quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Um pitaco e uma assertiva


1. O pitaco:



Outro dia falei que o encontro do cordel e da xilogravura não oferta aos pesquisadores o direito de dizer que esta é sinônimo daquele. Ora, muitos astros de Hollywood povoaram as capas de cordéis e nem por isso foram transformados em seus ícones. Aliás, muitos estudiosos ignoram essa façanha.



2. A assertiva:



Silvino Pirauá de Lima criou o romance em versos e talvez tenha escrito o primeiro cordel; Leandro Gomes de Barros deu forma ao cordel como ele é conhecido, a partir da publicação do primeiro folheto; João Martins de Ataíde emprestou a publicação em série ao cordel e contratou poetas para trabalhar em escala industrial; Francisco das Chagas Batista pensou em um cordel de capa dura, com atrativos gráficos superiores.



sábado, 13 de agosto de 2011

A escolha


Repito enfaticamente:



Não é o poeta quem escolhe o cordel. É o cordel quem escolhe o poeta.



Logo, não adianta labutar no lodaçal. Se o poeta não consegue construir um poema em cordel, com mais de 30 sextilhas, é bom repensar seu intento. Se consegue escrever 28 apenas, tem uma luz, mas só. O cordel requer fôlego.


Da mesma forma, o poeta que escreve cinco sextilhas e diz que escreveu cordel, delira. Escreveu tão somente cinco sextilha, utilizou apenas a técnica do cordel, não escreveu um cordel.


Lembremos que uma sextilha solitária extraída de um poema de cordel, perde sua aura cordelística. É unicamente uma sextilha, um pintainho de acauã que do ninho caiu. E morreu.


Repito ainda:



O poeta de cordel tem que respirar cordel, mas precisa comer várias outras guloseimas.



Outras paródias

1. Inicio outra rodada de paródias com Georges Mathieu, em entrevista a Vintila Horia:— É evidente que o poeta de cordel se prepara para escrever. O problema está em saber ou prever se o fará de forma sábia ou demencial.


2. Thomas Heggen a Budd Schulberg: Leandro Gomes de Barros (o criador do cordel) foi sábio o bastante para logo perceber que a carreira de um escritor não é uma escada rolante, nem uma palmeira para que suba por ela, como macaco, se apoiando nas mãos. Um escritor, quando continua escrevendo é uma cordilheira… sou uma cordilheira, desço, subo, tenho chapadas, deslizes e até quedas.


 3. Vicente Huidobro: esses quase-poetas contemporâneos são muito interessantes, mas seu interesse não me interessa. 



Finalizo a série de paródias


parodiando Marcel Arland:


“Imagino facilmente o cordel como uma Ordem.”






Parodio, também, Jean Paulhan:


”O cordel também é uma linguagem e


(embora nem sempre seja visível)


uma festa para todo mundo,


para a qual todo o mundo é convidado.”



Quero parodiar Wang Chong:


“O cordel deve ser fácil de compreender


e difícil de escrever


e não difícil de compreender


e fácil de escrever.”

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Carro de boi, 30 anos depois

                   Â

Quando começaram os anos 80, nós, adolescentes que pensávamos em poesia no interior da Paraíba, não conhecíamos os autores paraibanos. Desconhecíamos o movimento Sanhauhá e sabíamos muito pouco do Jaguaribe Carne. Conhecíamos mais o cinema documental com as figuras de Wladimir de Carvalho, Linduarte Noronha, Machado Bittencourt, João Ramiro Neto e Ipojuca Pontes.


A pequena cidade de Areia, na região do Brejo, abrigava por essa época o seu Festival de Artes, reunindo peregrinos das artes de todo o Brasil. No ano de 82, chegava às nossas mãos alguns livros produzidos pelo Governo do Estado, sob o comando de Tarcísio Burity. A antologia Carro de Boi, a nova poesia paraibana, organizada por Juca Pontes, publicada no ano anterior, foi a primeira carta de orientação para nós.


Nela, estavam os novos. Os que faziam a poesia da Paraíba. E nós, que nos julgávamos os novos, chegáramos a cocnclusão de que não éramos nada. A Carro de Boi, todavia, não trazia autores interioranos. Estava recheada de autores radicados na capital ou em Campina Grande, a mais importante cidade paraibana naquele momento. Não havia a política de interiorização das ações culturais e tudo rumava para o litoral.


A Carro de Boi foi importantíssima mesmo assim. Lembro-me de ficar discutindo com os colegas quem era o melhor poeta, se Saulo Mendonça ou José Leite Guerra. Figuravam na antologia dois nomes que seriam conhecidos nacionalmente: Zé Ramalho, cujo Apocalypseestava reproduzido quase na íntegra, ou mesmo na íntegra, e que viria a se transformar em sucessos musicais com os nomes de Canção Agalopada e Beira Mar, Beira Mar Capítulo II e Beira Mar Capítulo Final. E Braulio Tavares, com Caldeirão dos Mitos, gravada depois por Elba Ramalho.


Eulajosé Dias de Araújo, Águia Mendes, Políbio Alves, Jomar Souto, Aldo Lopes, Marcos Agra, Marcos Tavares, Arland de Souza Lopes, José Antonio Assunção e o próprio organizador Juca Pontes formavam o time representante do esquadrão poético paraibano. Outro, Sérgio de Castro Pinto, terminou por se transformar em nome de referência por seu engajamento poético e crítico, professor da Universidade Federal da Paraíba. Mas foi a Carro de Boi que o levou para o interior.


A Carro de Boi trazia uma epígrafe de Lúcio Lins, poeta que se solidificaria na década de 90, morto em 2005, que reproduzimos como ágora, ao redor da qual elevaram-se os edifícios:


bordam-se palavras
que calam as rendeiras
quando em seu ofício

depois de finda a renda
vestem-se os poemas
em vários exercícios.


(Lúcio Lins - Dois Movimentos)