sexta-feira, 10 de junho de 2011

Anotações para uma poética cordelial III

1. O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, afirmou-me que o cordel pode ir além da poesia e configurar-se em gênero literário. E eu concordo, dissecando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!


2. Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.


3. Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.


4. Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A civilização do couro e seu imaginário no cordel

As vaquejadas e os rodeios banalizaram a figura imponente do vaqueiro, criaram um decalque espetaculoso que nada têm a ver com o cerimonial da lida com o gado. O vaqueiro foi tão importante no nordeste que toda uma civilização formou-se e cresceu ao seu redor. A música, o teatro, o cinema, o cordel todos contaram e cantaram suas histórias e perpetuaram seu imaginário.


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Ainda referindo-me à civilização do couro, aquela que se formou a partir da economia bovina, como disse, o cordel cantou e contou histórias de vaqueiros valorosos e de reses endiabradas, algumas que se encantaram e outras que não se deixaram pegar. A festa de apartação era o momento no qual os vaqueiros separavam o gado, de acordo com o ferro marcado em sua pele e o encaminhavam para seu dono. A História do Boi Misterioso, de Leandro Gomes de Barros, é um marco desse tema no cordel.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Teorias sobre a origem do cordel


1.
Durante as palestras que tenho ministrado sobre cordel, uma das perguntas mais frequentes é: — Qual a origem do cordel? — Respondo: — Há três teorias para a origem do cordel: uma diz que o cordel é originário da península ibérica e que chegou até nós trazido pelos colonizadores, nas caravelas ou com a Família Real. Discordo disso pois não se tem notícias de cordel português em solo brasileiro, nem de que a realeza tenha adquirido cordéis e distribuído com o povo. Um ou dois cordéis é que devem ter cirdulado, mas de forma tão díspar que em nada se assemelha aos nossos.


2.
Outra vertente diz que o cordel é a face escrita da poética dos cantadores repentistas. É uma falácia visto que a sextilha do cordel é completamente diferente da sextilha do repente, embora conserve a mesma armadura, mas abandona a deixa, marca indelével do repente. Além do mais, a sextilha foi introduzida no repente tardiamente, pois os desafios eram feitos em quadras.


3.
A terceira é na qual acredito: no cordel genuinamente brasileiro. Dialoga com Portugal e com os repentistas, mas rompe com ambos. É como a música: não se nega uma música brasileira genuína, mas a música já habitava o velho mundo e a música dos nossos autóctones, que deveria ser a música brasileira, tem pouca influência. No cordel consolidou-se nossa independência poética.

Francisco das Chagas Batista, um dos pais do cordel brasileiro, passou pela cidade de Areia-PB e lá imprimiu alguns folhetos. Falo sobre isso no Theatro Minerva daquela cidade, o mais antigo da Paraíba, construído em 1859.

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O cordel é


minha terra e minha praia,


é meu santo e meu altar,


por ele não mato (sou um frouxo)


nem morro (sou covarde),


mas me arrisco (sou ousado).

terça-feira, 26 de abril de 2011

Francisco das Chagas Batista, editor e cordelista

 Saga de Antonio Silvino, por Chagas Batista

No próximo dia 5 de maio completam-se 129 anos de nascimento de Francisco das Chagas Batista, um dos pioneiros do cordel, fundador da Popular Editora e editor de Leandro Gomes de Barros. Nasceu na cidade de Teixeira-PB e morreu em João Pessoa-PB. Passou por Campina Grande, publicou folhetos em Areia, ambas na Paraíba, e engrossou sua produção publicada em Recife-PE onde se formou uma célula de divulgação e promoção do cordel, tendo Leandro como pioneiro e João Martins de Ataíde como continuador.

Acima, reproduzo a capa da epopeia de Antonio Silvino escrita por Chagas Batista, publicada por H. Antunes em 1960, prefaciada, revista e aumentada por seu filho, também poeta, Sebastião Nunes Batista. Abaixo, a apresentação em fac-símile do referido folheto, com uma pequena chamada para a Roda de Cordel da próxima sexta-feira, dia 29.



domingo, 13 de março de 2011

Segundo encontro da Roda de Cordel

Nosso segundo encontro da Roda de Cordel está marcado para sexta-feira, dia 18 de março, a partir das 19:00h, na Sede da Apeoesp, à Praça da República, 282, Centro de São Paulo. Saiba o que é esse círculo de estudos:

Apresentação

Roda de Cordel é um círculo de estudos sobre o cordel brasileiro. Aparecido no final do séc. XIX, no Recife-PE, onde foi impresso e ganhou a forma poética que o distingue, essecordel não ficou estático, congelado no passado como alguns pesquisadores teimam em afirmar. Tampouco é uma literatura de analfabetos ou semi-analfabetos, como querem outros. Vivo e pujante, sempre se reinventando em sua própria forma fixa, o cordel exige, para orientar aos que querem se aprofundar em suas entranhas formais e sociais e culturais, ser observado para burlar os erros, os equívocos e as falácias sobre si: o eixo condutor dessa Roda de Cordel.

Ementa

História do cordel brasileiro. Pioneiros, continuadores e contemporâneos: entre a geração Princesa e a geração Coroada. Elementos fundamentais do cordel brasileiro. Editores e editoras. Escrevivência do cordelismo. O cordel brasileiro hoje.

Programa

1. ARQUEOLOGIA DO CORDEL

a) História: a geração Princesa

Leandro Gomes de Barros e a fundação do cordel
Silvino Pirauá de Lima, o poeta enciclopédico
João Martins de Athayde, o mercador da poesia
Francisco das Chagas Batista e a Popular Editora

b) O Pavão Misterioso, divisor de águas

José Camelo, o helicóptero em forma de pássaro
Delarme Monteiro, as torres e o encantamento
Antonio Teodoro, o poeta garimpeiro
Eneias Tavares, de realidade e ficção

c) Cordel e outras artes

Manoel Camilo, Wladimir Carvalho e Orígenes Lessa: ecos de São Saruê
Leandro Gomes de Barros, José de Alencar e Luís Jardim: o boi misterioso
Azulão, Ariano Suassuna e Guel Arraes: os compadecidos
Pedro Monteiro, Homero Fonseca e Ciro Fernades: romances e madeiras

2. LITERARIEDADE DO CORDEL

a) Conceitos fundamentais do cordel

Métrica, ritmo, rima, estrofação

Cordel e lírica
Cordel e épica
Cordel e drama

b) As adaptações em cordel

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Varneci Nascimento
O corcunda de Notre Dame, de João Gomes de Sá
A megera domada, de Marco Haurélio
O alienista, de Rouxinol do Rinaré
Os miseráveis, de Klévisson Viana

c) Erros, equívocos e falácias sobre o cordel

Cordel e repente: um erro concertável
Cordel e xilogravura: um erro acadêmico
Cordel e cantoria: equívoco modal
O cordel brasileiro e o cordel português: distâncias de além-mar

Carga horária e certificação

A Roda de Cordel - círculo de estudos sobre o cordel brasileiro acontece em encontros mensais de aproximadas duas horas e meia por 11 meses, totalizando 27 horas. Dependendo da demanda os encontros podem aumentar seu número. De início acontecerá na Sede da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo), à Praça da República, 282, no centro da cidade de São Paulo, mas o seu intuito é ser itinerante por locais a serem divulgados antecipadamente. Alertamos que estamos em conversações com faculdades de Letras para agregar a Roda de Cordel aos seus cursos de extensão para que possamos certificar os particpantes.

Bibliografia

A bibliografia básica, além dos textos inseridos no próprio corpo do programa requer basicamente: Literatura de cordel: uma poética para os heróis degolados, dissertação de mestrado do professor Aderaldo Luciano e Literatura de cordel: visão e re-visão, do mesmo professor, além de Breve história da literatura de cordel, do pesquisador Marco Haurélio e o Literatura Popular em Verso - Estudos, da Fundação Casa de Rui Barbosa

A Curadoria e a Coordenação

A Curadoria é de Nando Poeta, professor, formado em Ciências Sociais pela UFRN. Poeta cordelista engajado, autor de vários títulos entre os quais Mulheres em luta e A arte de lutar nos quais atualiza uma antiga tradição do cordel: o engajamento social, inaugurado por Leandro Gomes de Barros e Chagas Batista.

A Mediação é do professor Doutor Aderaldo Luciano, pesquisador do CNPq, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de O auto de Zé Limeira e coordenador editorial da Editora Luzeiro, a principal casa de publicações em cordel brasileiro.