domingo, 19 de junho de 2011

O justiceiro do norte, épico de Rouxinol do Rinaré

A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de vários povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.


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Rouxinol do Rinaré retoma a narrativa épica nesse seu cordel. Li seus versos por duas vezes num voo que saiu de Juazeiro do Norte para Brasília e daí para o Rio de Janeiro. Meu interesse não era só ler e entreter-me, era observar, riscar o cordel, encontrar seus elementos poéticos, compreendê-los. Os desenhos dessa edição, abertamente inspirados nos épicos de western (o autor é fã de Tex), recontavam-me a narrativa e levavam-me ao clássico de Bonelli, num diálogo magnífico. Mas não é só isso, sendo um épico, não lhe faltariam os elementos essenciais: o herói injustiçado deixando sua terra para, em outras terras, transforma-se em mito, sob outra identidade, defendenso os fracos, apaixonando-se por uma nativa e por ela sendo amado. Aprisionado pelos guerreiros que defende, é reconhecido (como Ulisses) pela cicatriz que carrega, faz amor com sua amada e desaparece sob as águas amazônicas (como Ajuricaba lendário), deixanso sua descendência. Rouxinol sabe contar histórias em cordel como ninguém. E aprimora-se a cada dia. Já é um clássico, mesmo tão jovem.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Anotações para uma poética cordelial


1. Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.


2. Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.


3. Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.


4. O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, ainda princeso.

                        

Do cordel

O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3. O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cordel, Forró, Tradição e Traição

Minha aula na Universidade das Quebradas do PACC-UFRJ foi toda anotada no caderno da artista Beá Meira com o título As três tiorias de Aderaldo Luciano. Tá tudo lá, como se fossem as tábuas dos dez mandamentos.


          

sábado, 11 de junho de 2011

Anotações para uma poética cordelial II


1. As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.


2. Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.


3. O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.


4. Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O boi Cambaú

Investigando a presença da civilização do couro no cordel, encontramos a ressurreição do boi Cambaú, de Boa Vista-PB, produzida pelo poeta Roniere Leite Soares, publicada em abril de 2011.


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A saga do Cambaú fora contada em ABC pelo poeta boavistense Bento Sampaio no final do séc. XIX, passagem para o séc. XX. As 26 sextilhas do ABC foram reproduzidas por Egídio de Oliveira Lima em seu Folhetos de Cordel que, durante meus anos de adolescência, eu folheava na biblioteca do Centro Social Pio XII, em Areia-PB, e que o poeta Roniere cita como fonte para a historicização do afamado bovino. A marca endiabrada do Cambaú abre o folheto, na primeira contracapa: “O boi Cambaú nasceu no dia 6 de julho de 1894 no sítio Sãojoãozinho, de pelo preto e estrela cinzenta na testa…”


Adverte-se, entretanto, aos pesquisadores, que este folheto não está escrito nas tradicionais sextilhas do cordel. O poeta optou pelo quadrão, com rimas alternadas, em versos de 5 sílabas, a redondilha menor. Talvez para conseguir, semelhante à parcela, a leitura em galope, criando um efeito rítmico assemelhado à corrida de pega do barbatão.Â