sábado, 25 de setembro de 2010

A Bagaceira



No prefácio de A Bagaceira, o célebre livro de José Américo de Almeida (que vi morrer solitário), está um decálogo interessante. Diz um dos mandamentos:
"— Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: É não ter o que comer na terra de Canaã."


A Bagaceira, publicado em 28, como sabemos, inaugurou o ciclo do Romance Regionalista brasileiro, da década de 30.

A Arte de Escrever, por Schopenhauer

Citando Schopenhauer em A Arte de Escrever:

“Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros."

domingo, 23 de maio de 2010

Entrevista à Rádio Unesp

Minha entrevista ao jornalista Oscar d'Ambrosio no Perfil Literário da Rádio Unesp. Clique no microfone:

quarta-feira, 19 de maio de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

Rumos Literatura, Itaú Cultural


Abertas as inscrições para o edital RUMOS LITERATURA 2010-2011 do Itaú Cultural

O programa Rumos Literatura 2010-2011, conta com o apoio da Anpoll - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e em Lingüística (http://www.anpoll.org.br/site/).

Inscrições gratuitas: de 3 de março a 31 de julho de 2010.

Público alvo: todas as pessoas interessadas nos temas propostos, independente do nível escolar e atividade profissional.

Em sua quarta edição, o programa Rumos Literatura é dirigido aos interessados em desenvolver textos reflexivos sobre literatura e crítica literária brasileira contemporânea. A novidade desta edição é a possibilidade de estrangeiros se inscreverem. O programa busca colaborar no desenvolvimento de potencialidades ao estimular a formação do interessado em literatura na ampliação de sua rede de relacionamentos intelectuais e profissionais e, posteriormente, lançar e divulgar uma publicação com sua produção autoral.

O programa está dividido em duas categorias:
1. Produção Literária, para projetos de ensaio que tratem de um tema relativo à produção literária brasileira a partir do início dos anos 1980.
2. Crítica Literária, para projetos de ensaio sobre a produção crítica na literatura brasileira realizada a partir do início dos anos 1980.

Importante: o interessado não precisa escrever o ensaio final, apenas o projeto que será desenvolvido em 2011, conforme consta no edital.

. Leia o edital completo, regulamento, prêmios e saiba com se inscrever na página http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2708.
. Dentre os prêmios, os selecionados receberão apoio financeiro mensal e remuneração referente ao licenciamento dos direitos autorais do trabalho concluído e aprovado.
. E-mail tira dúvida: rumosliteratura@itaucultural.org.br

Acompanhe as notícias e comentários sobre o programa Rumos no blog http://rumositaucultural.wordpress.com/.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Quero escrever um cordel

Os meus amigos poetas cobram-me a escritura de um cordel. Ainda não criei coragem para isso. Falta-me peito. Temo os mestres, amedronto-me com os espíritos pioneiros. Sou um Manoel-Borra-Botas. Por enquanto, sigo os caminhos da crítica e da mímica poética. Por isso, deixo aqui partes de meu novo livro Do que disseram os poetas que quisera fosse poesia. Aliás, a professora Heloísa Buarque de Holanda disse-me, frente a diversas testemunhas, que meu livro O auto de Zé Limeira seria um ensaio. Talvez esse próximo também o seja. Os dois fazem parte de uma trilogia que se encerrará em 2011 com Os aspectos do boi. Essa trilogia é assinada por Aderaldo Cangaceiro, mas vamos ao que interessa. Do que disseram os poetas é uma cantoria que registrei e passei para a escrita, oferecendo um acréscimo aqui e ali, adulterando os versos originais. Como os cantadores não se opuseram, amarrei-lhes uma forma e coloquei o nome de um alter ego. Trata-se, portanto, de uma apropriação.

1. Por ocasião da chegada de uma moça formosa que se sentara na platéia

— Observe a obra rara
Que Deus fez para nós vermos
Mente sã e corpo são
O Belo em todos os termos
Fitoterapia e química
Deixando nós dois enfermos!

— Labirinto a nos perdermos,
Entranhas da Natureza.
Quais mãos esculpiram a Ninfa
Com tanto esmero e destreza?
É Céu e Geena juntos
Deixando a gente mais presa!

— Considere esta surpresa
Na tênue luz de um quarto:
Boca, seios, glúteos, coxas,
dorso e cabelo farto
corpo-fruta acidulado
Deixando ao poeta.. infarto!

— É como se fosse um parto
Tendo a ação dividida
Parturiente e parteira
Sentindo ambas a vida
A sudorese e o sorriso
Deixando a dor sem saída!


2. Por ocasião de um galo ter cantado por volta da meia-noite enquanto a cantoria seguia

— Os galos de minha terra
São galos-maracanãs
Acordam com sua música
Cabras, ovelhas, marrãs
Riscando com o bico-canto
A leve tez das manhãs

— Deslizam qual rolimãs
Sua pauta musical
Estendem suas bandeiras
Nas cercas do meu quintal
Terreno sonoro extenso
Todo dia, por igual.

— Nenhum galo canta mal
Todos têm o mesmo encanto
Mas têm cantos diferentes
Uns de riso, outros de pranto
Uns porque morreu um louco,
Outros, por nascer um santo!

— Todo embrulhado em um manto
Para amenizar o frio,
O tilintar dos meus dentes
E as águas desse meu rio.
E os galos indiferentes
Cantando horas a fio.

3. Por ocasião de duas crianças terem homenageado os poetas com ramalhetes de flores no intervalo da cantoria

— Flores, perfumadas flores
Por mãos de botões trazidas
As rimas do nosso rumo
São estampas coloridas
flores e rimas efêmeras
Eternas lembranças idas

— As cores de nossas vidas
Saem de um prisma talhado
Em cristal, pedra-de-fogo,
Polido quartzo incrustrado
Na Serra da Borborema
Dentro da pedra gestado

— O sertão é um cercado
De pedras que são humanas
De homens que são de pedra
De dias que são semanas
E de séculos dissolvidos
Num só bater de pestanas

— Há secas que são insanas
E chuvas benevolentes
Há crianças como essas
Que trazem flores contentes
E há flores mudando a vida
De dois poetas cadentes.


4. Por ocasião de um professor chamado Abrão, ter pedido por escrito que os poetas opinassem sobre o conceito de imitação platônica

— Subentenda-se um novelo
Contido em um simulacro
E este por sua vez,
Como um objeto sacro,
Escravizado por outro
Em uma caixa que eu lacro.

— Verei se desencalacro
O conceito de Platão:
Há um pão que está no céu
Outro que está no balcão
O padeiro imita Deus.
E aos dois a palavra PÃO!

— Palavra e imperfeição
Distando em terceiro grau:
Imita o produto humano
Que imita o celestial
Guardado fora do mundo
Na noite mais ancestral

— Prender nosso cabedal
Com o grilhão da vossa estética
É querer que um desregrado
Leve vida mais ascética
É nos dar o cadafalso,
Enforcar nossa Poética.

5. O verso de improviso encafifando os críticos ignorantes na arte da cantoria

— O verso de improviso
É momentânea ilusão
Espera-se que o poeta
Quebre o pé da criação
Deixe-o manco, ferido
Como um ferro retorcido
Cuja única serventia
É ser aleijão disforme
Um monstro que nunca dorme
Deformando a Poesia.

— O poeta, todavia,
De boa cepa gerado
Constrói no barro do verso
Um vaso bem adornado
Dá-lhe cores, apetrechos,
Capaz de lhes dar desfechos
Surpreendendo a platéia
Que ao crítico literário
Ensina o abecedário
Com toques de cefaléia.



6. Porque um poeta formado nas academias não sabe improvisar e por isso rotula essa arte, a do improviso, de arte menor

— O poeta de bancada
Sentado em seu gabinete
Passa a vida reescrevendo
Seu verso para um banquete
Diz: “Poesia é Trabalho”
E insiste em dar mais um talho
Naqueles versos ranzinzas.
Por vezes o resultado
É papangu desolado
Na Quarta-Feira de Cinzas.

— Enquanto que o repentista
em seu furor instantâneo
Formula e burila o verso
No caldeirão de seu crânio
O que duraria um mês
Dura um segundo ou três
E eclode quente e bem feito
O ouvido que escuta
Reconhece ali labuta
E acabamento perfeito.

É! Acho que chega de maltratá-los.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Quilombo de Benedita Delazari



Chegou-me à mão o cordel A escravidão negra e o Quilombo dos Palmares de Benedita Delazari. A autora nasceu em Sales, São Paulo, e sua autoria em cordel vem quebrar um paradigma fictício por cujas regras o cordel obrigatoriamente teria de ser produzido por nordestinos. O equívoco dessa prerrogativa é flagrante diante do trabalho literário. Sendo o cordel uma forma poética, qualquer poeta pode, desde que o queira, abraçar-lhe o engenho e emprestar-lhe a arte. E foi isso que moveu Benedita.

Publicado pela Editora Luzeiro, a principal casa publicadora de cordeis brasileira, o folheto desde já se insere no produto poético brasileiro como um achado, uma descoberta. Se no passado a produção de cordel ressentia-se da autoria feminina, Benedita aos poucos vem suprindo essa lacuna. Tendo lançado em 2005 As aventuras do menino Jesus, fruto das histórias ouvidas, lidas e vividas em sua fé e crença, a autora seguiu os passos de sua ascendência e nos oferece, além de sua versão para a saga dos nossos afro-descendentes, uma boa página poética.

Em 64 sextilhas o folheto conta resumidamente os fatos e desarranjos decorrentes de todo o processo escravocata em solo brasileiro. O seu narrador é seco, mas criativo, fazendo cumprirem-se a todo momento as regras do cordel, sem ceifar das estrofes a necessária compreensão, nem cometer a maldade das maldades: quebrar o pé do verso. Mesmo em sextilhas truncadas como as três primeiras, é necessário notar o esforço técnico e o respeito ao rigor para não macular a forma. Assim:

Na história da humanidade
Muitos feitos são contados,
Quero citar o exemplo
Dos nossos antepassados,
Heróis de um povo forte,
Para a luta preparados.

Belo exemplo encontrei:
Gladiadores romanos,
Ao libertarem escravos
Das mãos de nobres tiranos,
Muito tempo resistiu
Exército de espartanos.

Com a história do Brasil
Faço uma comparação,
De um fato acontecido
No tempo da escravidão,
Por um quilombo de negros
Formando rebelião.


Quando escrevo “truncadas” não quero dizer trancadas. Explico: a compreensão não é prejudicada pelo artifício na busca do respeito à métrica e à estrófica do cordel. Para essa adequação é fundamental a supressão de palavras e, certas vezes, de termos, deixando apenas a indicação para que a intuição do leitor, ou seu cabedal cordelístico, lhe confira compreensão. Voltemos ao truncamento das sextilhas. A primeira deixa ao leitor séria dúvida: a que povo forte refere-se o narrador? Aos negros africanos ou aos gladiadores romanos que vêm logo a seguir na segunda estrofe? Quem são os herois desse povo forte preparados para a luta? Tenho dito que a primeira estrofe de um poema de cordel deve ser perfeita em todos os sentidos. Para seduzir o leitor, prendê-lo, acorrentá-lo às surpresas do que virá.

A segunda estrofe deixará seus dois últimos versos quase órfãos, senão totalmente órfãos. Por quê “Muito tempo resistiu/ Exército de espartanos”? Qual a função desses dois versos na estrutura da estrofe? Aparentemente eles nada dizem. E atenção: não estou afirmando que o verso seja ruim! Não. A autora tem o domínio poético e métrico e, talvez por isso, para respeitar as rígidas regras do cordel, tenha se permitido essa construção que soa duvidosa quanto à pertinência. Para a terceira estrofe ficará o quinhão mais difícil. Vejamos.

Onde reside a semelhança entre a nossa história de escravidão e as ações dos gladiadores romanos libertando escravos de “nobres tiranos”? Citando elementos historicamente distantes e sem relação alguma, essa comparação necessita de base para ser edificada. Há, porém, a seguir dois pontos a observar: o termo “quilombo de negros” é redundante. Bastaria a palavra “quilombo”, pois essa é a palavra para designar a associação de negros fugidos e refugiados em aldeia no coração do sertão brasileiro. E faz-se necessário esclarecer o fato de que os quilombos não fizeram rebelião, criaram resistência. Essas observações deveriam ter sido proferidas quando da revisão. São questionamentos que o revisor deve colocar, sem constrangimentos, para o autor. A decisão final é do autor, mas a obrigação de alertá-lo para esses pequenos deslizes é do revisor. São essas feridas responsáveis por todo tipo de críticas contra o cordel, mas o poema de Benedita não são apenas essas três estrofes.

As estrofes lidas anteriormente perdem força quando a quarta estrofe, na virada de página, anuncia magistralmente:

Muitos livros de história
Contaram essa aventura,
O assunto é muito fértil
E o interesse perdura.
Ofereço aos estudantes
Um livro em miniatura.

Estrofe redonda. Prima. Lúcida. O folheto de Benedita começa aí e desconfio, de verdade, que essa tenha sido a primeira estrofe construída para ele. E se não o foi, deveria ter sido. A partir dela o folheto toma um rumo crescente, em poesia e história. Para escrever sobre Palmares, bem como sobre qualquer fato histórico, o pre-requesito é a pesquisa e a autora a fez diligentemente. Encontraremos outros pequenos deslizes, mas nada que uma boa revisão não os estirpe, sem haver necessidade de grandes mudanças textuais. Também encontraremos momentos de intenso teor poético, como este:

Relembro o Navio Negreiro
O porão escuro e fundo,
Como escreveu o poeta:
“Infecto, apertado, imundo”
O morto de fome ou peste
Atirado ao mar profundo.


Ou este:

Em caso de rebeldia
O negro recém chegado,
Era levado às caldeiras
Pelos pés agrilhoado,
Ali trabalhando meses
Noite e dia atormentado.


O desenho da capa feito por Cícero Soares é ponto alto do cordel. Em apenas duas cores, preto e marrom, seu jogo de sombras, com Zumbi, no plano americano, tendo ao fundo paisagem quilombola, na qual figuram o trabalhador, a mulher e a criança, a habitação e a mata, suprem a imagem de um vigor realístico fascinante. Preciso anotar, entretanto, que o título em caixa alta é uma armadilha pois confunde o topônimo com o resto do texto, não sendo possível a identificação das letras maiúsculas. O recurso de “negritar” o artigo “A” lhe concede destaque inóquo, quando bem poderia ter servido de traço distintivo para o “Q” de quilombo e o “P” de Palmares. Outro senão é o texto do miolo todo em itálico. Sabe-se que o uso desse recurso serve para destacar uma palavra ou um termo, não cabendo o seu uso indiscriminado sobre todo o corpo poético. Coisas a serem reparadas na segunda edição.

No mais, Benedita usa e abusa do seu talento, terminando seu poema com a tradicional ruptura em acróstico, só que ao invés de seu nome, ela crava BRASIL, assim:

Brasil terra de heróis
Revelando seu valor
A sua “Constituição”
Simboliza com louvor:
Igualdade de direitos
Liberdade, paz e amor!

Quero lembrar que o papel do crítico é ingrato e doloroso, mas fundamental para a discussão sobre o fazer poético. É bom acrescentar que sem o poeta, a figura do crítico jamais existirá. Por isso, vida longa aos poetas. Vida longa à pena de Benedita Delazari.