Novas sextilhas da comunidade Cordel, no Orkut. A brincadeira, lá, funciona como um diálogo no qual se lança um tema e os outros vão seguindo respondendo no mesmo tom até que alguém dita outro caminho. Reproduzo as sextilhas que postei, aparentemente não terão sequência temática, nem unidade. É verdade. São apenas fragmentos de um diálogo infindável.
Meu coração é fogueira
Ardendo no seu calor
pulsando em brasa queimante
o vermelho é sua cor
sangue e chamas se cruzando
no caldeirão do amor!
A sextilha é uma estrofe
Que tem seis versos somente
Seis versos de sete sílabas
Rimando insistentemente
O segundo com o quarto
E o sexto fecha a corrente!
O verso tem vida própria
rebelde, contra a corrente
Precisa ter rédea curta
preso com a corda decente
se der muita corda a ele
ele se escapa da gente.
Há o verso traiçoeiro,
enganador de cristão.
Lhe convence que é seu,
Jura com convicção.
Quando você se descuida,
Escapa de sua mão.
Esse negócio de dar
é coisa bem complicada
porque o verso taludo
quer a coisa apimentada
desejando lhe pegar
com a calça toda arriada!
e engana quem vai embora
abandonando o cordel
devemos participar
transformando o fel em mel
À Vica que aqui fica
Eu retiro meu chapéu
O porco chia na morte
o cisne canta ao morrer
o coral dos andorinhas
quando vai anoitecer
o galo solfeja a música
chamando o sol pra nascer.
O candidato quer votos
prometendo leite e o mel,
roupa pr'o descamisado,
Livro, caneta, papel
Só não pode prometer
Sextilhas para o cordel
O nascimento se dá
depois da concepção
que se segue após a cópula
que vem depois do tesão
mas sem o bicho de pé
todo movimento é vão!
Dizem que com a cabeça
o homem tem que pensar
Porém há duas cabeças
que não querem concordar
Se uma delas não pensa
depois vai se lamentar!
As cabeças que eu tenho
vivem me dando alegria
pra elas dou proteção
também faço assepsia
Enquanto a de baixo age
a de cima fantasia!
Palavras, atos e toques
olhares, beijos, gemidos
suores, odores, seivas
mucosas, pele, tecidos,
sobre a cama dos amantes
lençóis e corpos despidos
A vida nunca adormece
E o tempo não tem senhor
A vida é paço e passagem
O tempo é rio e rumor
A vida e o tempo enrugaram
A alma do cantador!
No tempo de eu criança
Tinha tempo para tudo
Tinha tempo para o jogo
Tinha tempo para o estudo
Mandava o tempo calar-se
E o tempo ficava mudo!
Um caminho a ser seguido
Dois homens nele passando
Três dias ferindo os pés
Quatro noites caminhando
Cinco mágoas em seus peitos
Seis cordas os acalentando
Um cesto de manga espada
na missa de sétima hora
às oito brechas da noite
retirando os nove fora
a camisa dez do Rei
onze pernas de caipora
Foram doze badaladas
Dia treze, sexta-feira,
É "catorze" ou é "quatorze"?
Quinze anos, moça inteira.
Dezesseis qual é o bicho?
Diga, Valdir Oliveira!
Dezessete, idade ingrata,
Dezoito, vou me alistar
Dezenove perdi tempo
Com vinte, quero casar
Vinte e um só no baralho!
Responda, vicalomar!
Ah, meu Deus, se eu tivesse
o furor da juventude
para lançar as palavras,
sendo leve, ou sendo rude,
quebrando o verso e a rima
matando sua saúde!
Oigatê, como faz frio
nesse tal de mês de agosto
Morei em Uruguaiana
Saí de lá com desgosto
por causa de uma chinoca
que não quis beijar-me o rosto!
Agora faço as perguntas
para ver quem é o mala:
Por onde o morcego vê?
Por onde a cigarra estala?
Como é que as cobras transam?
Como o ventríloquo fala?
Por onde é que a água entra
lá no coco da palmeira?
A raiz da macaíba,
e o caule da bananeira
Onde é que se encontram?
Responda essa brincadeira!
Cozinha é comigo mesmo
quando a comida tá feita
Vá devagar no bendito
Porque se não dá maleita
Caganeira de apito
Com a tripa gaiteira estreita!
em termos alteridade
o calmo se açodará,
A patuléia se perde
e a choldra vacilará.
Os capitéis do respeito
Outrem nos ofertará?
quinta-feira, 19 de outubro de 2006
terça-feira, 17 de outubro de 2006
O pai de Poe, o pai de Augusto e meu pai
Certa vez meu amigo Nonato Gurgel horrorizou-se ao ouvir-me dizer que ainda hoje choro a ausência de meu pai. Dizia ele que na quadragésima casa dos anos era inadmissível esse tipo de problema interior. Não pude argumentar àquela hora que chorar a ausência não equivale a se ter ou não um problema, aliás, o problema existiria caso houvesse a presença, fosse ela material ou fantasmagórica. A ausência é a lacuna e chorar a lacuna não é um ato em defesa do seu preenchimento, uma lágrima oriunda do oceano dos desesperos, uma seta, uma flecha fincando-se no estômago, atirada pelo escarcéu do que não foi. Respondo agora a Nonato, daqui do oitavo andar, nesta casa virtual cuja acolhida tem preenchido minha lacunar produção intelectual.
Sonhei certa noite, e esta noite era treva, com um homem de sorriso leve e de mãos afáveis, de palavra doce e de terno olhar. Não foi possível. A porta da casa de número 102 da Rua São José, na cidade de Areia, no espinhaço da Serra da Borborema, nunca suportou tal simulacro. O meu sonho teria sido fomentado por alguma imagem seqüencial vista na tela espetacular do cinema da cidade. Talvez o drama da Paixão de Cristo com seus açoites e chagas abertas e um homem a tudo perdoando e abraçando até seus detratores seja o responsável por esse mal súbito descido sobre mim. Pai, porque me abandonaste?
É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à câmara nupcial, mais conhecida como camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia a dia na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais e privou-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Não sem antes tentar me espelir, tomando chás amargos para me abortar. Eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes naquele útero quente e promissor. Retorno, assim, ao início do meu relato épico.
Também numa madrugada, a 7 de outubro de 1849, revelou-se um problema, pela ausência. O poeta Edgar Allan Poe, de vida tão atribulada e de pena tão prolífera, descia ao fundo de seu profundíssimo poço pessoal. Abandonado pelo pai, um ator de teatro decadente, e órfão de mãe, atriz idem, fora adotado por uma família decente e próspera de Richmond. Conta sua biografia de uma infância e adolescência tranqüila. Sua entrada na vida adulta trouxe-lhe, porém, freqüentes e intermináveis atritos com o pai adotivo. Confesso que a biografia de Poe, antes de sua lavra poética, inspirou-me de modo incisivo. Os seus fracassos eram o espelho para os meus fracassos. O seu gosto pela bebida, sua vida na margem e seus descompassos eram como que uma vida pregressa que eu vivera. Ausência de seu pai e a lacuna nunca preenchida pelo pai adotivo foram uma baliza para os meus gritos.
Descobri a obra de Poe na em-poe-irada biblioteca Rodrigues de Aquino, na Rua do Sertão. Dois antigos volumes editados pela Editora Globo de Porto Alegre. Um papel marrom tão velho, se desfazendo ao atrito com meus dedos, oferecia-me O Escaravelho de Ouro. Se meus ouvintes nunca leram esse conto, recomendo humildemente sua leitura. Trata ele do que se poderia chamar de escrita criptográfica. Um antigo mapa, pertencido ao pirata Capitão Kidd, contém a indicação de onde se encontra seu tesouro enterrado. O protagonista decifra a escrita e encontra o baú repleto de ouro e jóias. Também está lá, soterrado sobre a arca, um esqueleto com o crânio afundado. O lugar do achado é um intrincado caminho por entre cipós e árvores e arbustos, numa selva virgem, fechada, escura.
Nos meus treze anos aquilo era a aventura, era o insólito, era o desafio. No segundo ano da quadragésima casa da vida aquilo é o pai adotivo de Edgar sepultado sobre seu ouro, com sua razão atacada pela pena perfuro-cortante do poeta ébrio. Está lá o esqueleto e seu crânio estúpido. Está lá, sepultado e só. Pensemos, destarte, no caminho para essa construção, para esse símbolo. Penetrar no imo dessa imagem é perfazer o caminho da linguagem. O deixar-se envolver pelos atalhos da letra, mesmo sabendo-a dança imperfeita. Poe sepulta seu ausente pai adotivo, com tudo que lhe negara: uma roupa, um pedaço de pão, um pouco de cobre, já que foram esses os senhores de tamanhas desavenças. Um de seus biógrafos diz de suas últimas palavras:
Garanto-vos, senhores, que Poe foi meu pai. Meu pai ausente, meu pai presente, meu pai morto.
Os sonetos aqui lidos e revelados são as trilhas de minhas poucas telhas. São meu teto grávido de arestas, minhas paredes repletas de orelhas. São meus potes, são meus pratos. São meus copos e meus sarcófagos. Neles me embalo, neles me enrolo, neles me enredo, neles me emparedo, neles me sepulto, neles me degusto. São sonetos de Augusto. De Augusto dos Anjos, do Engenho Pau d’Arco, em Espírito Santo na Zona da Mata paraibana. Aquele cujo pai, senhor de engenho abastado, dono de reses e almas, trancafiá-lo-ia no desejo de ver seu filho vivo e forjaria um sucesso no qual um feto morto seria imortalizado ao pé de um tamarindeiro. Aquele mesmo pai que corta a árvore da serra e deixa o filho moço abraçar-se ao tronco e perecer com ele. Aquele pai de presença milenar, de tradições imutáveis, semeador de grilhões, doutor em algemas, guardião dos ferros. É o conservador radical autêntico das planícies e vales nordestinos, herdeiros de terras e amplidões.
Augusto chegou-me com muita fúria e em seus sonetos encontrei guarida. Poe foi meu pai, Augusto foi meu pai. Se aquele revelara o seu pai-esqueleto soterrado sobre o brilho do ouro, este o revelou amado em plena decomposição. Essa linguagem-fábula de Augusto declamei em voz alta pelos recantos de minha podridão, nas camas em que deitei, nos corpos nos quais me lambuzei, como uma cascavel que se enroscava.
Meus filhos ouviram-me muitas vezes vomitar versos. E ouviram de mim esta sentença: — Seja bom filho, seja bom marido e seja bom pai. Talvez essa lembrança tenha levado ao equívoco de minha entonação ao confessar a Nonato o meu choro lacunar. Talvez eu não tenha sido um bom filho, nem para Poe, nem para Augusto, nem para meu desorientado pai-molecular. Talvez eu não tenha sido, nem seja, um bom marido, meio às oscilações de meus sentimentos. Talvez eu não seja um bom pai. Mas a palavra “bom” sofre tantas cintilações e a palavra “pai” carrega tantas anomalias que tudo não passe de um breve sonho, de um breve desfazer-se, desmoronar-se, putrefazer-se assistido pelo tempo, esse, sim, pai e padrasto, senhor e servo, poeta e escultor, por isso
Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
Sonhei certa noite, e esta noite era treva, com um homem de sorriso leve e de mãos afáveis, de palavra doce e de terno olhar. Não foi possível. A porta da casa de número 102 da Rua São José, na cidade de Areia, no espinhaço da Serra da Borborema, nunca suportou tal simulacro. O meu sonho teria sido fomentado por alguma imagem seqüencial vista na tela espetacular do cinema da cidade. Talvez o drama da Paixão de Cristo com seus açoites e chagas abertas e um homem a tudo perdoando e abraçando até seus detratores seja o responsável por esse mal súbito descido sobre mim. Pai, porque me abandonaste?
É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à câmara nupcial, mais conhecida como camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia a dia na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais e privou-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Não sem antes tentar me espelir, tomando chás amargos para me abortar. Eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes naquele útero quente e promissor. Retorno, assim, ao início do meu relato épico.
A meu Pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
Também numa madrugada, a 7 de outubro de 1849, revelou-se um problema, pela ausência. O poeta Edgar Allan Poe, de vida tão atribulada e de pena tão prolífera, descia ao fundo de seu profundíssimo poço pessoal. Abandonado pelo pai, um ator de teatro decadente, e órfão de mãe, atriz idem, fora adotado por uma família decente e próspera de Richmond. Conta sua biografia de uma infância e adolescência tranqüila. Sua entrada na vida adulta trouxe-lhe, porém, freqüentes e intermináveis atritos com o pai adotivo. Confesso que a biografia de Poe, antes de sua lavra poética, inspirou-me de modo incisivo. Os seus fracassos eram o espelho para os meus fracassos. O seu gosto pela bebida, sua vida na margem e seus descompassos eram como que uma vida pregressa que eu vivera. Ausência de seu pai e a lacuna nunca preenchida pelo pai adotivo foram uma baliza para os meus gritos.
Descobri a obra de Poe na em-poe-irada biblioteca Rodrigues de Aquino, na Rua do Sertão. Dois antigos volumes editados pela Editora Globo de Porto Alegre. Um papel marrom tão velho, se desfazendo ao atrito com meus dedos, oferecia-me O Escaravelho de Ouro. Se meus ouvintes nunca leram esse conto, recomendo humildemente sua leitura. Trata ele do que se poderia chamar de escrita criptográfica. Um antigo mapa, pertencido ao pirata Capitão Kidd, contém a indicação de onde se encontra seu tesouro enterrado. O protagonista decifra a escrita e encontra o baú repleto de ouro e jóias. Também está lá, soterrado sobre a arca, um esqueleto com o crânio afundado. O lugar do achado é um intrincado caminho por entre cipós e árvores e arbustos, numa selva virgem, fechada, escura.
Nos meus treze anos aquilo era a aventura, era o insólito, era o desafio. No segundo ano da quadragésima casa da vida aquilo é o pai adotivo de Edgar sepultado sobre seu ouro, com sua razão atacada pela pena perfuro-cortante do poeta ébrio. Está lá o esqueleto e seu crânio estúpido. Está lá, sepultado e só. Pensemos, destarte, no caminho para essa construção, para esse símbolo. Penetrar no imo dessa imagem é perfazer o caminho da linguagem. O deixar-se envolver pelos atalhos da letra, mesmo sabendo-a dança imperfeita. Poe sepulta seu ausente pai adotivo, com tudo que lhe negara: uma roupa, um pedaço de pão, um pouco de cobre, já que foram esses os senhores de tamanhas desavenças. Um de seus biógrafos diz de suas últimas palavras:
— Senhor, ajudai minha pobre alma! E assim morreu, como vivera —em grande miséria e tragicamente.
Garanto-vos, senhores, que Poe foi meu pai. Meu pai ausente, meu pai presente, meu pai morto.
A meu Pai Morto
Madrugada de treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
Os sonetos aqui lidos e revelados são as trilhas de minhas poucas telhas. São meu teto grávido de arestas, minhas paredes repletas de orelhas. São meus potes, são meus pratos. São meus copos e meus sarcófagos. Neles me embalo, neles me enrolo, neles me enredo, neles me emparedo, neles me sepulto, neles me degusto. São sonetos de Augusto. De Augusto dos Anjos, do Engenho Pau d’Arco, em Espírito Santo na Zona da Mata paraibana. Aquele cujo pai, senhor de engenho abastado, dono de reses e almas, trancafiá-lo-ia no desejo de ver seu filho vivo e forjaria um sucesso no qual um feto morto seria imortalizado ao pé de um tamarindeiro. Aquele mesmo pai que corta a árvore da serra e deixa o filho moço abraçar-se ao tronco e perecer com ele. Aquele pai de presença milenar, de tradições imutáveis, semeador de grilhões, doutor em algemas, guardião dos ferros. É o conservador radical autêntico das planícies e vales nordestinos, herdeiros de terras e amplidões.
Augusto chegou-me com muita fúria e em seus sonetos encontrei guarida. Poe foi meu pai, Augusto foi meu pai. Se aquele revelara o seu pai-esqueleto soterrado sobre o brilho do ouro, este o revelou amado em plena decomposição. Essa linguagem-fábula de Augusto declamei em voz alta pelos recantos de minha podridão, nas camas em que deitei, nos corpos nos quais me lambuzei, como uma cascavel que se enroscava.
Meus filhos ouviram-me muitas vezes vomitar versos. E ouviram de mim esta sentença: — Seja bom filho, seja bom marido e seja bom pai. Talvez essa lembrança tenha levado ao equívoco de minha entonação ao confessar a Nonato o meu choro lacunar. Talvez eu não tenha sido um bom filho, nem para Poe, nem para Augusto, nem para meu desorientado pai-molecular. Talvez eu não tenha sido, nem seja, um bom marido, meio às oscilações de meus sentimentos. Talvez eu não seja um bom pai. Mas a palavra “bom” sofre tantas cintilações e a palavra “pai” carrega tantas anomalias que tudo não passe de um breve sonho, de um breve desfazer-se, desmoronar-se, putrefazer-se assistido pelo tempo, esse, sim, pai e padrasto, senhor e servo, poeta e escultor, por isso
Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
terça-feira, 29 de agosto de 2006
As marcas nas duas margens
Uma crônica de 2001, na data de meus 37 anos.
O rio desce sem respeitar obstáculos. Cruza-os, subverte-os e até os arrasta. Não quero ser o rio em desabalada correnteza, desrespeitando as pedras e ignorando os barrancos. Tampouco penso em arremessar-me como o Niágara ou o Iguaçu. Não me seduz, também, a imagem e semelhança do lago pacato ou do riacho represado. Penso em ser o rio normal. Aquele que segue sem muito alarde, mas não de todo ignorado. Lavando as margens e observando as paragens. Conhecendo a gente ribeirinha, sentindo o verdor das plantações. Interessa-me ver as marcas nas margens. As feridas às margens. Crianças e idosos às margens. Assim, feito o rio, quero e trago comigo essas marcas. Meus seis irmãos mortos, meu irmão vivo. Meus filhos no mais profundo mergulhar de minhas águas. Nos meus porões traiçoeiros e em meus pequenos açudes na planície. Também não ignoro minha nascente. O pequenino rasgo na terra de onde brotei, um fio tênue, um nada no tudo da Natureza.
Quero minha Iara, minha elemental, meu espírito protetor, Manitô. A Iara que, à noite, faz assombração àqueles que maltratam meu leito e roubam meus peixes, ou tentam me matar com seus dejetos venenosos. Minha Iara a tenho visto postada, de pé, sentinela, linda estátua inesquecível com seus cabelos crespos deitados sobre mim. Na noite mais tenebrosa, em que tremo com os estrondos e raios vindos do céu que me cobre, vejo minha Iara sobre mim, deitada, abraçando-me e me pondo para dormir no reboliço do meu corpo furado por grossos pingos e ventos que tentam me encrespar. Sou um rio e nada mais. E tudo que agora escrevo pode ser ficção. E tudo o que agora sinto é um murmúrio de vozes e uivos, de gritos e cantos, dizendo em uníssono: viver é fazer um pacto com o tempo, segurá-lo pela cauda e intimá-lo para uma conversa. Todavia há uma obstáculo intransponível: encontrar a cauda sem saber onde fica sua cabeça.
O rio desce sem respeitar obstáculos. Cruza-os, subverte-os e até os arrasta. Não quero ser o rio em desabalada correnteza, desrespeitando as pedras e ignorando os barrancos. Tampouco penso em arremessar-me como o Niágara ou o Iguaçu. Não me seduz, também, a imagem e semelhança do lago pacato ou do riacho represado. Penso em ser o rio normal. Aquele que segue sem muito alarde, mas não de todo ignorado. Lavando as margens e observando as paragens. Conhecendo a gente ribeirinha, sentindo o verdor das plantações. Interessa-me ver as marcas nas margens. As feridas às margens. Crianças e idosos às margens. Assim, feito o rio, quero e trago comigo essas marcas. Meus seis irmãos mortos, meu irmão vivo. Meus filhos no mais profundo mergulhar de minhas águas. Nos meus porões traiçoeiros e em meus pequenos açudes na planície. Também não ignoro minha nascente. O pequenino rasgo na terra de onde brotei, um fio tênue, um nada no tudo da Natureza.
Quero minha Iara, minha elemental, meu espírito protetor, Manitô. A Iara que, à noite, faz assombração àqueles que maltratam meu leito e roubam meus peixes, ou tentam me matar com seus dejetos venenosos. Minha Iara a tenho visto postada, de pé, sentinela, linda estátua inesquecível com seus cabelos crespos deitados sobre mim. Na noite mais tenebrosa, em que tremo com os estrondos e raios vindos do céu que me cobre, vejo minha Iara sobre mim, deitada, abraçando-me e me pondo para dormir no reboliço do meu corpo furado por grossos pingos e ventos que tentam me encrespar. Sou um rio e nada mais. E tudo que agora escrevo pode ser ficção. E tudo o que agora sinto é um murmúrio de vozes e uivos, de gritos e cantos, dizendo em uníssono: viver é fazer um pacto com o tempo, segurá-lo pela cauda e intimá-lo para uma conversa. Todavia há uma obstáculo intransponível: encontrar a cauda sem saber onde fica sua cabeça.
Chapeuzinho Vermelho: outra versão
Foi um conto que escrevi na época da graduação. Não insistam em críticas. Não vale a pena.
Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros... e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.
*** *** *** *** ***
Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.
*** *** *** *** ***
Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.
*** *** *** *** ***
Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:
— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!
Alimento a resposta:
— Tô ressacado!
Encontro João Lobo. Pergunta-me:
— Tem prova hoje?
Única resposta:
— Sei lá. A professora tá por aí?
Já estava.
Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros... e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.
*** *** *** *** ***
Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.
*** *** *** *** ***
Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.
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Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:
— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!
Alimento a resposta:
— Tô ressacado!
Encontro João Lobo. Pergunta-me:
— Tem prova hoje?
Única resposta:
— Sei lá. A professora tá por aí?
Já estava.
sábado, 29 de julho de 2006
Gonzalo Armán, um poeta em três línguas
O poeta galego Gonzalo Armán na abertura de seu livro Anacos d’alma, no poema Exilio, confessa à pátria, pela voz arrastada de um eu-lírico saudoso, “Exileime de ti, por propia escolla”. Obedecendo à língua galega, essa que lhe dá identidade, que o marca no mundo, traça seu caminho de auto-exilado, fugindo, talvez da Guerra Civil espanhola e embrenha-se pelos becos de um Brasil de sonhos. Confundido com os espanhóis imigrantes, faz questão de diferençar-se pela língua:
“Neniño que vas á escola
ai que peniña me dás,
che ensinan grego e latín
e tamén o castelán,
o idioma galego
ninguén cho cho quere ensinar.”
O percurso trilíngüe desse rico poeta, amante dos livros, cantor de quimeras e retratista social é o tema de um trabalho que gostaria muito de escrever.
“Neniño que vas á escola
ai que peniña me dás,
che ensinan grego e latín
e tamén o castelán,
o idioma galego
ninguén cho cho quere ensinar.”
O percurso trilíngüe desse rico poeta, amante dos livros, cantor de quimeras e retratista social é o tema de um trabalho que gostaria muito de escrever.
Algumas coisas descartadas de um editorial para a revista Confraria
Como alguns sabem, sou editor convidado da Revista on-line Confraria. Escrevo, por vezes, o editorial. Nem sempre acerto a mão e várias horas tenho que descartar idéias. Abaixo, algumas.
1. Aconteceu o que tinha de acontecer. Lutero, quando traduziu a Bíblia para o alemão, deparou-se com um problema. O analfabetismo era total e uma cruzada de alfabetização comunitária teve de ser empreendida, senão de que adiantaria a empreitada se ninguém a iria ler?
2. Enquanto isso, nosso Brás Cubas cita Sthendal que escrevera um de seus livros para ser lido por 100 (cem) leitores. Ele, o personagem machadiano, do outro lado da morte, se contentará com 5 (cinco) e Arturo Gouveia, o contista paraibano, sentir-se-ia mimado com apenas 2 (dois), ou 1 (um).
3. Pelo viés da contramão, Charles Bukowski, depois de uma leitura de seus poemas, regada a uísque e fumo, rasgou os livros, jogou-os na platéia e vomitou a mesa, o chão e a si mesmo. Não estava sóbrio, nem pensava em leitores. O “velho safado” só pensava em mulheres e não importava seus fenótipos.
4. O narrador de O Desenho do Tapete, conto de Henry James, quis ser lido pelo próprio escritor sobre o qual escrevera no jornal O Meio, especializado em resenhas literárias e lido nas rodas de literatas e críticos. Com verdadeira obsessão procurou respaldo em cada conversa e em cada interlocutor.
5. Acontece, senhores, que a Confraria, neste um ano de aniversário, alcançou a marca de 1.000.000 (um milhão) de acessos. Nesse mundo de info-analfabetos, mundo digital em exclusão, mundo ciber-centrífugo, necessitamos bem mais do que a Bíblia de Lutero, a ironia de Brás Cubas, o vômito de Bukowsky e o cinismo de Arturo.
1. Aconteceu o que tinha de acontecer. Lutero, quando traduziu a Bíblia para o alemão, deparou-se com um problema. O analfabetismo era total e uma cruzada de alfabetização comunitária teve de ser empreendida, senão de que adiantaria a empreitada se ninguém a iria ler?
2. Enquanto isso, nosso Brás Cubas cita Sthendal que escrevera um de seus livros para ser lido por 100 (cem) leitores. Ele, o personagem machadiano, do outro lado da morte, se contentará com 5 (cinco) e Arturo Gouveia, o contista paraibano, sentir-se-ia mimado com apenas 2 (dois), ou 1 (um).
3. Pelo viés da contramão, Charles Bukowski, depois de uma leitura de seus poemas, regada a uísque e fumo, rasgou os livros, jogou-os na platéia e vomitou a mesa, o chão e a si mesmo. Não estava sóbrio, nem pensava em leitores. O “velho safado” só pensava em mulheres e não importava seus fenótipos.
4. O narrador de O Desenho do Tapete, conto de Henry James, quis ser lido pelo próprio escritor sobre o qual escrevera no jornal O Meio, especializado em resenhas literárias e lido nas rodas de literatas e críticos. Com verdadeira obsessão procurou respaldo em cada conversa e em cada interlocutor.
5. Acontece, senhores, que a Confraria, neste um ano de aniversário, alcançou a marca de 1.000.000 (um milhão) de acessos. Nesse mundo de info-analfabetos, mundo digital em exclusão, mundo ciber-centrífugo, necessitamos bem mais do que a Bíblia de Lutero, a ironia de Brás Cubas, o vômito de Bukowsky e o cinismo de Arturo.
Sextilhas
Participo da comunidade Cordel no Orkut e lancei um tópico incentivando os outros comunitários a seguir o modelo de sextilha que deslizo a seguir. O tópico cresceu e todos passaram a se manifestar de acordo com sua inspiração. O sucesso da resposta levou-me a reproduzir aqui as matrizes incentivadoras. A numeração segue a ordem de postagem.
1.
1 mote de cantador
2 cantadores na sala
3 salas sem entrar tiros
4 tiros na senzala
5 senzalas sem portas
6 portas contêm a fala
A fala rompe as seis portas
Portas de cinco senzalas
Senzalas com quatro tiros
Rompendo suas três salas
Estas com dois cantadores
E um mote em forma de balas
2.
O olho a ré é repolho
O fã em dupla é fandango
O medo ardido, arremedo
O tantan gago no tango
O mar num caco, macaco
O rango, do orangotango!
3.
Estive ausente, voltei
Se voltei, estive ausente.
Contentemente sorri,
Se sorri, foi de contente
Na volta ninguém se perde:
Água boa é da nascente.
4.
A pedra polida é faca
a faca amolada talha
tirando leite de pedra
e o leite cortado coalha
Os pobres que não têm leite
têm pedra como mortalha
5.
Não falo da fala, falo
do falo que esfolo vivo
sem olvidar o ouvido
do fole que toca esquivo
enquanto os sapatos dançam
dando alforria ao cativo
6.
Abri a porta do sexo
e depositei meu seixo
A gueixa me deu madeixas
E a queixa veio ao meu queixo
Na cama espicho meu corpo
e nesse esguicho me deixo
7.
Abri a broca dos braços
Furei o muro da intriga
Fiz cama macia e fofa
para curar a fadiga
Diz o famoso ditado
Se um não quer não há briga!
8.
A tromba do elefante
E o rabo do tatu
O dente do javali
O bico do urubu
O peito do avestruz
E as penas do nhambu!
9.
Uirapuru com seu canto
Arara com suas cores
Araponga martelando
O beija-flor entre as flores
E eu sonhando que vôo
Debaixo dos cobertores
10.
peguei a corda no meio
puxei as pontas com fé
passei uma dentro d'outra
firmei com força até
não passar vento nem luz
desate o nó quem quiser
11.
derramei água do copo
depois que lavei a mão
uma mão lavou a outra
um pouco de fricção
e a água escorreu no piso.
Quem enxugará o chão?
12.
Onde é que nasce a lágrima?
E o sorrir, de onde vem?
O medo se aloja onde?
Por que se gosta de alguém?
De quantas rimas preciso
Para fazer cordel bem?
13.
Onde é que se compra tempo
quando tempo não se tem?
Onde se empresta carinho
para fazer no seu bem?
Como viver essa vida
Sem fazer mal a ninguém?
14.
Repare a pele do mar
se contorce, encrespa, estica
Olhe agora para o céu:
Existe pele mais rica?
Por que citar o prepúcio
que uma simples lâmina pica?
15.
Quem não tenta a brincadeira
Não é um bom brincador.
Coisa boa é brincar muito
Seja com qual coisa for.
Mas cuidado pessoal
Não se brinca com o amor!
16.
A brincadeira engrenou
O povo participando
Segurando o pé do verso
e as palavras rimando
O cordel soltando fogo
E a fogueira crepitando!
1.
1 mote de cantador
2 cantadores na sala
3 salas sem entrar tiros
4 tiros na senzala
5 senzalas sem portas
6 portas contêm a fala
A fala rompe as seis portas
Portas de cinco senzalas
Senzalas com quatro tiros
Rompendo suas três salas
Estas com dois cantadores
E um mote em forma de balas
2.
O olho a ré é repolho
O fã em dupla é fandango
O medo ardido, arremedo
O tantan gago no tango
O mar num caco, macaco
O rango, do orangotango!
3.
Estive ausente, voltei
Se voltei, estive ausente.
Contentemente sorri,
Se sorri, foi de contente
Na volta ninguém se perde:
Água boa é da nascente.
4.
A pedra polida é faca
a faca amolada talha
tirando leite de pedra
e o leite cortado coalha
Os pobres que não têm leite
têm pedra como mortalha
5.
Não falo da fala, falo
do falo que esfolo vivo
sem olvidar o ouvido
do fole que toca esquivo
enquanto os sapatos dançam
dando alforria ao cativo
6.
Abri a porta do sexo
e depositei meu seixo
A gueixa me deu madeixas
E a queixa veio ao meu queixo
Na cama espicho meu corpo
e nesse esguicho me deixo
7.
Abri a broca dos braços
Furei o muro da intriga
Fiz cama macia e fofa
para curar a fadiga
Diz o famoso ditado
Se um não quer não há briga!
8.
A tromba do elefante
E o rabo do tatu
O dente do javali
O bico do urubu
O peito do avestruz
E as penas do nhambu!
9.
Uirapuru com seu canto
Arara com suas cores
Araponga martelando
O beija-flor entre as flores
E eu sonhando que vôo
Debaixo dos cobertores
10.
peguei a corda no meio
puxei as pontas com fé
passei uma dentro d'outra
firmei com força até
não passar vento nem luz
desate o nó quem quiser
11.
derramei água do copo
depois que lavei a mão
uma mão lavou a outra
um pouco de fricção
e a água escorreu no piso.
Quem enxugará o chão?
12.
Onde é que nasce a lágrima?
E o sorrir, de onde vem?
O medo se aloja onde?
Por que se gosta de alguém?
De quantas rimas preciso
Para fazer cordel bem?
13.
Onde é que se compra tempo
quando tempo não se tem?
Onde se empresta carinho
para fazer no seu bem?
Como viver essa vida
Sem fazer mal a ninguém?
14.
Repare a pele do mar
se contorce, encrespa, estica
Olhe agora para o céu:
Existe pele mais rica?
Por que citar o prepúcio
que uma simples lâmina pica?
15.
Quem não tenta a brincadeira
Não é um bom brincador.
Coisa boa é brincar muito
Seja com qual coisa for.
Mas cuidado pessoal
Não se brinca com o amor!
16.
A brincadeira engrenou
O povo participando
Segurando o pé do verso
e as palavras rimando
O cordel soltando fogo
E a fogueira crepitando!
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