quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Duas ou mais coisas que dão pano para manga

Quando a cara pulsa
qualquer hipocrisia
se revela


A maior agressão está
na recepção
não no discurso


Quando se confunde
agressão com ironia
come-se o pão do amargor


A ironia é uma figura,
a agressão
só desfigura


Quando a carapuça
se revela
morre-se de hidropisia

O queijo do reino, a pimenta-do-reino e A Pedra do Reino

1. Conheci Bráulio Tavares no final da década de 70 e início dos 80 lá no mesmo lugar onde nasci, na fantasmagórica cidade de Areia, no brejo da Paraíba, cuja capital é João Pessoa. Aliás, meus colegas, há um movimento social legítimo mexendo com as tripas políticas da terra de Ariano. Como sabemos, aquele estado, terra de bravos, mas também de bravateiros, ostenta em sua bandeira rubro-negra, a palavra NEGO, em letras brancas. É uma alusão ao fato de, nas eleições presidenciais de 1929, João Pessoa, o presidente da Paraíba, ter negado apoio à candidatura de Júlio Prestes, o candidato oficial de Washington Luiz, o presidente. Aliás, a bandeira da Paraíba é vermelha pelo sangue derramado (João Pessoa seria assassinado no ano seguinte) e negra pelo luto com o qual a Paraíba se cobriu. Simbologias exaltadas e hoje já sem nenhum significado mais abrangente. O certo é a presença ativa desse movimento restaurador: quer restaurar o antigo nome Parahyba, esse sim, mais legítimo, segundo seus partidários, para depois restaurar a bandeira do estado.

2. Sim!!! Eu falava, ou escrevia, do meu encontro com Bráulio Tavares. Era o Bar de Seu Dedé. Foi lá, meio à cachaça brejeira, rodeado de gente, que Bráulio cantou Caldeirão dos Mitos, gravada em seguida por Elba Ramalho, constituindo-se num sucesso nacional. Depois vi o show do cabeludo de Campina Grande no palco do Colégio Santa Rita: Balada do andarilho Ramon e Meu nome é trupizupe nunca mais saíram de minha parada de sucesso particular, do meu cânone. Transformaram-se em meu queijo-do-reino. Talvez os colegas leitores não saibam da simbologia para nós, paraibanos do interior, da periferia das cidades periféricas, desse artigo lácteo. O queijo-do-reino era o nosso mais elaborado sonho de Natal. Uma mínima fatia seria o máximo na ceia que nunca tínhamos. Era raro entre nós, era cara sua cara de bola.

3. Um dia, na feira livre da cidade, masquei, por engano, uma pimenta-do-reino. Aquilo ardeu-me dias, além de intoxicar meus intestinos até hoje. Eu era uma criança curiosa. Peguei medo de pimenta-do-reino. Já aliviei minhas tripas quanto a isso, mas vou devagar. Nunca soube, nem sequer pesquisei, porque chamam-na de pimenta-do-reino. O mesmo vale para o queijo do reino. Só sei que o queijo ficou-me como marca do prazer e a pimenta, do sofrer. Agora, voltando ao caso de João Pessoa, o político, a história fala de seu assassinato por parte do advogado João Dantas, primo da mãe de Ariano Suassuna. É também sabida a história de João Suassuna, pai de Ariano, morto num episódio anterior, de natureza covarde, pelas costas, por um partidário de João Pessoa. O autor de O auto da compadecida, neste ano de comemoração de seus 80 anos ficou ainda mais rouco de tanto contar essa história. Excelente contador que é.

4. O Movimento Armorial idealizado por Ariano foi outro dos meus queijos. O maestro Cussy de Almeida, à frente da Orquestra Armorial regia uma versão de Sem lei, nem rei, de Capiba. Uma canção dolente, um pôr-do-sol doente, o gado tilintando seus chocalhos, essas imagens da seca nordestina e eu sonhando. Transportar a música para a realidade (ou aproximá-las) foi meu primeiro exercício intelectual arrazoado. Minha imaginação conseguia unir o caldeirão de Bráulio ao caldeirão Armorial, embora fossem caldeirões diferentes e diferençados. E neste ano de ouro para Ariano, Bráulio Tavares tentou levar a cabo a empreitada de aproximar o Armorial da imagem, verteu em roteiro para a TV Globo A pedra do reino. E essa versão foi uma pimenta-do-reino tão violenta que vai ser difícil de me curar. Pois o Trupizupe conseguiu partir o queijo-do-reino e deixá-lo cair nas águas turvas do Rio Taperoá em tempo de cheia. A Pedra rolou para longe. O pobre expectador conhecedor de O auto da compadecida sofreu com a esquisita adaptação. Foi tortuoso. Tanta expectativa resultou em pouco entendimento.

5. Atenção, colegas: minha reflexão é apenas opinativa, passional. Reflete solitariamente o meu parco olhar e sei que me perco, ou por não estar preparado, ou por ser ignorante. Ou, mesmo, por viver as duas anti-qualidades ao mesmo tempo, o que é mais certo. Deixa ser mais preciso: quem tiver a coragem de ler A pedra do reino vai comungar da visão verdadeira da saga formadora de nossa gente. É um romance grosso e cabeludo. A determinação do adaptador e sua maestria não garantiriam, como não garantiu, o êxito da travessia. É um caso para muitas mortes. É um canto para muitos motes. O movimento restaurador, que quer o nome de Parahyba para a capital dos paraibanos e a mudança da bandeira, faz-me acreditar na possibilidade do reencontro do povo consigo mesmo e seus reflexos nos indivíduos. A adaptação de A pedra... para a televisão poderá ser revista por mim num futuro próximo, talvez depois de contemplá-la no cinema. Por enquanto ficam meus sabores mais arraigados: A pedra do reino, quebrando meus lábios de títere; o queijo do reino, povoando minhas papilas ancestrais; a pimenta-do-reino, arranhando-me, como uma lixa 14, o tubo digestivo. Ôpa!! É bom ressaltar para os mais ousados que não julgo ter havido, na adaptação, nem covardia, tampouco assassinato!

    quarta-feira, 17 de outubro de 2007

    Quadrão quirino (idealizado por João Rolim sobre original de Jessier Quirino)

    1.
    A noite cai, o céu se rasga pela lua cheia
    Uma candeia acesa e rica em chama poderosa
    Noite gostosa meu barco paira no oceano prata
    a serenata da estrela guia a mais luminosa
    e eu, todo prosa, lanço meu grito, busco uma sereia,
    Sangue na veia muito mais quente (é chama rugosa)
    por vezes dosa o medo seco de esperançado
    e esperançado somente o medo por vezes me dosa!


    2.
    Modalidade muito boa, preciosa e rara
    Se equipara a outras tantas de difícil cria
    Se todo dia fizermos versos que nos pedem brilho
    Fora do trilho o nosso trem constrói neo-ferrovia
    O cancão pia, a porca torce o rabo em parafuso
    fazer bom uso da pena indócil que tudo copia
    Com maestria buscando brilho mais original
    Do original busco a essência: fé com maestria!


    3.
    Fogo na lenha, a noite esfria e é preciso colo!
    Eu me enrolo nesse cabelo (edredom quentinho).
    quero carinho tenho de sobra todo que preciso
    imortalizo o corpo inteiro em lençóis de linho.
    Digo baixinho: — Chega mais perto, roça aqui teu pêlo!
    Ao meu apelo sinto a penugem, o seio durinho,
    parece um pinho o corpo nu da mulher que me enlaça
    e nos enlaça a labareda que parece um pinho!

    4.
    O novo causa nos incautos o estranhamento
    Um alimento que, ao contrário, rouba a vitamina.
    É uma mina de ouro e luz essa modalidade
    Traz de verdade o desafio, o jogo, a disciplina.
    Matéria fina que exige esmero, olhar meticuloso,
    Requer que o gozo se demore, espere na oficina.
    Cumprindo a sina reflito sério que quem for poeta
    Se for poeta tente o quadrão cumprindo a sua sina!

    <5.
    Onde os poetas? Em que lugar se escondem trovadores?
    Mostrem as cores. Entrem em campo trovando o quadrão.
    Inspiração? Busquem no fundo, mais profundo canto
    Onde o espanto cedeu lugar à realização.
    Siga o João, siga a Tessa e também siga a mim
    Fazendo assim vamos além da simples criação
    Na escuridão se busca a luz, se encontra a lamparina
    E a lamparina guia teu passo na escuridão!

    6.
    A língua trava contemplando a entranha inexprimível
    Inexequível construir frases sem matéria exata
    Um sol de lata, um céu de aranha, um arranha-céu,
    som de tetéu, de arapongas com bicos de prata
    bigorna intacta, o ferro em fogo é a língua em brasa
    em cova rasa sepultar-se-á o poeta-pirata.
    Sua pena rata é má, vilã, é cópia malfadada
    E malfadada se auto-acusa sua pena rata.
    >

    7.
    Qual a matéria que este quadrão por ela velará?
    O Opará? O rio grande salvador dos bichos?
    Os carrapichos? Essas estrelas perfuro-cortantes?
    Talvez brincantes? Mambembes astros com os seus cochichos?
    Os largartixos? Machos/calangos/teús/papa-ventos?
    Os sentimentos? Fofocas/falas/delações/bochichos?
    — Jamais os lixos que nos ofertam e que nos consomem
    E até consomem a gente toda, mas jamais os lixos!!

    8.
    Pedras calcáreas: meu coração nelas se fere e morre
    Nada socorre meus membros rotos, descascados, tortos,
    Ervas são portos: cadê o cais para que eu atraque?
    De baque em baque, meus olhos cegos, mais que cegos, mortos!
    Pés absortos nas trilhas magras de um destino seco,
    Sou um boneco, marionete que produz abortos.
    Andei por hortos transfigurando meu semblante em luz.
    Busquei a luz nos olhos Teus, fiz de Teus braços hortos!

    9.
    Mamãe morreu faz quinze anos, lembro todo dia
    Da alegria que era tê-la sempre do meu lado
    sentir-me amado, protegido do mundo estranho e duro
    e do apuro que para mim era o viver pisado,
    o agregado, aquele que trabalha ao sol diário,
    cujo salário é ver seu cenho sempre enrugado.
    Desse legado, mamãe livrou-me todo santo dia
    E todo dia deu sua vida contra esse legado!

    10.
    Andei calado pelas esquinas dos desiludidos
    dos desvalidos que já perderam fé e esperança
    (uma criança de quem roubou-se o olho e o sorriso)
    de improviso armei barraca e escondi minha lança.
    Não quis a dança acabrunhado no canto da sala;
    Fui à senzala viver com os meus, sonhar que se alcança
    aventurança no suportar as dores sem fazer alarde
    Mas fiz alarde: só no quadrão há bem-aventurança!

    terça-feira, 4 de setembro de 2007

    MUHAMMAD IBRAHIM BU'ALLU

    Traduzi para a revista Confraria dois pequenos textos do escritor marroquino Muhammad Ibrahim Bu'allu. Doutor em Filosofia e professor na Universidade de Rabat, Marrocos, escreveu "O jinete e o cavalo". É a primeira tradução para o português, mesmo que insignificante, de sua pena. Parte de suas Historietas em minuto


    A árvore

    Sentaram-se debaixo da árvore para, sob sua sombra, protegerem-se do sol, tiraram a comida de suas marmitas, colocaram diante de si e começaram a comer em grupo; logo deitaram no chão antes que terminasse o tempo do almoço e da sesta e tivessem que voltar ao trabalho duro novamente.

    A sonolência desceu sua mão pesada sobre suas pálpebras, enquanto as folhas compunham a música da canção que embalava seus sonhos. Já têm com essa árvore encontros diários que se repetem desde que ali chegaram; mais ainda, ela se converteu em sua sala de jantar, na qual almoçam e compartilham o pão.

    Um deles pensou: é a única árvore por aqui. E estava certo. Este lugar antes era um verde de árvores, no entanto eles mesmos, era seu trabalho, as arrancavam pela raiz. Casas tomariam conta da paisagem.

    Alguns pássaros iniciaram uma sinfonia, um diálogo musical com as folhas, ramos e galhos, e a música os reconfortou e quiseram ficar ali, à sombra fresca, por mais tempo; todavia alguém grita, ferindo a harmonia, o fim do descanso.

    Levantados, seguiriam de volta ao trabalho, porém a voz rouca dava ordem para permanecerem ali; veio até eles, postou-se ao centro, definiu suas ordens e se foi.

    O tempo pareceu suspender-se frente ao silêncio profundo de seus olhares. Não se sabe de sua comoção, sabe-se apenas que com suas picaretas arrancaram-na pela raiz, afugentando os pássaros.




    O homem silencioso

    Em qualquer botequim, bar ou lugar de reuniões ele está lá; sempre presente, pensativo com seu cigarro entre os lábios, que, de vez em quando, segura com a mão e bate a cinza.

    Todas as línguas repetem seu nome; seu lugar está guardado em todos os encontros, festivos ou não. Se alguém quer conhecê-lo, basta saudá-lo com o olhar, balançando a cabeça. Ele responderá da mesma forma. Ninguém, entrementes, é capaz de conhecer sua opinião sobre isso ou aquilo.

    Sabe escutar; pelo menos é o que parece; se não escuta seu interlocutor, da mesma maneira que não fala, não é possível demonstrar e só ele poderia confessá-lo.

    Todos acham que não é perigoso; mas quem seria capaz de provar tal fato sobre um indivíduo presente em todas as rodas sem que ele expresse opiniões sobre o que se fala...

    Alguém tentou. E esteve com ele diversas vezes; conversou com ele sobre diversos assuntos; o homem silencioso movera sua cabeça afirmativamente em relação a tudo que ouvira. Então este alguém convenceu-se de que ele não era perigoso, pois expusera uma idéia que ele aceitara, para, logo, lançar outra idéia, de sentido oposto, e ele também concordara. Na verdade, o homem silencioso escuta mas não ouve e está presente em toda parte e o mundo todo o conhece.

    Três coisas as quais eu não quero nem devo esquecer

    1. A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina.

    2. É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia-a-dia, na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais, privando-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Mas não sem antes tentar espelir-me, tomando chás amargos para abortar. Todavia eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes àquele útero quente e promissor.

    3. O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

    sexta-feira, 31 de agosto de 2007

    O desenho no tapete, como diria Henry James (windows retiradas dos editoriais da Revista Confraria, com autorização)

    1. Os fundamentos. “A terra é redonda como uma laranja”, afirmara José Arcádio Buendía à sua amada Úrsula. Esta convenceu-se de sua loucura, mas Macondo cumpria sua saga e nada poderia deter a civilização. Perplexo diante das maravilhas trazidas pelos ciganos, entre elas um tapete voador, Buendía idealizava instrumentos, solitário. Seu modo de ver o mundo, circunscrito aos limites de sua aldeia, tornava-se um elemento incômodo à vida pacata e leve dos seus conterrâneos.


    2. Os alicerces. Se a loucura é uma marca de exclusão, seja ela, a loucura, doença ou saúde mental, nós adentramos os seus labirintos. Entretanto, olhando pela janela, fica-nos a pergunta sempre imutável de Augusto dos Anjos: “Para onde iremos, montados nesse cavalo de eletricidade?” Sabe-se apenas de uma parada gay sob bombas em Jerusalém. De um Papai Noel pedófilo, preso em Nova York. De uma bomba-atômica testada com sucesso na Coréia do Norte.

    3. As estruturas. Antes do Natal, antes do Ano Novo, ouçamos atentos os conselhos dos tarólogos: aprendamos com quem dá as cartas. Se cartas marcadas, se cartas na manga, se cartas de navegação: sejam todas epístolas de bem-aventurança, de boas novas. Todavia não esqueçamos que haverá sempre um lugar em que nada se cria, nada se transforma e tudo se perde. Não seja aqui. Navegar será sempre preciso, viver é que é impreciso!


    4. Os tijolos. “Quando ando pelas ruas do Rio e de Salvador, os signos corporais transformam meu corpo europeu num outro ser”. Isso foi dito por Henri-Pierre Jeudy. Quando esteve pela décima vez no Brasil, em 2005, e lançou seu livro Espelho das Cidades, o filósofo-sociólogo-escritor pensava na espetacularização das cidades como mote de suas propagandas. Sobre o Brasil e a América Latina pensaríamos mais abrangentemente. O espetáculo é geral, horizontal e verticalmente, uma parábola. Ali na esquina dos mundos estão nossos governantes espetaculares, brandindo discursos e cerrando os punhos para a CNN. Que a terra lhes seja leve.


    5. A cimentação. Quando nos deparamos com o naipe afro-cubano de Buena Vista Social Club e sua sensualidade, não vemos Habana Vieja espetacularizada. Seremos videntes e veremos espectros. Ghosts de um mundo antigo, de fausto apócrifo, de riquezas saqueadas, ruínas da história. Wim Wenders o gravou em vídeo digital. A tecnologia mais avançada resgatando a tradição mais conservadora. Seria o ouro sobre o barro. Ou o diamante sobre as asas, ou o desejo do ouro e a necessidade de possuir asas.


    6. As lajes.
    O maior herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais pertence. Éramos a nação Senna num bólide a 300 Km/h. Até o muro da Tamborello, em Imola. A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os pós-modernos alardeam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria preenchida.

    terça-feira, 28 de agosto de 2007

    O preço da leitura (Flip, flap, flip, flap)

    Outro dia ouvi não sei quem dizer (talvez João Ubaldo, não lembro) que seus personagens vão tomando vida e se alforriando de seu senhor, no caso, dele, o autor. Estou para desenterder-me (se é que já entendi) desses casos da criação literária. Estou mesmo à beira de desacreditar e duvidar de toda e qualquer referência à literatura. O caso é que à beira da derrota descobri, finalmente, duas figuras opostas em seu ofício de escreviver. E encontrei-os no mesmo lugar. Na TV, fora de qualquer coisa que se pareça com o texto escrito, esbarrei com Amós Oz e Tom Clancy. Dois nomes conhecidos, para mim apenas referências, pois nunca os havia lido. E saí atrás de suas penas. Do primeiro pus-me a caçar O mesmo mar. Do outro, Caçada ao Outubro Vermelho. E deparei-me com eles em sebo. Amós Oz estava num sebo do Largo da Carioca. Tom Clancy numa barraca em Vicente de Carvalho. Tão distantes um do outro, tanto na escrita como na geografia. Essa caçada em busca do mesmo mar fez-me pensar que vender livro também é um negócio. Pelo primeiro paguei R$ 9,90 e pelo segundo R$ 5,00. Em bom estado. E corri para casa. O próximo passo seria usufruir dos R$ 14,90 que investi nas compras. Mas será que esse prazer (o de ler, não o de consumir) vale mesmo o preço pago? Não sei avaliar, pois os mesmos livros, buscando-os num desses sites que fazem comparação de preços de produtos na internet, variavam seu preço em vários porcentos. Oz alcançava o teto de R$ 48,00 e Clancy bateu os R$ 39,00. Já fui me sentindo melhor, começara o prazer de não ter gasto R$ 87,00 pelos meus colegas, já que eles não pagariam isso por mim.


    Logo depois, fui convidado para ir à Festa Literária de Parati. Não foi a organização da festa que me convidou, nem qualquer figurão literata. Foi um amigo de mesa de bar. Confessei-me avesso a esse tipo de evento. Acho que não contribui para a Literatura e sua desmistificação de coisa da elite resolvida financeiramente. Mas ele tentou convencer-me com o argumento de que Amós Oz estaria lá, numa tenda, chamada Tenda dos Autores. E eu pensei: “Pôxa, que legal, os autores ficam numa tenda, independente de seu status.” Eu pensava que era uma tenda de verdade, daquelas de acampamento, e que os autores estariam lá, por amor à literatura, acampados, conversando com os transeuntes. Seriam gente comum, já que estariam numa festa aberta ao público. Não, não era. Eu teria que pagar R$ 26,00 para entrar, sentar sem me mexer, com mais não sei quantas pessoas. Ou R$ 6,00 para ver num telão numa outra tenda chamada Tenda da Matriz. Aí pensei que isso não era para mim, era para ti, leitor amigo!


    À noite, depois de rejeitar o convite do colega, fui aparteado por Márcio-André, o poeta recém-chegado ébrio e radioativo da Europa, dando-me conta de que fora convidado para a Flap. Imaginei os altos vôos do bardo já que, até então, a Flap era apenas uma revista dedicada à aviação. Não, não! Flap é a festa literária alternativa à Flip. E tem como bandeira observar o comportamento da literatura alheia ao (ou fora do) circuito comercial. Perguntei-me como se pode estar fora desse mercado, se qualquer autor que publicar um livro, um livreto, um opúsculo, uma plaquete, um cordel, está dentro? Ah! Sim! São aqueles que ainda não entraram no pequeno círculo dos convidados à mesa da Tenda dos Autores em Parati. Penso que no Brasil só um poeta conseguiu ser alternativo até o fim, sem necessitar do mercado editorial, nem de tenda: Gregório de Matos, o sobrevivente. Desejei boa sorte ao Márcio-André em seu encontro alternativo.


    Entretanto, além do aparte do André, recebi também minha fatura de cartão de crédito, R$ 49,00. Mas não foi só. Nela, à parte, uma oferta imperdível: toda a obra de Paulo Coelho por R$ 99,00. Tremi, assim meio que tomado por uma energia estranha. Uma energia cósmica. E compreendi meu destino: Maktub! Aquilo era uma senha. E era premente que eu me apoderasse dessa benção. Liquidação, Paulo Coelho estava sendo liquidado. Toda a obra: R$ 99,00. E eu tinha crédito no cartão. Felizmente saí do transe rápido graças ao Mauro Halfeld e seu alerta: não ceda às tentações. Não cedi. No sebo o Coelho sai por R$ 1,00. Se vale ou não, mago leitor, resolve com tua tenda pessoal.


    Outra surpresa aquela noite me traria. Ao abrir o e-mail, recebia, ali no écran, o orçamento para a publicação de meu livro, minha dissertação de mestrado: R$ 5.000,00. Com direito a lançamento na Bienal. Quando li esse nome, Bienal, desestimulei-me novamente da literatura. E passou-me pela cabeça tudo que vivi para ir à Bienal no Riocentro. Paguei R$ 15,00 para estacionar, já havia pago aproximadamente R$ 3,00 de pedágio na Linha Amarela. Mais R$ 30,00 para eu e minha esposa, mais meia para minha sogra, que é idosa, e meia para minha filha. Comemos uma pizza horrível com refrigerante quente. Fechamos a conta em R$ 100,00 numa noite. Comprei livros infantis a um vendedor encervejado e nada mais. A média do preço dos livros, na época, era de R$ 40,00. Fiquei vacinado e cético. Por isso acredito que os personagens, como ouvi alguém dizer (talvez João Ubaldo, não lembro), tomam vida própria e se alforriam da vontade do seu senhor, no caso o autor. E devem, como nós, pagar um alto preço pela ousadia!