terça-feira, 9 de maio de 2006

Diário das férias, final, sem lápide ou epitáfio

Maio, 9, fim de tarde no Rio de Janeiro


1. Como todo alcoólatra, meus planos são grandiosos, mirabolantes, coloridos. E até se desenham, têm início. E tudo fica pela metade. Abandonei o projeto do diário das férias. Eu queria retratar pormenores, pensar detalhes, apontar preciosidades escondidas. O calçamento da cidade é antigo, são pedras portuguesas e minha cabeça não suporta a solidez de tão insistentes pedradas. Sou um trôpego e tropeço, sou um íncubo na noite dos meus próprios abandonos. Por isso frustro os poucos que aqui buscam um pouco de palavras e letras e signos amontoados. Vou parar, incompetente diante da realidade, impugnado pela ficção.

2. Meu roteiro não cabe falar mal de Areia. Meu roteiro é, entretanto, uma arapuca. Falar dos meus mortos e antepassados é tarefa gostosa, tenho alegres devaneios relembrando seus rostos, seus bailados, seus discursos, suas vestimentas. O mofo da cidade, o lodo de suas ladeiras, o riso decrépito de seus casarões, o tempo imóvel no céu a pino, a roda da fortuna, girândola malfadada, a praça e o coreto: fotocromias desfocadas num preto e branco de dar dó.

3. Anteontem gritei para Ney: definitivamente Areia não tem vocação para o turismo. E aqui, ouso dizer com todo eco possível, o Festival de Artes, o sonho de minha cabisbaixa geração, é um ogro, um polvo sem ventosas, coruja sem noite, morcego que vê, cachorro louco correndo atrás dos automóveis. Areia transformou-se em um nódulo. Personalidades infames, infantes com mania de macróbios, micróbios vetustos em jantar opíparo, cujo prato principal é a paciência do povo.

4. Minha geração é o símbolo maior da orfandade. As cabeças pensantes dispensadas. As mentes impensáveis, despensadas. Lembrem-se: ouvíamos e cantávamos Chico Buarque, Tom Jobim e Elis e eles, esses três citados aí, não queriam o cálice, banhavam-se nas águas de março, repetiam nossos pais. Brigávamos entre o passado e o presente. O velho Theatro Minerva e seus administradores serviram de linha divisória. E hoje vejo claramente que tudo é passado.

5. Areia tem uma comunidade virtual no orkut. Virtual mesmo: a maioria de seus membros não vive em Areia, talvez nem tenha vivido, talvez nem seja de Areia. Não vejo os membros da cidade viva: viajam anônimos, pagam pedágio à vida, cara tarifa manter-se sempre à margem, a reboque. Não há de ser nada, depois da copa serão absorvidos em passeatas, brigas passionais, disputas eleitorais, esmolas. Não de ser nada! Uma cidade se faz com homens e homens livres. Vejo só grilhões.

6. Abandonei o diário das férias, entro na fase da expropriação, como o faz meu amigo Evo!

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Diário das férias, 7

Janeiro, dia 9, manhã

Uma de minhas saudades mais fundas está ligada às reuniões na casa de Dona Zita. A terceira casa à direita na Rua do Bode. O reduto de Pádua, Floriano, Fátima, Chiquinho, Tuda. O fim de ano, sintonizado na Rádio Campina Grande FM, era uma convergência de boas energias e bom degustar.

Dona Zita nos deixou há um tempo, logo depois de ter falado comigo, num Natal. A casa ficou triste. Papai Noel não cumpriu o trato e atrasou-se em seus presentes. Mas a tristeza é apenas pela sua ausência física, Dona Zita preenche todos os cômodos com seus passos firmes, com seus braços fortes e sua fala certa.

Quando estávamos na sala, eu e Pádua, bebericando alguma coisa, ela preparava um daqueles pratinhos e um caldinho para acompanhar o nosso constante delírio, o nosso persistente sonho. Foi nesses encontros que escutáramos Gonzaguinha, Belchior, Ednardo, Zé Ramalho. Minhas lembranças se embaralham e escuto a voz de Fátima, a mulher mais charmosa da cidade, mãe de Camila, que vi nascer e crescer. Reencontrei-as, mãe e filha, numa conversa tão agradável como nos velhos e bons tempos.

O meu amigo Pádua não quis partir conosco. Fez bem. O mundo, esse mundo imenso, é um beco escuro repleto de armadilhas. Uma ratoeira, um mundéu, uma rede, uma grade, um labirinto. Abracei-o como a um irmão e relembramos com carinho nossa trajetória, nossos amigos em comum, nossas estripulias. A casa de Dona Zita foi minha primeira casa, meu primeiro lar. Tive lá as primeiras lições de amizade e fé!

segunda-feira, 6 de março de 2006

Diário das férias, 6

Janeiro, dia 8, noite

O ano de 1998 foi aquele das trevas e da imensa luz. Fui ao fundo do poço de meus dias e ao cume dos montes de minhas noites. Sofri as dores de amores e os gozos espirituais. Do fundo da caverna vi mortos à esquerda e direita. Do alto vi vivos aos saltos e solavancos imateriais. Em minha dor mais profunda encontrei guarida em homens e mulheres de braços tão quentes e corações tão grandes. Em irmãos dedicados e vigilantes. Em amigos. Se pela manhã observei o passar da procissão católica em minha vida, à noite revivi os bons momentos passados no seio de meus irmãos da Igreja Congregacional Monte da Benção, ali na rua do Sertão, em frente à Caixa Econômica. Cheguei por lá em trapos, andrajos, com falência múltipla dos órgãos e da consciência. Eu estava morto.

Aprendi coisas belas com meus amados. O hino Quão grande és tu ainda faz eco em meu espírito. Meu primeiro interlocutor foi o Irmão Ivan, presbítero. Ivan me ouvi como um santo, paciente e meigo. Ficamos amigos tão próximos, nossos corações pensavam as mesmas coisas, comungavam os mesmos anseios. Ouvíamos Mattos Nascimento em alto som, comíamos a rapadura das orações. O Irmão Dedé, ô meu Irmão, varamos noites lendo capítulos bíblicos, observando o caminho dos justos, meditando nas palavras sinceras do Eclesiastes, buscando em Paulo orientações para a vida plena.

Hoje, observo meu filho naquele púlpito, cantando os hinos que eu já cantei, buscando as mesmas coisas, o mesmo êxtase. A vida cristã é uma vida a mais. Mas, cuidado com a intolerância religiosa, com o fanatismo que semeia guerras e promove a separação. Fica-me na pele a beleza de ver meus amigos de adolescência vivendo vida reta, à procura do correto caminho e das boas ações. Surpreendo-me também conscientizando-me que, antes de Cristo, infelizmente, se vive Paulo, ao invés do cristianismo, semeia-se um paulinismo preconceituoso e vago. Não há de ser nada, entretanto, no final dos tempos subiremos unidos ao impalpável seio de Abrahão. Ou de Alá, ou Confúcio. Por que não?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 5

Janeiro, dia 8, manhã

Olhei para a igreja matriz. Fechada. A missa está acontecendo no auditório do Centro Social Pio XII. Essa igreja matriz e esse centro são dois importantes marcos em minha vida. Na igreja fui iniciado na vida cristã. no conhecimento do catecismo, pelas mãos da Madre Trautelinde (nem sei se é assim que escreve). Alguém deverá lembrar dela. Alemã, vermelha, apontando o caminho das artes manuais, das artes cênicas e da língua alemã a quem se interessasse. Lá no centro paroquial vi seus slides sobre a vida de Estevão, o santo apedrejado e morto aos pés de Paulo, o apóstolo. Eram slides dramáticos da vida dos santos construtores e defensores da fé cristã. Por ela entrei na Cruzada Eucarística. Nas procissões e autos de fé íamos à frente rezando e cantando. Por ela penetrei no precioso e protegido Colégio Santa Rita e sua biblioteca, com a Irmã Frida tomando conta. Encenei alguns dramas no palco do Santa Rita, aliás minha vida era um drama.

O centro Social Pio XII foi a convergência para o saber. Sua biblioteca e seu museu, o Museu Regional, foram meu berço e meu porto mais que seguro. Todas as noites eu lá estava descobrindo José Américo de Almeida, Jorge Amado, Fernando Sabino, a literatura de cordel e a Imitação de Cristo, velhos missais, enciclopédias, dicionários, livros de história e história de livros. Apresentei-me, certa vez, menino sambudo, dançando um Mineiro Pau em seu auditório, nesse mesmo auditório, vi movimentos políticos sendo fundados, peças teatrais, seminários literários e culturais. O Centro foi pioneiro oferecendo aos jovens um Curso de Datilografia por anos seguidos. Tudo isso obra de Pe. Rui Vieira Barreira.

Pe. Rui foi um homem de fibra. Além de cuidar da matriz e ser um de seus idealizadores (patrocinou afrescos no teto e nas laterais) fundou em cada rua um centro social para a comunidade poder se encontrar e se constituir cidadã. Foi um homem atuante, político brilhante, professor univeritário, intelectual e vaidoso (mas quem não é?). Acredito e disse por muitas vezes, ter sido Pe. Rui o homem mais lúcido de Areia, mesmo depois de três derrames cerebrais, de sua esclerose, de sua falta de memória. Depois de Pe. Rui a igreja católica areense troca passos bêbados, desce todas as ladeiras e abandona a fé. Não encontrei Pe. Rui, entretanto seu braço está em toda parte.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 5

Janeiro, dia 8, manhã

Acordei com alguma inquietação. Luiza amanheceu estranha, longa viagem para a pequerrucha de dois anos. Vomitou ás 05:00h. Ficamos atônitos. Compreendemos depois de meia-hora que era cansaço e fome, estômago vazio. Depois do leite estava ela com a pilha renovado e eu aliviado. Tomamos café em Wilson da Padaria.

A antiga padaria de seu Edgar, pai de Wilson, sempre me intrigava. Havia um balcão antigo onde se lia, talvez, Bar da Noite, ou Bar da Lua. Não conversei sobre isso com ele. Conversamos sobre política. Ficamos por aí e eu voltei em busca do meu baú. Durante minha infância trabalhei na padaria de Seu Antonio Cavalcante, a Panificadora São Vicente, em cujo balcão atendia Zé Marimbondo.

A família Cavalcante sempre foi muito atenciosa comigo. Zezinho, Rui, Arimatéa, Paulo e Dona Suzana, os que me lembro. Está lá na Rua do Teatro a antiga padaria. Não sei o paradeiro dos meninos de Seu Antonio, sei da saudade que tenho do pão francês coberto com aquele farelinho de milho e das bolachas por lá produzidas: sete capas, regalia, sian, somassa, cafona, soda, jaú, delícia, biscoito charuto, tareco, bolo confeitado e um pão doce coberto com coco. Ao que aqui no sul chamam de pão sovado, na padaria de Seu Antonio era pão crioulo. A menor bolacha fabricada era uma tal de peteca e o menor biscoito era a raiva, broa de massa.

As duas principais padarias eram a São Vicente e a de Seu Edgar, a Panificadora Capricho, a qual Wilson comanda hoje, onde tomei café pingado com um sanduíche de queijo de coalho para matar a saudade dos meus verdes anos. Durante toda a semana em que fiquei em Areia acordei com o aroma do pão novinho penetrando delicada e sutilmente pelo postigo da janela, habitando o quarto, como num desenho animado de Tom e Jerry, me chamando para a armadilha das massas.

Que eu me lembre ainda haviam outras pequenas padarias. Na mesma Rua do Teatro havia a padaria de Seu Antonio de Zuza, com o padeiro Luizinho, fazendo o pão na mão, resistindo à tecnologia. E lá na Rua São Miguel, aquela que corre rente ao muro do cemitério, o Sr. Antonio Lopes instalou uma pequena panificação com Biu de Dona Maria Bernardo fabricando pão e outros artigos da panificação. Na década de 90, instalou-se uma padaria, com bar e lanchonete, no centro, frente à Igreja Matriz, onde hoje há um supermercado, entretanto essa década foi a década do meu exílio definitivo. Falar de pão em Areia é pedir a Deus para que todos tenham o pão.

Diário das férias, 4

Janeiro, dia 7, noite

A noite em Areia é medieval e nebulosa. O céu é visto em sua profundidade abismal, à noite, raras vezes. Quase sempre desce até nós a névoa, como se o bafo halitoso e fumegante de Deus nos envolvesse em seus mistérios e augúrios. Quando criança, com um velho mapa astronômico, eu tentava encontrar as constelações, como fiz de dentro do aeroplano da TAM. Meu sucesso fora sempre duvidoso, só encontrava brumas.

A noite não é tão somente o céu cintilante. É um todo, é o friozinho, é a esquina, é a praça, é a rua deserta, é algum amigo, em roda, contando piadas e fofocando sobre os erros do divino. Cortei o calçamento e as calçadas areenses, senti a boca de antigos botecos pelos quais perambulei em minha mocidade. Fiz um rosário de minhas lembranças. Procurei Dona Nazaré e Betila, Basto do Bar, o bar de Caju e de Mané Bidão. Lugares nos quais ensaiava algumas notas numa viola sem rumo.

O Bar do Buda foi o único no qual ouvi ópera ao ocaso de um sol brejeiro. O Buda, sofreu um infarto fulminante enquanto servia sarapatel a uns estudantes da Escola de Agronomia. Passei em frente ao antigo Bar Chaminé, reduto dos intelectuais, o preferido dos artistas durante os antigos festivais de arte da cidade. Hoje é uma sucursal da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais recente, o Bar Magia era o point da cidade. Era uma bar pequeno, enorme para nós leitores e subversores, boa música, todavia conservador radical, não se podia pendurar nada, fiado jamais, mesmo porque com a nossa escassez de recursos seria difícil saldar penduras.

Mas falávamos da noite e sua mística. A noite de Areia é a noite do mundo, todos os fetos dormem em paz, todos os afetos estão adormecidos e os desafetos tramam seus ardis. É a mesma noite de outras noites. O quarto da pensão de Fleuriza, onde ficamos, abria sua janela para o vale imensurável no qual o vento semeava seus uivos e adornava os corações de antigas lembranças de malassombros. A noite é boa para dormir, a noite é boa para sonhar, a noite é boa e o sol, na luta contra o nevoeiro, chega devagar, sonolento e só se firma pelas dez da manhã. A noite cobriu a cidade com um véu de esquecimento e óbito.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 3

Janeiro, dia 7, tarde

O centro da cidade de Areia não é bem um centro. É uma rua estreita equilibrando-se sobre abismos. Um traço, corda-bamba sobre o incandescente espinhaço da serra. Dali, ela desce em tentáculos pelas encostas. Capilares perdendo-se nos vales, nos quais infalivelmente há um olho d'água. O marco talvez seja o obelisco da praça da antiga prefeitura, agora restaurada com seus azulejos desenhados. E meus filhos estavam ali. Vi-os da janela do ônibus e da janela fez-se um retrospecto imagético por alguns segundos, cada um deles, três, não eram mais que bebês e já se passaram dezesseis anos do mais velho, quatorze da do meio e treze do caçula.