sexta-feira, 27 de abril de 2007

Ainda as diferenças popular e erudito

Não disse que não se venda o cordel em barbante. Vende-se. E vende-se bem. Mas essa não é a tradição, compadre. O que vi e ouvi meus avós contarem é que sempre fora em tabuleiros. Tabuleiros como se fossem malas e ali, na parte de cima, na tampa, os folhetos dispostos, para todo mundo ver a capa, e na base, dividida em quadrados ou retângulos, outros folhetos espalhados para o manuseio dos compradores. O compadre deve saber que nas feiras do interior o vendedor de cordel não lia o cordel, ele os cantava, ainda trago aqui comigo várias dessas melodias. Cantava uma estrofe dramática e chamava a atençao dos ouvintes. Em determinado momento, já tido, hipnotizado todo mundo, ele dizia que quem quisesse saber o resto era só comprar o "romance".

A minha rixa contra a denominação popular, compadre, é vê-la sendo utilizada apenas para as camadas menos favorecidas. Se o povo de um país é a reunião de todos os indivíduos não importando a sua classe, então por que popular, referindo-se à produção intelectual, refere-se apenas ao que faz por experiência? Sivuca, o sanfoneiro, se encontraria em qual lugar, então? Agora, gostar de ser popular é opção. Mas veja bem: outro dia, o compadre postou aqui o seguinte poema:

Quase Poesia.

(Compadre Lemos)

Eu, quando escrevo este verso,
não sou poeta,
sou quase.

Meu verso, quando o escrevo,
não é poesia,
é metade.

Poesia, toda, completa,
é quando se encontram – e se casam –
o meu e o teu sentimentos.

Escrevendo, construo a ponte.
Lendo, tu passas por ela.
Poesia... somos nós dois!...


Pergunto: é erudito ou popular?

A resposta vai alterar em alguma coisa a maestria de seu verso? Claro que não. Nem por isso o compadre deixará de optar por ser conhecido como poeta popular. Mas quando alguma crítico, e existem muitos, disser que é um poema escrito por um poeta popular, essa afirmação virá cheia de preconceito. É contra isso que grito.

Detesto o epíteto "poeta popular"

Amo jaca, a fruta. Dura e mole. Madura e algumas vezes "de vez". O doce. O caroço cozido. Amo jaca, adoro. Até esteticamente gosto de olhar, de bater assim com o dedo, para ouvi-la "inchada". Mas não posso mais comê-la. Me faz mal. Não consigo fazer a digestão. Ela fica lá no estômago por dois dias. E o médico disse: — Não coma mais! Parei de comer, mas não passei a odiá-la. Assim é com a poesia de cordel: adoro, entretando o nome me faz mal. Convivo com ele, aceito pois está consagrado. Sua origem me entristece.

Certa vez, compadre, fui expulso por essas questões, na minha juventude, do Teatro Minerva, a casa que eu amava, lá na minha cidade. Garanto que não me senti menosprezado, mas garanto que naquele dia fui discriminado, fui ofendido, menosprezado, como indivíduo, cidadão e ser humano.

Compadre se não houvesse essas coisas, se essas coisas não fossem tão latentes, tão presentes, não existiriam as leis para proteger os mais fracos, os idosos, os doentes, as crianças. Acredito que realmente, em algumas vezes, nós, por problemas interiores, desligamos a auto-estima e embarcamos na auto-depreciação. Aqui, na nossa discussão, o caso é político-social. De uma classe dominante determinando o caminho das outras, dominadas. A elite letrada sempre fez e desfez. Aliás, ler e escrever foram artigos de luxo há menos de vinte anos no Brasil.

A atitude de se auto-denominar "Poeta de Cordel" é assumir a causa cordelista. Continuarei defendendo a causa do cordel, como estudioso, pois até agora, ainda não escrevi o meu cordel inicial. Quando o senhor assume com orgulho o fato e a denominação, lá dentro, essa atitude está assentada sobre a resistência. Aqui no Rio serei sempre o "paraíba". Foi horrível escutar um militar me encostar no muro: "— Mãos na cabeça, paraíba!" E depois falar para o outro: "— O paraíba quer ser doutor!" Tenho muito orgulho de ser paraibano, mas detesto ser o "paraíba".

Porque não gosto do termo Literatura de Cordel

1. Meu velho e bom e compadre Lemos, primeiro, recebi o folheto do Patativa via Valdir Oliveira, já o tinha lido no e-book, mas sou um chinês apaixonado pela folha de papel impressa, filho de Gutemberg. Está um primor, o seu trabalho e o acabamento gráfico da Canoa, espero que venham outros. Agora, respondendo a mincê: nunca vi folhetos sendo vendido como roupa colocada no varal, com pegador (vou apostar que o senhor também não!). Isso é básico, mas o termo Literatura de Cordel, que Deus tenha misericórdia de quem o criou, é pejorativo. Uma vingança da ignorância acadêmica contra o manancial poético de quem nunca estudou. Não se pode qualificar a Literatura pelo lugar no qual (aqui supostamente) ela é vendida. Se assim o fôsse teríamos nas Bienais por aí afora Literatura de Stand, Literatura de Feira de Livro, Literatura de Estante de Livraria, Literatura de Beco, de Barraca. Não, não é assim. Alguém, e eu ainda vou descobrir quem foi, para deixar bem marcado que aquela poesia não era feita por algum bilac, mas por um "zé ninguém" do povo. Isso me corrói. Um dos gêneros literários é a poesia (lírica ou épica). Aristóteles pegou a literatura grega e fez a divisão, não se importando com quem fazia, entrou tudo na classificação dele. Daí quando se fala Literatura de Cordel estirpa-se o termo POESIA (que como muitos pensam, inclusive alguns poetas de cordel, seria superior à prosa). Assim, para o sujeito que a rotulou, não é Poesia e quando é vem o novo rótulo Poesia Popular, criando, pejorativamente, nova partição, apartamento. Há alguma diferença entre a poesia de Patativa e a de Casimiro de Abreu? Se há é pela superioridade poética do Patativa. Então por que a poesia dele é popular? Porque causa inveja no acadêmico a causa de um homem sem estudo ser o maior poeta brasileiro. Como reconhecimento, mas com o pé atrás, convidam-no para homenagens. Mas Patativa por ser "popular" jamais seria eleito para a Academia Brasileira de Letras. Quem? Um poeta de cordel? Jamais. Por isso minha ojeriza ao apartamento, ao termo.

2. Sou contra, não engulo, e só o pronuncio pedindo licença quarenta vezes aos meus ancestrais. Chega de preconceito e se não der para mudar o nome, já que os apelidos que a gente mais odeia são aqueles que se perpetuam, colocarei sempre um asterisco para explicar o embrião preconceituoso dessa aberração social. Vou contar dois casos conhecidos que devem sempre ser lembrados: por ocasião da semana de arte moderna (que Deus também tenha misericórdia dos que ali se envolveram) resolveram vir ao Rio buscar um autor cuja lira é formidável: Lima Barreto. O que se sabe é Lima era um lunático, vivia ali pela Lapa, pela Praça Tiradentes, bebendo e contando histórias, sem um tostão no bolso. Quando Mario de Andrade o viu caído e todo sujo na calçada, voltou às pressa para São Paulo, com medo do monstro. E o Lima escreveu o Triste Fim de Policarpo Quaresma. O outro caso é o de Cruz e Souza que não foi eleito para a Academia de Letras, mesmo sendo um "negro de alma branca". Claro que surgirão sempre os defensores, os conscientes. Para mim é apartheid. Por isso também não aceito muito a criação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É um clone. Os cordelistas devem se candidatar à ABL, fazer o estardalhaço, mostrar que um cordelista é POETA, ESCRITOR, vive de seu ofício, como um OURIVES. Criando a ABLC aceito a apartação, sou carneiro, morro em silêncio. NÃO! Desculpem o tom apaixonado. Sou passional, mas meus pés estão no chão!

Temas do Cordel

Às vezes, acho que há uma resistência dos poetas cordelistas ao debate, ao estudo, à averiguação de elementos básicos da literatura de cordel. Militar no cordel não é só desenvolver motes e glosas, é uma confissão, uma profissão de fé. Talvez por isso haja tanto equívoco e tanta rasura no rascunho cordélico. Este tópico é de fundamental importância para o conhecimento do embrião cordeliano. Diz respeito ao início oral desse gênero. Tenho discordado do parentesco fraternal entre cordel e oralidade. Dizer que o cordel teve raiz na poética dos cantadores (na oralidade), ao meu ver, embarca num equívoco de averiguação. A sextilha do cordel não é a sextilha da cantoria. Ao contrário: a sextilha do cordel é que deu origem à sextilha no repente. É um caminho inverso ao que aconteceu naturalmente em outros gêneros. Como sabemos a cantoria era, na origem, cantada em quadras. Em algum momento passou a sextilhas, influenciada, isso sim, pelo papel da sextilha cordélica. A sextilha, escrita, aparece já nas canções medievais e nos seiscentos, com Camões e outros. No Brasil, desde Anchieta que a sextilha escrita se faz presente. No romantismo, em 1848, Gonçalves Dias solidifica de vez a sextilha na literatura brasileira com as Sextilhas do Frei Antão. Considerando que a Literatura de Cordel (nome que me é indeglutível) apareceu no final do séc. XIX, portanto na vigência romântica, entendo provável a sua raiz erudita, trazendo como prova os primeiros "romances" (de romântico) para os folhetos.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Oração do Rio São Francisco em tempos de poucos rios

O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

Só uma coisa me alenta hoje: a saudade do meu santo rio. O Rio São Francisco, o Velho Chico, Chiquinho. Escuto o murmurar de suas verdes águas: — Deixai vir a mim as criaturas... E assim foi feito. Falar de desrespeito e depredação tornou-se obsoleto. Denunciar matanças e desmatamentos resultou nulo. Orar e orar. Pedir ao santo do seu nome a sua oração.

Lá do Cristo Redentor da cidade de Pão de Açúcar, nas Alagoas, um moleque triste escutou a confissão das águas. Segundo ele, o Velho
Chico dizia:

Ó, Senhor, criador das águas, benfeitor dos peixes, escultor de barrancas e protetor de homens fazei de mim bem mais que um instrumento de tua paz. Se paz não mais tenho faz-me levar um pouquinho aos que em mim confiam. Paz para as lavadeiras que, em Própria, choram a sua fome de pão. Que, em Brejo Grande, soltam lágrimas pelos filhos mortos no sul do país. Que, em Penedo, já perderam a fé de serem tratadas como gente sã.


Onde houver o ódio dos poderosos que eu leve o amor dos pequeninos. O amor dos que cavam a terra a plantam o aipim. Dos que cavam a terra e usam-na como cama e lençol para sempre. Dos que querem terra para suas mãos, para os seus grãos, para a sua sede. O amor que não é submisso, mas escravizado. O amor que tem coragem de um dia dizer não. Coragem diante das balas e das emboscadas, das más companhias e da solidão.


Onde houver a ofensa dos governos que eu leve o perdão dos aposentados e servidores públicos. O perdão, nunca a omissão. A luta, porque perdoar não requer calar. Perdoar não quer dizer parar. Como minhas águas, tantas e tantas vezes represadas, mas nunca paradas e que, quando em minha fúria, carregam mulharas, absorvem barreiras e escandalizam Três Marias, Xingó e Paulo Afonso.


Onde houver a discórdia dos que mandam que eu leve a união dos comandados. A suprema união dos que sonham com as mudanças, dos que querem quebrar hegemonias e oligarquias. A discórdia dos reis contra a união dos plebeus. Um povo unido é força de Deus, dizia o velho bendito e sejais bendito, Senhor. A união das águas, a união das lágrimas, a união do sangue e a união dos mesmos ideais.


Onde houver a dúvida dos que fraquejam, que eu leve a fé dos que constroem seu tempo. Na adversidade, meio ao deserto e ao clima árido, a fé dos que colhem uvas e mangas em minhas margens. Dos que colhem arroz em minhas várzeas, dos que criam peixes com minhas águas em açudes feitos. A fé dos xocós lá em Poço Redondo. A fé que cria cabras nos Escuriais. Dos que colhem cajus e criam gado em Barreiras e outros cafundós.


Onde houver o erro dos governantes que eu leve a verdade de Canudos. O bom senso dos conselheiros de encontro à insanidade dos totalitários. Os canhões abrindo fendas na cidade sitiada e a verdade expondo cada vez mais a ferida da loucura na caricatura da História. O confisco da poupança e o rombo na previdência. O fim da inflação e o pão escasso, o emprego rarefeito, a dignidade estuprada em cada lar de nordestinos.


Onde houver o desespero das crianças da Candelária que eu leve a esperança das mães de Acari. E aqui, Senhor, te peço com mais fé. A dor dos deserdados, dos que perderam seus pais, filhos ou irmãos, seja de fome, doença ou assassínio, inundai-os com as águas esmeraldas da justiça. A justiça da terra e dos céus. Pintai de verde o horizonte das famílias daqueles que foram jogados mortos em minhas águas. Eles não foram poucos.


Onde hover a tristeza dos solitários que eu leve a alegria das festas de São João. Solitário eu banho muitas terras e em todas, das Gerais, do Pernambuco, das Alagoas e do Sergipe, não há tristeza ao pé da fogueira, nas núpcias entre a concertina e o repente, entre a catira e o baião.. Das festas do Divino ao Maior São João do Mundo, deixai-me levar, Senhor, o sabor de minhas águas juninas e seus fogos de artifícios.


Onde houver as trevas da ignorância que eu leve a luz do conhecimento e da sabedoria. A escuridão dos homens dementes que teimam em querer ferir-me de morte seja massacrada pela luz de um futuro negro, sem água potável, sem terra e sem ar.. Daí-me esse poder, de entrar nas mentes e nos corações., de espraiar-me pelos mil recantos dos que querem mal à nossa casinha, nossa pequena Terra. O homem sábio seja sempre sábio e contamine os povos com ensinamentos de preservação.


Foi assim que escutei e assim reproduzo.

Apresentações

Quando de trabalhos acadêmicos fazemos sempre uma breve apresentação. Entreguei um trabalho de início de confecção de tese de doutorado há algum tempo e me surpreendi com o que escrevi lá. Como todo alcoólatra (já disse), sou pretensioso. Se não, leiam:

Breve apresentação


Este conjunto de escritos contém três partes distintas. Representam: a primeira, mapa ou organograma dos estudos e leitura feitas no segundo semestre de 2005 para compreensão do que está acontecendo no mundo no que diz respeito a cultura e produção artística na era globalizada. Foram leituras feitas em inglês tratando da presença do movimento Hip Hop nas culturas européia, japonesa e islâmica. A importância para o tema da tese é relevante na medida em que a violência assume o papel de musa inspiradora e o cenário social de seus ativistas é a rua, o gueto, a segregação, as drogas, o sexo, o lixo, a desigualdade social, a diferença atribulada e outros.


A segunda parte são anotações feitas em inglês sobre a Modernidade Reflexiva e o Risco Global. Temas abordados durante as aulas do professor Eduardo Portella que se mostraram extremamente ricos para o entendimento das novas poéticas periféricas e excluídas. O risco está em toda parte e ele mesmo se transforma em musa e agente artístico-literário. O funk carioca é um de seus porta-vozes e a literatura de Férrez um ícone desse fazer. O aparecimento da CUFA, Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro é um fato importante para confluência militante e exemplifica o título da tese: a cidade dos lázaros.


A terceira parte é o trabalho inicial desse caminhar. A reflexão sobre progresso, tecnologia e bem-estar social. O tema é a utopia do futuro. A partir da leitura de futurólogos como Hermann Kahn, Alvin Toffler e John Naisbitt construímos um esboço de cenário, ou pano de fundo para a emergência dessas novas manufaturas artísticas, dissidentes do cânon acadêmico.


Queremos ainda pensar sobre Terrorismo e literatura, O Islã e seu caminho poético, Arquitetura e medo urbano e Poéticas de celebração. Procuramos o caminho, sabendo que ele se faz ao caminhar, basta olhar para trás e se verão os próprios passos.