quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Não se esqueçam

Duas ou mais coisas que dão pano para manga

Quando a cara pulsa
qualquer hipocrisia
se revela


A maior agressão está
na recepção
não no discurso


Quando se confunde
agressão com ironia
come-se o pão do amargor


A ironia é uma figura,
a agressão
só desfigura


Quando a carapuça
se revela
morre-se de hidropisia

O queijo do reino, a pimenta-do-reino e A Pedra do Reino

1. Conheci Bráulio Tavares no final da década de 70 e início dos 80 lá no mesmo lugar onde nasci, na fantasmagórica cidade de Areia, no brejo da Paraíba, cuja capital é João Pessoa. Aliás, meus colegas, há um movimento social legítimo mexendo com as tripas políticas da terra de Ariano. Como sabemos, aquele estado, terra de bravos, mas também de bravateiros, ostenta em sua bandeira rubro-negra, a palavra NEGO, em letras brancas. É uma alusão ao fato de, nas eleições presidenciais de 1929, João Pessoa, o presidente da Paraíba, ter negado apoio à candidatura de Júlio Prestes, o candidato oficial de Washington Luiz, o presidente. Aliás, a bandeira da Paraíba é vermelha pelo sangue derramado (João Pessoa seria assassinado no ano seguinte) e negra pelo luto com o qual a Paraíba se cobriu. Simbologias exaltadas e hoje já sem nenhum significado mais abrangente. O certo é a presença ativa desse movimento restaurador: quer restaurar o antigo nome Parahyba, esse sim, mais legítimo, segundo seus partidários, para depois restaurar a bandeira do estado.

2. Sim!!! Eu falava, ou escrevia, do meu encontro com Bráulio Tavares. Era o Bar de Seu Dedé. Foi lá, meio à cachaça brejeira, rodeado de gente, que Bráulio cantou Caldeirão dos Mitos, gravada em seguida por Elba Ramalho, constituindo-se num sucesso nacional. Depois vi o show do cabeludo de Campina Grande no palco do Colégio Santa Rita: Balada do andarilho Ramon e Meu nome é trupizupe nunca mais saíram de minha parada de sucesso particular, do meu cânone. Transformaram-se em meu queijo-do-reino. Talvez os colegas leitores não saibam da simbologia para nós, paraibanos do interior, da periferia das cidades periféricas, desse artigo lácteo. O queijo-do-reino era o nosso mais elaborado sonho de Natal. Uma mínima fatia seria o máximo na ceia que nunca tínhamos. Era raro entre nós, era cara sua cara de bola.

3. Um dia, na feira livre da cidade, masquei, por engano, uma pimenta-do-reino. Aquilo ardeu-me dias, além de intoxicar meus intestinos até hoje. Eu era uma criança curiosa. Peguei medo de pimenta-do-reino. Já aliviei minhas tripas quanto a isso, mas vou devagar. Nunca soube, nem sequer pesquisei, porque chamam-na de pimenta-do-reino. O mesmo vale para o queijo do reino. Só sei que o queijo ficou-me como marca do prazer e a pimenta, do sofrer. Agora, voltando ao caso de João Pessoa, o político, a história fala de seu assassinato por parte do advogado João Dantas, primo da mãe de Ariano Suassuna. É também sabida a história de João Suassuna, pai de Ariano, morto num episódio anterior, de natureza covarde, pelas costas, por um partidário de João Pessoa. O autor de O auto da compadecida, neste ano de comemoração de seus 80 anos ficou ainda mais rouco de tanto contar essa história. Excelente contador que é.

4. O Movimento Armorial idealizado por Ariano foi outro dos meus queijos. O maestro Cussy de Almeida, à frente da Orquestra Armorial regia uma versão de Sem lei, nem rei, de Capiba. Uma canção dolente, um pôr-do-sol doente, o gado tilintando seus chocalhos, essas imagens da seca nordestina e eu sonhando. Transportar a música para a realidade (ou aproximá-las) foi meu primeiro exercício intelectual arrazoado. Minha imaginação conseguia unir o caldeirão de Bráulio ao caldeirão Armorial, embora fossem caldeirões diferentes e diferençados. E neste ano de ouro para Ariano, Bráulio Tavares tentou levar a cabo a empreitada de aproximar o Armorial da imagem, verteu em roteiro para a TV Globo A pedra do reino. E essa versão foi uma pimenta-do-reino tão violenta que vai ser difícil de me curar. Pois o Trupizupe conseguiu partir o queijo-do-reino e deixá-lo cair nas águas turvas do Rio Taperoá em tempo de cheia. A Pedra rolou para longe. O pobre expectador conhecedor de O auto da compadecida sofreu com a esquisita adaptação. Foi tortuoso. Tanta expectativa resultou em pouco entendimento.

5. Atenção, colegas: minha reflexão é apenas opinativa, passional. Reflete solitariamente o meu parco olhar e sei que me perco, ou por não estar preparado, ou por ser ignorante. Ou, mesmo, por viver as duas anti-qualidades ao mesmo tempo, o que é mais certo. Deixa ser mais preciso: quem tiver a coragem de ler A pedra do reino vai comungar da visão verdadeira da saga formadora de nossa gente. É um romance grosso e cabeludo. A determinação do adaptador e sua maestria não garantiriam, como não garantiu, o êxito da travessia. É um caso para muitas mortes. É um canto para muitos motes. O movimento restaurador, que quer o nome de Parahyba para a capital dos paraibanos e a mudança da bandeira, faz-me acreditar na possibilidade do reencontro do povo consigo mesmo e seus reflexos nos indivíduos. A adaptação de A pedra... para a televisão poderá ser revista por mim num futuro próximo, talvez depois de contemplá-la no cinema. Por enquanto ficam meus sabores mais arraigados: A pedra do reino, quebrando meus lábios de títere; o queijo do reino, povoando minhas papilas ancestrais; a pimenta-do-reino, arranhando-me, como uma lixa 14, o tubo digestivo. Ôpa!! É bom ressaltar para os mais ousados que não julgo ter havido, na adaptação, nem covardia, tampouco assassinato!

    quarta-feira, 17 de outubro de 2007

    Quadrão quirino (idealizado por João Rolim sobre original de Jessier Quirino)

    1.
    A noite cai, o céu se rasga pela lua cheia
    Uma candeia acesa e rica em chama poderosa
    Noite gostosa meu barco paira no oceano prata
    a serenata da estrela guia a mais luminosa
    e eu, todo prosa, lanço meu grito, busco uma sereia,
    Sangue na veia muito mais quente (é chama rugosa)
    por vezes dosa o medo seco de esperançado
    e esperançado somente o medo por vezes me dosa!


    2.
    Modalidade muito boa, preciosa e rara
    Se equipara a outras tantas de difícil cria
    Se todo dia fizermos versos que nos pedem brilho
    Fora do trilho o nosso trem constrói neo-ferrovia
    O cancão pia, a porca torce o rabo em parafuso
    fazer bom uso da pena indócil que tudo copia
    Com maestria buscando brilho mais original
    Do original busco a essência: fé com maestria!


    3.
    Fogo na lenha, a noite esfria e é preciso colo!
    Eu me enrolo nesse cabelo (edredom quentinho).
    quero carinho tenho de sobra todo que preciso
    imortalizo o corpo inteiro em lençóis de linho.
    Digo baixinho: — Chega mais perto, roça aqui teu pêlo!
    Ao meu apelo sinto a penugem, o seio durinho,
    parece um pinho o corpo nu da mulher que me enlaça
    e nos enlaça a labareda que parece um pinho!

    4.
    O novo causa nos incautos o estranhamento
    Um alimento que, ao contrário, rouba a vitamina.
    É uma mina de ouro e luz essa modalidade
    Traz de verdade o desafio, o jogo, a disciplina.
    Matéria fina que exige esmero, olhar meticuloso,
    Requer que o gozo se demore, espere na oficina.
    Cumprindo a sina reflito sério que quem for poeta
    Se for poeta tente o quadrão cumprindo a sua sina!

    <5.
    Onde os poetas? Em que lugar se escondem trovadores?
    Mostrem as cores. Entrem em campo trovando o quadrão.
    Inspiração? Busquem no fundo, mais profundo canto
    Onde o espanto cedeu lugar à realização.
    Siga o João, siga a Tessa e também siga a mim
    Fazendo assim vamos além da simples criação
    Na escuridão se busca a luz, se encontra a lamparina
    E a lamparina guia teu passo na escuridão!

    6.
    A língua trava contemplando a entranha inexprimível
    Inexequível construir frases sem matéria exata
    Um sol de lata, um céu de aranha, um arranha-céu,
    som de tetéu, de arapongas com bicos de prata
    bigorna intacta, o ferro em fogo é a língua em brasa
    em cova rasa sepultar-se-á o poeta-pirata.
    Sua pena rata é má, vilã, é cópia malfadada
    E malfadada se auto-acusa sua pena rata.
    >

    7.
    Qual a matéria que este quadrão por ela velará?
    O Opará? O rio grande salvador dos bichos?
    Os carrapichos? Essas estrelas perfuro-cortantes?
    Talvez brincantes? Mambembes astros com os seus cochichos?
    Os largartixos? Machos/calangos/teús/papa-ventos?
    Os sentimentos? Fofocas/falas/delações/bochichos?
    — Jamais os lixos que nos ofertam e que nos consomem
    E até consomem a gente toda, mas jamais os lixos!!

    8.
    Pedras calcáreas: meu coração nelas se fere e morre
    Nada socorre meus membros rotos, descascados, tortos,
    Ervas são portos: cadê o cais para que eu atraque?
    De baque em baque, meus olhos cegos, mais que cegos, mortos!
    Pés absortos nas trilhas magras de um destino seco,
    Sou um boneco, marionete que produz abortos.
    Andei por hortos transfigurando meu semblante em luz.
    Busquei a luz nos olhos Teus, fiz de Teus braços hortos!

    9.
    Mamãe morreu faz quinze anos, lembro todo dia
    Da alegria que era tê-la sempre do meu lado
    sentir-me amado, protegido do mundo estranho e duro
    e do apuro que para mim era o viver pisado,
    o agregado, aquele que trabalha ao sol diário,
    cujo salário é ver seu cenho sempre enrugado.
    Desse legado, mamãe livrou-me todo santo dia
    E todo dia deu sua vida contra esse legado!

    10.
    Andei calado pelas esquinas dos desiludidos
    dos desvalidos que já perderam fé e esperança
    (uma criança de quem roubou-se o olho e o sorriso)
    de improviso armei barraca e escondi minha lança.
    Não quis a dança acabrunhado no canto da sala;
    Fui à senzala viver com os meus, sonhar que se alcança
    aventurança no suportar as dores sem fazer alarde
    Mas fiz alarde: só no quadrão há bem-aventurança!