terça-feira, 28 de junho de 2011

Os males oficiais aplicados ao cordel

Observando o que as elites têm falado sobre o cordel e os cordelistas, identificando-os com trabalhadores pouco qualificados no trato com a poesia e com a literatura por extensão, adapto o que diz Afrânio Coutinho sobre os autores de nossa literatura oficial:



1. Inicio, repito, adaptando essas citações ao mundo do cordel:



Divorciado de uma tradição, o poeta de cordel sente-se separado de seus predecessores, que ignora, da sociedade, que o desconhece, ou de seus pares, a que não presta atenção…



2. Continuando:



É marca indelével de nossa vida intelectual a completa desatenção do escritor ao trabalho de outros escritores passados ou contemporâneos. Resultam o isolamento e o marginalismo em vida, e o esquecimento rápido com a morte, como se construísse sobre a areia. E resulta a impressão de que as obras são feitas de espuma, desaparecendo com o tempo.



3. Ainda parodiando Afrânio:



A fé no espontâneo, na arte natural, na inspiração telúrica, faz com que (o poeta de cordel) despreze o estudo e a formação técnica. Constitui motivo de jactância ou endeusamento, e critério de aferição de valores, o pouco ou nenhum estudo, a virgindade de alma, a incultura… refletidos na rapidez e abundância da produção, no descuido e desinteresse pelo aperfeiçoamento.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

João Melquíades Ferreira da Silva

Também conhecido como O Cantor da Borborema, João Melquíades protagonizou a pendenga mais famosa do mundo do cordel ao escrever e assinar o Romance do Pavão Misterioso, originalmente pensado por José Camelo de Melo Resende, hoje já devidamente restaurada a autoria. Nasceu em Bananeiras-PB, na região do Brejo paraibano, em 7 de setembro de 1869 e faleceu em 10 de dezembro de 1933, em João Pessoa. Poeta marcante, escreveu o clássico História Sertaneja do Valente Zé Garcia, seu título original que, com as reedições passou a História do Valente Sertanejo Zé Garcia. Procurava uma fotografia do mestre e encontrei, surrada quase invisível e coloco-a aqui sem retoques.


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A presença de João Melquíades traz de volta a discussão sobre o cordel ser uma poesia sertaneja. Melquíades, de Bananeiras, José Camelo, de Guarabira, Joaquim Batista de Sena, de Solânea e João de Cristo Rei, de Areia, formam um grupo de poetas expressivos do cinturão do Brejo paraibano, responsáveis por grandes clássicos cordelísticos.  Seria a poesia brejeira? Não, a poesia não comporta adjetivos toponímicos.                

domingo, 19 de junho de 2011

Do sertão e do brejo

1. Desde a primeira edição de Os Sertões que se repete o refrão: “O sertanejo é antes de tudo um forte.”. Não resta dúvida que o é, mas Gilberto Freyre nos alerta para o fato de o Nordeste não ser apenas sertão, barro vermelho, terra seca, brocas e mandacarus. Há o Nordeste da cana-de-açúcar, cujo caboclo é tão forte quanto o sertanejo euclidiano.


2. Mas há também o Nordeste de Jorge Amado cujos trabalhadores do mar e do cacau equivalem em força, bravura e destemor aos sertanejo e brejeiro. O que dizer dos homens do caranguejo? E dos babaçueiros? Querer reduzir o Nordeste e seu Homem ao sol com raios wolverínicos é assassinato antropológico.


3. Essa redução passou à poesia. Passou ao cordel. É comum se louvar a poesia sertaneja como aquela de melhor cepa. Mais comum ainda chamar o cordel de poesia sertaneja. Ora, ora, o maior clássico do cordel (A História do Pavão Misterioso) é de um brejeiro, José Camelo. O País de São Saruê é de outro brejeiro, Manoel Camilo. Não por acaso, ambos de Guarabira.


4. Mesmo nos primórdios, o brejo paraibano teve seu papel de suma importância: João Martins de Ataíde é do Ingá. Francisco das Chagas Batista trabalhou em Areia e morou em Guarabira. Azulão é de Sapé. João de Cristo Rei, de Areia. E assim se vai: a poesia não tem pátria, nem classe social, ninguém é seu dono, tampouco seu senhor e o sertão não é o El Dorado poético.

O justiceiro do norte, épico de Rouxinol do Rinaré

A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de vários povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.


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Rouxinol do Rinaré retoma a narrativa épica nesse seu cordel. Li seus versos por duas vezes num voo que saiu de Juazeiro do Norte para Brasília e daí para o Rio de Janeiro. Meu interesse não era só ler e entreter-me, era observar, riscar o cordel, encontrar seus elementos poéticos, compreendê-los. Os desenhos dessa edição, abertamente inspirados nos épicos de western (o autor é fã de Tex), recontavam-me a narrativa e levavam-me ao clássico de Bonelli, num diálogo magnífico. Mas não é só isso, sendo um épico, não lhe faltariam os elementos essenciais: o herói injustiçado deixando sua terra para, em outras terras, transforma-se em mito, sob outra identidade, defendenso os fracos, apaixonando-se por uma nativa e por ela sendo amado. Aprisionado pelos guerreiros que defende, é reconhecido (como Ulisses) pela cicatriz que carrega, faz amor com sua amada e desaparece sob as águas amazônicas (como Ajuricaba lendário), deixanso sua descendência. Rouxinol sabe contar histórias em cordel como ninguém. E aprimora-se a cada dia. Já é um clássico, mesmo tão jovem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Anotações para uma poética cordelial


1. Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.


2. Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.


3. Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.


4. O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, ainda princeso.

                        

Do cordel

O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3. O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cordel, Forró, Tradição e Traição

Minha aula na Universidade das Quebradas do PACC-UFRJ foi toda anotada no caderno da artista Beá Meira com o título As três tiorias de Aderaldo Luciano. Tá tudo lá, como se fossem as tábuas dos dez mandamentos.


          

sábado, 11 de junho de 2011

Anotações para uma poética cordelial II


1. As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.


2. Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.


3. O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.


4. Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O boi Cambaú

Investigando a presença da civilização do couro no cordel, encontramos a ressurreição do boi Cambaú, de Boa Vista-PB, produzida pelo poeta Roniere Leite Soares, publicada em abril de 2011.


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A saga do Cambaú fora contada em ABC pelo poeta boavistense Bento Sampaio no final do séc. XIX, passagem para o séc. XX. As 26 sextilhas do ABC foram reproduzidas por Egídio de Oliveira Lima em seu Folhetos de Cordel que, durante meus anos de adolescência, eu folheava na biblioteca do Centro Social Pio XII, em Areia-PB, e que o poeta Roniere cita como fonte para a historicização do afamado bovino. A marca endiabrada do Cambaú abre o folheto, na primeira contracapa: “O boi Cambaú nasceu no dia 6 de julho de 1894 no sítio Sãojoãozinho, de pelo preto e estrela cinzenta na testa…”


Adverte-se, entretanto, aos pesquisadores, que este folheto não está escrito nas tradicionais sextilhas do cordel. O poeta optou pelo quadrão, com rimas alternadas, em versos de 5 sílabas, a redondilha menor. Talvez para conseguir, semelhante à parcela, a leitura em galope, criando um efeito rítmico assemelhado à corrida de pega do barbatão. 

Anotações para uma poética cordelial III

1. O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, afirmou-me que o cordel pode ir além da poesia e configurar-se em gênero literário. E eu concordo, dissecando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!


2. Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.


3. Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.


4. Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A civilização do couro e seu imaginário no cordel

As vaquejadas e os rodeios banalizaram a figura imponente do vaqueiro, criaram um decalque espetaculoso que nada têm a ver com o cerimonial da lida com o gado. O vaqueiro foi tão importante no nordeste que toda uma civilização formou-se e cresceu ao seu redor. A música, o teatro, o cinema, o cordel todos contaram e cantaram suas histórias e perpetuaram seu imaginário.


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Ainda referindo-me à civilização do couro, aquela que se formou a partir da economia bovina, como disse, o cordel cantou e contou histórias de vaqueiros valorosos e de reses endiabradas, algumas que se encantaram e outras que não se deixaram pegar. A festa de apartação era o momento no qual os vaqueiros separavam o gado, de acordo com o ferro marcado em sua pele e o encaminhavam para seu dono. A História do Boi Misterioso, de Leandro Gomes de Barros, é um marco desse tema no cordel.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Teorias sobre a origem do cordel


1.
Durante as palestras que tenho ministrado sobre cordel, uma das perguntas mais frequentes é: — Qual a origem do cordel? — Respondo: — Há três teorias para a origem do cordel: uma diz que o cordel é originário da península ibérica e que chegou até nós trazido pelos colonizadores, nas caravelas ou com a Família Real. Discordo disso pois não se tem notícias de cordel português em solo brasileiro, nem de que a realeza tenha adquirido cordéis e distribuído com o povo. Um ou dois cordéis é que devem ter cirdulado, mas de forma tão díspar que em nada se assemelha aos nossos.


2.
Outra vertente diz que o cordel é a face escrita da poética dos cantadores repentistas. É uma falácia visto que a sextilha do cordel é completamente diferente da sextilha do repente, embora conserve a mesma armadura, mas abandona a deixa, marca indelével do repente. Além do mais, a sextilha foi introduzida no repente tardiamente, pois os desafios eram feitos em quadras.


3.
A terceira é na qual acredito: no cordel genuinamente brasileiro. Dialoga com Portugal e com os repentistas, mas rompe com ambos. É como a música: não se nega uma música brasileira genuína, mas a música já habitava o velho mundo e a música dos nossos autóctones, que deveria ser a música brasileira, tem pouca influência. No cordel consolidou-se nossa independência poética.

Francisco das Chagas Batista, um dos pais do cordel brasileiro, passou pela cidade de Areia-PB e lá imprimiu alguns folhetos. Falo sobre isso no Theatro Minerva daquela cidade, o mais antigo da Paraíba, construído em 1859.

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O cordel é


minha terra e minha praia,


é meu santo e meu altar,


por ele não mato (sou um frouxo)


nem morro (sou covarde),


mas me arrisco (sou ousado).