Janeiro, dia 7, noite
A noite em Areia é medieval e nebulosa. O céu é visto em sua profundidade abismal, à noite, raras vezes. Quase sempre desce até nós a névoa, como se o bafo halitoso e fumegante de Deus nos envolvesse em seus mistérios e augúrios. Quando criança, com um velho mapa astronômico, eu tentava encontrar as constelações, como fiz de dentro do aeroplano da TAM. Meu sucesso fora sempre duvidoso, só encontrava brumas.
A noite não é tão somente o céu cintilante. É um todo, é o friozinho, é a esquina, é a praça, é a rua deserta, é algum amigo, em roda, contando piadas e fofocando sobre os erros do divino. Cortei o calçamento e as calçadas areenses, senti a boca de antigos botecos pelos quais perambulei em minha mocidade. Fiz um rosário de minhas lembranças. Procurei Dona Nazaré e Betila, Basto do Bar, o bar de Caju e de Mané Bidão. Lugares nos quais ensaiava algumas notas numa viola sem rumo.
O Bar do Buda foi o único no qual ouvi ópera ao ocaso de um sol brejeiro. O Buda, sofreu um infarto fulminante enquanto servia sarapatel a uns estudantes da Escola de Agronomia. Passei em frente ao antigo Bar Chaminé, reduto dos intelectuais, o preferido dos artistas durante os antigos festivais de arte da cidade. Hoje é uma sucursal da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais recente, o Bar Magia era o point da cidade. Era uma bar pequeno, enorme para nós leitores e subversores, boa música, todavia conservador radical, não se podia pendurar nada, fiado jamais, mesmo porque com a nossa escassez de recursos seria difícil saldar penduras.
Mas falávamos da noite e sua mística. A noite de Areia é a noite do mundo, todos os fetos dormem em paz, todos os afetos estão adormecidos e os desafetos tramam seus ardis. É a mesma noite de outras noites. O quarto da pensão de Fleuriza, onde ficamos, abria sua janela para o vale imensurável no qual o vento semeava seus uivos e adornava os corações de antigas lembranças de malassombros. A noite é boa para dormir, a noite é boa para sonhar, a noite é boa e o sol, na luta contra o nevoeiro, chega devagar, sonolento e só se firma pelas dez da manhã. A noite cobriu a cidade com um véu de esquecimento e óbito.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
Diário das férias, 3
Janeiro, dia 7, tarde
O centro da cidade de Areia não é bem um centro. É uma rua estreita equilibrando-se sobre abismos. Um traço, corda-bamba sobre o incandescente espinhaço da serra. Dali, ela desce em tentáculos pelas encostas. Capilares perdendo-se nos vales, nos quais infalivelmente há um olho d'água. O marco talvez seja o obelisco da praça da antiga prefeitura, agora restaurada com seus azulejos desenhados. E meus filhos estavam ali. Vi-os da janela do ônibus e da janela fez-se um retrospecto imagético por alguns segundos, cada um deles, três, não eram mais que bebês e já se passaram dezesseis anos do mais velho, quatorze da do meio e treze do caçula.
O centro da cidade de Areia não é bem um centro. É uma rua estreita equilibrando-se sobre abismos. Um traço, corda-bamba sobre o incandescente espinhaço da serra. Dali, ela desce em tentáculos pelas encostas. Capilares perdendo-se nos vales, nos quais infalivelmente há um olho d'água. O marco talvez seja o obelisco da praça da antiga prefeitura, agora restaurada com seus azulejos desenhados. E meus filhos estavam ali. Vi-os da janela do ônibus e da janela fez-se um retrospecto imagético por alguns segundos, cada um deles, três, não eram mais que bebês e já se passaram dezesseis anos do mais velho, quatorze da do meio e treze do caçula.
sábado, 11 de fevereiro de 2006
Diário das férias, 2
Janeiro, dia 7
Algumas sombras viajaram de muito longe para dentro de minha noite. Marcamos um encontro naquela cela. Instalaram-se entre nós três, na pequena cama na qual buscamos algum repouso. Se não repousa o mar, eu era o mar. Vozes e seus ecos, fantasmas e seus passos, lugares e seus encantos, os desencantos de alguns lugares, os lugares comuns. Sons e música, pessoas e aromas, cabelos e afagos, crentes e dementes, bêbados e ébrios, sóbrios e serenos, sereno e orvalho e um filete de paz e um alfinete de guerra e a linha tortuosa com as palavras escritas por um deus analfabeto, ou um alfabeto sem deus.
Analice e Bertrand, os arautos do sol e da brisa, saudaram-me como a um odisseu, repleto de cicatrizes. Naquele primeiro dia fui um ciclope caolho, os olhos resumiram-se no centro da testa, e esta refugiara-se na caverna medonha do meu sotaque inalterado. Um café perplexo, um amplexo, procurando nos pés um nexo, no coração um anexo, um desconexo dançarino de street dance, a dança dos salões. A mala azul, enorme. O mar verde, amorfo.
O caminho, a estrada, a BR, para Areia, é a via das maravilhas. As paisagens agem e ardem em eco. Quais mãos trabalharam na confecção desse origami? A planície sem fim, cada casinha perdida ao lado de um cajueiro. Estradas de terra vicinais, plantações de abacaxis, um pedaço da mata atlântica. Uma árvore de Natal trabalhada na horizontal. Barraquinhas de frutas e seus sitiantes, cabeças de gado, Café do Vento (nome poético escondendo a bifurcação para Sapé, Mari e Guarabira) e a macaxeira com carne de sol lá no Cajá.
Entrada para Juarez Távora, a rodovia tão estreita e sinuosa como a pedra de São Sebastião, rios secos, açudes petrificados nos portões milenares do brejo. Vai assim até Alagoa Grande, a cidade quente, no sopé da Serra da Borborema. Uma nuvem de gafanhotos pousou em meu corpo: cadê a Lagoa do Paó? Diluiu-se entre as alimárias ou foi sorvida pela fenda de Sumatra, num choque de placas tectônicas? A resposta cruel me foi oferecida na antiga ponte levada pelo estouro da barragem, represa de Camará. Quase dois anos sem ser reconstruída. O paradoxo da ilha em terra. Haverá inseticida para essa peste?
Come-se muita poeira no atalho para o asfalto. Nele, depois da reta por entre o canavial a brotar, a curva fechada para a encosta serpeante, subida para a Vila Real do Brejo de Areia. Um feto de alegria é um embrião de confetes. Uma pedra, uma árvore, um bambu, todos são totens dos meus verdes anos, de minhas aventuras, dos meus insucessos com as mulheres, dos meus sucessos com o fracasso. É uma armadilha atrás da outra até a entrada da Célula Mater da Inteligência paraibana, a maior das armadilhas.
Da subida, a visão medieval do Convento das Irmãs Franciscanas, suas altas paredes e suas profundas fundações. O totalitarismo cristão e a educação caminham sabiamente de mãos dadas e bocas fechadas. As pedras têm cor e cheiro de sangue, a argamassa tem peso e imagem de esperança. Areia criou-se conservadora e escravocrata, imortalizou-se como vanguardista e abolicionista, permanece perplexa e parada sem compreender o seu destino.
Algumas sombras viajaram de muito longe para dentro de minha noite. Marcamos um encontro naquela cela. Instalaram-se entre nós três, na pequena cama na qual buscamos algum repouso. Se não repousa o mar, eu era o mar. Vozes e seus ecos, fantasmas e seus passos, lugares e seus encantos, os desencantos de alguns lugares, os lugares comuns. Sons e música, pessoas e aromas, cabelos e afagos, crentes e dementes, bêbados e ébrios, sóbrios e serenos, sereno e orvalho e um filete de paz e um alfinete de guerra e a linha tortuosa com as palavras escritas por um deus analfabeto, ou um alfabeto sem deus.
Analice e Bertrand, os arautos do sol e da brisa, saudaram-me como a um odisseu, repleto de cicatrizes. Naquele primeiro dia fui um ciclope caolho, os olhos resumiram-se no centro da testa, e esta refugiara-se na caverna medonha do meu sotaque inalterado. Um café perplexo, um amplexo, procurando nos pés um nexo, no coração um anexo, um desconexo dançarino de street dance, a dança dos salões. A mala azul, enorme. O mar verde, amorfo.
O caminho, a estrada, a BR, para Areia, é a via das maravilhas. As paisagens agem e ardem em eco. Quais mãos trabalharam na confecção desse origami? A planície sem fim, cada casinha perdida ao lado de um cajueiro. Estradas de terra vicinais, plantações de abacaxis, um pedaço da mata atlântica. Uma árvore de Natal trabalhada na horizontal. Barraquinhas de frutas e seus sitiantes, cabeças de gado, Café do Vento (nome poético escondendo a bifurcação para Sapé, Mari e Guarabira) e a macaxeira com carne de sol lá no Cajá.
Entrada para Juarez Távora, a rodovia tão estreita e sinuosa como a pedra de São Sebastião, rios secos, açudes petrificados nos portões milenares do brejo. Vai assim até Alagoa Grande, a cidade quente, no sopé da Serra da Borborema. Uma nuvem de gafanhotos pousou em meu corpo: cadê a Lagoa do Paó? Diluiu-se entre as alimárias ou foi sorvida pela fenda de Sumatra, num choque de placas tectônicas? A resposta cruel me foi oferecida na antiga ponte levada pelo estouro da barragem, represa de Camará. Quase dois anos sem ser reconstruída. O paradoxo da ilha em terra. Haverá inseticida para essa peste?
Come-se muita poeira no atalho para o asfalto. Nele, depois da reta por entre o canavial a brotar, a curva fechada para a encosta serpeante, subida para a Vila Real do Brejo de Areia. Um feto de alegria é um embrião de confetes. Uma pedra, uma árvore, um bambu, todos são totens dos meus verdes anos, de minhas aventuras, dos meus insucessos com as mulheres, dos meus sucessos com o fracasso. É uma armadilha atrás da outra até a entrada da Célula Mater da Inteligência paraibana, a maior das armadilhas.
Da subida, a visão medieval do Convento das Irmãs Franciscanas, suas altas paredes e suas profundas fundações. O totalitarismo cristão e a educação caminham sabiamente de mãos dadas e bocas fechadas. As pedras têm cor e cheiro de sangue, a argamassa tem peso e imagem de esperança. Areia criou-se conservadora e escravocrata, imortalizou-se como vanguardista e abolicionista, permanece perplexa e parada sem compreender o seu destino.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006
Diário das férias
Janeiro, dia 6
Embarquei em um dos velhos e temidos aviões da TAM. Fui para o Nordeste: João Pessoa. Escala e conexão em Recife. A chuva caíra sobre o Rio durante toda a semana. Mas acima das nuvens escondia-se a imensidão. O profundo e bordado espaço sideral, com seus sóis, estrelas, planetas e satélites artificiais, uma estação orbital e a Lua invisivel.
Foi a primeira viagem de Luiza. Dormiu pouco e certamente não sofreu as sensações que eu sofri. Minha esposa, acostumada aos solavancos aéreos, cansada, buscava refúgio por trás dos óculos e eu brasa acesa na noite do bólide, navegando o espaço, com espaços imensos por dentro e por fora. Janelinha aberta, contei estrelas, apontei constelações e outros corpos precipitados pela estrada de nada, ou de vento, ou de nuvens, ou de breu.
Aos 10 mil metros subindo não existe esperança, só ansiedade. Nada é parâmetro para nada, entretanto ainda pude pensar na beleza acima e abaixo. Não existia ali nem céu, nem terra. Muito baixo para estar no céu e muito alto para estar na terra. Estávamos, suponho, no horizonte. E acreditei ver constelações abaixo, luzes de cidades que nem sei quais: rios de lava, estrelas-do-mar, crocodilos e polvos, desenhos luminosos e explosões.
E acreditei ver constelações acima: sagitário, o cruzeiro do sul, ursa maior, as três marias ou o cinturão de órion. É, eu estava com medo. Para onde iria correndo minha sombra naquele cavalo de eletricidade, como perguntaria Augusto. O homem fragmentado da pós-modernidade já não voa. O homem sequestrado nos bolsões periféricos da miséria urbana, também não. O homem romântico e seu fantasma teima em olhar para o lado e flagrar alguém a fitá-lo. Alguém que se solidarize com seus pensamentos.
Mas a mulher, com sua pele negra, com sua boca doce, com sua mão afável e com olhos dormitando, perde-se dentro do seu próprio vôo, de sua própria noite, de seu próprio destino. Seu coração, dentro da nave, àquela hora, pertencia a outro deus, talvez Morfeu, talvez Tupã, talvez Odin ou Iemanjá. 03:00h: bem-vindos a João Pessoa, tempo bom, temperatura amena e R$ 55,00 de taxi atá o Pouso das Águas, na praia de Cabo Branco.
Embarquei em um dos velhos e temidos aviões da TAM. Fui para o Nordeste: João Pessoa. Escala e conexão em Recife. A chuva caíra sobre o Rio durante toda a semana. Mas acima das nuvens escondia-se a imensidão. O profundo e bordado espaço sideral, com seus sóis, estrelas, planetas e satélites artificiais, uma estação orbital e a Lua invisivel.
Foi a primeira viagem de Luiza. Dormiu pouco e certamente não sofreu as sensações que eu sofri. Minha esposa, acostumada aos solavancos aéreos, cansada, buscava refúgio por trás dos óculos e eu brasa acesa na noite do bólide, navegando o espaço, com espaços imensos por dentro e por fora. Janelinha aberta, contei estrelas, apontei constelações e outros corpos precipitados pela estrada de nada, ou de vento, ou de nuvens, ou de breu.
Aos 10 mil metros subindo não existe esperança, só ansiedade. Nada é parâmetro para nada, entretanto ainda pude pensar na beleza acima e abaixo. Não existia ali nem céu, nem terra. Muito baixo para estar no céu e muito alto para estar na terra. Estávamos, suponho, no horizonte. E acreditei ver constelações abaixo, luzes de cidades que nem sei quais: rios de lava, estrelas-do-mar, crocodilos e polvos, desenhos luminosos e explosões.
E acreditei ver constelações acima: sagitário, o cruzeiro do sul, ursa maior, as três marias ou o cinturão de órion. É, eu estava com medo. Para onde iria correndo minha sombra naquele cavalo de eletricidade, como perguntaria Augusto. O homem fragmentado da pós-modernidade já não voa. O homem sequestrado nos bolsões periféricos da miséria urbana, também não. O homem romântico e seu fantasma teima em olhar para o lado e flagrar alguém a fitá-lo. Alguém que se solidarize com seus pensamentos.
Mas a mulher, com sua pele negra, com sua boca doce, com sua mão afável e com olhos dormitando, perde-se dentro do seu próprio vôo, de sua própria noite, de seu próprio destino. Seu coração, dentro da nave, àquela hora, pertencia a outro deus, talvez Morfeu, talvez Tupã, talvez Odin ou Iemanjá. 03:00h: bem-vindos a João Pessoa, tempo bom, temperatura amena e R$ 55,00 de taxi atá o Pouso das Águas, na praia de Cabo Branco.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2005
Fim de ano
Sob a luz dos olhares estrangeiros
O menino Aderaldo se esquiva
A pupila em seu olho é diamante
Mesmo opaca se vê que está ativa
Todo o corpo é o olho que, brilhante,
Ilumina as veredas, chama viva.
Sua voz é cabeça de aríete
Represada que já não se contém
Os dormentes não sustentam seu trilho
Nem suportam as rodas de seu trem
Se a sua pupila excede em brilho
Não se sabe a origem desse bem.
O menino Aderaldo se esquiva
A pupila em seu olho é diamante
Mesmo opaca se vê que está ativa
Todo o corpo é o olho que, brilhante,
Ilumina as veredas, chama viva.
Sua voz é cabeça de aríete
Represada que já não se contém
Os dormentes não sustentam seu trilho
Nem suportam as rodas de seu trem
Se a sua pupila excede em brilho
Não se sabe a origem desse bem.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2005
A lembrança ou O Natal é possível?
Era noite de Natal e eu, exilado poeta faminto, empreendi minha pequena jornada. Não havia qualquer lugar específico para chegar. Eu procurava tão somente um onde, fosse marquise, degrau ou porta para recostar a cabeça e descansar daqueles dias fatigantes, desesperados, de solidão e medo. Naquela noite eu não tinha mais casa. Minha noite primeira na rua, meu batismo sob as estrelas.
A Cidade Maravilhosa havia me presenteado com coisas muito boas. Trabalho e guarida. Abrira seus imensos braços e abraços. Agora, entretanto, tudo se perdera, fluira, escorrera por entre meus inábeis dedos e fugira como um crocodilo amarelo pela imensidão subterrânea de seus esgotos.
Eu caminhava olhando para os lados e para trás, nunca para a frente. Ruas iluminadas, sons pelos bares, pessoas em suas casas sorrindo e se abraçando, envolvidas numa aura tênue, embalada pela emoção de uma cerveja ou um gole de espumante. Percebi olhares vivos, corpos bailando, carregados por invisíveis guindastes de ânimo. Algum namorado, encostado num carro, beijava sua amada com ternura e crianças disputavam doces em correria de inocente vida.
Um movimento acontecia comigo. Aquele caminho me conduzia de volta para dentro de mim. Observava grupos de mendigos, conversando alegres, bebendo aguardente, fumando um cigarro, partilhando sobras de algum restaurante e uma fogueira. Repartiam em latas sua comida. Bebiam do mesmo copo. Ali, na roda comensal, talvez não pensassem em suas vidas individuais, mas na vida de todos, no destino comum de todos os homens.
Resolvi ir pela areia da praia e já estava quase cansado. Não encontrara um lugar. Todos os bancos de praça estavam ocupados. A praia era um bom lugar. Aqui e acolá grupos estavam reunidos em círculo, cantando. Casais sentados lado a lado trocavam olhares e carícias. Um homem com um cão. Uma senhora com crianças e o profundo mar testemunhando a vida.
Dentro de mim fui encontrando pessoas desaparecidas. A Rua do Bode estava ali reunida em uma enorme mesa de Natal. Participei daquela primeira e única ceia interior. Era muita gente e cada um havia levado sua contribuição. Uma enorme árvore de Natal, com presentes depositados em seus pés, piscava como um imenso olho mágico. Meu primeiro dia de encontro com os pesados grilhões da dor. O mar invadiu-me os olhos. Aquele salgado sabor. Salgado saber.
Ora, ora! O amor não foi inventado por sacerdotes ou xamãs em seus transes, fraudulentos ou não. Não é criação literária reunida em alguma antologia de Natal. Moisés não nos trouxe o amor, nem Buda o revelou. Sim, porque o amor não é criação, criatura. O amor é o criador. O amor é o destino comum dos homens. É uma jornada para a cama macia. É o imutável olhar da vida.
Cada passo trocado naquela noite foi uma experiência esotérica, uma vivência exotérica, a dialética intersecção dentro/fora. Todos os Natais reúnem-se assim dentro de mim. A noite de Natal, porque o Natal é luz nas trevas. O amor é aquela estrela de Belém apontando o norte de cada um. Meu norte é além. Meu norte e meu Natal.
Reúnem-se em meu cenáculo interior todos os meus antepassados: mamãe, meus sete irmãos adormecidos, meu irmão vivo. Ali estão amigos que há muito não vejo, nem sei seus paradeiros. Ali estão inimigos fantasiosos e fantásticos. Cada pedra-de-fogo da antiga Rua do Bode e cada paralelepídedo que vi sendo colocado. Vejo ali minha primeira namorada. Meu primeiro amigo de verdade, ali. As paisagens e as aventuras. O Rio do Canto, o Engenho de Seu Juju, o Rio Pinturas e a Barragem do Pau-Ferro.
Ali, naquele canto, está o Cine Educativo Municipal e meu primeiro filme abobalhado: Esse pato vale ouro. Vejo Júlio Verne sentado, pensativo. Pedro Américo e Padre Rui, dupla inseparável. O amor é assim como uma dupla inseparável: Cristo e o Natal. O amor é cada migalha lembrada. A soma geral e a prova dos nove de todos os meus erros. O amor é a avalanche provocada pelos meus acertos. A tempestade de minhas buscas.
Lá longe, onde o amor foi aprisionado e não saiu às ruas, há muita dor. Essa verdade me faz acreditar que as verdades às vezes levam aos erros. Minha jornada prossegue. Prossegue comigo. Com minhas encruzilhadas. O Natal é a grande encruzilhada, a bifurcação, o dilema. Para um lado e para o outro: o que fazer? O amor é o Natal, a decisão, a escolha.
Escolhi sentar-me frente ao mar, numa pequena gruta. O amor é essa gruta frente ao grande mar. O Natal, aquele Natal comigo mendicante, é um mar. Espumas das ondas quebrando pertinho, o barulhinho insondável dos seres dialogantes dentro do mar. Dentro de nós, o marulhar das vozes de nossas convicções. O imutável mar. O profundíssimo mar do amor e suas desconfianças e seus ciúmes. O amor não é o monstro do mar.
O amor, como um bom escoteiro, marcou o caminho, iluminou a noite, indicou-me as boas trilhas, alertou-me para os riscos do atalho e trouxe-me a esta gruta. Aqui do lado, enquanto eu tentava descansar, uma senhora sofria toda a noite com dores de parto. Seu homem, um senhor não muito idoso, mas marcado pelo tempo de seus suores, foi sempre prestativo e carinhoso. Ainda a pouco ouvi um choro manso de recém-nascido. Como pode alguém ser tão irresponsável e dar à luz aqui entre esses montes de lixo?
Talvez seja madrugada. Olho para o horizonte e Vênus brilha sobre nossas cabeças. Já ouvi alguma movimentação e algumas pessoas, quem sabe importunadas pelo insistente choro daquele rebento, tenham vindo para reclamar suas queixas de não poderem dormir tranquilas. Esse moleque parece que mexeu com tudo ao redor. O milagre da vida, não é? O galo cantou um canto mais forte, mais gutural e arrastado. Uma vaca e suas crias mugiram em uníssono. Senti o cheiro do café.
Não posso me envolver com essa história. São estranhos, embora mendigos como agora eu sou. Mas há uma força me puxando, ou me jogando, para dar uma olhada naquele outro lá, que nem sabe que nasceu.
Meu Deus, não se parece nada com o pai e, da mãe, traz apenas a cor. Qual o futuro dessa criança? Não pode ser lá muito bom. Mas, fazer o quê? O amor é como esse menino: talvez não tenha origem, nem pedigree, seus pais terrenos não lhes fazem herdar qualquer traço genético, e por isso mesmo, inquieta os vizinhos e faz pensar.
Mas, de verdade, o que é o Natal? Será o Natal o tempo das nossas dúvidas? O covil dos nossos medos? A caverna de nossas trevas?
Ou será o Natal uma margem suspensa para todas as respostas? A mansão espetacular de nossa coragem? O acesso universal de nossas luzes?
Como o Natal, seremos nós anuais e nos renovamos e morremos e ressuscitamos? Nasceremos com Cristo ou a estrebaria dos nossos desesperos nos bastam?
E esses três Reis Magos, porque insistem em nos visitar? Presentes: insenso para purificar e perfumar, mas que, como toda a fumaça, se dissipa e exige mais fogo, mais incenso, vigília? Mirra, o que seria tal erva, se é mesmo erva e não a encontramos pelos mercados, na Pérsia ou em Caruaru? O ouro, para que queremos o ouro? Para comprar? Para guardar? Para adorar?
Esses animais teimosos continuam a nos lamber? Nossos pais velarão por nós? Afinal, nascemos para ser recenseados? O Cristo, aquele pobre Cristo, nasceu durante um recenseamento da população? E nós, a que população pertencemos neste Natal? Aos excluídos, sejam sem-terra, sem-teto, sem-sonho, sem-vergonha, sem-amor, sem-vida, cem condenados... ?
Esta janela não me parece segura. Por ela testemunhamos a morte e as muralhas do Natal. O Natal, para alguns, por trás dos muros, paredes e pisos dos shoppings. O Natal para aqueles que observam o outdoor da mortadela como substituta do peru e não poderão comprá-la.
O Natal é a solidão dos muros dessas imensas carceragens e casas de detenção? O Natal é o Parque do Flamengo, cada ponte, cada bueiro, cada pé-de-escada, barraco? O Natal será formado pelos fogos e pelas nozes desfilando em carros alegóricos e lágrimas na contra-mão da riqueza?
A Cidade Maravilhosa havia me presenteado com coisas muito boas. Trabalho e guarida. Abrira seus imensos braços e abraços. Agora, entretanto, tudo se perdera, fluira, escorrera por entre meus inábeis dedos e fugira como um crocodilo amarelo pela imensidão subterrânea de seus esgotos.
Eu caminhava olhando para os lados e para trás, nunca para a frente. Ruas iluminadas, sons pelos bares, pessoas em suas casas sorrindo e se abraçando, envolvidas numa aura tênue, embalada pela emoção de uma cerveja ou um gole de espumante. Percebi olhares vivos, corpos bailando, carregados por invisíveis guindastes de ânimo. Algum namorado, encostado num carro, beijava sua amada com ternura e crianças disputavam doces em correria de inocente vida.
Um movimento acontecia comigo. Aquele caminho me conduzia de volta para dentro de mim. Observava grupos de mendigos, conversando alegres, bebendo aguardente, fumando um cigarro, partilhando sobras de algum restaurante e uma fogueira. Repartiam em latas sua comida. Bebiam do mesmo copo. Ali, na roda comensal, talvez não pensassem em suas vidas individuais, mas na vida de todos, no destino comum de todos os homens.
Resolvi ir pela areia da praia e já estava quase cansado. Não encontrara um lugar. Todos os bancos de praça estavam ocupados. A praia era um bom lugar. Aqui e acolá grupos estavam reunidos em círculo, cantando. Casais sentados lado a lado trocavam olhares e carícias. Um homem com um cão. Uma senhora com crianças e o profundo mar testemunhando a vida.
Dentro de mim fui encontrando pessoas desaparecidas. A Rua do Bode estava ali reunida em uma enorme mesa de Natal. Participei daquela primeira e única ceia interior. Era muita gente e cada um havia levado sua contribuição. Uma enorme árvore de Natal, com presentes depositados em seus pés, piscava como um imenso olho mágico. Meu primeiro dia de encontro com os pesados grilhões da dor. O mar invadiu-me os olhos. Aquele salgado sabor. Salgado saber.
Ora, ora! O amor não foi inventado por sacerdotes ou xamãs em seus transes, fraudulentos ou não. Não é criação literária reunida em alguma antologia de Natal. Moisés não nos trouxe o amor, nem Buda o revelou. Sim, porque o amor não é criação, criatura. O amor é o criador. O amor é o destino comum dos homens. É uma jornada para a cama macia. É o imutável olhar da vida.
Cada passo trocado naquela noite foi uma experiência esotérica, uma vivência exotérica, a dialética intersecção dentro/fora. Todos os Natais reúnem-se assim dentro de mim. A noite de Natal, porque o Natal é luz nas trevas. O amor é aquela estrela de Belém apontando o norte de cada um. Meu norte é além. Meu norte e meu Natal.
Reúnem-se em meu cenáculo interior todos os meus antepassados: mamãe, meus sete irmãos adormecidos, meu irmão vivo. Ali estão amigos que há muito não vejo, nem sei seus paradeiros. Ali estão inimigos fantasiosos e fantásticos. Cada pedra-de-fogo da antiga Rua do Bode e cada paralelepídedo que vi sendo colocado. Vejo ali minha primeira namorada. Meu primeiro amigo de verdade, ali. As paisagens e as aventuras. O Rio do Canto, o Engenho de Seu Juju, o Rio Pinturas e a Barragem do Pau-Ferro.
Ali, naquele canto, está o Cine Educativo Municipal e meu primeiro filme abobalhado: Esse pato vale ouro. Vejo Júlio Verne sentado, pensativo. Pedro Américo e Padre Rui, dupla inseparável. O amor é assim como uma dupla inseparável: Cristo e o Natal. O amor é cada migalha lembrada. A soma geral e a prova dos nove de todos os meus erros. O amor é a avalanche provocada pelos meus acertos. A tempestade de minhas buscas.
Lá longe, onde o amor foi aprisionado e não saiu às ruas, há muita dor. Essa verdade me faz acreditar que as verdades às vezes levam aos erros. Minha jornada prossegue. Prossegue comigo. Com minhas encruzilhadas. O Natal é a grande encruzilhada, a bifurcação, o dilema. Para um lado e para o outro: o que fazer? O amor é o Natal, a decisão, a escolha.
Escolhi sentar-me frente ao mar, numa pequena gruta. O amor é essa gruta frente ao grande mar. O Natal, aquele Natal comigo mendicante, é um mar. Espumas das ondas quebrando pertinho, o barulhinho insondável dos seres dialogantes dentro do mar. Dentro de nós, o marulhar das vozes de nossas convicções. O imutável mar. O profundíssimo mar do amor e suas desconfianças e seus ciúmes. O amor não é o monstro do mar.
O amor, como um bom escoteiro, marcou o caminho, iluminou a noite, indicou-me as boas trilhas, alertou-me para os riscos do atalho e trouxe-me a esta gruta. Aqui do lado, enquanto eu tentava descansar, uma senhora sofria toda a noite com dores de parto. Seu homem, um senhor não muito idoso, mas marcado pelo tempo de seus suores, foi sempre prestativo e carinhoso. Ainda a pouco ouvi um choro manso de recém-nascido. Como pode alguém ser tão irresponsável e dar à luz aqui entre esses montes de lixo?
Talvez seja madrugada. Olho para o horizonte e Vênus brilha sobre nossas cabeças. Já ouvi alguma movimentação e algumas pessoas, quem sabe importunadas pelo insistente choro daquele rebento, tenham vindo para reclamar suas queixas de não poderem dormir tranquilas. Esse moleque parece que mexeu com tudo ao redor. O milagre da vida, não é? O galo cantou um canto mais forte, mais gutural e arrastado. Uma vaca e suas crias mugiram em uníssono. Senti o cheiro do café.
Não posso me envolver com essa história. São estranhos, embora mendigos como agora eu sou. Mas há uma força me puxando, ou me jogando, para dar uma olhada naquele outro lá, que nem sabe que nasceu.
Meu Deus, não se parece nada com o pai e, da mãe, traz apenas a cor. Qual o futuro dessa criança? Não pode ser lá muito bom. Mas, fazer o quê? O amor é como esse menino: talvez não tenha origem, nem pedigree, seus pais terrenos não lhes fazem herdar qualquer traço genético, e por isso mesmo, inquieta os vizinhos e faz pensar.
Mas, de verdade, o que é o Natal? Será o Natal o tempo das nossas dúvidas? O covil dos nossos medos? A caverna de nossas trevas?
Ou será o Natal uma margem suspensa para todas as respostas? A mansão espetacular de nossa coragem? O acesso universal de nossas luzes?
Como o Natal, seremos nós anuais e nos renovamos e morremos e ressuscitamos? Nasceremos com Cristo ou a estrebaria dos nossos desesperos nos bastam?
E esses três Reis Magos, porque insistem em nos visitar? Presentes: insenso para purificar e perfumar, mas que, como toda a fumaça, se dissipa e exige mais fogo, mais incenso, vigília? Mirra, o que seria tal erva, se é mesmo erva e não a encontramos pelos mercados, na Pérsia ou em Caruaru? O ouro, para que queremos o ouro? Para comprar? Para guardar? Para adorar?
Esses animais teimosos continuam a nos lamber? Nossos pais velarão por nós? Afinal, nascemos para ser recenseados? O Cristo, aquele pobre Cristo, nasceu durante um recenseamento da população? E nós, a que população pertencemos neste Natal? Aos excluídos, sejam sem-terra, sem-teto, sem-sonho, sem-vergonha, sem-amor, sem-vida, cem condenados... ?
Esta janela não me parece segura. Por ela testemunhamos a morte e as muralhas do Natal. O Natal, para alguns, por trás dos muros, paredes e pisos dos shoppings. O Natal para aqueles que observam o outdoor da mortadela como substituta do peru e não poderão comprá-la.
O Natal é a solidão dos muros dessas imensas carceragens e casas de detenção? O Natal é o Parque do Flamengo, cada ponte, cada bueiro, cada pé-de-escada, barraco? O Natal será formado pelos fogos e pelas nozes desfilando em carros alegóricos e lágrimas na contra-mão da riqueza?
Literatura de Cordel: um ícone nordestino
Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — ... Mas Deus está de que lado?
Canudos, como está n"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.
O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.
O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”
O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.
Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.
Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.
Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.
Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal em folhetos de oito páginas se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.
Canudos, como está n"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.
O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.
O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”
O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.
Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.
Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.
Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.
Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal em folhetos de oito páginas se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.
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