domingo, 3 de dezembro de 2006

Oração do Rio São Francisco em tempos de poucos rios

O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

Só uma coisa me alenta hoje: a saudade do meu santo rio. O Rio São Francisco, o Velho Chico, Chiquinho. Escuto o murmurar de suas verdes águas: — Deixai vir a mim as criaturas... E assim foi feito. Falar de desrespeito e depredação tornou-se obsoleto. Denunciar matanças e desmatamentos resultou nulo. Orar e orar. Pedir ao santo do seu nome a sua oração.

Lá do Cristo Redentor da cidade de Pão de Açúcar, nas Alagoas, um moleque triste escutou a confissão das águas. Segundo ele, o Velho
Chico dizia:

Ó, Senhor, criador das águas, benfeitor dos peixes, escultor de barrancas e protetor de homens fazei de mim bem mais que um instrumento de tua paz. Se paz não mais tenho faz-me levar um pouquinho aos que em mim confiam. Paz para as lavadeiras que, em Própria, choram a sua fome de pão. Que, em Brejo Grande, soltam lágrimas pelos filhos mortos no sul do país. Que, em Penedo, já perderam a fé de serem tratadas como gente sã.


Onde houver o ódio dos poderosos que eu leve o amor dos pequeninos. O amor dos que cavam a terra a plantam o aipim. Dos que cavam a terra e usam-na como cama e lençol para sempre. Dos que querem terra para suas mãos, para os seus grãos, para a sua sede. O amor que não é submisso, mas escravizado. O amor que tem coragem de um dia dizer não. Coragem diante das balas e das emboscadas, das más companhias e da solidão.


Onde houver a ofensa dos governos que eu leve o perdão dos aposentados e servidores públicos. O perdão, nunca a omissão. A luta, porque perdoar não requer calar. Perdoar não quer dizer parar. Como minhas águas, tantas e tantas vezes represadas, mas nunca paradas e que, quando em minha fúria, carregam mulharas, absorvem barreiras e escandalizam Três Marias, Xingó e Paulo Afonso.


Onde houver a discórdia dos que mandam que eu leve a união dos comandados. A suprema união dos que sonham com as mudanças, dos que querem quebrar hegemonias e oligarquias. A discórdia dos reis contra a união dos plebeus. Um povo unido é força de Deus, dizia o velho bendito e sejais bendito, Senhor. A união das águas, a união das lágrimas, a união do sangue e a união dos mesmos ideais.


Onde houver a dúvida dos que fraquejam, que eu leve a fé dos que constroem seu tempo. Na adversidade, meio ao deserto e ao clima árido, a fé dos que colhem uvas e mangas em minhas margens. Dos que colhem arroz em minhas várzeas, dos que criam peixes com minhas águas em açudes feitos. A fé dos xocós lá em Poço Redondo. A fé que cria cabras nos Escuriais. Dos que colhem cajus e criam gado em Barreiras e outros cafundós.


Onde houver o erro dos governantes que eu leve a verdade de Canudos. O bom senso dos conselheiros de encontro à insanidade dos totalitários. Os canhões abrindo fendas na cidade sitiada e a verdade expondo cada vez mais a ferida da loucura na caricatura da História. O confisco da poupança e o rombo na previdência. O fim da inflação e o pão escasso, o emprego rarefeito, a dignidade estuprada em cada lar de nordestinos.


Onde houver o desespero das crianças da Candelária que eu leve a esperança das mães de Acari. E aqui, Senhor, te peço com mais fé. A dor dos deserdados, dos que perderam seus pais, filhos ou irmãos, seja de fome, doença ou assassínio, inundai-os com as águas esmeraldas da justiça. A justiça da terra e dos céus. Pintai de verde o horizonte das famílias daqueles que foram jogados mortos em minhas águas. Eles não foram poucos.


Onde hover a tristeza dos solitários que eu leve a alegria das festas de São João. Solitário eu banho muitas terras e em todas, das Gerais, do Pernambuco, das Alagoas e do Sergipe, não há tristeza ao pé da fogueira, nas núpcias entre a concertina e o repente, entre a catira e o baião.. Das festas do Divino ao Maior São João do Mundo, deixai-me levar, Senhor, o sabor de minhas águas juninas e seus fogos de artifícios.


Onde houver as trevas da ignorância que eu leve a luz do conhecimento e da sabedoria. A escuridão dos homens dementes que teimam em querer ferir-me de morte seja massacrada pela luz de um futuro negro, sem água potável, sem terra e sem ar.. Daí-me esse poder, de entrar nas mentes e nos corações., de espraiar-me pelos mil recantos dos que querem mal à nossa casinha, nossa pequena Terra. O homem sábio seja sempre sábio e contamine os povos com ensinamentos de preservação.


Foi assim que escutei e assim reproduzo.

Apresentações

Quando de trabalhos acadêmicos fazemos sempre uma breve apresentação. Entreguei um trabalho de início de confecção de tese de doutorado há algum tempo e me surpreendi com o que escrevi lá. Como todo alcoólatra (já disse), sou pretensioso. Se não, leiam:

Breve apresentação


Este conjunto de escritos contém três partes distintas. Representam: a primeira, mapa ou organograma dos estudos e leitura feitas no segundo semestre de 2005 para compreensão do que está acontecendo no mundo no que diz respeito a cultura e produção artística na era globalizada. Foram leituras feitas em inglês tratando da presença do movimento Hip Hop nas culturas européia, japonesa e islâmica. A importância para o tema da tese é relevante na medida em que a violência assume o papel de musa inspiradora e o cenário social de seus ativistas é a rua, o gueto, a segregação, as drogas, o sexo, o lixo, a desigualdade social, a diferença atribulada e outros.


A segunda parte são anotações feitas em inglês sobre a Modernidade Reflexiva e o Risco Global. Temas abordados durante as aulas do professor Eduardo Portella que se mostraram extremamente ricos para o entendimento das novas poéticas periféricas e excluídas. O risco está em toda parte e ele mesmo se transforma em musa e agente artístico-literário. O funk carioca é um de seus porta-vozes e a literatura de Férrez um ícone desse fazer. O aparecimento da CUFA, Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro é um fato importante para confluência militante e exemplifica o título da tese: a cidade dos lázaros.


A terceira parte é o trabalho inicial desse caminhar. A reflexão sobre progresso, tecnologia e bem-estar social. O tema é a utopia do futuro. A partir da leitura de futurólogos como Hermann Kahn, Alvin Toffler e John Naisbitt construímos um esboço de cenário, ou pano de fundo para a emergência dessas novas manufaturas artísticas, dissidentes do cânon acadêmico.


Queremos ainda pensar sobre Terrorismo e literatura, O Islã e seu caminho poético, Arquitetura e medo urbano e Poéticas de celebração. Procuramos o caminho, sabendo que ele se faz ao caminhar, basta olhar para trás e se verão os próprios passos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Outras sextilhas

Novas sextilhas da comunidade Cordel, no Orkut. A brincadeira, lá, funciona como um diálogo no qual se lança um tema e os outros vão seguindo respondendo no mesmo tom até que alguém dita outro caminho. Reproduzo as sextilhas que postei, aparentemente não terão sequência temática, nem unidade. É verdade. São apenas fragmentos de um diálogo infindável.

Meu coração é fogueira
Ardendo no seu calor
pulsando em brasa queimante
o vermelho é sua cor
sangue e chamas se cruzando
no caldeirão do amor!

A sextilha é uma estrofe
Que tem seis versos somente
Seis versos de sete sílabas
Rimando insistentemente
O segundo com o quarto
E o sexto fecha a corrente!

O verso tem vida própria
rebelde, contra a corrente
Precisa ter rédea curta
preso com a corda decente
se der muita corda a ele
ele se escapa da gente.

Há o verso traiçoeiro,
enganador de cristão.
Lhe convence que é seu,
Jura com convicção.
Quando você se descuida,
Escapa de sua mão.

Esse negócio de dar
é coisa bem complicada
porque o verso taludo
quer a coisa apimentada
desejando lhe pegar
com a calça toda arriada!

e engana quem vai embora
abandonando o cordel
devemos participar
transformando o fel em mel
À Vica que aqui fica
Eu retiro meu chapéu

O porco chia na morte
o cisne canta ao morrer
o coral dos andorinhas
quando vai anoitecer
o galo solfeja a música
chamando o sol pra nascer.

O candidato quer votos
prometendo leite e o mel,
roupa pr'o descamisado,
Livro, caneta, papel
Só não pode prometer
Sextilhas para o cordel

O nascimento se dá
depois da concepção
que se segue após a cópula
que vem depois do tesão
mas sem o bicho de pé
todo movimento é vão!

Dizem que com a cabeça
o homem tem que pensar
Porém há duas cabeças
que não querem concordar
Se uma delas não pensa
depois vai se lamentar!

As cabeças que eu tenho
vivem me dando alegria
pra elas dou proteção
também faço assepsia
Enquanto a de baixo age
a de cima fantasia!

Palavras, atos e toques
olhares, beijos, gemidos
suores, odores, seivas
mucosas, pele, tecidos,
sobre a cama dos amantes
lençóis e corpos despidos

A vida nunca adormece
E o tempo não tem senhor
A vida é paço e passagem
O tempo é rio e rumor
A vida e o tempo enrugaram
A alma do cantador!

No tempo de eu criança
Tinha tempo para tudo
Tinha tempo para o jogo
Tinha tempo para o estudo
Mandava o tempo calar-se
E o tempo ficava mudo!

Um caminho a ser seguido
Dois homens nele passando
Três dias ferindo os pés
Quatro noites caminhando
Cinco mágoas em seus peitos
Seis cordas os acalentando

Um cesto de manga espada
na missa de sétima hora
às oito brechas da noite
retirando os nove fora
a camisa dez do Rei
onze pernas de caipora

Foram doze badaladas
Dia treze, sexta-feira,
É "catorze" ou é "quatorze"?
Quinze anos, moça inteira.
Dezesseis qual é o bicho?
Diga, Valdir Oliveira!

Dezessete, idade ingrata,
Dezoito, vou me alistar
Dezenove perdi tempo
Com vinte, quero casar
Vinte e um só no baralho!
Responda, vicalomar!

Ah, meu Deus, se eu tivesse
o furor da juventude
para lançar as palavras,
sendo leve, ou sendo rude,
quebrando o verso e a rima
matando sua saúde!

Oigatê, como faz frio
nesse tal de mês de agosto
Morei em Uruguaiana
Saí de lá com desgosto
por causa de uma chinoca
que não quis beijar-me o rosto!

Agora faço as perguntas
para ver quem é o mala:
Por onde o morcego vê?
Por onde a cigarra estala?
Como é que as cobras transam?
Como o ventríloquo fala?

Por onde é que a água entra
lá no coco da palmeira?
A raiz da macaíba,
e o caule da bananeira
Onde é que se encontram?
Responda essa brincadeira!

Cozinha é comigo mesmo
quando a comida tá feita
Vá devagar no bendito
Porque se não dá maleita
Caganeira de apito
Com a tripa gaiteira estreita!

em termos alteridade
o calmo se açodará,
A patuléia se perde
e a choldra vacilará.
Os capitéis do respeito
Outrem nos ofertará?

terça-feira, 17 de outubro de 2006

O pai de Poe, o pai de Augusto e meu pai

Certa vez meu amigo Nonato Gurgel horrorizou-se ao ouvir-me dizer que ainda hoje choro a ausência de meu pai. Dizia ele que na quadragésima casa dos anos era inadmissível esse tipo de problema interior. Não pude argumentar àquela hora que chorar a ausência não equivale a se ter ou não um problema, aliás, o problema existiria caso houvesse a presença, fosse ela material ou fantasmagórica. A ausência é a lacuna e chorar a lacuna não é um ato em defesa do seu preenchimento, uma lágrima oriunda do oceano dos desesperos, uma seta, uma flecha fincando-se no estômago, atirada pelo escarcéu do que não foi. Respondo agora a Nonato, daqui do oitavo andar, nesta casa virtual cuja acolhida tem preenchido minha lacunar produção intelectual.

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Sonhei certa noite, e esta noite era treva, com um homem de sorriso leve e de mãos afáveis, de palavra doce e de terno olhar. Não foi possível. A porta da casa de número 102 da Rua São José, na cidade de Areia, no espinhaço da Serra da Borborema, nunca suportou tal simulacro. O meu sonho teria sido fomentado por alguma imagem seqüencial vista na tela espetacular do cinema da cidade. Talvez o drama da Paixão de Cristo com seus açoites e chagas abertas e um homem a tudo perdoando e abraçando até seus detratores seja o responsável por esse mal súbito descido sobre mim. Pai, porque me abandonaste?

É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à câmara nupcial, mais conhecida como camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia a dia na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais e privou-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Não sem antes tentar me espelir, tomando chás amargos para me abortar. Eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes naquele útero quente e promissor. Retorno, assim, ao início do meu relato épico.

A meu Pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!


Também numa madrugada, a 7 de outubro de 1849, revelou-se um problema, pela ausência. O poeta Edgar Allan Poe, de vida tão atribulada e de pena tão prolífera, descia ao fundo de seu profundíssimo poço pessoal. Abandonado pelo pai, um ator de teatro decadente, e órfão de mãe, atriz idem, fora adotado por uma família decente e próspera de Richmond. Conta sua biografia de uma infância e adolescência tranqüila. Sua entrada na vida adulta trouxe-lhe, porém, freqüentes e intermináveis atritos com o pai adotivo. Confesso que a biografia de Poe, antes de sua lavra poética, inspirou-me de modo incisivo. Os seus fracassos eram o espelho para os meus fracassos. O seu gosto pela bebida, sua vida na margem e seus descompassos eram como que uma vida pregressa que eu vivera. Ausência de seu pai e a lacuna nunca preenchida pelo pai adotivo foram uma baliza para os meus gritos.

Descobri a obra de Poe na em-poe-irada biblioteca Rodrigues de Aquino, na Rua do Sertão. Dois antigos volumes editados pela Editora Globo de Porto Alegre. Um papel marrom tão velho, se desfazendo ao atrito com meus dedos, oferecia-me O Escaravelho de Ouro. Se meus ouvintes nunca leram esse conto, recomendo humildemente sua leitura. Trata ele do que se poderia chamar de escrita criptográfica. Um antigo mapa, pertencido ao pirata Capitão Kidd, contém a indicação de onde se encontra seu tesouro enterrado. O protagonista decifra a escrita e encontra o baú repleto de ouro e jóias. Também está lá, soterrado sobre a arca, um esqueleto com o crânio afundado. O lugar do achado é um intrincado caminho por entre cipós e árvores e arbustos, numa selva virgem, fechada, escura.

Nos meus treze anos aquilo era a aventura, era o insólito, era o desafio. No segundo ano da quadragésima casa da vida aquilo é o pai adotivo de Edgar sepultado sobre seu ouro, com sua razão atacada pela pena perfuro-cortante do poeta ébrio. Está lá o esqueleto e seu crânio estúpido. Está lá, sepultado e só. Pensemos, destarte, no caminho para essa construção, para esse símbolo. Penetrar no imo dessa imagem é perfazer o caminho da linguagem. O deixar-se envolver pelos atalhos da letra, mesmo sabendo-a dança imperfeita. Poe sepulta seu ausente pai adotivo, com tudo que lhe negara: uma roupa, um pedaço de pão, um pouco de cobre, já que foram esses os senhores de tamanhas desavenças. Um de seus biógrafos diz de suas últimas palavras:

— Senhor, ajudai minha pobre alma! E assim morreu, como vivera —em grande miséria e tragicamente.


Garanto-vos, senhores, que Poe foi meu pai. Meu pai ausente, meu pai presente, meu pai morto.

A meu Pai Morto

Madrugada de treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

Os sonetos aqui lidos e revelados são as trilhas de minhas poucas telhas. São meu teto grávido de arestas, minhas paredes repletas de orelhas. São meus potes, são meus pratos. São meus copos e meus sarcófagos. Neles me embalo, neles me enrolo, neles me enredo, neles me emparedo, neles me sepulto, neles me degusto. São sonetos de Augusto. De Augusto dos Anjos, do Engenho Pau d’Arco, em Espírito Santo na Zona da Mata paraibana. Aquele cujo pai, senhor de engenho abastado, dono de reses e almas, trancafiá-lo-ia no desejo de ver seu filho vivo e forjaria um sucesso no qual um feto morto seria imortalizado ao pé de um tamarindeiro. Aquele mesmo pai que corta a árvore da serra e deixa o filho moço abraçar-se ao tronco e perecer com ele. Aquele pai de presença milenar, de tradições imutáveis, semeador de grilhões, doutor em algemas, guardião dos ferros. É o conservador radical autêntico das planícies e vales nordestinos, herdeiros de terras e amplidões.

Augusto chegou-me com muita fúria e em seus sonetos encontrei guarida. Poe foi meu pai, Augusto foi meu pai. Se aquele revelara o seu pai-esqueleto soterrado sobre o brilho do ouro, este o revelou amado em plena decomposição. Essa linguagem-fábula de Augusto declamei em voz alta pelos recantos de minha podridão, nas camas em que deitei, nos corpos nos quais me lambuzei, como uma cascavel que se enroscava.

Meus filhos ouviram-me muitas vezes vomitar versos. E ouviram de mim esta sentença: — Seja bom filho, seja bom marido e seja bom pai. Talvez essa lembrança tenha levado ao equívoco de minha entonação ao confessar a Nonato o meu choro lacunar. Talvez eu não tenha sido um bom filho, nem para Poe, nem para Augusto, nem para meu desorientado pai-molecular. Talvez eu não tenha sido, nem seja, um bom marido, meio às oscilações de meus sentimentos. Talvez eu não seja um bom pai. Mas a palavra “bom” sofre tantas cintilações e a palavra “pai” carrega tantas anomalias que tudo não passe de um breve sonho, de um breve desfazer-se, desmoronar-se, putrefazer-se assistido pelo tempo, esse, sim, pai e padrasto, senhor e servo, poeta e escultor, por isso

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

terça-feira, 29 de agosto de 2006

As marcas nas duas margens

Uma crônica de 2001, na data de meus 37 anos.

O rio desce sem respeitar obstáculos. Cruza-os, subverte-os e até os arrasta. Não quero ser o rio em desabalada correnteza, desrespeitando as pedras e ignorando os barrancos. Tampouco penso em arremessar-me como o Niágara ou o Iguaçu. Não me seduz, também, a imagem e semelhança do lago pacato ou do riacho represado. Penso em ser o rio normal. Aquele que segue sem muito alarde, mas não de todo ignorado. Lavando as margens e observando as paragens. Conhecendo a gente ribeirinha, sentindo o verdor das plantações. Interessa-me ver as marcas nas margens. As feridas às margens. Crianças e idosos às margens. Assim, feito o rio, quero e trago comigo essas marcas. Meus seis irmãos mortos, meu irmão vivo. Meus filhos no mais profundo mergulhar de minhas águas. Nos meus porões traiçoeiros e em meus pequenos açudes na planície. Também não ignoro minha nascente. O pequenino rasgo na terra de onde brotei, um fio tênue, um nada no tudo da Natureza.

Quero minha Iara, minha elemental, meu espírito protetor, Manitô. A Iara que, à noite, faz assombração àqueles que maltratam meu leito e roubam meus peixes, ou tentam me matar com seus dejetos venenosos. Minha Iara a tenho visto postada, de pé, sentinela, linda estátua inesquecível com seus cabelos crespos deitados sobre mim. Na noite mais tenebrosa, em que tremo com os estrondos e raios vindos do céu que me cobre, vejo minha Iara sobre mim, deitada, abraçando-me e me pondo para dormir no reboliço do meu corpo furado por grossos pingos e ventos que tentam me encrespar. Sou um rio e nada mais. E tudo que agora escrevo pode ser ficção. E tudo o que agora sinto é um murmúrio de vozes e uivos, de gritos e cantos, dizendo em uníssono: viver é fazer um pacto com o tempo, segurá-lo pela cauda e intimá-lo para uma conversa. Todavia há uma obstáculo intransponível: encontrar a cauda sem saber onde fica sua cabeça.

Chapeuzinho Vermelho: outra versão

Foi um conto que escrevi na época da graduação. Não insistam em críticas. Não vale a pena.

Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros... e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.

*** *** *** *** ***

Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.

*** *** *** *** ***

Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.

*** *** *** *** ***

Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:

— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!

Alimento a resposta:

— Tô ressacado!

Encontro João Lobo. Pergunta-me:

— Tem prova hoje?

Única resposta:

— Sei lá. A professora tá por aí?

Já estava.

sábado, 29 de julho de 2006

Gonzalo Armán, um poeta em três línguas

O poeta galego Gonzalo Armán na abertura de seu livro Anacos d’alma, no poema Exilio, confessa à pátria, pela voz arrastada de um eu-lírico saudoso, “Exileime de ti, por propia escolla”. Obedecendo à língua galega, essa que lhe dá identidade, que o marca no mundo, traça seu caminho de auto-exilado, fugindo, talvez da Guerra Civil espanhola e embrenha-se pelos becos de um Brasil de sonhos. Confundido com os espanhóis imigrantes, faz questão de diferençar-se pela língua:

“Neniño que vas á escola
ai que peniña me dás,
che ensinan grego e latín
e tamén o castelán,
o idioma galego
ninguén cho cho quere ensinar.”

O percurso trilíngüe desse rico poeta, amante dos livros, cantor de quimeras e retratista social é o tema de um trabalho que gostaria muito de escrever.