Imaginem um crime brutal no qual três irmãos de uma mesma família são assassinados, levando a mãe a morrer em estado de choque e o pai a enlouquecer e também falecer desesperado e vário. Agora, imaginem que essa brutalidade foi praticada tendo como testemunha o fiel cachorro da família. Imaginem, ainda, que o crime ficou sem solução por quatro anos, mesmo cumpridas todas as diligências e tendo sido mobilizadas todas as autoridades do estado da Bahia. Coloquemos o nome do cachorro de Calar. Pois bem, meus amigos, é esse o argumento de O Cachorro dos Mortos, clássico entre os clássicos do cordel brasileiro. As autoridades literárias de plantão não o leram, os professores não o adotaram nos cursos de Letras do país, os críticos literários de vanguarda sequer sabem do que se trata, a mídia o ignora, as igrejinhas acadêmicas reunidas em Paraty alheiam-se a sua importância, mas o romance escrito por Leandro Gomes de Barros surpreende há aproximados 100 anos, best seller que é. Creio mesmo que a maioria de meus amigos aqui no Facebook não o conheça, mas não será por falta de aviso. Estive trabalhando no estabelecimento do seu texto a partir das dezenas de edições sucedentes. Desde a de Pedro Batista, já anotada e modificada, até à da Editora Luzeiro (cuja capa reproduzo), passando pelas de João Martins de Ataíde e José Bernardo. Continuarei estudando esse cordel, exemplo de história na qual a natureza denuncia o criminoso. Tentarei em breve lançar uma edição definitiva, com texto estabelecido e suas variantes.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
O Cachorro dos Mortos, de Leandro Gomes de Barros
Imaginem um crime brutal no qual três irmãos de uma mesma família são assassinados, levando a mãe a morrer em estado de choque e o pai a enlouquecer e também falecer desesperado e vário. Agora, imaginem que essa brutalidade foi praticada tendo como testemunha o fiel cachorro da família. Imaginem, ainda, que o crime ficou sem solução por quatro anos, mesmo cumpridas todas as diligências e tendo sido mobilizadas todas as autoridades do estado da Bahia. Coloquemos o nome do cachorro de Calar. Pois bem, meus amigos, é esse o argumento de O Cachorro dos Mortos, clássico entre os clássicos do cordel brasileiro. As autoridades literárias de plantão não o leram, os professores não o adotaram nos cursos de Letras do país, os críticos literários de vanguarda sequer sabem do que se trata, a mídia o ignora, as igrejinhas acadêmicas reunidas em Paraty alheiam-se a sua importância, mas o romance escrito por Leandro Gomes de Barros surpreende há aproximados 100 anos, best seller que é. Creio mesmo que a maioria de meus amigos aqui no Facebook não o conheça, mas não será por falta de aviso. Estive trabalhando no estabelecimento do seu texto a partir das dezenas de edições sucedentes. Desde a de Pedro Batista, já anotada e modificada, até à da Editora Luzeiro (cuja capa reproduzo), passando pelas de João Martins de Ataíde e José Bernardo. Continuarei estudando esse cordel, exemplo de história na qual a natureza denuncia o criminoso. Tentarei em breve lançar uma edição definitiva, com texto estabelecido e suas variantes.
sábado, 7 de abril de 2012
Os 4 do cordel
O cordel brasileiro, como hoje é, não tem qualquer raiz ibérica, mesmo com alguns pesquisadores insistindo nesse tese. A literatura de cordel ibérica ou francesa ou italiana, as folhas soltas, o corrido, nada têm em comum com o nosso cordel, forma poética. Há um sistema no cordel brasileiro: um autor, um editor, um leitor, um crítico. A literatura de cordel ibérica nunca teve, nem terá, porque morta, esse sistema. Os pais do cordel brasileiro são esses quatro cavalheiros enfatiotados aí:
São eles, no sentido horário: Leandro Gomes de Barros, o autor-editor-vendedor, criador da forma e do folheto; Silvino Pirauá, o poeta enciclopédico, criador do romance em versos; Francisco das Chagas Batista, fundador da Popular Editora, editor de Leandro, autor de antologias de poetas do povo; João Martins de Athayde, controverso editor e poeta, visionário do mercado do cordel, empreendedor ousado:
Observe-se em cada um o ar imponente de escritor e empresário, imagem distante daquela que alguns estudiosos nutrem chamá-los de analfabetos, autores de pouca ou nenhuma valia:
1. O ar bonachão de Leandro, com seu bigode de aço a furar os estudiosos da literatura brasileira, desafiando-os a encontrar um lugar para o cordel.
2. O ar intelectual de Pirauá como que a rir desses mesmos estudiosos, admirando-lhes a ignorância.
3. O ar desafiador de Chagas Batista chamando-os para a briga do punhal cordelístico contra a espada fumegante da crítica viciada.
4. O ar misterioso e despretensioso de Athayde como quem está se lixando para tudo isso
Os Cabras de Lampião, de Manoel D'Almeida Filho
Os Cabras de Lampião é o clássico cordel de Manoel D'Almeida Filho. Foi um trabalho preparado pelo mestre poeta (nascido em Alagoa Grande-PB, em 1914) com muita pesquisa, muita delicadeza poética, muita lucidez. Nunca a história do herói do sertão foi tão esmiuçada em cordel. Nunca ouviremos nas mídias dedicadas às minúcias literárias que esse poema está inserido no rol das 10 mais importantes narrativas do séc. XX. Mas a academia alemã o considera. Na época em que isso aconteceu, o próprio Manoel de Almeida ficou chocado, pois, para ele, o livro seria uma biografia e não uma narrativa de ficção. Todavia o que D'Almeida não levou em consideração é que o seu texto é uma epopeia e, como tal, reúne em seus versos a história real tomando sol na praia do maravilhoso. Em 2014 celebraremos o centenário do grande desbravador do cordel brasileiro.
Os Cabras de Lampião, de Manoel D'Almeida Filho
Os Cabras de Lampião é o clássico cordel de Manoel D'Almeida Filho. Foi um trabalho preparado pelo mestre poeta (nascido em Alagoa Grande-PB, em 1914) com muita pesquisa, muita delicadeza poética, muita lucidez. Nunca a história do herói do sertão foi tão esmiuçada em cordel. Nunca ouviremos nas mídias dedicadas às minúcias literárias que esse poema está inserido no rol das 10 mais importantes narrativas do séc. XX. Mas a academia alemã o considera. Na época em que isso aconteceu, o próprio Manoel de Almeida ficou chocado, pois, para ele, o livro seria uma biografia e não uma narrativa de ficção. Todavia o que D'Almeida não levou em consideração é que o seu texto é uma epopeia e, como tal, reúne em seus versos a história real tomando sol na praia do maravilhoso. Em 2014 celebraremos o centenário do grande desbravador do cordel brasileiro.
Grinaura e Sebastião

José Pacheco foi o autor de A Chegada de Lampião No Inferno, clássico entre os clássicos do cordel brasileiro. A história de Lampião no cordel toma um novo rumo a partir dele e vários folhetos vieram depois tentando o mesmo sucesso, sem alcançá-lo. Nele, o herói do sertão incendeia o inferno, criando uma quebradeira geral. Com muita sagacidade, Pacheco é consagrado entre os autores de maior reconhecimento no gênero humorístico em cordel, sem necessitar de artifícios que não sejam a criatividade e a presença de espírito. Mas não foi apenas um autor de gracejos. Escreveu também romances densos, com tramas complicadas e ótimos desfechos como A História Completa de Grinaura e Sebastião, trama rural de aventura. Na imagem, as capas da primeira edição, produzida no Recife em setembro de 1944, e a atual da Editora Luzeiro. Note-se na capa de 1944 a ilustração com par romântico hollywoodiano, desmistificando o conceito de capas com xilogravura.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
A respeito de Ferrabrás, Oliveiros e Leandro
Leandro Gomes de Barros é, sem qualquer sombra de dúvida, o pai do cordel brasileiro. Não só por ter sido pioneiro nas publicações ou ter inventado a profissão de autor-editor-revendedor de folhetos. Também, e talvez seja o indício mais forte, por ter experimentado todas as formas, estilos e modalidades poéticas. Experimentou para depurar. Degustou quadras, sextilhas, septilhas, décimas, martelos e outras estrofações. Foi do cordel ao soneto, cançonetas, odes, paródias. Provou das pelejas, contos universais, novelas ibéricas. Enveredou pelos temas sociais, cantou a cidade do Recife, glosou com outros amigos poetas. Crítico contumaz, observador político, não teve medo de errar, nem de quebrar o pé de algum verso. Rebuscou sua escrita e fundou o seu “marco brasileiro”. Ninguém o superou. Pelo contrário, qualquer referência à poesia cordelística obrigatoriamente deverá citar o filho de Pombal.
Dentro de sua produção encontraremos a fundação das adaptações para o cordel brasileiro das novelas clássicas europeias como Donzela Teodora, João Da Cruz, O Rei Miséria, Branca de Neve, Juvenal e o Dragão, entre outros. Contemplando, ainda, esse veio do cordel brasileiro, nos deparamos com esse capítulo da História de Carlos Magno: a Batalha de Oliveiros e Ferrabrás. Alguns pesquisadores, e muitos poetas, acreditam existir um ciclo carolíngio no cordel do Brasil por conta desse poema de Leandro. Não acredito. Primeiro por não aceitar a classificação em ciclos, segundo por não encontrar um número significativo de obras dentro do todo cordelístico que satisfaça esse olhar. Supondo que se possa classificar o cordel em ciclos, pergunta-se como se caracteriza um ciclo, o que o determina? A resposta seria a presença de uma produção expressiva no bojo da produção total do cordel, bem como seu prolongamento no tempo e no espaço.
Não é o que se vê nesse caso de Carlos Magno. Podemos listar, além dos folhetos de Leandro, esta Batalha, e a Prisão de Oliveiros, quantos outros títulos? Talvez não cheguem a dez. Considerando a produção de cordel no Brasil, digamos 50 mil títulos numa contagem sem qualquer suporte palpável, cinco ou dez folhetos nada representam. Agora, olhemos para sua produção no tempo. Quantos folhetos sobre Carlos Magno foram produzidos no ano de 2011? Talvez um, mas não coloca o Rei de França em outras aventuras, a não ser nessa célebre batalha. E no espaço? Não constam folhetos sobre a cavalaria carolíngia escritos e publicados em São Paulo, ou no Rio, recentemente. Argumento fazendo a analogia com Lampião: em todos os tempos e em vários lugares haverá sempre um poema sobre o herói nordestino e o número de títulos no qual é protagonista aumenta a cada dia. Entretanto isso é só mais um debate. O mais importante é que, com ciclo ou sem ciclo, deve-se a Leandro a inauguração da presença de Carlos Magno e seus doze pares de França na Literatura Brasileira, e não só no cordel.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Noite de amor em Poço Redondo
Aquela noite, 28 de julho, era a noite de seus desejos. Seus corpos se amariam como nunca. Seus olhos confessavam seu amor. Havia uma necessidade de abraçar mais forte, de se beijar mais quente, de sussurrar segredos. O suor os unia em complexa solução salgada. Seus fluidos se misturavam cumprindo seu destino. A lua, a noite, o silêncio no campo. A terra calava-se diante de tanta cumplicidade. Nus, abraçados, juraram amor eterno, enquanto seus dedos se entrelaçavam. A rusticidade de suas vidas nunca invalidara seus momentos de paixão. O cactus, a poeira da caatinga, os bichos mais estranhos, a brisa inexistente, tudo reverenciava e abençoava sua união. Naquela noite, toda a alegria do mundo invadia-lhes a aura. Até que veio a manhã e adormeceram para sempre.