sábado, 31 de outubro de 2009

Repercussões de Literatura de Cordel: visão e re-visão

Palavras recebidas de vários poetas cordelistas por ocasião da defesa de minha tese de doutorado:

Doutor Aderaldo

Aderaldo Luciano, paraibano radicado no Rio de Janeiro, pesquisador, professor, músico e poeta, agora é, também, doutor. Doutor em Literatura. E, mais: sua tese vai na contramão dos estudos sobre o cordel, os antigos e os “mudernos”, ancorados em argumentos frágeis, pouco criteriosos, desrespeitadores da individualidade poética, responsáveis pelas paliçadas erguidas entre uma suposta literatura erudita e a – assim chamada – popular.

Parabéns, mestre, ou melhor, doutor!

Marco Haurélio, poeta e curador da coleção Clássicos do Cordel, da Editora Nova Alexandria.


Este sabe o que diz. Doutor Aderaldo, como dizem aqui no Ceará: - Você tá no rumo!

Arievaldo Viana, poeta e agitador cultural no Ceará de luz!


Procure o Doutor:

Agora temos um doutor para
nos "receitar" preventivamente e medicar umas "meisinhas" para curar alguns delizes no universo cordeliano.
E aí vai: como uma manifestação literária genuinamente brasileira,
desprezada pela cultura acadêmica, denominada gênero nemor ou subliteratura ou ainda manifestação marginal em verso é tão popular?
Agora, requer, em verdade, um amplo debate, simpósio, fórum para aparelharmos com fundamentação as nossas ideias e teses.
Um abração para o Cangaceiro Doutor ou
Doutor Cangaceiro da Serra da Borborema!
Parabéns!

João Gomes de Sá, poeta e dono da cultura em Guarulhos-SP



Sou potiguar e um curioso sobre a literatura de cordel. Aliás, também colecionador. Já acompanhei Aderaldo Luciano em duas edições do programa "De Lá Prá Cá", da TV Brasil: Mestre Vitalino e Patativa do Assaré. Boas intervenções.
Espero que em breve, essa tese seja transformada em livro, para o devido acesso ao seu precioso conteúdo.
Parabéns!

Carlos Alberto, cordeleiro de Natal-RN


Aderaldo Luciano, como simples aprendiz da poesia de cordel, apenas quero lhe agradecer pela grande contribuição que você veio nos trazer. Certamente sua tese de doutoramento vem para corrigir muitas distorções sobre o cordel, pois não são poucos os equívocos que vemos por aí. Assistindo sua palestra, há um ano, em Guarulhos, no primeiro Salão do Cordel, pude ver seu grande conhecimento, e sei que não é diferente a sua tese. Estou ávido por lê-la. Bem vindo, poeta doutor, ou doutor poeta, saiba que você encontra em nós cordelistas verdadeiros irmãos. Parabéns por mais essa conquista!

Varneci Nascimento, poeta maior da Ordem Franciscana Menor, de São Paulo


Passe para frente o seu
Valioso aprendizado.
Não retenha este poder
Pra não ser penalizado,
Com a dor na consciência
Vendo o povo atrasado.

Parabéns poeta Doutor.

Que os horizontes se alarguem, e até o debate se acalore! Mas a sede do aprender, possa ser saciada.

Pedro Monteiro, a pedra angular da poesia, de São Paulo.


Valeu, Aderaldo. Agora só me resta esperar o momento certo para ler a sua tese, que, espero, seja publicada em formato de livro, para que os mais atentos tenham acesso. Não vejo a hora.
Grande abraço desse seu admirador,

Moreira de Acopiara, poeta, repentista, ícone do cordel, de São Paulo.


A todos meu muito obrigado.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Circo! Lua! Baião!

O texto abaixo foi escrito para o programa do espetáculo Baião - a homenagem do circo a Luiz Gonzaga, encenado pela trupe do Circo Crescer e Viver, dirigido por Ernesto Piccolo, com roteiro de Rogério Blat e direção musical de Daniel Gonzaga:

O interior do Nordeste foi marcado pela presença do circo. E o circo, pela presença litúrgica de um palhaço desbocado. Havia, porém, um ponto alto todos os dias. Era a segunda parte do espetáculo: a encenação de um drama. Vimos centenas de vezes a Paixão de Cristo. Além de sofrermos solidários ao Cristo crucificado, regozijavamo-nos com Judas se enforcando. Era uma limpeza de alma, uma calma para o espírito.

O circo ficava entre nós geralmente por um mês e nós, da cidade, terminávamos por conhecer as famílias circenses e participar de sua dura vida na perpetuação de sua arte. Muitos partiram com o circo e nunca mais voltaram. Tivemos essa vontade, mas vontade dá e passa. Os circos maiores traziam, de vez em quando, um cantor da moda, que tocava no rádio, e lotava a arquibancada.

Entre encenações de dramas, palhaços infames e cantores bissextos, vimos certa vez um negro vestido de cangaceiro, tocando sanfona e cantando “no gogó”, sem microfone, transformando o circo num arrasta-pé. Mais tarde saberíamos tratar-se de Luiz Gonzaga, fazendo o maior forró do mundo, preenchendo o nosso vazio, construindo o nosso itinerário. Aquela voz poderosa reside ainda hoje, fazendo eco, em nosso coração.

Foi a união da fantasia do circo e da música gonzagueana que deu-nos coragem de arribar e fazer o nosso verão. Foi com ela que embalamos nossos sonhos, malabaristas que somos na corda-bamba do tempo. Foi com ela que, como bons filhos, voltamos ao chão de onde brotamos e respiramos o ar de nossos tempos idos. Luiz Gonzaga é o arquétipo nordestino por excelência e o picadeiro é a vida a encenar-se.

Hoje voltamos para dentro da lona e compreendemos o que vem a ser o círculo. Como naqueles antigos circos sertanejos, retornando sempre na mesma época do ano, cá estamos nós, esperançosos para ver a cortina se abrir e lá, de um misterioso e secreto lugar, ver o Lua surgir, crescendo e se fazendo vivo, abrindo a sanfona branca e arrancando do peito a voz mais terna e saudosa a cantar: — Eu vou mostrar pra vocês... como se dança o Baião!

domingo, 11 de outubro de 2009

Toda adaptação dá origem a uma nova obra. Aqui também. A adaptação de Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, por João Gomes de Sá é, de fato, uma outra obra. O poeta reuniu coragem para transpor a história passada na Paris medievalesca para o sertão nordestino.

João Gomes de Sá é alagoano e autor profícuo, tendo escrito A luta de um cavaleiro contra o Bruxo Feiticeiro, profundamente enraizado na tradição cordelística. Em O Corcunda de Notre Dame, a adaptação de Notre Dame de Paris, ele se supera em maestria. Suas sextilhas iniciais são primordiais:

O romance do Corcunda
De Notre Dame, leitor,
Escrito por Victor Hugo,
Aquele grande escritor.
Em versos vou recontá-lo
Sua atenção, por favor.

Antes, porém, quero dar
Essa breve explicação:
O cenário do Corcunda
Eu trago para o sertão;
O Nordeste brasileiro
É palco de toda ação.



Além da mudança do cenário para Santana de Cajazeira, denominação nordestina, alguns personagens também mudam de nome. Quasímodo passa a Quasimudo e seu guardião a Padre-Mal. Para nós é de extrema sagacidade a transposição da história. Ao poeta deve ser dado o direito de, na hora da adaptação, escolher cenário e nomes novos, sem alterar o enredo e o argumento original, já que o objetivo da coleção é apresentar a obra, incentivar o leitor a contactar a matriz. Além de nutrir a tradição do cordel narrativo adaptado de ousadia, na transposição do cenário, João Gomes assina seu cordel com o tradicional acróstico grafado JGSACORDEL:

Jamais o pobre Corcunda
Galgou deixar seu cantinho.
Santana de cajazeira
Abastece seu caminho,
Como elo para pedidos,
O norte para o bom ninho;
Recebe todo romeiro,
Dando-lhe muito carinho;
E espera ver seus fiéis
Libertos de tanto espinho.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Literatura de cordel: visão e re-visão

Sobre o cordel, minha tese retira as seguintes conclusões:

a) o nome literatura de cordel é de origem lusa, mas má empregada em relação aos nossos folhetos de cordel, visto que são fenômenos distintos, havendo mais divergências do que semelhanças entre eles;

b) não se sabe quem primeiro atribuiu esse nome aos folhetos. Alguns dizem ter sido Sílvio Romero, em 1879, mas as evidências contradizem a afirmação;

c) quem sistematizou a publicação de folhetos de cordel foi, sem dúvida, Leandro Gomes de Barros, embora Silvino Pirauá tenha sido o criador do romance em versos;

d) a literatura tradicional ibérica foi adaptada no amanhecer do século XX para o formato do cordel, mas não é o assunto principal do gênero;

e) a literatura de cordel não é a versão escrita do universo dos cantadores e repentistas nordestinos, é produto estritamente escrito, tendo inclusive, o cordel, influenciado as modalidades da cantoria;

f) as tentativas de conceituar o cordel foram sempre regidas pela sua apresentação material, nunca pela sua forma literária;

g) a literatura de cordel sempre foi tida como um subproduto popular;

h) o autor de cordel é um poeta como outro qualquer, escreve porque tem necessidade vital;

i) a literatura de cordel é literatura brasileira e como tal deve ser estudada;

j) os estudiosos do cordel foram incapazes de dar à literatura de cordel sua verdadeira dimensão literária;

k) as novas gerações de cordelistas consagram o cordel como o gênero de maior vitalidade na literatura brasileira.


Salientem ainda:

a) a literatura de cordel não tem cunho efetivamente rural. É fruto da confluência do mundo rural com o mundo urbano, do sertão com a cidade;

b) a cidade do Recife é o local onde nasce a literatura de cordel tal como hoje ela é, em sua forma e veículo de difusão;

c) quatro nomes contemporâneos são os responsáveis pela consolidação da literatura de cordel: Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde e Francisco das Chagas Batista.

d) Leandro Gomes de Barros é definitivamente o pai da literatura de cordel e seu maior escritor;

e) Estudiosos e pesquisadores desatentos ou preguiçosos foram os responsáveis por disseminar informações equivocadas, conceitos errados e enganos formais sobre a literatura de cordel.

Finalizamos:

a) Propomos uma nova classificação para a literatura de cordel, começando já pela abreviação do nome para cordel, por entendermos que esse termo já pressupõe pela tradição o seu produto literário;

b) O fazemos por entender que o cordel traz em si todos os elementos distintivos da literatura;

c) As classificações temáticas ou em ciclos não contemplam a autoria em cordel, agrupando temas e segregando os autores, sob a marca do folclórico;

d) O cordel é forma poética fixa complexa que requer subdivisões classificatórias;

e) O cordel, por nossa classificação, compreende o narrativo, o dramático e o lírico;

f) A nossa classificação é embrionária necessitando apreciações aprofundadas com o intuito de introduzir o cordel no todo literário brasileiro e na teoria dos gêneros literários como forma originalmente brasileira.

A explicação

Quando escrevi o projeto POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE e o submeti aos centros culturais da cidade do Rio de Janeiro, fui indagado por algumas pessoas o porquê de o título ser escrito assim "poesia" com "Z", "tradicional" com "CC" e "nordeste" com "H". Busquei explicação no meu mapa astral e eis o que os búzios me disseram, corroborados pelo tarô e pela cabala:

Poezia porque não aguento mais o "S" querendo ter o som de "Z" e a poesia nordestina tem fortes traços orais onde o Z será sempre o Z mesmo representado por S. Olhando bem o S é um Z embriagado.

Tradiccional porque vem de World Trade Center.

Nordheste porque tive um sonho no qual ouvia uma voz que me dizia: — Coloque um H depois D senão não teremos HD.

E foi assim que fiz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Aula inaugural na Universidade das Quebradas

O caso do Pavão

Temos defendido que o cordel influenciou as cantorias e não só estas inluenciaram .Esta estrofe do cantador Dimas Batista abona o que dizemos, com clareza:

Basta um cabra não ter disposição
Pra viver do serviço de alugado,
Pega numa viola e bota ao lado,
Compra logo o Romance do Pavão,
A peleja do diabo e Riachão,
E a História de Pedro Malasarte,
Sai no mundo a gabar-se em toda parte
E a berrar por vintém em mei da feira,
Parasitas assim desta maneira
É que tem relaxado a minha arte.


O alerta de Dimas Batista deixa-nos convictos de que o poeta repentista, o cantador, se sente superior ao poeta de bancada, como eram chamados os poetas cordelistas, e, desgraça das desgraças, era encontrar-se um repentista que decorara versos de outrem para se gabar. Sabemos que o Romance do Pavão a que se refere o poeta é o Romance do Pavão Misterioso, clássica história de cordel cuja autoria foi motivo de controvérsias e hoje, a partir do depoimento do poeta Manoel d’Almeida Filho, se atribui a José Camelo de Melo Resende, que em suas reedições passa a esclarecer:

Quem quiser ficar ciente
Da história do pavão
Leia agora este romance
E preste bem atenção.
Que verá que esta história
é minha e de outro não.

Há muitos anos versei
Esta história, e muitos dias,
Fiz uso dela sozinho
Em diversas cantorias,
Depois dei a cópia dela
Ao Cantor Romano Elias.

O cantor Romano Elias
Mostrou-a a um camarada,
— A João Melquíades Ferreira,
E ele fez-me a cilada
De publicá-la, porém,
Está toda adulterada.

E como muitas pessoas
Enganadas tem comprado
A diversos vendelhões
O romance plagiado
Resolvi levá-la ao prelo
Para causar mais agrado.

Portanto eu vou começar
A história verdadeira
Na estrofe imediata
E no fim ninguém não queira
Dizer que ela é produção
De João Melquíades Ferreira.

Na Turquia, a muitos anos,
Um viúvo capitalista
morreu, deixando dois filhos:
Batista e Evangelista
Todos os dois eram João,
Sendo o mais velho o Batista.


Vê-se tanto no corpo do folheto de João Camelo, como na estrofe de Dimas, que era comum o recitar e cantar histórias em cordel nas cantorias, mais uma vez abalizando o que viemos dizendo que o cordel influenciou o repente. Os outros cordéis citados por Dimas são A peleja do Diabo e Riachão, de Leandro Gomes de Barros, e A vida de Pedro Malazartes, de Antonio Teodoro dos Santos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Tomando de assalto espaços e platéias

A oportunidade de ocupar locais de excelência para o estudo, reflexão e entretenimento guiados pela cultura nordestina incluídos na rede de teatros, bibliotecas, centros culturais de todo o Brasil é de se celebrar nesses tempos de pouca substância e muita imagem.

O nosso propósito é fazer perpetuar os gêneros poéticos-musicais nordestinos pela propagação de sua força e origem, fomentando o fazer poético a partir do conhecimento dos mesmos. Dessa forma acreditamos estar prestando contas à sociedade atuando pedagógica, artística e socialmente na formação de platéias críticas e senhoras de suas responsabilidades.

Sobre o POEZIA

O Projeto Poezia Tradiccional do Nordheste – Arcqueologias é uma tentativa de aclarar o ensombreado paradigma poético-musical nordestino no qual Forró, referindo-se à música, e Literatura de Cordel, à poesia, tornaram-se nomes genéricos para modalidades diversas daquele produto cultural. O forró viu-se paulatinamente reduzido a toda música na qual haja o instrumento conhecido por sanfona, esta mesma tendo vários outros nomes pelo nordeste a dentro: concertina, fole, acordeona, acordeão entre outros, sendo, inclusive, confundida com seu irmão menor em tamanho físico fole de oito baixos, o pé-de-bode. Por sua vez a literatura de cordel serviu de guarda-chuva para todo tipo de manifestação poética cujas métrica e rima se consumavam na declamação ou no cantar de poetas repentistas, emboladores de coco, poetas matutos e glosadores.

Para lançar luzes sobre a questão, este Projeto parte do trabalho investigativo para apresentar um resultado que mescle pedagogia/entretenimento/cultura no desmembramento das categorias Forró em xotes, baiões, xaxados, rojões, frevos e arrasta-pés e Literatura de Cordel em poemas matutos, cordel, emboladas, glosas e modalidades da cantoria nordestina. Pensando em resolver os conflitos resultantes da falta desse conhecimento é que propomos este experimento. Esperamos, com isso, abrir o horizonte para que as gerações futuras procurem fomentar a inserção dessas categorias em seus devidos lugares, ou em seu devido lugar, ou seja: o universo poético da literatura e da música brasileira.

POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE

Estreamos o espetáculo POEZIA TRADICCIONAL DO NORDHESTE no dia 11 de setembro, na Aldeya Yacarepaguá da Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá.
Aderaldo Luciano e Beto Quirino na Escola Sesc