sexta-feira, 10 de junho de 2011

O boi Cambaú

Investigando a presença da civilização do couro no cordel, encontramos a ressurreição do boi Cambaú, de Boa Vista-PB, produzida pelo poeta Roniere Leite Soares, publicada em abril de 2011.


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A saga do Cambaú fora contada em ABC pelo poeta boavistense Bento Sampaio no final do séc. XIX, passagem para o séc. XX. As 26 sextilhas do ABC foram reproduzidas por Egídio de Oliveira Lima em seu Folhetos de Cordel que, durante meus anos de adolescência, eu folheava na biblioteca do Centro Social Pio XII, em Areia-PB, e que o poeta Roniere cita como fonte para a historicização do afamado bovino. A marca endiabrada do Cambaú abre o folheto, na primeira contracapa: “O boi Cambaú nasceu no dia 6 de julho de 1894 no sítio Sãojoãozinho, de pelo preto e estrela cinzenta na testa…”


Adverte-se, entretanto, aos pesquisadores, que este folheto não está escrito nas tradicionais sextilhas do cordel. O poeta optou pelo quadrão, com rimas alternadas, em versos de 5 sílabas, a redondilha menor. Talvez para conseguir, semelhante à parcela, a leitura em galope, criando um efeito rítmico assemelhado à corrida de pega do barbatão. 

Anotações para uma poética cordelial III

1. O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, afirmou-me que o cordel pode ir além da poesia e configurar-se em gênero literário. E eu concordo, dissecando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!


2. Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.


3. Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.


4. Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A civilização do couro e seu imaginário no cordel

As vaquejadas e os rodeios banalizaram a figura imponente do vaqueiro, criaram um decalque espetaculoso que nada têm a ver com o cerimonial da lida com o gado. O vaqueiro foi tão importante no nordeste que toda uma civilização formou-se e cresceu ao seu redor. A música, o teatro, o cinema, o cordel todos contaram e cantaram suas histórias e perpetuaram seu imaginário.


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Ainda referindo-me à civilização do couro, aquela que se formou a partir da economia bovina, como disse, o cordel cantou e contou histórias de vaqueiros valorosos e de reses endiabradas, algumas que se encantaram e outras que não se deixaram pegar. A festa de apartação era o momento no qual os vaqueiros separavam o gado, de acordo com o ferro marcado em sua pele e o encaminhavam para seu dono. A História do Boi Misterioso, de Leandro Gomes de Barros, é um marco desse tema no cordel.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Teorias sobre a origem do cordel


1.
Durante as palestras que tenho ministrado sobre cordel, uma das perguntas mais frequentes é: — Qual a origem do cordel? — Respondo: — Há três teorias para a origem do cordel: uma diz que o cordel é originário da península ibérica e que chegou até nós trazido pelos colonizadores, nas caravelas ou com a Família Real. Discordo disso pois não se tem notícias de cordel português em solo brasileiro, nem de que a realeza tenha adquirido cordéis e distribuído com o povo. Um ou dois cordéis é que devem ter cirdulado, mas de forma tão díspar que em nada se assemelha aos nossos.


2.
Outra vertente diz que o cordel é a face escrita da poética dos cantadores repentistas. É uma falácia visto que a sextilha do cordel é completamente diferente da sextilha do repente, embora conserve a mesma armadura, mas abandona a deixa, marca indelével do repente. Além do mais, a sextilha foi introduzida no repente tardiamente, pois os desafios eram feitos em quadras.


3.
A terceira é na qual acredito: no cordel genuinamente brasileiro. Dialoga com Portugal e com os repentistas, mas rompe com ambos. É como a música: não se nega uma música brasileira genuína, mas a música já habitava o velho mundo e a música dos nossos autóctones, que deveria ser a música brasileira, tem pouca influência. No cordel consolidou-se nossa independência poética.

Francisco das Chagas Batista, um dos pais do cordel brasileiro, passou pela cidade de Areia-PB e lá imprimiu alguns folhetos. Falo sobre isso no Theatro Minerva daquela cidade, o mais antigo da Paraíba, construído em 1859.

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O cordel é


minha terra e minha praia,


é meu santo e meu altar,


por ele não mato (sou um frouxo)


nem morro (sou covarde),


mas me arrisco (sou ousado).

terça-feira, 26 de abril de 2011

Francisco das Chagas Batista, editor e cordelista

 Saga de Antonio Silvino, por Chagas Batista

No próximo dia 5 de maio completam-se 129 anos de nascimento de Francisco das Chagas Batista, um dos pioneiros do cordel, fundador da Popular Editora e editor de Leandro Gomes de Barros. Nasceu na cidade de Teixeira-PB e morreu em João Pessoa-PB. Passou por Campina Grande, publicou folhetos em Areia, ambas na Paraíba, e engrossou sua produção publicada em Recife-PE onde se formou uma célula de divulgação e promoção do cordel, tendo Leandro como pioneiro e João Martins de Ataíde como continuador.

Acima, reproduzo a capa da epopeia de Antonio Silvino escrita por Chagas Batista, publicada por H. Antunes em 1960, prefaciada, revista e aumentada por seu filho, também poeta, Sebastião Nunes Batista. Abaixo, a apresentação em fac-símile do referido folheto, com uma pequena chamada para a Roda de Cordel da próxima sexta-feira, dia 29.