segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Uma saudação aos poetas passados


Manoel Camilo foi grande editor de cordel. Proprietário de A Estrella da Poesia, de Campina Grande. Autor do célebre País de São Saruê. Escreveu esse saudação. Queria observar que no segundo verso deveria estar grafado, ao invés de Nicanor, Nicandro, para rimar com Leandro, imediatamente acima. Sendo esse Nicandro o poeta Nicandro Nunes da Costa, de Teixeira-PB, patriarca da poesia brasileiro, do interior do Nordeste.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Anotações para uma poética cordelial V


1.
Há uma insistência entre os pesquisadores e alguns poetas em vincular a xilogravura ao cordel. Em certo momento da década de 50 do século passado, essas duas artes se encontraram, mas são autônomas. A xilogravura é só mais um processo ilustrativo do cordel. Não o representa, nem é uma sua extensão.


2.
O romance sumiu do cordel. O cordel de gracejo, o cordel pedagógico, o cordel das adaptações estão tomando o lugar das pelejas, dos romances, das aventuras originais. Os cordéis sobre seu Lunga são best-sellers, sobre o peido, sobre a bunda, etc. Mas e os romances? Quem tem fôlego para o cordel original? Motivos não faltam? Faltarão poetas?


Anotações para uma poética cordelial IV


1.
O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, disse-me acreditar que o cordel pode ser encarado como gênero literário. E eu concordo, discordando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!



2.
Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.


3.
Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.


4.
Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

Anotações para uma poética cordelial III


1.
O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda.


2.
O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3.


3.
Passo a acreditar que cordelista não é só aquele que produz o poema em cordel, mas todo mundo que, de alguma forma, contaminou-se enamorado por esse fenômeno poético. Assim, são cordelistas os que o fazem, escrevendo, lendo, ouvindo ou estudando. Até os que se negam a recebê-lo, o são.


4.
O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).


Anotações para uma poética cordelial II


1.
As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.


2.
Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.


3.
O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.


4.
Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.


Metro, rima e oração?



 

1.

Há muito habita entre os cordelistas a tríade sobre qual o cordel está plantado: METRO, RIMA e ORAÇÃO. Mas isso diz tão pouco que chega a soar hermético para os não iniciados. Urge complementação e expansão desses conceitos para melhor enquadramento da poética cordelística.

2.

Considerando que em poesia, por ter como princípio as possibilidades da palavra, haverá sempre rima, por mais que os versos sejam brancos e soltos; considerando que sempre haverá metro, visto que todo verso contém sílabas poéticas, e que tudo, mesmo uma só vírgula, tem significado, aquela suposta tríade do cordel perde sentido. Por quê? Porque a poesia é maior que o cordel, sendo o próprio cordel forma poética.

3.

Por isso a necessidade de complementação: para o cordel vale o verso setissilábico; vale a rima soante, disposta na sextilha com a rubrica xaxaxa (onde os versos x não rimam entre si e os a, rimam; e o significado oracional está preso à sintaxe da língua portuguesa. Esse último ítem, entretanto, carecendo de maior aprofundamento e até de questionamento.

4.

Ainda sobre aquela tríade RIMA, METRO e ORAÇÃO, talvez o primeiro poeta a confessá-la tenha sido Antonio Teodoro dos Santos no cordel Lágrimas de Palhaço. O narrador abre assim:

Neste livro eu vou fazer
Rimas, oração e traço
Não quero que meu leitor
Na letra tenha embaraço
Saiba que agora vai ler
As “Lágrimas de um Palhaço”.

A capa reproduzida no início do post é da nova edição de 2010 da Editora Luzeiro.

Da vaidade


1.
A vaidade foi a desgraça de Lampião.


2.
Corrigir um texto em cordel é prazeroso e trabalhoso. Corrigir o texto de um poeta vaidoso, seja ele quem for, é criar uma inimizade que durará ad saeculum.


3.
Convencer o poeta de cordel sobre a necessidade de seu texto sofrer intervenções para curar-lhe vícios de linguagens, repetições desnecessárias, adequações gramaticais, supressão de cacófatos, excessos estilísticos, mantras obsessivos, problemas de acentuação ritmica e outras observações, pois bem, convencer o poeta de cordel é um trabalho que deve ser regrado pela paciência.


Um pitaco e uma assertiva


1. O pitaco:



Outro dia falei que o encontro do cordel e da xilogravura não oferta aos pesquisadores o direito de dizer que esta é sinônimo daquele. Ora, muitos astros de Hollywood povoaram as capas de cordéis e nem por isso foram transformados em seus ícones. Aliás, muitos estudiosos ignoram essa façanha.



2. A assertiva:



Silvino Pirauá de Lima criou o romance em versos e talvez tenha escrito o primeiro cordel; Leandro Gomes de Barros deu forma ao cordel como ele é conhecido, a partir da publicação do primeiro folheto; João Martins de Ataíde emprestou a publicação em série ao cordel e contratou poetas para trabalhar em escala industrial; Francisco das Chagas Batista pensou em um cordel de capa dura, com atrativos gráficos superiores.



sábado, 13 de agosto de 2011

A escolha


Repito enfaticamente:



Não é o poeta quem escolhe o cordel. É o cordel quem escolhe o poeta.



Logo, não adianta labutar no lodaçal. Se o poeta não consegue construir um poema em cordel, com mais de 30 sextilhas, é bom repensar seu intento. Se consegue escrever 28 apenas, tem uma luz, mas só. O cordel requer fôlego.


Da mesma forma, o poeta que escreve cinco sextilhas e diz que escreveu cordel, delira. Escreveu tão somente cinco sextilha, utilizou apenas a técnica do cordel, não escreveu um cordel.


Lembremos que uma sextilha solitária extraída de um poema de cordel, perde sua aura cordelística. É unicamente uma sextilha, um pintainho de acauã que do ninho caiu. E morreu.


Repito ainda:



O poeta de cordel tem que respirar cordel, mas precisa comer várias outras guloseimas.



Outras paródias

1. Inicio outra rodada de paródias com Georges Mathieu, em entrevista a Vintila Horia:— É evidente que o poeta de cordel se prepara para escrever. O problema está em saber ou prever se o fará de forma sábia ou demencial.


2. Thomas Heggen a Budd Schulberg: Leandro Gomes de Barros (o criador do cordel) foi sábio o bastante para logo perceber que a carreira de um escritor não é uma escada rolante, nem uma palmeira para que suba por ela, como macaco, se apoiando nas mãos. Um escritor, quando continua escrevendo é uma cordilheira… sou uma cordilheira, desço, subo, tenho chapadas, deslizes e até quedas.


 3. Vicente Huidobro: esses quase-poetas contemporâneos são muito interessantes, mas seu interesse não me interessa. 



Finalizo a série de paródias


parodiando Marcel Arland:


“Imagino facilmente o cordel como uma Ordem.”






Parodio, também, Jean Paulhan:


”O cordel também é uma linguagem e


(embora nem sempre seja visível)


uma festa para todo mundo,


para a qual todo o mundo é convidado.”



Quero parodiar Wang Chong:


“O cordel deve ser fácil de compreender


e difícil de escrever


e não difícil de compreender


e fácil de escrever.”

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Carro de boi, 30 anos depois

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Quando começaram os anos 80, nós, adolescentes que pensávamos em poesia no interior da Paraíba, não conhecíamos os autores paraibanos. Desconhecíamos o movimento Sanhauhá e sabíamos muito pouco do Jaguaribe Carne. Conhecíamos mais o cinema documental com as figuras de Wladimir de Carvalho, Linduarte Noronha, Machado Bittencourt, João Ramiro Neto e Ipojuca Pontes.


A pequena cidade de Areia, na região do Brejo, abrigava por essa época o seu Festival de Artes, reunindo peregrinos das artes de todo o Brasil. No ano de 82, chegava às nossas mãos alguns livros produzidos pelo Governo do Estado, sob o comando de Tarcísio Burity. A antologia Carro de Boi, a nova poesia paraibana, organizada por Juca Pontes, publicada no ano anterior, foi a primeira carta de orientação para nós.


Nela, estavam os novos. Os que faziam a poesia da Paraíba. E nós, que nos julgávamos os novos, chegáramos a cocnclusão de que não éramos nada. A Carro de Boi, todavia, não trazia autores interioranos. Estava recheada de autores radicados na capital ou em Campina Grande, a mais importante cidade paraibana naquele momento. Não havia a política de interiorização das ações culturais e tudo rumava para o litoral.


A Carro de Boi foi importantíssima mesmo assim. Lembro-me de ficar discutindo com os colegas quem era o melhor poeta, se Saulo Mendonça ou José Leite Guerra. Figuravam na antologia dois nomes que seriam conhecidos nacionalmente: Zé Ramalho, cujo Apocalypseestava reproduzido quase na íntegra, ou mesmo na íntegra, e que viria a se transformar em sucessos musicais com os nomes de Canção Agalopada e Beira Mar, Beira Mar Capítulo II e Beira Mar Capítulo Final. E Braulio Tavares, com Caldeirão dos Mitos, gravada depois por Elba Ramalho.


Eulajosé Dias de Araújo, Águia Mendes, Políbio Alves, Jomar Souto, Aldo Lopes, Marcos Agra, Marcos Tavares, Arland de Souza Lopes, José Antonio Assunção e o próprio organizador Juca Pontes formavam o time representante do esquadrão poético paraibano. Outro, Sérgio de Castro Pinto, terminou por se transformar em nome de referência por seu engajamento poético e crítico, professor da Universidade Federal da Paraíba. Mas foi a Carro de Boi que o levou para o interior.


A Carro de Boi trazia uma epígrafe de Lúcio Lins, poeta que se solidificaria na década de 90, morto em 2005, que reproduzimos como ágora, ao redor da qual elevaram-se os edifícios:


bordam-se palavras
que calam as rendeiras
quando em seu ofício

depois de finda a renda
vestem-se os poemas
em vários exercícios.


(Lúcio Lins - Dois Movimentos)

Circo! Lua! Baião!, espetáculo de 2009, pelo circo Crescer e Viver (texto escrito para o programa)

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O interior do Nordeste foi marcado pela presença do circo. E o circo, pela presença litúrgica de um palhaço desbocado. Havia, porém, um ponto alto todos os dias. Era a segunda parte do espetáculo: a encenação de um drama. Vimos centenas de vezes a Paixão de Cristo. Além de sofrermos solidários ao Cristo crucificado, regozijavamo-nos com Judas se enforcando. Era uma limpeza de alma, uma calma para o espírito.


O circo ficava entre nós geralmente por um mês e nós, da cidade, terminávamos por conhecer as famílias circenses e participar de sua dura vida na perpetuação de sua arte. Muitos partiram com o circo e nunca mais voltaram. Tivemos essa vontade, mas vontade dá e passa. Os circos maiores traziam, de vez em quando, um cantor da moda, que tocava no rádio, e lotava a arquibancada.


Entre encenações de dramas, palhaços infames e cantores bissextos, vimos certa vez um negro vestido de cangaceiro, tocando sanfona e cantando “no gogó”, sem microfone, transformando o circo num arrasta-pé. Mais tarde saberíamos tratar-se de Luiz Gonzaga, fazendo o maior forró do mundo, preenchendo o nosso vazio, construindo o nosso itinerário. Aquela voz poderosa reside ainda hoje, fazendo eco, em nosso coração.


Foi a união da fantasia do circo e da música gonzagueana que deu-nos coragem de arribar e fazer o nosso verão. Foi com ela que embalamos nossos sonhos, malabaristas que somos na corda-bamba do tempo. Foi com ela que, como bons filhos, voltamos ao chão de onde brotamos e respiramos o ar de nossos tempos idos. Luiz Gonzaga é o arquétipo nordestino por excelência e o picadeiro é a vida a encenar-se.


Hoje voltamos para dentro da lona e compreendemos o que vem a ser o círculo. Como naqueles antigos circos sertanejos, retornando sempre na mesma época do ano, cá estamos nós, esperançosos para ver a cortina se abrir e lá, de um misterioso e secreto lugar, ver o Lua surgir, crescendo e se fazendo vivo, abrindo a sanfona branca e arrancando do peito a voz mais terna e saudosa a cantar: — Eu vou mostrar pra vocês… como se dança o Baião!


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Pinto do Acordeon

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A Vila de Patos assistiu abismada à primeira peleja entre dois bons repentistas. Um, negro e escravo, Inácio da Catingueira. O outro, branco e livre, Romano da Mãe d’Água. Um, ao som do pandeiro, o outro, ao som da viola. Noventa anos depois, em 1964, a mesma vila, agora cidade, olhava o moço Francisco Ferreira de Lima, trocar passos tímidos pela rua principal, molhado pela água do Piancó, nutrindo grandes esperanças, sob o céu da morada do sol.


A geração que se seguiu obrigou-se a ver e a ouvir a timidez transformar-se em ousadia. Respirando o ar dos poetas, pois Patos está a meio caminho entre Pombal, de Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel, e a Serra do Teixeira, de Silvino Pirauá, o poeta enciclopédico, o jovem Francisco criou seu próprio terreiro para o arrasta-pé. A lua nova e vermelha, o sol espadaúdo, a terra crespa e calcárea, as plantas desconfiadas e os animais desafiadores, foram motivos para seu desasnar.


O olhar do homem furou o ventre das coisas, escaneou suas vísceras, revirou seus mistérios, escrutinou suas entranhas. A mão do homem deslizou pelas teclas sensíveis da concertina, seus dedos pressionaram os pinos, procurando os sons baixos e harmônicos. Os pés do homem organizavam o primeiro passo, sentindo o caminho, testando o equilíbrio. A cabeça erguida, o queixo pra frente, a barriga desforrada e o pulmão vertendo cem mil libras de oxigênio, vibrando as cordas vocais: era Pinto do Acordeon.

O sertão é meu lugar, de Moreira de Acopiara

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José Aderaldo Castello, no segundo volume de A literatura brasileira – origens e unidade, elege Graciliano Ramos como um autor-síntese do Regionalismo Brasileiro. Explica que as características do romancista alagoano são suficientes para determinar os caminhos e as características da produção regionalista. Alinhados com o pensamento de Castello podemos afirmar que Moreira de Acopiara é um poeta-síntese dentro da produção literária nordestina. Observação autenticada pelo diálogo entre sua origem e sua formação.


Moreira cresceu ouvindo poetas da oralidade e amadureceu lendo os poetas escritores. Tanto o baião dos violeiros repentistas, aquela sonoridade que, aos leigos, parece monocórdica, como a voz cantada de Patativa do Assaré, engravidaram sua pena. Mas não se deve refratar desse veio a voz grandiosa dos vaqueiros desenvolvendo outra melodia mais arrastada, regida pelo tilintar dos chocalhos das reses, ao pôr-do-sol. Inclua-se também o dialogar ríspido dos pandeiros nas refregas poéticas dos coquistas emboladores. Em sua letra encontram-se esses signos.


Não demorará mais, quem busque, a encontrar outros elementos orais: o tempo de elaboração dos glosadores, numa roda de glosas, pulhas poéticas, divinações rimadas, contos folclóricos e tradicionais, danças e cantos dramáticos, benditos e ladainhas. Está tudo lá, submerso no estrato gráfico de seus poemas. Alimentado pelos ouvidos, parte para aliviar os olhos com os clássicos da rima do povo e com os vanguardistas experimentais. Senta-se no banquete dos poetas matutos e deita-se na rede dos poetas de cordel.


Em sua pele encontraremos as marcas da diáspora, em sua alma os anseios míticos do eterno retorno. A migração não lhe arrancou a terra do sol, o sertão brabo, como diriam os apologistas sertanejos, mas também não lhe fechou o corpo à urbanidade. Os atalhos poéticos de Moreira vão de uma a outra paisagem com mansidão e passo calmo. A musa sertaneja e a musa litorânea, os apelos do cariri e as buzinas paulistanas, adormecem e madrugam no cais de sua inspiração. Daí para o éter, de lá para a eternidade.


O cordel, o soneto, o poema curto, a sextilha, as décimas, os decassílabos regozijam-se em seu fazer poético. Este livro é uma pequena mostra do seu vasto potencial, é uma antologia dos seus cinquenta anos, uma breve sombra no sol a pino do seu escreviver. Se me fosse dado o direito de escolher um nome para este volume, eu o chamaria de Os óculos de Deus. Mas não me foi pedido esse privilégio. 


 

Cordel: sua história, seus valores, de Marco Haurélio e João Gomes de Sá

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Muito já se falou no Brasil sobre o cordel. Muito já se escreveu. Muitos poetas tentaram contar sua história. Pesquisadores quiseram determinar-lhe a origem, bem como suas características. A maioria prendeu-se a elementos de difícil comprovação.Aalguns ficaram nos limites da repetição, enjaulados em seus gabinetes.


Você que vai ler este Cordel: sua história, seus valores terá um apanhado historiográfico resultado da pesquisa e da vivência dos autores, ambos envolvidos com o cordel desde a mais tenra idade. Ambos envolvidos no processo criativo e editorial cordelístico, apesar de jovens, respirando as rimas e as tintas da impressão.


Marco Haurélio é o poeta-pesquisador, autor magistral de versos preciosos, e também descobridor de talentos, conhecedor das minúcias poéticas. Tendo chegado a São Paulo veio direto para a Luzeiro estruturar as publicações e estudar o acervo e os poetas. Transformou-se no editor de sucesso, responsável pela difusão do cordel na metrópole paulistana.


João Gomes de Sá é o poeta, professor, xilógrafo e folheteiro. Autor de histórias bem trabalhadas com versos nada rústicos. Veio das Alagoas desafiar os arranha-céus com sua pauta poética, carregando centenas de imagens e promovendo o cordel. Conhecedor dos clássicos literários, arrastou-os pelo pescoço para o sertão dando-lhes novas cores.


Da conjunção desses dois poetas, surge esse mapa do cordel no Brasil, dos pioneiros aos nossos dias.  É uma aperitivo no qual o cordel fala de si mesmo, como se estivesse na varanda de casa, na cadeira de balanço, vendo desfilar, na amplitude do seu terreiro, os heróis desde Pirauá, entre Teixeira e Recife, até Julie Ane no Ceará de luz.


Esta segunda edição recebeu tratamento de clássico, clássico que já é. Nós que amamos e fazemos o cordel contemporâneo agradecemos a Marco Haurélio e João Gomes de Sá a oportunidade que temos de abrir nossos olhos e observar o nosso compromisso.  Temos certeza que, naquele futuro com o qual sonhamos, quando o cordel estiver vestido de sol, esta história do cordel terá sido das primeira luzes do século XXI.

A chegada de Lampião no céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante

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O capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, mandatário do sertão nordestino, o mais famoso cangaceiro, foi absoluto enquanto viveu. Não respeitou lei, nem rei, soberano que era. Dominou a paisagem entre Ceará e norte da Bahia, e sucumbiu em Sergipe. Sua história, de vida e de morte, é repetida há aproximadamente 70 anos. Durante a vida, caiu na boca do povo, depois da morte caiu na pena dos poetas. O cordel, quando encontrou Lampião, celebrou o nascimento de seu herói e fomentou o roteiro de um mito.


A história elaborada por Rodolfo Coelho Cavalcante está inserida no braço épico do cordel brasileiro. A poesia épica se caracteriza por apresentar elementos históricos, aqueles que realmente aconteceram, e mesclar seus personagens com fatos maravilhosos, colocando-os no reino da fantasia. E foi isso que aconteceu com Lampião. O poeta José Pacheco narrou A chegada de Lampião no Inferno. Se a vida do cangaceiro foi trágica, seu desembarque no reino das trevas foi emoldurada pela comédia. Rodolfo tratou de outra forma n’A chegada de Lampião no Céu.


Não há comédia, há reflexão. O céu transforma-se em um tribunal, no qual um arrependido bandoleiro recorre a Nossa Senhora, solicitando intercessão. Recebe a graça do abraço maternal da Mãe de Deus, mas não poderá ficar no lar celestial, tendo que passar primeiro pelo Purgatório, onde amenizará sua culpa. Na mesma cena, vemos o enviado do Diabo, o cão Ferrabrás, ser expulso do tribunal, não recebendo nenhuma autoridade sobre a alma do réu.


Esta nova edição procurou conservar intacta a versão primeira do folheto, não mexeu nos pequenos problemas de rima e métrica, nem tentou corrigir alguns deslizes gramaticais por entendermos que, no campo poético, é facultativo ao autor procedê-lo ou não. Cabe ao leitor identificar esses mínimos problemas e, aos professores que queiram trabalhá-los com seus alunos nas aulas de Língua Portuguesa, fica reservada a tarefa de apresentar-lhes saídas. Uma maneira lúdica de surpreender-se com osmistérios da norma culta.

Breve história da literatura de cordel, de Marco Haurélio

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A literatura de cordel, o cordel, nasceu no final do séc. XIX, fruto da confluência para a cidade do Recife, de quatro poetas nascidos na Paraíba.  Silvino Pirauá de Lima, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athaíde e Francisco das Chagas Batisa formaram a Geração Princesa do cordel.  A reunião desses quatro cumpriu aquilo que Luís de Camões  prediz no seu clássico epopeico Os Lusíadas: quando o engenho e arte se encontram, boa coisa há de sair. E foi isso. A poesia rimada nordestina encontrava na capital pernambucana as, então, modernas máquinas de impressão tipográfica, os prelos europeus.  Daí para a composição dos folhetos e sua comercialização bastou o gênio de Leandro Gomes, o primeiro poeta-editor do Brasil. Escreveu, imprimiu e comercializou suas póprias obras. E viveu a vida exclusivamente dessa prática, passando para a história como Pai do Cordel brasileiro.


Durante muitos anos, vários pesquisadores procuraram o caminho mais fácil para explicar a gênese do cordel no Brasil. A maioria, até final da década de 80, atribuía ao cordel uma herança ibérica, por achar que no cordel brasileiro residiria elementos iguais e semelhantes ao produto português ou espanhol. Teimavam em ignorar a originalidade do nosso produto e necessitavam de um cordão umbilical transatlântico para corroborar a importância do cordel. Talvez nunca tenham tido em mão algum exemplar de folheto de cordel português para atestar a profunda dessemelhança. O cordel português reproduzia obras clássicas como as peças de Gil Vicente, canções de gesta , orações, vidas de santos e outros assuntos. Não havia a produção escrita própria e autônoma. Tampouco o seu veículo, livreto ou coisa parecida, folhas volantes, também não respeitavam a semelhança. Mas foi essa desinformação que passou para nós.


De outra forma, os mesmos pesquisadores fizeram-nos crer que o cordel como ele é seria tão somente a extensão escrita do universo oral dos cantadores e repentistas nordestinos. E a partir dessa outra contra-informação foram colocando no mesmo caldeirão as modalidades da cantoria nordestina, os próprios folhetos de cordel e todo e qualquer tipo de construção poética que trouxesse em sua forma elementos de rima e métrica supostamente oriundos do Nordeste ou que com eles dialogasse. Chegou-se ao cúmulo de indicar algumas obras de Castro Alves como sendo cordel, ou um proto cordel. O importante é que, levando em consideração esse aspecto, caíram no mesmo embornal  cocos, cirandas, maracatus, martelos, qualquer manifestação poética rural. E o cordel deixou de ser a produção escrita, a obra feita, o fruto do trabalho de um poeta de bancada, ou de gabinete, para ser um espectro oco no qual muito recheio acabou por nublar o recheio principal.


Essas duas gêneses citadas acima tornam-se contraditórias a quem, pelo mais leve debruço, queira problematizá-las.  Verifiquemos: se o nosso produto cordelístico fosse tão somente a versão escrita da oralidade dos cantadores, o de Portugal deveria ser o prolongamento da oralidade de trovadores, menestreis, jograis e segreis. E não o foi. Toda a produção oral desses, ou se perdeu, ou foi transformada nas tradicionais cantigas de amor, de escárnio ou de maldizer. Não nos consta que o cordel português veiculasse tais motivos. Como dissemos acima o conteúdo cordelístico português era de outra modalidade. Mais uma vez usamos a palavra infelizmente para lamentar que outros estudiosos e pesquisadores em vez de investigar apenas repassaram os esses equívocos conceituais. Mas ao mesmo tempo comemoramos, pois a lacuna aberta por eles pedia preenchimento e, agora, com essa Breve História da Literatura de Cordel se inicia esse processo.


Ao fazer esta apresentação, até certo ponto desnecessária, nós celebramos o encontro e a oportunidade. Celebramos o encontro porque o autor, Marco Haurélio, é um mestre da literatura de cordel que reúne além dos requisitos de poeta, os predicados de pesquisador e a visão de homem de mercado, atuando com o mesmo afinco nessas três dimensões do fazer literário. Escrevendo cordel desde os seis anos de idade, Marco viajou para São Paulo com seus cordeis sob o braço para publicá-los pela famosa Editora Luzeiro. Já havia levado um não, mas não desistiu. Dono de uma memória bem servido, com trechos de cordeis clássicos e cordeis inteiros decorados, além de conhecedor da história do cordel, Marco acabou por se fixar como a personalidade para a qual outros poetas acabaram convergindo. Com seus cordeis publicados, reconhecida a pena e a letra, passa a atuar no mercado editorial como curador da coleção Clássicos em Cordel da editora Nova Alexandria.


Esse passo decisivo para o autor desta Breve História, foi também marcante para a própria história do cordel no Brasil. A coleção retomava um importante veio de formação daquela forma poética: a adaptação de obras universais para a linguagem cordelística. No início do cordel, ainda em Recife, e mesmo depois de lá, com a sua consolidação, os temas e novelas universais sofreram essa releitura e, transportadas para as sextilhas ou setilhas típicas do cordel. Por esse novo veículo chegaram ao interior nordestino e povoaram o imaginário de muitas gerações. João de Calais, Carlos Magno, Oliveiros e Ferrabrás, a Donzela Teodora, os contos de As Mil e Uma Noites caminharam lado a lado com as histórias tradicionais nordestinas do boi misterioso, de João Grilo, das fábulas do tempo em que os animais falavam, das pelejas, etc.


Dizíamos da celebração do encontro e da oportunidade. A oportunidade surgida com a publicação deste livro é aquela que visa realmente anotar passos e percursos do cordel no Brasil. Não a repetição dos equívocos já apontados por nós. É o olhar de quem está por dentro do imbróglio cordelístico, como protagonista, como ator consciente do seu labor.  Não apenas como autor celebrado, mas, também, como gestor atento e cuidadoso. Quando apontamos esses predicados em Marco Haurélio não é com o intuito de louvá-lo com um palavreado típico de apresentações em compadrio. É o reconhecimento a quem que, com tão pouco idade, muito já fez pelo cordel e seus poetas. Foi com ele e ao redor dele que surgiu a Caravana do Cordel, movimento-escola, reunindo os melhores cordelistas da atualidade em São Paulo.


Como autor Marco já está devidamente entronado. Seus cordeis, desde O Heroi da Montanha Negra,  publicado pela Editora Luzeiro, A Megera Domada, pela  Nova Alexandria, O Príncipe Que Via Defeito em Tudo, pela Editora Acatu, A História do Saci-Pererê, pela Paulus, dão a dimensão de sua abrangência em termos de difusão e trabalho. Outros títulos tantos estão espalhados. Mas não é só. A sua face de pesquisador traz uma marca diferenciada. Enquanto os pesquisadores primeiros escreveram seus estudos abonados em seus gabinetes de trabalho —  muitos não recolheram uma página sequer em campo—, conversaram com um cantador ou um cordelista, compraram alguns folhetos ou gravaram falas de alguma cantoria, Marco recolhe desde há muito contos orais que em breve sairão em livro e que aos poucos os transforma em cordel, tendo a dignidade de informar a fonte e dar-lhe o crédito. No que se refere ao cordel  foi o responsável por descobertas preciosas no acervo da Luzeiro, detentora do maior acervo de cordel do Brasil.


Não nos resta dúvida, desde a leitura dos originais, da importância desta Breve História para os futuros pesquisadores. Nela, Marco Haurélio determina definitavamente as diferenças entre o cordel  e o poema matuto, coloca os pontos finais na tese que  aproximou o cordel  do repertório repentista dos cantadores do Nordeste, revisa a cronologia cordelística, identifica os principais pontos de produção, desfila as principais editoras e faz um mapa da produção contemporânea, apontando seus  principais autores. Repetimos: não é só. Além disso, toca com precisão num ponto controverso do cordel: as ilustrações. Retira o peso da xilogravura tida e havida desde a década de 80 como sinônimo de cordel e que, até hoje, ressoa no peito de alguns autores e amantes do cordelismo. Marco desfaz essa falácia e ensina o caminho. Elenca os produtores dessa arte, mas faz questão de deixá-la bem no lugar onde merece: ao lado do cordel, mas não se confundindo com ele.


Nesta Breve História encontraremos os diálogos mantidos entre o cordel e outras formas de arte, entre o cordel e outras produções literárias. Bem como a apresentação de nomes de importantes ilustradores que, com traços e cores bem distintos, dão ao cordel a força de ser tradição e vanguarda, de trazer continuação e ruptura, de ser arte e entretenimento, além de ser a única forma poética genuinamente brasileira. Ousamos afirmar sem qualquer receio que quem quiser saber o que é cordel encontrará aqui neste título da coleção Saber de Tudo a sua lanterna. 

O pavão misterioso

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O Romance do Pavão Misterioso é, talvez, o clássico mais importante do Cordel Brasileiro, bem como o mais conhecido. Aproveitado pela televisão, pela música e pelo teatro transformou-se em obra síntese, modelar. Acompanha essa fama o seu controvertido percurso histórico, hoje já devidamente esclarecido. É conhecida a história na qual o cantador e cordelista João Melquíades Ferreira apropriou-se do texto de José Camelo de Melo Resende publicando-o como se fosse seu.


Nesta edição reproduzimos o texto completo, sem alteração na sintaxe utilizada pelo autor. Perceba-se a sua estrita ligação com a construção linguística do português coloquial, na qual a estrutura da língua culta é subvertidaem favor do ritmo, da rima e da métrica, elementos fundamentais da poesia de cordel. Um desafio lúdico aos estudiosos da gramática e uma ferramenta pedagógica para o ensino/aprendizagem da língua padrão brasileira.


Ao optar por não adulterar o texto, oferecendo-lhe correções gramaticais, pensamos em preservá-lo da maneira como solidificou-se e estabeleceu-se no imaginário de várias gerações de leitores e admiradores. É claro que os puristas de plantão não pouparão suas críticas ao estilo livre e simples do autor, entretanto a narrativa do jovem apaixonado que rapta sua amada numa máquina maravilhosa, colocando a tecnologia a serviço da emoção, continuará empolgando e fazendo sonhar.