quarta-feira, 22 de junho de 2011

João Melquíades Ferreira da Silva

Também conhecido como O Cantor da Borborema, João Melquíades protagonizou a pendenga mais famosa do mundo do cordel ao escrever e assinar o Romance do Pavão Misterioso, originalmente pensado por José Camelo de Melo Resende, hoje já devidamente restaurada a autoria. Nasceu em Bananeiras-PB, na região do Brejo paraibano, em 7 de setembro de 1869 e faleceu em 10 de dezembro de 1933, em João Pessoa. Poeta marcante, escreveu o clássico História Sertaneja do Valente Zé Garcia, seu título original que, com as reedições passou a História do Valente Sertanejo Zé Garcia. Procurava uma fotografia do mestre e encontrei, surrada quase invisível e coloco-a aqui sem retoques.


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A presença de João Melquíades traz de volta a discussão sobre o cordel ser uma poesia sertaneja. Melquíades, de Bananeiras, José Camelo, de Guarabira, Joaquim Batista de Sena, de Solânea e João de Cristo Rei, de Areia, formam um grupo de poetas expressivos do cinturão do Brejo paraibano, responsáveis por grandes clássicos cordelísticos.  Seria a poesia brejeira? Não, a poesia não comporta adjetivos toponímicos.                

domingo, 19 de junho de 2011

Do sertão e do brejo

1. Desde a primeira edição de Os Sertões que se repete o refrão: “O sertanejo é antes de tudo um forte.”. Não resta dúvida que o é, mas Gilberto Freyre nos alerta para o fato de o Nordeste não ser apenas sertão, barro vermelho, terra seca, brocas e mandacarus. Há o Nordeste da cana-de-açúcar, cujo caboclo é tão forte quanto o sertanejo euclidiano.


2. Mas há também o Nordeste de Jorge Amado cujos trabalhadores do mar e do cacau equivalem em força, bravura e destemor aos sertanejo e brejeiro. O que dizer dos homens do caranguejo? E dos babaçueiros? Querer reduzir o Nordeste e seu Homem ao sol com raios wolverínicos é assassinato antropológico.


3. Essa redução passou à poesia. Passou ao cordel. É comum se louvar a poesia sertaneja como aquela de melhor cepa. Mais comum ainda chamar o cordel de poesia sertaneja. Ora, ora, o maior clássico do cordel (A História do Pavão Misterioso) é de um brejeiro, José Camelo. O País de São Saruê é de outro brejeiro, Manoel Camilo. Não por acaso, ambos de Guarabira.


4. Mesmo nos primórdios, o brejo paraibano teve seu papel de suma importância: João Martins de Ataíde é do Ingá. Francisco das Chagas Batista trabalhou em Areia e morou em Guarabira. Azulão é de Sapé. João de Cristo Rei, de Areia. E assim se vai: a poesia não tem pátria, nem classe social, ninguém é seu dono, tampouco seu senhor e o sertão não é o El Dorado poético.

O justiceiro do norte, épico de Rouxinol do Rinaré

A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de vários povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.


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Rouxinol do Rinaré retoma a narrativa épica nesse seu cordel. Li seus versos por duas vezes num voo que saiu de Juazeiro do Norte para Brasília e daí para o Rio de Janeiro. Meu interesse não era só ler e entreter-me, era observar, riscar o cordel, encontrar seus elementos poéticos, compreendê-los. Os desenhos dessa edição, abertamente inspirados nos épicos de western (o autor é fã de Tex), recontavam-me a narrativa e levavam-me ao clássico de Bonelli, num diálogo magnífico. Mas não é só isso, sendo um épico, não lhe faltariam os elementos essenciais: o herói injustiçado deixando sua terra para, em outras terras, transforma-se em mito, sob outra identidade, defendenso os fracos, apaixonando-se por uma nativa e por ela sendo amado. Aprisionado pelos guerreiros que defende, é reconhecido (como Ulisses) pela cicatriz que carrega, faz amor com sua amada e desaparece sob as águas amazônicas (como Ajuricaba lendário), deixanso sua descendência. Rouxinol sabe contar histórias em cordel como ninguém. E aprimora-se a cada dia. Já é um clássico, mesmo tão jovem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Anotações para uma poética cordelial


1. Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.


2. Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.


3. Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.


4. O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, ainda princeso.

                        

Do cordel

O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3. O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cordel, Forró, Tradição e Traição

Minha aula na Universidade das Quebradas do PACC-UFRJ foi toda anotada no caderno da artista Beá Meira com o título As três tiorias de Aderaldo Luciano. Tá tudo lá, como se fossem as tábuas dos dez mandamentos.