sexta-feira, 27 de abril de 2007

O erudito e o popular, na veia

Primeiro: essa divisão entre erudito e popular é uma falácia. Não existe. Na mesma seara: elogiar o popular em detrimento do erudito é um equívoco. Vejamos: o poeta mais popular do Brasil, de quem todo mundo sabe um verso, nem os eruditos, a academia, souberam onde colocá-lo: Augusto dos Anjos. Terá poeta com linguagem mais erudita e tão querido pelo povo? Olha o verso que todo mundo sabe, seja erudito ou popular:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Enquanto isso há poetas populares cuja construção poética excede tudo o que os eruditos ditam. Observemos Silvino Pirauá, poeta paraibano nascido no século 19:

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores
Ministros e senadores,
e mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
de uma vida regrada,
Temos também a espada
De soberbos generais.
Comandantes, Marechais,
e tudo vem a ser nada.


Augusto e Silvino são dois poetas magníficos, nem tudo que escreveram, entretanto, são obras perfeitas. É simples: o bom cozinheiro, às vezes, erra no sal. Não deixa de ser cozinheiro. Seguindo a receita com muita cautela e observação e bom senso qualquer pessoa reproduz o prato do maior chef de cozinha. Qualquer Poeta pode fazer cordel. Infelizmente nem todo cordelista é poeta.

Há muito cordel de construção poeticamente duvidosa. Assim como há poetas eruditos que apenas fazem versos. Porque há uma distância considerável entre Poema e Poesia. Para arquitetar versos há a receita. Para a poesia, não. Tenho tentado incluir o cordel no cerne da Literatura brasileira da seguinte forma: há duas formas de poesia: a Poesia Lírica e a Poesia Épica. A poesia lírica é subjetiva, o poema geralmente é curto, serve a reflexão das coisas da vida, desde as mais profundas até as mais cotidianas. Drummond:

Mundo, mundo, vasto mundo
Mais vasto é meu coração


Quintana:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!

José Laurentino:

25 de janêro,
da capitá do istado,
Cumpadi Mané Cazuza
Cuma você tem passado?


Não importa se é erudita ou popular: é Lírica. A poesia épica tem outra inspiração. Aristóteles foi o primeiro a apresentar, 300 anos antes de Cristo, essas questões que estamos discutindo aqui. Ele diz que o poeta se distingue do historiador pois enquanto esse escreve sobre os fatos acontecidos, aquele (o poeta) escreve sobre como tudo poderia ter sido diferente. É aqui que entra a Poesia Épica. O único lugar no qual o poeta e o historiador se mesclam.

A Poesia épica será sempre fiel à História. Seus poemas são longos e contam fatos acontecidos. Entram aí clássicos da literatura universal: Os Lusíadas, de Camões; A Divina Comédia, de Dante; Latinoamérica, de Marcus Accioly; Odisséia, de Homero; Eneida, de Virgílio. A característica é que o poeta junta à realidade, a História, o fantástico, o maravilhoso. Dessa forma Vasco da Gama encontra Adamastor e várias sereias e é regido pelos deuses do Olimpo. O poeta Vírgílio, segundo Dante, faz uma viagem pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Ulisses é aprisionado numa ilha por sereias sedutoras. Mas tem que ser poeta para escrever uma epopéia. Tem que ser poeta para ser ser épico. Muitos tentaram, ficaram na forma, faltou-lhes a arte. Ora, o cordel se insere nesse espectro da poesia Épica. São poemas longos que contam uma história, juntando realidade e fantasia, essa é sua maior produção. Muitos tentaram ser cordelistas, ficaram no Cordel: repito, faltou-lhes a arte.

A discussão continua

Quanto a ABLC não posso afirmar que não seja um órgão sério. Porém é cópia da ABL, inclusive reproduzindo os mesmos males. Já vi cordelista criticar o fato de o Dr. Ivo Pitanguy ser da Academia Brasileira de Letras. Entretanto está faltando poeta cordelista nos quadros da ABLC. Defendo o que já disse: o poeta de cordel deveria se candidatar à ABL, onde se poderá com a mesma seriedade incluir definitivamente o Cordel como fundador da literatura brasileira mais original. Quanto as academias municipais e estaduais são cópias do mesmo jeito, reproduzindo também, os mesmos equívocos.

Agora, quanto a Patativa, aí é unanimidade. Não há poeta maior. Entretanto é humano, logo, também exposto ao engano. Se formos olhar com os olhos dele o poema do compadre que reproduzi acima ele diria que não acha graça. Está lá no poema Aos Poetas Clássicos, que abre O Cante lá que eu Canto Cá. referindo-se ao poema sem rimas:

Se o dotô me perguntá
Se verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como um corpo sem arma
E o coração sem amô.


Convenhamos que não é bem assim, concorda, compadre? Por outro lado, admitindo a resignação, atenuada pelo orgulho de ser poeta de cordel, Patativa realmente dá-nos uma lição quando diz na apresentação do mesmo livro, em sua Autobiografia:

"Não tenho tendência política. Sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes, talvez, da política falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia."

No mais quero reiterar a importância dessas discussões. Para mim são valiosíssimas porque tenho a oportunidade grandiosa de mudar de opinião e até de me retratar e reconhecer meus equívocos, tão frequentes, mas, acredito, que perdoáveis.

Ainda as diferenças popular e erudito

Não disse que não se venda o cordel em barbante. Vende-se. E vende-se bem. Mas essa não é a tradição, compadre. O que vi e ouvi meus avós contarem é que sempre fora em tabuleiros. Tabuleiros como se fossem malas e ali, na parte de cima, na tampa, os folhetos dispostos, para todo mundo ver a capa, e na base, dividida em quadrados ou retângulos, outros folhetos espalhados para o manuseio dos compradores. O compadre deve saber que nas feiras do interior o vendedor de cordel não lia o cordel, ele os cantava, ainda trago aqui comigo várias dessas melodias. Cantava uma estrofe dramática e chamava a atençao dos ouvintes. Em determinado momento, já tido, hipnotizado todo mundo, ele dizia que quem quisesse saber o resto era só comprar o "romance".

A minha rixa contra a denominação popular, compadre, é vê-la sendo utilizada apenas para as camadas menos favorecidas. Se o povo de um país é a reunião de todos os indivíduos não importando a sua classe, então por que popular, referindo-se à produção intelectual, refere-se apenas ao que faz por experiência? Sivuca, o sanfoneiro, se encontraria em qual lugar, então? Agora, gostar de ser popular é opção. Mas veja bem: outro dia, o compadre postou aqui o seguinte poema:

Quase Poesia.

(Compadre Lemos)

Eu, quando escrevo este verso,
não sou poeta,
sou quase.

Meu verso, quando o escrevo,
não é poesia,
é metade.

Poesia, toda, completa,
é quando se encontram – e se casam –
o meu e o teu sentimentos.

Escrevendo, construo a ponte.
Lendo, tu passas por ela.
Poesia... somos nós dois!...


Pergunto: é erudito ou popular?

A resposta vai alterar em alguma coisa a maestria de seu verso? Claro que não. Nem por isso o compadre deixará de optar por ser conhecido como poeta popular. Mas quando alguma crítico, e existem muitos, disser que é um poema escrito por um poeta popular, essa afirmação virá cheia de preconceito. É contra isso que grito.

Detesto o epíteto "poeta popular"

Amo jaca, a fruta. Dura e mole. Madura e algumas vezes "de vez". O doce. O caroço cozido. Amo jaca, adoro. Até esteticamente gosto de olhar, de bater assim com o dedo, para ouvi-la "inchada". Mas não posso mais comê-la. Me faz mal. Não consigo fazer a digestão. Ela fica lá no estômago por dois dias. E o médico disse: — Não coma mais! Parei de comer, mas não passei a odiá-la. Assim é com a poesia de cordel: adoro, entretando o nome me faz mal. Convivo com ele, aceito pois está consagrado. Sua origem me entristece.

Certa vez, compadre, fui expulso por essas questões, na minha juventude, do Teatro Minerva, a casa que eu amava, lá na minha cidade. Garanto que não me senti menosprezado, mas garanto que naquele dia fui discriminado, fui ofendido, menosprezado, como indivíduo, cidadão e ser humano.

Compadre se não houvesse essas coisas, se essas coisas não fossem tão latentes, tão presentes, não existiriam as leis para proteger os mais fracos, os idosos, os doentes, as crianças. Acredito que realmente, em algumas vezes, nós, por problemas interiores, desligamos a auto-estima e embarcamos na auto-depreciação. Aqui, na nossa discussão, o caso é político-social. De uma classe dominante determinando o caminho das outras, dominadas. A elite letrada sempre fez e desfez. Aliás, ler e escrever foram artigos de luxo há menos de vinte anos no Brasil.

A atitude de se auto-denominar "Poeta de Cordel" é assumir a causa cordelista. Continuarei defendendo a causa do cordel, como estudioso, pois até agora, ainda não escrevi o meu cordel inicial. Quando o senhor assume com orgulho o fato e a denominação, lá dentro, essa atitude está assentada sobre a resistência. Aqui no Rio serei sempre o "paraíba". Foi horrível escutar um militar me encostar no muro: "— Mãos na cabeça, paraíba!" E depois falar para o outro: "— O paraíba quer ser doutor!" Tenho muito orgulho de ser paraibano, mas detesto ser o "paraíba".

Porque não gosto do termo Literatura de Cordel

1. Meu velho e bom e compadre Lemos, primeiro, recebi o folheto do Patativa via Valdir Oliveira, já o tinha lido no e-book, mas sou um chinês apaixonado pela folha de papel impressa, filho de Gutemberg. Está um primor, o seu trabalho e o acabamento gráfico da Canoa, espero que venham outros. Agora, respondendo a mincê: nunca vi folhetos sendo vendido como roupa colocada no varal, com pegador (vou apostar que o senhor também não!). Isso é básico, mas o termo Literatura de Cordel, que Deus tenha misericórdia de quem o criou, é pejorativo. Uma vingança da ignorância acadêmica contra o manancial poético de quem nunca estudou. Não se pode qualificar a Literatura pelo lugar no qual (aqui supostamente) ela é vendida. Se assim o fôsse teríamos nas Bienais por aí afora Literatura de Stand, Literatura de Feira de Livro, Literatura de Estante de Livraria, Literatura de Beco, de Barraca. Não, não é assim. Alguém, e eu ainda vou descobrir quem foi, para deixar bem marcado que aquela poesia não era feita por algum bilac, mas por um "zé ninguém" do povo. Isso me corrói. Um dos gêneros literários é a poesia (lírica ou épica). Aristóteles pegou a literatura grega e fez a divisão, não se importando com quem fazia, entrou tudo na classificação dele. Daí quando se fala Literatura de Cordel estirpa-se o termo POESIA (que como muitos pensam, inclusive alguns poetas de cordel, seria superior à prosa). Assim, para o sujeito que a rotulou, não é Poesia e quando é vem o novo rótulo Poesia Popular, criando, pejorativamente, nova partição, apartamento. Há alguma diferença entre a poesia de Patativa e a de Casimiro de Abreu? Se há é pela superioridade poética do Patativa. Então por que a poesia dele é popular? Porque causa inveja no acadêmico a causa de um homem sem estudo ser o maior poeta brasileiro. Como reconhecimento, mas com o pé atrás, convidam-no para homenagens. Mas Patativa por ser "popular" jamais seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. Quem? Um poeta de cordel? Jamais. Por isso minha ojeriza ao apartamento, ao termo.

2. Sou contra, não engulo, e só o pronuncio pedindo licença quarenta vezes aos meus ancestrais. Chega de preconceito e se não der para mudar o nome, já que os apelidos que a gente mais odeia são aqueles que se perpetuam, colocarei sempre um asterisco para explicar o embrião preconceituoso dessa aberração social. Vou contar dois casos conhecidos que devem sempre ser lembrados: por ocasião da semana de arte moderna (que Deus também tenha misericórdia dos que ali se envolveram) resolveram vir ao Rio buscar um autor cuja lira é formidável: Lima Barreto. O que se sabe é Lima era um lunático, vivia ali pela Lapa, pela Praça Tiradentes, bebendo e contando histórias, sem um tostão no bolso. Quando Mario de Andrade o viu caído e todo sujo na calçada, voltou às pressa para São Paulo, com medo do monstro. E o Lima escreveu o Triste Fim de Policarpo Quaresma. O outro caso é o de Cruz e Souza que não foi eleito para a Academia de Letras, mesmo sendo um "negro de alma branca". Claro que surgirão sempre os defensores, os conscientes. Para mim é apartheid. Por isso também não aceito muito a criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É um clone. Os cordelistas devem se candidatar à ABL, fazer o estardalhaço, mostrar que um cordelista é POETA, ESCRITOR, vive de seu ofício, como um OURIVES. Criando a ABLC aceito a apartação, sou carneiro, morro em silêncio. NÃO! Desculpem o tom apaixonado. Sou passional, mas meus pés estão no chão!

Temas do Cordel

Às vezes, acho que há uma resistência dos poetas cordelistas ao debate, ao estudo, à averiguação de elementos básicos da literatura de cordel. Militar no cordel não é só desenvolver motes e glosas, é uma confissão, uma profissão de fé. Talvez por isso haja tanto equívoco e tanta rasura no rascunho cordélico. Este tópico é de fundamental importância para o conhecimento do embrião cordeliano. Diz respeito ao início oral desse gênero. Tenho discordado do parentesco fraternal entre cordel e oralidade. Dizer que o cordel teve raiz na poética dos cantadores (na oralidade), ao meu ver, embarca num equívoco de averiguação. A sextilha do cordel não é a sextilha da cantoria. Ao contrário: a sextilha do cordel é que deu origem à sextilha no repente. É um caminho inverso ao que aconteceu naturalmente em outros gêneros. Como sabemos a cantoria era, na origem, cantada em quadras. Em algum momento passou a sextilhas, influenciada, isso sim, pelo papel da sextilha cordélica. A sextilha, escrita, aparece já nas canções medievais e nos seiscentos, com Camões e outros. No Brasil, desde Anchieta que a sextilha escrita se faz presente. No romantismo, em 1848, Gonçalves Dias solidifica de vez a sextilha na literatura brasileira com as Sextilhas do Frei Antão. Considerando que a Literatura de Cordel (nome que me é indeglutível) apareceu no final do séc. XIX, portanto na vigência romântica, entendo provável a sua raiz erudita, trazendo como prova os primeiros "romances" (de romântico) para os folhetos.