terça-feira, 1 de maio de 2007

Dois textos reeditados sobre identidade nordestina

1. Forró

A banda paraibana Cabruêra desceu ao sul e instalou-se no Rio de Janeiro em setembro de 2001. Lá, fundou a Cabrahouse, primeiro em Copacabana, depois em Santa Teresa, tradicional bairro de artistas. Ao chegar, debutou na TVE e lançou disco no palco da resistência cultural carioca, o Teatro Rival, e assim seguiu arrebanhando um cordão de adoradores. Zé Guilherme, o Munganzé, um dos melhores percussionistas do Brasil, um dos pilares da Cabruêra, vindo aqui em casa, incitou-me a explicar a origem do termo “forró” para uma oficina de percussão no Festival de Inverno de São João del Rey, em Minas Gerais, onde a banda tocaria.

Pois bem. Discutíamos a gênese da palavra a partir de duas explicações para o que se passou a chamar de forró. A primeira está ligada à construção da malha ferroviária no interior de Pernambuco por engenheiros ingleses que, em suas horas de folga, patrocinavam pequenas rodas nas quais a liberdade, municiada pelo consumo de álcool, pontuou a descontração e a dança. Essas rodas eram “for all”, para todos, no idioma nativo dos ingleses. Daí a pronúncia aberta “forró”. Sem registro que legitime tal origem, fica-se no âmbito da lenda.

A segunda é apresentada pelo folclorista Rodrigues de Carvalho, em seu Cancioneiro do Norte de 1903, aponta uma associação entre forró e forrobodó, festa popular das pontas de rua, baile popular aberto para toda a população pobre. Câmara Cascudo registra a mesma origem fazendo um levantamento da aparição do termo desde 1833, para encontrar um variante datada de 1952, num semanário chamado A Lanceta, sem indicação de local. O termo é forrobodança, uma espécie de dança chula popular.

Acredito que essas duas teses sejam insuficientes, mesmo porque fica difícil determinar data para surgimento de qualquer palavra. Respeitando a pesquisa, talento e autoridade dos dois folcloristas, lanço uma terceira via. Quero aproximar o termo português forró, ao termo árabe alforria, liberdade dada aos escravos. Quando um destes era alforriado a palavra “fôrro” servia-lhe de epíteto, recebendo, inclusive um par de sapatos, se para dançar, não sabemos. Elomar, em sua cantiga O Violeiro, canta “Deus fez os home e os bicho tudo fôrro...”. De forria para fôrro, de fôrro para forró, celebração da liberdade, da quebra do jugo e dos grilhões. Não é isso que o forró faz?

Os testemunhos populares na diferenciação entre as festas de São João, festa popular, marca indelével das tradições nordestinas, e Natal, tradição européia, servem de esteio para minha tese. Enquanto a festa de Natal é descrita como uma festa formal, o São João prega a liberdade, é festa livre e comunitária, não requer roupa nova, nem champanhe para comemorar. E todas as classes e raças são chamadas ao arrasta-pé, criando um valor fundamental para a miscigenação de raças e culturas, no dizer de Darcy Ribeiro, e imprescindível para a construção do humanismo, segundo Jorge Amado.

O que nos interessa, também, é a divulgação desse ritmo propagada pelo pioneiro Luiz Gonzaga, primeiro nordestino a assumir compromisso com esse suposto novo estilo musical, depois de fazer o caminho do sul. Falar de Gonzaga é repetir-se, sempre. Sua história e sua vida estão na boca do povo e dos artistas, transformado em ícone institucional na etno-musicalidade brasileira. Muito embora construindo uma realidade folclórica do Nordeste, com seus vaqueiros e cangaceiros, plantou a semente da música popular regional nordestina em todo o Brasil. Asa Branca transformando-se na bandeira, estandarte dessa visão.

Gonzaga sofre, entretanto, críticas oriundas de um outro mito: Jackson do Pandeiro. O ritmista paraibano apregoava que o baião originou-se do coco e que o feito do Rei do Baião não passava de um novo invólucro para um velho ritmo. Zé Guilherme me diz que o jornalista Rômulo Azevêdo, de Campina Grande, numa tentativa de conciliação entre os pilares formadores do forró, um paraibano e o outro pernambucano, defende o império imaginário de Parabuco, um híbrido situado entre Caruaru, a capital do forró, e Campina Grande, terra do maior São João do Mundo. Essa, talvez seja a melhor opção, o lúdico, a criatividade, a liberdade, a alforria.

2. Cordel

Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — ... Mas Deus está de que lado?

Canudos, como está n’"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”

O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.

Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.

Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.

Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.

Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal, em folhetos de oito páginas, se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

O coração da madeira

1. Tocar a alma da terra
Sentir o pulso de tudo
Ouvir os sons inaudíveis
ver no caminho o escudo
do signo de Salomão,
os pés e o falo de Adão,
O fruto da macieira
É o mel de quem procura,
talha, lixa, corta e fura
O coração da madeira


2. Sulcar a tez, superfície,
com traços tortos ao inverso
do que se vê refletido
no espelho, cristal anverso.
Com o sangue da própria mão
lambuçar a criação
soprar-lhe vida, videira,
É o mel de quem procura,
talha, lixa, corta e fura
O coração da madeira!

3. No coração da madeira
vi sulcos formando gente
uma vasta cabeleira
sendo alinhada num pente
Uma mão tocando as cordas
outra desenhando bordas
um homem com seu chapéu
Um jacaré muito bravo
e um menino que era escravo
de sua pipa, no céu!


4. Quando perdi a visão
pude passear meus dedos
no coração da madeira
para saber seus segredos
como o corpo da amada
senti a curva marcada
montes,vales, pulsação
chorei um choro baixinho
como um menino sozinho
sem pai, nem mãe, nem irmão!

5. Perguntei para mim mesmo
quem trabalhou desse jeito
O coração da madeira
para deixá-lo perfeito
a mesma fotografia
que na minha vida eu via
estava ali retratada
até o olho incisivo
que me fazia cativo
Lá na imagem gravada!


6. A madeira não dobrou-se
aos meus caprichos de artista
seu centro todo encrespou-se
nem veio, filão ou pista.
Não encontrei dentro dela
Uma minúscula janela
para o sol da inspiração.
Fugiu-me, assim, de bobeira
O coração da madeira
da palma de minha mão!

7. O véu do templo em pedaços
E o céu chorando sua dor
A tarde com seus mormaços
e o sangue com seu odor
Três espectros contra o fundo
de púrpura num tom profundo:
As cores da sexta-feira!
Olhando paralisado
Vi Cristo crucificado
No coração da madeira!


8. Aviões estão no solo
os vôos já cancelados
No saguão procuro um colo
todos estão ocupados
Olhei para o celular
Que não quer mais trabalhar
Por falta de bateria
Vou talhar esta bobeira
No coração da madeira
Pra me lembrar deste dia!

9. Alguém me disse que a Terra
está desiquilibrada
que os rios estão em guerra
que a mata foi derrotada
que o céu se abre em buracos
que o mar invadirá nacos
de firmeza para os pés.
Na procissão domingueira
o coração da madeira
seduzirá os fiéis!


10. E aqui no chão da cidade
aos pés do Cristo incrustado
há algo de fealdade
circundando o Corcovado
O morro entrou pelo mato
os verbos fizeram um trato
de longe ouviram seus ecos
conluiando as alianças
esquartejando crianças
como se fossem bonecos

11. E o que dizer dos amores
que a vida nos legou?
As frutas com seus odores?
o que o vento soçobrou?
o que nunca foi escrito?
a nudez? um gesto? um grito?
e um tesouro enterrado?
O coração da madeira
foi amigo de primeira
Nas dores do meu passado!


12. Os lábios de Iracema,
Irene preta no céu,
Retirante Severino,
Leandro com seu cordel,
Mulheres de Jorge Amado,
Quixote aprisionado
na lâmpada de Aladim.
A literatura inteira
No coração da madeira
macia como um pudim!

13. Esse cheiro de café
com pão de queijo quentinho
não tem sabor de mulher
nem gosto de seu carinho
mas entra como uma faca
como se fosse uma estaca
cortando a pessoa inteira
No interior das Gerais
somente aqui que se faz
no coração da madeira!


14. (Aquele cheiro do cedro
condiz com o peso da cor)
De avermelhado me medro
no mar rugindo em furor:
O casco de minha nau
procura nas ondas vau
por onde possa passar.
Só há passagem certeira
no coração da madeira
que comecei a entalhar.

15. Os sulcos de minha vida
têm se tornado mais planos.
Ficarão mais rente ao solo
com a passagem dos anos.
E quando chegar a hora
em que eu precise ir embora
para o outro lado do muro,
haverá coisa certeira:
O coração da madeira
será meu porto seguro!

Discussão sobre cordel

A seguir reescrevo discussões que tive com poetas cordelistas sobre Literatura de Cordel. Qualquer discordância é só postar seu comentário. A leitura tem que ser feita de trás para frente a partir do tópico Temas do Cordel, para não se perder o fio da meada. Mas pode ser feita aleatoriamente, pois cada tópico tem vida própria.

Mais uma vez cordel, Lampião mais uma vez

1. Em nenhum recanto do Nordeste brasileiro vimos ou ouvimos alguém chamar cordão de cordel. Não, não existem cordéis por lá. Acreditamos mesmo que isso seja extensivo ao Brasil. A palavra cordel só se apresenta naquela literatura editada em folhetos de oito ou dezesseis páginas, raramente de trinta e duas, papel jornal, com uma xilogravura na capa, vendida em bancas pelo país afora, uma Literatura de Cordel, que muitos avaliam ter origem na Península Ibérica e que tenha se transportado para o Brasil. Defendo que a nomenclatura carece de conserto e de concerto. Precisa de revisão.

2. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, reinou por vinte anos nos sertões nordestinos. Foi tema de cinema, de histórias-em-quadrinhos, de música popular, da literatura regional nordestina. Sua indumentária é símbolo de Nordeste. Aquele chapéu de Luiz Gonzaga teve como matriz o chapéu do cangaceiro. Os trios de forró, nos bailes, e as bandas de pífanos se vestiam, antes de serem descobertos pelo capital, como os cabras de Lampião. O Imperador do Sertão não temia emboscada, conhecia os lajedos e as locas, paramentava-se para o combate, enclausurava-se nos desertos quando necessário, rumava sobre cidades quando decidido. Foi a grande descoberta daquela literatura popular em verso, editada em folhetos. Foi a síntese da problemática social do Nordeste e herdeiro dos seus mais remotos habitantes. Era um bicho na guerra, um tapuia portando mosquetões, preciosos e precisos punhais.

3. Os índios do litoral nordestino falavam o nheengatu, a língua boa. Os do interior, do sertão, eram donos da língua travada. Os tapuias, nômades e hostis, bravios, bárbaros, aliaram-se aos holandeses, lutaram contra os portugueses e desenvolveram uma arte completa de matar. Cortavam cabeças de inimigos e as dependuravam em suas cabanas, executavam seus prisioneiros a bordoadas e depois os comiam, num banquete sacro. Sua religião era um complexo sistema no qual feiticeiros incorporavam espíritos e entidades das matas. Viviam sempre em pé de guerra, não eram gregários e dominaram o sertão até o Levante dos Bárbaros em 1688 e seu completo extermínio, por volta de 1696, mortos de doença adquirida do homem branco. Foram dizimados, mas não sem antes deglutirem considerável número de inimigos que, quando os viam pintados hediondamente para o confronto, sentiam a alma lhes fugir.

4. Esses três elementos conjuram-se no Nordeste. Hoje querem mais do que o exotismo. Exigem olhares mais comprometidos e engajados. A chamada Literatura de Cordel pede urgente enquadramento dentro do todo literário brasileiro. Um enquadramento que justifique a sua importância na formação da nação e identidade nordestina. Que deixe de ser abordada apenas em eventos sazonais, passe aos manuais de história da literatura brasileira, esteja presente nos livros didáticos. Requer respeito, por ser um ícone indelével de um povo, porta-voz infalível de uma região.

5. Essa literatura, no encontro com Lampião, emancipou-se das novelas medievais e fundou sua poética, envolvendo-se em um ciclo épico determinante do seu valor. Lampião, a síntese, a mais perfeita encarnação do nosso mito primordial, herói épico lembrado e relembrado, vivo em cada nordestino. Esses três elementos, portanto, são a nossa averiguação, formando um todo, ou seja: Lampião, herdeiro tapuia, cantado na Literatura de Cordel.

6. Elegemos três pilares para refletir:

a) A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de alguns povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.

b) O Romantismo marcou o início da brasilidade em nossa literatura e nela a ressurreição do índio. Um índio literário europeizado, é verdade, mas capaz de promover o aparecimento de uma literatura de conteúdo nacional. É em fins dessa escola literária que aparece no Nordeste a Literatura de Cordel. Iniciando com temas mágicos e religiosos, a Literatura de Cordel canta os mesmos heróis da Península Ibérica: Rolando, Carlos Magno e os doze pares de França, João de Calais, a influência árabe das Mil e Uma Noites, amor e desventuras entre casais de um “reino distante”. Na busca de uma identidade, passa a cantar heróis nacionais, entre os quais escolhemos Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, para analisar, nos folhetos que lhe são dedicados, a aparição do herói épico e sua posterior influência sobre a formação de uma identidade brasileira.

c) Lampião, o homem e a lenda, herdeiro natural dos índios tapuias do sertão nordestino. Um herói-síntese, reinando entre os costumes tapuias e os costumes do bando de seus cangaceiros. Lampião épico: o herói degolado no reino dos mortos, entre Céu, Inferno e Purgatório. Cordel: literatura degolada das academias, adormecida no limbo. Tapuias: povo degolado pela sífilis européia nos seiscentos.

Continuação

Não é cantoria, pois esta é a celebração, o momento, a festa, obrigatoriamente regida pelo som das violas seguindo um cerimonial peculiar. Os poetas têm que correr por várias categorias da cantoria que aqui, no seco solo desse ecran, se tornam sem sentido, pois a melodia lhes será roubada, a pronúncia sequestrada, o canto suprimido e a platéia iludida. Por fim, não é glosa, porque essa também é oral, espontânea, momentânea, efêmera. Diferindo-se da cantoria pela ausência de instrumentos musicais que a conduzida e elegendo um número maior de participantes que não só um glosador. A glosa não se passa para a disputa, mas para a exibição. Não há contenda, mas aplausos.

Continua o trinado

A poesia exigirá coisas que talvez, agora, não estejamos delas senhores. Se é poesia ou não, o tempo revelará. Só digo uma coisa, que, inclusive, já disse. O que fazemos aqui nem é cordel, tampouco repente, nem cantoria, nem glosa. Não é cordel porque o traço fundamental do cordel é a narrativa, uma história, que terá começo, meio e fim. O cordel não é reflexivo, não se passa para reflexões subjetivas, exceto no caso do perfil de personagens. Se não tem história, não é cordel. Pode até ser poesia, mas não cordel! O repente, primeiro, não é escrito, se for escrito não é repente, mesmo escrevendo ao correr da pena, pois se assim o fosse, James Joyce seria repentista. O repente requer um tempo de resposta instantâneo, imediato. Coisa que aqui jamais acontecerá, pois obrigatoriamente teremos de ler o verso do anterior e armar estratégias de defesa. No repente a defesa se faz enquanto o outro pronuncia seu verso. A pena refaz o seu verso, a fala gaguejará, e aí veremos quem é cantador!

Poético e não-poético

Há o poético e o não poético. Entretanto não posso sobrepor um ao outro. Na Literatura tanto a prosa como a poesia têm seu valor. E há mesmo a prosa poética e a poética da prosa. Entretanto em se falando de arte há alguns aspectos fundamentais para a distinção. A emoção é um ótimo termômetro, mas pode ofuscar determinados elementos. Assim prefiro olhar a tradição e a ruptura, ambas elencando e autorizando-nos a distinguir o poético do blá-blá-blá. A literatura de cordel não necessita da poesia, já que é uma narrativa, mas sem essa, parecerá vazia, mesmo não estando!