terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nossos poetas


1.
Inicio essa nova rodada de apropriações, apropriando-me de Afrânio Coutinho, adaptando-o ao cordel:

Divorciado de uma tradição, o poeta de cordel sente-se separado de seus predecessores, que ignora, da sociedade, que o desconhece, ou de seus pares, a que não presta atenção...


2.
Continuando:

É marca indelével de nossa vida intelectual a completa desatenção do escritor ao trabalho de outros escritores passados ou contemporâneos. Resultam o isolamento e o marginalismo em vida, e o esquecimento rápido com a morte, como se construísse sobre a areia. E resulta a impressão de que as obras são feitas de espuma, desaparecendo com o tempo.


3.
Ainda parodiando Afrânio:

A fé no espontâneo, na arte natural, na inspiração telúrica, faz com que (o poeta de cordel) despreze o estudo e a formação técnica. Constitui motivo de jactância ou endeusamento, e critério de aferição de valores, o pouco ou nenhum estudo, a virgindade de alma, a incultura... refletidos na rapidez e abundância da produção, no descuido e desinteresse pelo aperfeiçoamento.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Em resumo

O cordel é síntese e profecia:
pois resume e anuncia.

É tradição e vanguarda:
pois respeita e avança.

É continuidade e ruptura:
pois represa e deixa fluir.

É corpo e alma:
pois adormece e todos os dias nunca dorme,
alerta e transcendente.

Do sertão e do brejo


1.
Desde a primeira edição de Os Sertões que se repete o refrão: "O sertanejo é antes de tudo um forte.". Não resta dúvida que o é, mas Gilberto Freyre nos alerta para o fato de o Nordeste não ser apenas sertão, barro vermelho, terra seca, brocas e mandacarus. Há o Nordeste da cana-de-açúcar, cujo caboclo é tão forte quanto o sertanejo euclidiano.




2.
Mas há também o Nordeste de Jorge Amado cujos trabalhadores do mar e do cacau equivalem em força, bravura e destemor aos sertanejo e brejeiro. O que dizer dos homens do caranguejo? E dos babaçueiros? Querer reduzir o Nordeste e seu Homem ao sol com raios wolverínicos é assassinato antropológico.




3.
Essa redução passou à poesia. Passou ao cordel. É comum se louvar a poesia sertaneja como aquela de melhor cepa. Mais comum ainda chamar o cordel de poesia sertaneja. Ora, ora, o maior clássico do cordel (A História do Pavão Misterioso) é de um brejeiro, José Camelo. O País de São Saruê é de outro brejeiro, Manoel Camilo. Não por acaso, ambos de Guarabira.




4.
Mesmo nos primórdios, o brejo paraibano teve seu papel de suma importância: João Martins de Ataíde é do Ingá. Francisco das Chagas Batista trabalhou em Areia e morou em Guarabira. Azulão é de Sapé. João de Cristo Rei, de Areia. E assim se vai: a poesia não tem pátria, nem classe social, ninguém é seu dono, tampouco seu senhor e o sertão não é o El Dorado poético.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Aqui, além

Aqui, além

do tema
do mistério encantatório
da poesia,

lembro

do que ela nos ensina ao
pedir e propor
novas leituras.

Um bom poema nos dá vontade

de ler de novo
e aí, maravilha,
ele nos revela algo mais.

Assim vai
nos ensinando
o prazer do mergulho e da concentração.

Eduardo Tornaghi
http://papopoetico.blogspot.com
Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um pitaco e uma assertiva

1. O pitaco:
Outro dia falei que o encontro do cordel e da xilogravura não oferta aos pesquisadores o direito de dizer que esta é sinônimo daquele. Ora, muitos astros de Holywood povoaram as capas de cordéis e nem por isso foram transformados em seus ícones. Aliás, muitos estudiosos ignoram essa façanha.

2. A assertiva:
Silvino Pirauá de Lima criou o romance em versos e talvez tenha escrito o primeiro cordel; Leandro Gomes de Barros deu forma ao cordel como ele é conhecido, a partir da publicação do primeiro folheto; João Martins de Ataíde emprestou a publicação em série ao cordel e contratou poetas para trabalhar em escala industrial; Francisco das Chagas Batista pensou em um cordel de capa dura, com atrativos gráficos superiores.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Paródias

1.
Quero parodiar Wang Chong: "O cordel deve ser fácil de compreender e difícil de escrever e não difícil de compreender e fácil de escrever."


2.
Parodio, também, Jean Paulhan:"O cordel também é uma linguagem e (embora nem sempre seja visível) uma festa para todo mundo, para a qual todo o mundo é convidado."


3.
Finalizo a série de paródias, parodiando Marcel Arland: "Imagino facilmente o cordel como uma Ordem."

terça-feira, 12 de outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Da vaidade

1.
A vaidade foi a desgraça de Lampião.

2.
Corrigir um texto em cordel é prazeroso e trabalhoso. Corrigir o texto de um poeta vaidoso, seja ele quem for, é criar uma inimizade que durará ad saeculum.

3.
Convencer o poeta de cordel sobre a necessidade de seu texto sofrer intervenções para curar-lhe vícios de linguagens, repetições desnecessárias, adequações gramaticais, supressão de cacófatos, excessos estilísticos, mantras obsessivos, problemas de acentuação ritmica e outras observações, pois bem, convencer o poeta de cordel é um trabalho que deve ser regrado pela paciência.

Metro, rima e oração

1.

Há muito habita entre os cordelistas a tríade sobre qual o cordel está plantado: METRO, RIMA e ORAÇÃO. Mas isso diz tão pouco que chega a soar hermético para os não iniciados. Urge complementação e expansão desses conceitos para melhor enquadramento da poética cordelística.



2.

Considerando que em poesia, por ter como princípio as possibilidades da palavra, haverá sempre rima, por mais que os versos sejam brancos e soltos; considerando que sempre haverá metro, visto que todo verso contém sílabas poéticas, e que tudo, mesmo uma só vírgula, tem significado, aquela suposta tríade do cordel perde sentido. Por quê? Porque a poesia é maior que o cordel, sendo o próprio cordel forma poética.



3.

Por isso a necessidade de complementação: para o cordel vale o verso setissilábico; vale a rima soante, disposta na sextilha com a rubrica xaxaxa (onde os versos x não rimam entre si e os a, rimam; e o significado oracional está preso à sintaxe da língua portuguesa. Esse último ítem, entretanto, carecendo de maior aprofundamento e até de questionamento.



4.

Ainda sobre aquela tríade RIMA, METRO e ORAÇÃO, talvez o primeiro poeta a confessá-la tenha sido Antonio Teodoro dos Santos no cordel Lágrimas de Palhaço. O narrador abre assim:



Neste livro eu vou fazer
Rimas, oração e traço
Não quero que meu leitor
Na letra tenha embaraço
Saiba que agora vai ler
As "Lágrimas de um Palhaço".

Infelizmente não há data de publicação, mas é da Editora Prelúdio, antecessora da Luzeiro.