco, considerado o primeiro épico do sertão. Deu no livro infantil Aventuras em São Saruê, do próprio Lessa, que transforma Camilo em personagem. Resultou ainda em entrevista publicada em A Voz dos Poetas, da Casa de Rui Barbosa.


2.O boi misterioso: Leandro Gomes de Barros ao contar a história do boi misterioso abriu a porteira para O Boi Aruá, de Luiz Jardim, considerado o mais belo livro desse gênero (infanto-juvenil) por Monteiro Lobato e para História do Boi Incantado, canção épica de Elomar.


O que não posso afirmar é que essas versões, adaptações, releituras, fortaleceram a busca pelo cordel. Mas posso afirmar que definitavamente inseriram o cordel no contexto sócio-político-cultural do país.

Acrósticos

O acróstico é a assinatura do poeta cordelista. Sua marca contra a adulteração do seu trabalho. Mas essa assinatura em acróstico revela um fato comum no meio literário: a apropriação de obra de autor. Mesmo com leis protegendo os direitos autorais, ainda hoje é fato renitente. Transportou-se para o cordel aquilo normal na pintura: a assinatura como atestado de veracidade da autoria. . Minha contribuição:

De A Praga de Gafanhoto no Sertão Paraibano, de Caetano Cosme da Silva:

C om fé em Deus verdadeiro
A pessoa que viver
É feliz em todo canto
T ambém tem muito prazer
A lcança toda vitória
N ão tirando da memória
O Deus de tanto poder.


De A Malassombrada Peleja de Francisco Sales com o "Negro Visão":

F aço ponto meus amigos
S obre a tremenda porfia
A todos peço desculpas
L endo esta poesia
E spero de cada um
S ua boa garantia


De A Verdadeira História de Lampião e Maria Bonita, de Manuel Pereira Sobrinho:

P rovou que quis viver bem
E stimado e sendo amado
R evoltou-se com razão
E mbora sem resultado
I mplantou o terrorismo
R olou no véu do abismo
A té o último intrigado


É necessário observar que a confecção do acróstico requer estudo e reflexão. Os versos devem estar inseridos na narrativa. É a conclusão do trabalho, como uma máxima, a moral da história. Entretando o arranjo, e isso talvez já funcione como licensa poética, gostaria até que outros comentassem, interfere na estrutura geral do Cordel. Os exemplos que coloquei servem a essa observação. Vejam o acróstico do Caetano: o E vem acentuado, atrapalhando a pronúncia do seu nome. O caso do Francisco Sales, o segundo exemplo, no texto original vem assim F., com esse ponto abreviando o Francisco. No terceiro exemplo, acontece a seguinte curiosidade: o cordel é todo sextilhado. Percebendo que Pereira tem sete letras, o autor muda a estrutura das estrofes para sete versos. A constatação fica mais rica ao se perceber que essa mudança procede nas últimas sete estrofes do poema. Ou seja: um caso premeditado, um índice semiótico para o estudioso. Acho essas coisas fascinantes. E é isso que faz a riqueza do Cordel.

Vejamos como termina o folheto A Chegada de Getúlio Vargas no Céu e seu Julgamento, o autor saberemos pela assinatura:

Assim Getúlio foi salvo
Do seu gesto delirante
E breve virá à Terra
Como um chefe triunfante
Para ajudar o Poeta
RODOLFO C. CAVALCANTE.


Ora, não querendo interferir na estrutura geral do cordel, Rodolfo Coelho Cavalcante preferiu assinar-se no último verso com o nome completo, abreviando, artificialmente o Coelho.

Agora, um outro caso encontrado em minhas pesquisas no folheto Morte, Saudade e Lembrança de Severino Ferreira, de Zé Saldanha:

S obre a dívida da morte
A nossa vida é quem paga,
U m bom amigo da gente
D aqueles que a gente afaga,
A morte dura e malvada
D á-lhe uma boa bordoada
E le depressa se apaga

D e Severino Ferreira
É muito forte a lembrança
S ua voz bonita e mansa
E stilo bom de primeira
V erso limpo sem zonzeira
E ra o poeta da gente
R ima rica e competente
I mproviso belo e risonho
N o mundo lindo de um sonho
O nde Deus está presente


Nesse exemplo Zé Saldanha abdica de sua assinatura e, numa atitude de reforço do sentimento de amizade, constrói como que um epitáfio, comum nas terras do Nordeste: Saudade de Fulano, no caso Severino Ferreira, o poeta.

O poeta Marcus Accioly não é cordelista, é acadêmico, professor de literatura e um amante da poética do cordel. Depois de Nordestinados, uma de suas obras nas quais a poética dos cantadores aparece com profundidade e didatismo, apresentou um volume chamado Xilogravura, com ilustrações grandiosas xilogravadas num formato grande. Pois bem Accioly escreveu também Guriatã, um cordel para criança, ganhador de vários prêmios, ilustrado por Dila. No final ele assina:

M as se o amigo buscado
A contecer ter partido,
R esta trazer o passado
C omo o presente perdido,
U rge ele vivo ou encantado
S empre na bola-de-vidro.

A migo leitor-menino
C ontei o aquário do sonho
C antando a sorte-destino
I mprovisado no estranho
O vo de bola-de-vidro:
L ivro em redoma de livro,
Y ara em redondo banho.


Como disse, Accioly não é cordelista e não se sente preso à tradição da rima perfeita, soante, no cordel. Por isso dá-se ao direito de furar a rima como bem percebemos nas estrofes.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

O fictício escritor Achille Droit no Brasil

Move-se este artigo pela alvissareira notícia de que finalmente alguém no Brasil aceitou publicar Achille Droit. Venho trabalhando na tradução de suas obras há 30 anos. O desconhecimento, por aqui, de sua vasta e complexa escritura é uma afronta. Ninguém o sabe, ninguém o viu, ninguém o leu. Nem os doutos viajantes embrenhados no seio da Europa, às expensas do CNPq e da CAPES, deram notícia do marginal de St. Etienne. Marginal premiado, diga-se. Droit ganhou o prêmio Balzac de 1994 e o Napoleón, em 1995. Em 1996 teve seu nome rejeitado na lista de indicados ao Nobel pelo governo francês. Resultado: processou o governo por racismo, se auto-denominou negro e culpou o estado pela onda de “má literatura” produzida no país há 20 anos, citando o fato do mesmo governo ter concedido a comenda de Cavaleiro das Artes e das Letras a Paulo Coelho. Recusou o OULIPO (odiava Georges Perec) e inimizou-se com Italo Calvino, por causa de suas Fábulas Italianas, acusando-as de invencionices. Em 1998, publicou um vasto comentário sobre a literatura na França, matéria paga, no Le Monde e selou seu destino à margem. Agora, alguém vai publicá-lo no Brasil. Não a obra completa, mas a sua famosa trilogia.

Nascido em 1945 na cidade de St. Etienne, onde vive, no coração da França, pertence a uma família de dois troncos, um italiano, talvez daí o seu primeiro nome, Achille, e outro gaulês, de onde o Droit. A infância, segundo ele, foi passada na pequena vila de Saint Just-Saint Rambert, em casa de um tio-avô chamado Bernard, com grandes necessidades, devido ao pós-guerra. O fato é que em 68 está em Paris marchando com as esperanças e em 70 será encontrado no interior do nordeste brasileiro. Interessado pela saga dos cangaceiros, é o primeiro pesquisador internacional a perfazer o caminho de Virgulino Ferreira, o Lampião. Dessas pesquisas resultaram dois livros-chaves na literatura de Droit: Quasímodo, de 73, e A biblioteca básica do capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, de 76, livro que funda a sua trilogia autobiográfica, composta pelos outros O inverossímil amor de Miguel de Valverde, de 76, e O fracasso essencial do desconhecido escritor A. D. Não é preciso dizer que essas iniciais do título são a do próprio autor. Claro que há algo de irônico nessa atitude. Durante toda a vida, Droit reitera não ser escritor. Quanto a desconhecido, pelo menos na Europa, não é bem assim. Suas obras foram traduzidas para os países da Comunidade Européia. Em relação ao fracasso, esse é um engodo. Droit vive do que escreve.

Os detalhes de sua personalidade ou as nuanças de sua biografia não devem ser o fulcro de nosso texto. Quero ressaltar, entretanto, o fato de Droit ter vivido no Brasil praticamente incógnito. Não alardeou nem chamou para si os holofotes. Tão somente manteve-se fiel ao roteiro de suas pesquisas vasculhando o Nordeste. Há traços de suas passagens em Juazeiro do Norte, no Ceará, em Propriá, Sergipe, em Triunfo de Pernambuco e na outra Triunfo, no alto sertão paraibano. Foi ele quem conseguiu elementos para resolver o caso de Banjamin Abrahão, o libanês que conseguiu filmar e fotografar o bando de Lampião. Essas andanças definitivamente ofereceram subsídios para a escritura de Quasímodo. Mas não só. A leitura de Euclides, de Os Sertões, foi a outra baliza. A descrição do sertanejo e da terra vermelha do sertão foram confrontadas com a experiência do francês. Vejamos as semelhanças. Diz Euclides, logo depois do célebre “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, mote mais que revirado na cultura nacional:

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.


É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos.


Essa descrição euclidiana encontrará ecos em outros. Mário de Andrade, ao fazer o seu tour, em 28, pelo interior do Nordeste repete a mesma observação. Diz ele lá no seu Turista “carinhas fuinhas, bonitinhas, desagradáveis...” Voltemos a Droit. Como dizia, Euclides foi um de seus livros de cabeceira. O próprio título já é intersectivo. É assim que ele abre seu romance:

Encontrei Quasímodo cambaleante, bêbado. Se torto era, mais ainda sua sombra. Estendida no pó vermelho, tez enrugada do sertão perene, entranha mais entrada no corpo da caatinga, escrevia, aquela sombra aguda, a imagem do sineiro malfadado, oriundo da Paris das Luzes, agora figura alegórica da Paraíba das trevas. Era quarta-feira. Semana Santa. E ele estava lá, amaldiçoado, implorando esmolas e misericórdia, a caridade do mundo.


Diz Baudelaire, citado por Boisdeffre em suas Metamorfosis de la Literatura III, que a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, ou seja, intensamente exclusivista, mas que abra, ao mesmo tempo, os mais amplos horizontes. Por isso, não nego a influência euclidiana à pena de Droit, entretanto não deixarei de perceber a beleza do primeiro parágrafo de seu romance. Não é só belo, é construído na perfeição da palavra bem colocada, como diria Bilac, limada, com responsável bom senso, sem exagero. Essa mesma acuidade vê-se, encontra-se em sua trilogia. Para isso valeu-se, com disciplina e organização, de roteiros de pesquisa para a confecção do seu estilo e de seus temas e cenários. Influenciado por Arnold Vierniak Flemming, costumava fazer anotações matemáticas que nem sempre seguia à risca, flutuava, sem se afastar muito do tema. As anotações para O inverossímil amor de Miguel de Valverde, incluídas nos anexos da tradução nos mostram a prova.

Infelizmente essas anotações não esclarecem algumas questões intertextuais. O romance inicia com a partida de Valverde, degredado para as Índias na esquadra de Cabral, mais precisamente embarcado na nau de Vasco de Ataíde, aquela que no 13º dia perdeu-se no oceano.

Sendo um romance que pertence a uma trilogia autobiográfica de Droit, compreender-se-á as metáforas da solidão e da Inquisição. É a vida do escritor desfilando. Os dois primeiros romances dessa trilogia estão ligados profundamente ao Brasil. Aconteceu com o autor, talvez em maior escala, o mesmo acontecido a Juan Valera, o adido cultural espanhol no Brasil entre 1851 e 1853. Valera escreveu dois romances cujos cenários são a capital federal da época, o Rio de Janeiro. Chegou mesmo a escrever uma pequena história da poesia no Brasil. O autor de Pepita Jimenez ficaria desconhecido durante um século. Ultimamente, devido ao trabalho de espanistas sérios, a sua obra tem sido estudada e vasculhada com intenso fervor. O nosso escritor, Droit, talvez tenha que esperar um pouco mais, mesmo o Brasil sendo tema principal de seus mais influentes trabalhos. O primeiro A biblioteca básica do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião traz em sua introdução um estudo comparativo de nossa literatura. Nesse estudo, dentro de um romance histórico e jornalístico, há por exemplo uma comparação entre dois clássicos de nossa literatura: Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos, para explicar a presença dos mesmos dentro do corpus lido pelos cabras de Lampião.

Droit conhecia a literatura brasileira. Sabia como e onde encontrá-la. Esse volume da trilogia, o de Lampião, nasceu de uma observação lida por ele no mesmo turista acidental de Mario de Andrade a respeito dos cangaceiros:

Mas parece que Lampião tinha lá no grupo dele uns malandros cheios de curso escolar... De primeiro ele não era o que é, não. Os tais é que, cangacismo praticado, voltavam para roubar, estuprar o Cão! Lampeão... Lampeão era brasileiro da República (não sou monarquista) e se acostumou.


Essa observação de que o grupo de Lampião continha elementos estudados, levou-o, Droit, a especular sobre qual literatura seria lida entre eles. E o que encontrou só lendo o volume primeiro da trilogia. O certo é que Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos estavam na estante dos cabras.

Quanto ao último volume dessa obra tríptica, é o mais intimista, memorialista até. É narrada um pouco de sua infância e seu encontro com as primeiras letras e que tipo de literatura forjou sua personalidade e seu estilo. Narrada em primeira pessoa é uma descrição sensível do mundo em ruínas, do aprendizado. Ressalte-se o trecho em que apresenta ao leitor seu primeiro mestre, como o fez José de Alencar em seu Como e porque sou romancista, traçando um perfil do Sr. Januário Mateus Ferreira, diretor do Colégio de Instrução Elementar, onde o fundador de nosso romance fizera seus primeiros contatos com a cultura acadêmica. O primeiro mestre de Droit é o italiano Americo Perazzo, professor de grego e latim, conhecedor das Belas Letras. No capítulo referente a ele apresenta:

Seu Américo me adotou. Abriu sua casa, sua biblioteca, seu coração. Ensinou-me o Latim. Nunca levantou-me a voz. Olhava-me como um objeto de estimação, muitas vezes como objeto de estudo. A cada avanço meu naquela língua estranha, aos meus olhos ele me parecia mais moço. Ensinou-me para que eu lesse o breviário. Pouco a pouco foi me introduzindo na liturgia católica. Salve Regina, mater misericordiae. Quis ensinar-me o grego, meus ancestrais em ebulição se insurgiram. Foi calamitoso. Se no latim fui além do ego sum qui sum, no grego não passei de alfa e, se fui além, fui analfa. O mestre não insistiu. Compreendendo que minha idade deveria ser tratada com mais leveza apresentou-me Fedro e Esopo, adorei. Antevendo o rebelde em que eu me transformaria deixou-me à vontade e passou a atender-me quando de minhas dúvidas em algumas dificuldades. E eu descobri o Decamerão. Bocaccio me falava mal da Igreja e tirava a roupa de padres e freiras. Me falava de sexo. E eu não o larguei mais. O mestre me entendeu e eu compreendi que do sagrado para o profano basta virar a página.


Esse pequeno parágrafo elucidará o maior mistério de sua trilogia e, mesmo, o porquê de ela nunca ter aportado por aqui. O misterioso Droit cumprira uma tarefa que no século XX, aquele século das Vanguardas, se tornaria quase impossível de ser lida. Este motivo, este porquê, que vou revelar agora é, também, o responsável pelo longo tempo que levei para traduzi-lo. Tarefa árdua, mas agradável e recompensadora pois, agora, finalmente alguém vai publicar Achille Droit no Brasil. Ah, sim! O motivo: a trilogia autobiográfica de Droit foi escrita em latim e publicada com dinheiro do seu próprio bolso, já que todos os editores a rejeitaram.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

De As marteladas

Do prefácio e do verbo

No prefácio da vida era Camões
Lírico... épico... cego/míope.
Mika Waltari... o egípcio... o etíope.
Ulysses ou Joyce? ... mas foi Guimarães
Ros’Alceu Amoroso nas manhãs.
Poe... Breton. Trovas de um chanteur
Quengas lindas, fino cabaré
Onde há flores do bem e a vida dói
... sob as patas de um leão (Tolstoi)
Patativa era o verbo de Assaré.


De Cortázar, São Jorge e Rulfo


O livro de Manuel, ele cort’asa
D’araras, urubus e avestruzes
Cujas fardas coloridas/negras
Rubros fazem brotar o medo e a dor.
Outro livro, aquele do Amado,
Do suor dos homens do cacau,
Tem a alma fiel da reportagem
Dentr’um corp’infiel de ignorância
No silêncio daqueles cavaleiros
Vendo em chama o planalto se acabar


Soledade

Ao lembrar-me d’A Nau Catarineta
Deu saudade em o meu olho d’ator
Soledade é que nem um cantador
Q’não cansa nem pára de cantar.
Uma nódoa chegou a m’cegar
(Violão cego, a viola ávida
apossou-se). Q’nem um mandatário
há três vidas Alá m’habita e mora
mes’send’eu plebeu itinerante
q’só tem o teatr’e pedra a mais.

Uma pedra para recostar

Nas cozinhas desse Nosso Senhor
Há um misto de queijo+presunto
Um x-tudo de beijo+defunto
Um hot dog de american drugs
E um caldo de cana com Pasteur.
Já na sala de águas da Lagoa
Santa Cora Coralina viajou
Abraçada a Quintana que, de nobre,
Foi Baco deleitando as criancinhas
Com potes de mel e cola diet.


Barriga cheia, pé...

Do bumba-meu-boi eu quero o boi
Morto. Vida pr’irmãos mortos, cem
Vidas embevecidas de dor, esfomeadas
Ao depois, ao durante e mesm’ao antes.
Arlequins, Mateus e Catirinas
Aos cantos de comida em desatino
Do cavalo marinho no quintal,
Numa festa de barro, lama e lodo,
Aos gemidos de cinco violados
Degustaram Bandeira+Cabral.

terça-feira, 8 de maio de 2007

É necessário perder a cabeça

Ao fim da batalha de Canudos, uma comissão foi encarregada de encontrar o túmulo do Conselheiro. Ao encontrá-la, prosseguiram a exumação do cadáver e depois do reconhecimento, fotografaram-no e uma ata foi redigida. Depois baixaram-no à cova:

Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita — e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores.
Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio.


Não queremos cantar um réquiem. Nem escancarar feridas. Move-nos o desejo de descrever lacunas, pensar sobre os vácuos, tentar pontes, mesmo que pênseis. O fenômeno Lampião é visto tantas vezes isolado, apontado como produto de séculos de desmandos e injustiças no país dos nordestinos.

A colonização naquelas plagas nordestinas se deu por ciclos. O do açúcar requeria terra para os canaviais e mão de obra para tocá-los. Antes de forjar o coronelismo e seu poderio colonial, desbaratou as populações indígenas, expulsou-as rumo ao interior ou atou-lhes grilhões aos pés, mãos e almas. Aqueles resistentes sucumbiram às doenças. Os que conseguiram sobreviver foram se miscigenando, formando nova linhagem.

A civilização do couro vem encontrar essa raça em segunda geração. Os costumes, todavia, permanecem ainda inalterados. Furar a caatinga necessitava de armadura, o couro serviu de matéria prima para chapéus e vestimentas. Lampião é o fruto desse cenário. Descendente do índio, selvagem que resistiu, o tapuia, unido ao couro desse que cuidava do gado, revoltado com os atropelos dos coronéis.

Se os tapuias foram imortalizados em relatos de cronistas franceses a serviço do governo holandês, Lampião imortalizou-se no canto daqueles que, de tão injustiçados, não acreditavam na lei do Estado, nem na justiça dos homens. A maneira como foi imortalizado é que mudou. Da prosa descritiva daqueles cronistas, agora a sextilha e o verso de sete sílabas da poesia autêntica do Nordeste.

Pensamos essa poesia, de cordel, como a provável cantora de nossos antepassados pré-cabralinos. Não o foi. A saga de destruição à cultura dos nossos povos foi encharcada por imitações do modelo europeu, tanto na forma como no conteúdo. A literatura brasileira colonial foi uma extensão européia. Mesmo a chegada do Romantismo não cantou a terra como deveria. A construção poética romântica transformou nossos índios em apolos dos salões. A busca da natureza como fonte de afirmação poética foi o passo para a brasilidade, é certo. Mas o arcadismo já cantara a mesma matéria. As epopéias árcades trazem esse indígena à cena. Assim vêm Cacambo em O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. Mas é em O Guesa, de Sousândre que se esconde o verdadeiro mito cantado americano. O Brasil é incluído no mundo americano e resgata seu passado sem a mácula da cor européia. A literatura de cordel poderia, caso lhe fosse oferecida passagem, cantar esse passado. É como se a cabeça de nossa ancestralidade tivesse sido cortada com a entrada do europeu em nossa cena. Aliás, é esse o nosso mote.

Decepados nossos ancestrais, deceparam-se os nossos heróis. O destrato dedicado ao cordelismo é a mesma ação decapitadora sob a qual caíram os tapuias do Recife, Zumbi dos Palmares, Tiradentes das Gerais, Conselheiro de Canudos, Lampião do Nordeste.

A cena de Os Sertões com que iniciamos essa nossa conclusão é, de fato a síntese. Quando exumaremos os nossos mortos para dar-lhes destinos decentes? Servir-nos-ia a voz do último cantor épico Marcus Accioly:

Ah pudesse eu cantar os teus heróis
(uns poucos que conheço em meu país)
os de rifles lixados pelos sóis
(de alpercatas-de-sola sem verniz
sobre o couro curtido) os dos aiós
da vida (há trinta anos por um triz
da morte) e cartucheiras de cangaço
em cruz no peito (as tais cangas-de-aço)

vivendo cada dia o mesmo risco
de cada noite (o tempo com um baralho
cortado ao meio em lances de perigo)
ó tarô da existência (ó jogo falho)
ah pudesse eu cantar Lusbel-Corisco
(Diabo-Louro) “uns sapatos do caralho”
(como diria Márquez) Lampião
com seu olho (à Camões) vendo o Sertão

(sim) pudesse em cordel cantar (...)

sábado, 5 de maio de 2007

Algumas pegadas sobre rima e métrica

Ao poeta cabe poetar, com rima ou sem rima, pé quebrado, verso mudo. Mas no cordel tem que obedecer regras. Ao conjunto dessas regras dá-se o nome de Poética e é conferido pela tradição. A tradição, essa que foi firmada desde Leandro Gomes de Barros, requer um pouco de observação. Mas não basta observar. Quanto às obras escritas para nortear os que buscam resolver questões de métrica e rima:

1. Teoria do Texto, volume 2, de Salvatore D'Onofrio, editado pela Ática, tratando de toda teoria da lírica, inclusive as rimas;
2. Gramática de Celso Cunha e Lindley Cintra em seu Capítulo 22, sobre versificação.
3. Vaqueiros e Cantadores, de Luís da Câmara Cascudo;
4. Cantadores, de Leonardo Mota.


Em Celso Cunha e Lindley Cintra

Rima perfeita e rima imperfeita

1. A rima é uma coincidência de sons, não de letras. Por exemplo, há RIMA SOANTE PERFEITA nestes versos de Alphonsus de Guimaraens:

Céu puro que o sol trouxe
Claro de norte a sul,
O teu olhar é doce,
Negro assim, qual se fosse
Inteiramente azul.

tanto entre sul e azul, como entre as formas trouxe, doce e fosse, que apresentam a mesma terminação grafada de três maneiras diferentes.


2. Perfeita é também a rima de "tem" com "mãe" nestes versos de Fernando Pessoa:

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino de sua mãe."

porque no falar lisboeta estas palavras soam normamelmente "tãe" e "mãe".



Vejamos que coisa engraçada: jamais aqui no Brasil alguém rimaria "tem" com "mãe", certo? Seguindo o raciocínio de Celso Cunha teríamos uma rima perfeita também entre CÉU, CORDEL, PAPEL, CHAPÉU,TEO, MEL, etc, já que há coincidência de terminações sonoras para nós que somos do nordeste, norte, sudeste, centro-oeste, muito embora em alguns lugares do sul se pronuncie a consoante "l" no final das palavras.

Fui procurar em Augusto dos Anjos algo semelhante e encontrei em seu poema OS DOENTES o seguinte verso

Feriam-me o nervo óptico e a retina
Aponevroses e tendões de Aquiles,
Restos repugnantíssimos de bílis,
Vômitos impregnados de ptialina.

Ora, em alguns lugares seria impossível rimar "Aquiles" com "bílis". No Rio, onde vivo há a tendência de se pronunciar o "e" como "ê", logo a impossibilidade da rima soante perfeita. Mas Augusto, legítimo representante do falar nordestino faz equivaler o "e" a "i", construindo assim a rima com perfeita semelhança sonora.


No mesmo Augusto em AS CISMAS DO DESTINO

Um dia comparado com com um milênio
Seja, pois, o teu último Evangelho...
É a evolução do novo para o velho
E do homogêneo para o heterogêneo.

Rimar "milênio" com "heterogêneo" daria uma dor de cabeça em alguns poetas. Felizmente, no falar de Augusto, os sons se equivalem. Graças a Deus e seus representantes, os poetas!


A elisão é um instrumento que o poeta adota ou não, dependendo apenas da ênfase que ele queira atribuir à palavra. É a antiga licença poética: uma carteirinha que o poeta tem e que, com ela, pode criar mil possibilidades para o verso, inclusive esta, acentuando a última sílaba:

Que deixa firme a ALMÁ.


Pode parecer estranho, entretanto, para fechar o verso em seus sete pés, pode-se apelar para esse subterfúgio. Exemplo, apresento dois. O primeiro refere-se a música Kriptônia, de Zé Ramalho, poeta paraibano que bebe nas nossas águas cordeliais, no verso em que ele diz:

... Um asteróide pequeno que todos chamam de TERRÁ (aqui se referindo a Terra).


O outro é o contrário do que apresentei. Ao invés de acentuar a última sílaba para fechar em sete, antecipa-se o acento para a penúltima e evitar o excesso de versos. É assim que faz Zé Limeira numa décima já consagrada:

Saíram lá de Belém
Cristo e Maria José,
Passaro por Nazaré,
Foro pra Betelelém...
Chupô cana num engém,
Pediu arrancho num brejo,
De noite armuçou um tejo
Lá perto de Piancó,
na sexta-feira malhó
Foi que Judas traiu JÉSUS.


O poeta pronuncia antecipando a acentuação de JESUS para JÉSUS tão somente para antecipar a rima e fechar os sete pés do verso. Em suma é a mesma figura que faz PARA transformar-se em PRA, ESTAVA em TAVA, IZABEL em ZABÉ. E assim vai! É arretado!

terça-feira, 1 de maio de 2007

Dois textos reeditados sobre identidade nordestina

1. Forró

A banda paraibana Cabruêra desceu ao sul e instalou-se no Rio de Janeiro em setembro de 2001. Lá, fundou a Cabrahouse, primeiro em Copacabana, depois em Santa Teresa, tradicional bairro de artistas. Ao chegar, debutou na TVE e lançou disco no palco da resistência cultural carioca, o Teatro Rival, e assim seguiu arrebanhando um cordão de adoradores. Zé Guilherme, o Munganzé, um dos melhores percussionistas do Brasil, um dos pilares da Cabruêra, vindo aqui em casa, incitou-me a explicar a origem do termo “forró” para uma oficina de percussão no Festival de Inverno de São João del Rey, em Minas Gerais, onde a banda tocaria.

Pois bem. Discutíamos a gênese da palavra a partir de duas explicações para o que se passou a chamar de forró. A primeira está ligada à construção da malha ferroviária no interior de Pernambuco por engenheiros ingleses que, em suas horas de folga, patrocinavam pequenas rodas nas quais a liberdade, municiada pelo consumo de álcool, pontuou a descontração e a dança. Essas rodas eram “for all”, para todos, no idioma nativo dos ingleses. Daí a pronúncia aberta “forró”. Sem registro que legitime tal origem, fica-se no âmbito da lenda.

A segunda é apresentada pelo folclorista Rodrigues de Carvalho, em seu Cancioneiro do Norte de 1903, aponta uma associação entre forró e forrobodó, festa popular das pontas de rua, baile popular aberto para toda a população pobre. Câmara Cascudo registra a mesma origem fazendo um levantamento da aparição do termo desde 1833, para encontrar um variante datada de 1952, num semanário chamado A Lanceta, sem indicação de local. O termo é forrobodança, uma espécie de dança chula popular.

Acredito que essas duas teses sejam insuficientes, mesmo porque fica difícil determinar data para surgimento de qualquer palavra. Respeitando a pesquisa, talento e autoridade dos dois folcloristas, lanço uma terceira via. Quero aproximar o termo português forró, ao termo árabe alforria, liberdade dada aos escravos. Quando um destes era alforriado a palavra “fôrro” servia-lhe de epíteto, recebendo, inclusive um par de sapatos, se para dançar, não sabemos. Elomar, em sua cantiga O Violeiro, canta “Deus fez os home e os bicho tudo fôrro...”. De forria para fôrro, de fôrro para forró, celebração da liberdade, da quebra do jugo e dos grilhões. Não é isso que o forró faz?

Os testemunhos populares na diferenciação entre as festas de São João, festa popular, marca indelével das tradições nordestinas, e Natal, tradição européia, servem de esteio para minha tese. Enquanto a festa de Natal é descrita como uma festa formal, o São João prega a liberdade, é festa livre e comunitária, não requer roupa nova, nem champanhe para comemorar. E todas as classes e raças são chamadas ao arrasta-pé, criando um valor fundamental para a miscigenação de raças e culturas, no dizer de Darcy Ribeiro, e imprescindível para a construção do humanismo, segundo Jorge Amado.

O que nos interessa, também, é a divulgação desse ritmo propagada pelo pioneiro Luiz Gonzaga, primeiro nordestino a assumir compromisso com esse suposto novo estilo musical, depois de fazer o caminho do sul. Falar de Gonzaga é repetir-se, sempre. Sua história e sua vida estão na boca do povo e dos artistas, transformado em ícone institucional na etno-musicalidade brasileira. Muito embora construindo uma realidade folclórica do Nordeste, com seus vaqueiros e cangaceiros, plantou a semente da música popular regional nordestina em todo o Brasil. Asa Branca transformando-se na bandeira, estandarte dessa visão.

Gonzaga sofre, entretanto, críticas oriundas de um outro mito: Jackson do Pandeiro. O ritmista paraibano apregoava que o baião originou-se do coco e que o feito do Rei do Baião não passava de um novo invólucro para um velho ritmo. Zé Guilherme me diz que o jornalista Rômulo Azevêdo, de Campina Grande, numa tentativa de conciliação entre os pilares formadores do forró, um paraibano e o outro pernambucano, defende o império imaginário de Parabuco, um híbrido situado entre Caruaru, a capital do forró, e Campina Grande, terra do maior São João do Mundo. Essa, talvez seja a melhor opção, o lúdico, a criatividade, a liberdade, a alforria.

2. Cordel

Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — ... Mas Deus está de que lado?

Canudos, como está n’"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”

O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.

Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.

Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.

Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.

Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal, em folhetos de oito páginas, se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.