A banda paraibana Cabruêra desceu ao sul e instalou-se no Rio de Janeiro em setembro de 2001. Lá, fundou a Cabrahouse, primeiro em Copacabana, depois em Santa Teresa, tradicional bairro de artistas. Ao chegar, debutou na TVE e lançou disco no palco da resistência cultural carioca, o Teatro Rival, e assim seguiu arrebanhando um cordão de adoradores. Zé Guilherme, o Munganzé, um dos melhores percussionistas do Brasil, um dos pilares da Cabruêra, vindo aqui em casa, incitou-me a explicar a origem do termo “forró” para uma oficina de percussão no Festival de Inverno de São João del Rey, em Minas Gerais, onde a banda tocaria.
Pois bem. Discutíamos a gênese da palavra a partir de duas explicações para o que se passou a chamar de forró. A primeira está ligada à construção da malha ferroviária no interior de Pernambuco por engenheiros ingleses que, em suas horas de folga, patrocinavam pequenas rodas nas quais a liberdade, municiada pelo consumo de álcool, pontuou a descontração e a dança. Essas rodas eram “for all”, para todos, no idioma nativo dos ingleses. Daí a pronúncia aberta “forró”. Sem registro que legitime tal origem, fica-se no âmbito da lenda.
A segunda é apresentada pelo folclorista Rodrigues de Carvalho, em seu Cancioneiro do Norte de 1903, aponta uma associação entre forró e forrobodó, festa popular das pontas de rua, baile popular aberto para toda a população pobre. Câmara Cascudo registra a mesma origem fazendo um levantamento da aparição do termo desde 1833, para encontrar um variante datada de 1952, num semanário chamado A Lanceta, sem indicação de local. O termo é forrobodança, uma espécie de dança chula popular.
Acredito que essas duas teses sejam insuficientes, mesmo porque fica difícil determinar data para surgimento de qualquer palavra. Respeitando a pesquisa, talento e autoridade dos dois folcloristas, lanço uma terceira via. Quero aproximar o termo português forró, ao termo árabe alforria, liberdade dada aos escravos. Quando um destes era alforriado a palavra “fôrro” servia-lhe de epíteto, recebendo, inclusive um par de sapatos, se para dançar, não sabemos. Elomar, em sua cantiga O Violeiro, canta “Deus fez os home e os bicho tudo fôrro...”. De forria para fôrro, de fôrro para forró, celebração da liberdade, da quebra do jugo e dos grilhões. Não é isso que o forró faz?
Os testemunhos populares na diferenciação entre as festas de São João, festa popular, marca indelével das tradições nordestinas, e Natal, tradição européia, servem de esteio para minha tese. Enquanto a festa de Natal é descrita como uma festa formal, o São João prega a liberdade, é festa livre e comunitária, não requer roupa nova, nem champanhe para comemorar. E todas as classes e raças são chamadas ao arrasta-pé, criando um valor fundamental para a miscigenação de raças e culturas, no dizer de Darcy Ribeiro, e imprescindível para a construção do humanismo, segundo Jorge Amado.
Gonzaga e Jackson
O que nos interessa, também, é a divulgação desse ritmo propagada pelo pioneiro Luiz Gonzaga, primeiro nordestino a assumir compromisso com esse suposto novo estilo musical, depois de fazer o caminho do sul. Falar de Gonzaga é repetir-se, sempre. Sua história e sua vida estão na boca do povo e dos artistas, transformado em ícone institucional na etno-musicalidade brasileira. Muito embora construindo uma realidade folclórica do Nordeste, com seus vaqueiros e cangaceiros, plantou a semente da música popular regional nordestina em todo o Brasil. Asa Branca transformando-se na bandeira, estandarte dessa visão.
Gonzaga sofre, entretanto, críticas oriundas de um outro mito: Jackson do Pandeiro. O ritmista paraibano apregoava que o baião originou-se do coco e que o feito do Rei do Baião não passava de um novo invólucro para um velho ritmo. Zé Guilherme me diz que o jornalista Rômulo Azevêdo, de Campina Grande, numa tentativa de conciliação entre os pilares formadores do forró, um paraibano e o outro pernambucano, defende o império imaginário de Parabuco, um híbrido situado entre Caruaru, a capital do forró, e Campina Grande, terra do maior São João do Mundo. Essa, talvez seja a melhor opção, o lúdico, a criatividade, a liberdade, a alforria
segunda-feira, 26 de dezembro de 2005
quinta-feira, 8 de dezembro de 2005
O decálogo
Enquanto o CHU 3622 corta a Avenida Brasil, ao lado dessa mulher, sinto os arrepios provocados por cada palavra sua. O frio, amigo desses abalos, é fortalecido pela temperatura exterior. A tensão da noite mal atravessada me acompanha e meus olhos temem olhar para o lado. Os confusos pensamentos me enervam. Consigo retirar, porém, ileso, o meu decálogo, do meio destes escombros em que se transforma, a cada discussão, meu universo. Começo a lê-lo:
1. Acredito no amor. Este amor que não é apenas belo, forte e tudo suporta. Acredito no amor onde (o amor é um espaço) o lado humano pobre vem à tona, na revelação do vil e do hediondo e na superação deles todos. A minha banda podre me acompanha onde quer que eu vá. O meu amor tem que revelá-la à minha amada. Acredito, também, no amor débil, abalado e temeroso, fruto das histórias e do histórico de cada um. E cada vez mais tendo a acreditar que, assim como os ombros, o amor não suporta tudo.
2. Acredito no amor. Este amor que não se mede pelo tamanho dos presentes que recebo ou que oferto. Cuja métrica vai além do que vejo e do que sinto. O amor que briga, mas não desaquece, que entorna o caldo sem quebrar a tijela, que faz cair o pão, mas proteje a margarina, que faz dormir separado e não desarruma a cama, que pode até cancelar um toque, mas conserva o abraço.
3. Acredito no amor. Este inveterado amor das indecências. O amor dos impropérios e das loucuras. O amor que espera a amada com uma pedra na mão para arremessar contra o pára-brisa. O amor que diz transformar a vida do amado num inferno. O amor que entra numa discussão pela madrugada. O amor que fecha a casa, desliga o celular, escreve um epílogo, rasga um cartão, vai dormir no chão e ameaça ir embora.
4. Acredito no amor. Esse amor que faz o casamento. Que leva duas pessoas ao altar, ao juiz, à polícia, ao mesmo teto, embora todos digam, e a vida prove, que isso não dá certo. O amor dos enganos e dos desenganos, das ilusões e desilusões, da fé e da descrença, dos contraditórios querer e mal-querer.
5. Acredito no amor. Este amor que abdica dos cinco seguintes pontos do decálogo e oferta a lacuna para que a amada os escreva e partilhe a vida, construa a casa e pense na decoração, lave a roupa e solicite ajuda para estendê-la, faça o arroz e apregoe os males da farofinha, peça um leitinho sem estar muito quente, coma um pão com passas e zombe do passado, acredite no futuro e vá ao shopping comprar presente, queira ter filhos sem amar a gestação e o parto, vá ao dentista e procure os dentes de alho.
1. Acredito no amor. Este amor que não é apenas belo, forte e tudo suporta. Acredito no amor onde (o amor é um espaço) o lado humano pobre vem à tona, na revelação do vil e do hediondo e na superação deles todos. A minha banda podre me acompanha onde quer que eu vá. O meu amor tem que revelá-la à minha amada. Acredito, também, no amor débil, abalado e temeroso, fruto das histórias e do histórico de cada um. E cada vez mais tendo a acreditar que, assim como os ombros, o amor não suporta tudo.
2. Acredito no amor. Este amor que não se mede pelo tamanho dos presentes que recebo ou que oferto. Cuja métrica vai além do que vejo e do que sinto. O amor que briga, mas não desaquece, que entorna o caldo sem quebrar a tijela, que faz cair o pão, mas proteje a margarina, que faz dormir separado e não desarruma a cama, que pode até cancelar um toque, mas conserva o abraço.
3. Acredito no amor. Este inveterado amor das indecências. O amor dos impropérios e das loucuras. O amor que espera a amada com uma pedra na mão para arremessar contra o pára-brisa. O amor que diz transformar a vida do amado num inferno. O amor que entra numa discussão pela madrugada. O amor que fecha a casa, desliga o celular, escreve um epílogo, rasga um cartão, vai dormir no chão e ameaça ir embora.
4. Acredito no amor. Esse amor que faz o casamento. Que leva duas pessoas ao altar, ao juiz, à polícia, ao mesmo teto, embora todos digam, e a vida prove, que isso não dá certo. O amor dos enganos e dos desenganos, das ilusões e desilusões, da fé e da descrença, dos contraditórios querer e mal-querer.
5. Acredito no amor. Este amor que abdica dos cinco seguintes pontos do decálogo e oferta a lacuna para que a amada os escreva e partilhe a vida, construa a casa e pense na decoração, lave a roupa e solicite ajuda para estendê-la, faça o arroz e apregoe os males da farofinha, peça um leitinho sem estar muito quente, coma um pão com passas e zombe do passado, acredite no futuro e vá ao shopping comprar presente, queira ter filhos sem amar a gestação e o parto, vá ao dentista e procure os dentes de alho.
quarta-feira, 23 de novembro de 2005
Nem só de pão vive o homem
1. Olho para trás, por sobre os ombros, e contemplo, ruminando, a carga desses últimos anos. Escrevi, certa vez, estar recolhendo as folhas de minha pequena árvore. Escrevo, agora, recolher os frutos da árvore, tantas e tantas vezes replantada, tantas e tantas vezes agredida e tantas e tantas vezes reavivada: a árvore dos meus princípios, a árvore da minha vida, minha Árvore de Esmeralda.
2. Embora a lágrima escorra-me pelo rosto, um sorriso me adorna a face e um brilho, a luz do meu Caminho, se posta meio às minhas nuvens, abre as pedras da inundação e eleva as águas do deserto. Mas o que quero gritar às águas turvas do Mar Vermelho? O que pretendo fazer com o embornal tão bem recomendado pelos chefes de minha missão? Quem me livrará dos dilemas e das bifurcações, dos medos e dos pesadelos, das serpentes e das bestas insanas, dos crocodilos habitantes de minha alma e dos malfadados anjos das minhas decepções?
3. Guiar-me, eu e meu povo, legião de antepassados no mundo espiritual, descendentes neste mundo visível, irmãos em espírito e carne e esta menina negra, minha razão e emoção, pelas veredas do sertão mais profundo, com seus esconderijos, cavernas, mandacarus, cacimbas envenenadas e rios caudalosos: eis minha tarefa. Um cajado, miopia, pés errantes, mãos atrevidas, boca senhora: minha balística.
4. Imprensado contra as rochas, esmagado pelas intempéries, não me afasto do meu alicerce. Não temo a dor (se preciso for), o ódio (se preciso for), o amor (se não for preciso), a precisão (certeira e precisa) da dor de nunca mais poder cantar, do ódio dos que não acreditam no amor, do amor em sua versão mais profunda.
5. Preciso da dor, sim, em meu caminho. Ela me ensina a não furar meus pés, nem os outros corações. Ensina-me a deixar-me furar os olhos e a humilhar-me face à humildade. É a dor que me faz dar saltos para a eternidade.
6. Preciso do ódio, sim, em minha estrada. Ele me ensina quão vil sentimento o é. Me ensina a edificar a Grande Muralha do meu coração, para barrar sua entrada e suas investidas. É o ódio dos homens que me faz ser Homem, que me faz Ser, que me Faz.
7. Preciso do amor. Preciso do Amor. Preciso do AMOR. Do amor da mulher e do seu afeto, do seu corpo, da sua fúria (malcriada fúria). Do Amor dos vivos (enquanto não existam mortos), dos seus sons e silêncios, da sua alteridade. Do AMOR de Deus, o misericordioso, o fiel, o compassivo, habitando as altas esferas, os misteriosos corações astrais (etéreos) e sua pitada, feita sopro, dando vida.
2. Embora a lágrima escorra-me pelo rosto, um sorriso me adorna a face e um brilho, a luz do meu Caminho, se posta meio às minhas nuvens, abre as pedras da inundação e eleva as águas do deserto. Mas o que quero gritar às águas turvas do Mar Vermelho? O que pretendo fazer com o embornal tão bem recomendado pelos chefes de minha missão? Quem me livrará dos dilemas e das bifurcações, dos medos e dos pesadelos, das serpentes e das bestas insanas, dos crocodilos habitantes de minha alma e dos malfadados anjos das minhas decepções?
3. Guiar-me, eu e meu povo, legião de antepassados no mundo espiritual, descendentes neste mundo visível, irmãos em espírito e carne e esta menina negra, minha razão e emoção, pelas veredas do sertão mais profundo, com seus esconderijos, cavernas, mandacarus, cacimbas envenenadas e rios caudalosos: eis minha tarefa. Um cajado, miopia, pés errantes, mãos atrevidas, boca senhora: minha balística.
4. Imprensado contra as rochas, esmagado pelas intempéries, não me afasto do meu alicerce. Não temo a dor (se preciso for), o ódio (se preciso for), o amor (se não for preciso), a precisão (certeira e precisa) da dor de nunca mais poder cantar, do ódio dos que não acreditam no amor, do amor em sua versão mais profunda.
5. Preciso da dor, sim, em meu caminho. Ela me ensina a não furar meus pés, nem os outros corações. Ensina-me a deixar-me furar os olhos e a humilhar-me face à humildade. É a dor que me faz dar saltos para a eternidade.
6. Preciso do ódio, sim, em minha estrada. Ele me ensina quão vil sentimento o é. Me ensina a edificar a Grande Muralha do meu coração, para barrar sua entrada e suas investidas. É o ódio dos homens que me faz ser Homem, que me faz Ser, que me Faz.
7. Preciso do amor. Preciso do Amor. Preciso do AMOR. Do amor da mulher e do seu afeto, do seu corpo, da sua fúria (malcriada fúria). Do Amor dos vivos (enquanto não existam mortos), dos seus sons e silêncios, da sua alteridade. Do AMOR de Deus, o misericordioso, o fiel, o compassivo, habitando as altas esferas, os misteriosos corações astrais (etéreos) e sua pitada, feita sopro, dando vida.
terça-feira, 15 de novembro de 2005
Lobisomem, Nosferatu
Dizem
que em noites de lua cheia
um lobo/homem
perdido
pelas
praças
e
passeios
perambula
e um uivo canto lamento
ele solta
— Chapeuzinho, não mate o bicho. Talvez ele se salve de tal maldição.
que em noites de lua cheia
um lobo/homem
perdido
pelas
praças
e
passeios
perambula
e um uivo canto lamento
ele solta
— Chapeuzinho, não mate o bicho. Talvez ele se salve de tal maldição.
quarta-feira, 9 de novembro de 2005
segunda-feira, 7 de novembro de 2005
O rinoceronte
Reflito: — Há uma dor agora viva. Uma dor sem lugar nas estantes dos meus medos. Recebi um rinoceronte de presente e descobri que o feitiço-fechadura do meu corpo perdeu o efeito. O amor em mim é um rinoceronte. Uma fera aparentemente brava, agressiva, dura e imbatível. E foi assim: atacou-me, chifrou-me, derribou-me. Meu corpo fechado, ilusão infantil, sangrou pelos poros. A fera dentro de mim, tão viva e tão sem controle. O rinoceronte não se adaptava a seu novo habitat: um esturricante deserto, uma paisagem onde a vida a custa de muita insistência, floria tímida e rara. O meu amor/rinoceronte cavava a areia mórbida. Nada a encontrar. Poeira, muita poeira. Recebi uma fera de presente. Um presente para os meus atribulados sonhos. Meu corpo fechado era uma fraude.
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
O Auto de Zé Limeira, excertos
1. Uma lembrança
Lembro de dois cantadores
Em peleja acelerada
Como dois troncos serrados
Vertendo seiva encarnada
Debulhando suas rimas
Com plainas, lixas e limas
Numa tarde ensangüentada
O mote deveras rico
Serviçal de vida inteira
Tratava de um cantador
Que se chamou Zé Limeira
E foi o mestre entre os mestres
Com versos nada rupestres
Em construções de primeira
Recordo até minha idade:
Perto da troca de dentes.
Olhando aquelas estátuas
Com vozes tão estridentes
Arremessando seus dotes
Como pesados lingotes
Nos ouvidos dos presentes
Não esqueci um só verso
Passados já tantos anos
Ofereço o testemunho
Bem antes que os desenganos
Da velhice traiçoeira
Armem sua ratoeira
Por dentro dos meus arcanos
2. A terra aos mortos
— No sertão, sob o sol da Borborema.
Numa terra regada a pedra e osso
O lagarto equilibra seu pescoço
Com a cauda apontando a parte extrema
O seu corpo parece um teorema
De incógnitas perdidas na paisagem
Há um corte suspenso nessa imagem
Vertical, fura o Jabre as nuvens raras.
Batizado nas águas do Espinharas
Zé Limeira parece uma visagem.
— Apesar de sertão o clima é frio
Frio e seco como soi acontecer
Nessa terra em que a vida quer nascer
E só nasce vencendo um desafio:
O verter-se em esforço no vazio
Que abomina, assustando a floração.
Dessa forma estrangula o seu pulmão
Com as garras astutas de um tridente
(a esmola na cuia do indigente)
Zé Limeira transforma pedra em pão
— Para o frio noturno e o sol diário
Indumentos que imitam passarinho
Variando da mescla para o linho
E alpercatas cruzando o pó calcáreo
(Uma orquídea vestida em um sudário;
uma túnica sobre os mandacarus)
Macambira cruzada com umbus,
Resistentes espécies da secura
Água/sal versus rocha/rapadura
Zé Limeira vencendo os urubus.
— Se o passado contasse verdadeiro
O olhar de quem olha saberia
Que há bilhões de instantes não havia
Um lugar sem brasão e sem letreiro
Sobre o qual há carcaças no terreiro
E Reis Magos são quadro empoeirado
Mas um Astro Cadente iluminado
Se aloja tal/qual um caranguejo
A suar no mormaço sertanejo
Zé Limeira é o Verbo Anunciado
— Pare o tempo, o vento, o mundo inteiro,
As espécies, os bichos, as vontades.
Pare o mal e parem as maldades
Pare o bem, o bom. Pare o luzeiro
Que alumia e que queima o juazeiro,
Pare a força dessas contradições,
Pare a regra geral das ilusões
E a caldeira que energiza tudo
Pois do alto do céu vem um entrudo
Zé Limeira puxando seus cordões!
....
3. A pedra aos homens
— O que faz essa pedra no caminho
Caminhando assim como nós todos?
Desatando os nós de suas veias
Numa crosta de sertanejos lodos?
Pedra crua, maciço monolito,
Escapando da vida em seus engodos?
— Uma rocha marrom alucinada
Carregando outras rochas no cascalho
Arrastando esculturas naturais
Num acorde por dentro de um chocalho
Um granito moldando-se nos espinhos
Metamorfoseado em espantalho
— O chão árido é lima espontânea
Aplainando e alisando a superfície
Extraindo os excessos e os reveses
E expulsando da pedra a imundície
Que as lembranças entalham em seu dorso
Espalhando destroços na planície
— Há um canto estranho e monocórdico
Retotono cantar a insistir
Em pregar as surpresas de outro canto
Invertendo o que a gente quer ouvir
Pois se fosse sair virá suar
E se fosse coar veio cair
— Armadilhas que a pedra já limada
Oferece aos incautos em seus trilhos
É a luz sobre a treva da mesmice
Extraindo qual prisma outros mil brilhos
Onde viesse falha era folia
Onde folhas viria, ao invés, filhos.
— As espadas nas vísceras antagônicas
Recortando lugares preciosos
Arranhões no relevo da retina
Estragando a visão dos belicosos
Que se prostam a seus pés desnorteados
Zé Limeira, flagelo de orgulhosos.
...
4. A luta aos vivos
— Cantador tem que ter tino
E o trabalhador, coragem.
Se cantoria é trabalho,
Inaugura a mestiçagem:
A poesia e o trabalho
Dentro da mesma embalagem
— Ao cantador, paramentos.
Ao trabalhador, também.
Se cantar é trabalhar
Inaugura o vai-e-vem
De vestir e despir versos
Sem precisar de ninguém
— Quando o cantar cai por dentro
Do trabalhar pra viver
E se viver já é luta
Que não se deve perder
Quem canta está trabalhando
Trabalhador passa a ser
— Do cantar para o trabalho
Migramos todos os dias
Com a viola enlaçando
O grito das agonias
E a cova estomacal
Sepultando as alegrias
— O homem-rocha vestindo
Seu canto desbravador
Traça seu mapa epopéico
Em todo lugar que for
No mais negro território
Zé Limeira planta flor
— Cuspindo barro, tijolos.
De um depósito de poeira
Que traz em sua garganta
Ardendo em brasa, caieira,
O mapa paraibano
É o mar de Zé Limeira
— Foi o caminho mostrado
norteando quem escuta
Para quem tem paladar
Sentir o gosto da fruta
Zé Limeira é o resumo:
Aos arrogantes, cicuta!
...
5. O invólucro e suas virtudes
— Anéis em todos os dedos
Esporões nos calcanhares
Dentes de ouro fincados
Nos ossos maxilares
Dois olhos de vaga-lume
Pele estirada em curtume
(Couraça medieval)
Lenço vermelho ao pescoço
Envolto nesse arcabouço
Zé Limeira é imortal
— Uns óculos sintetizando
Funções paradoxais
Fazendo o de perto, longe.
Do longe, o perto demais.
Telescópio e microscópio
Como as trompas de falópio
Servindo à fecundação
Ou como a válvula mitral
Misterioso portal
Do sangue, no coração.
— O ventre já guarnecido
O tórax, um compressor.
Mais de mil libras forçando
As cordas do cantador
Neurônios de energia
Suprindo a anestesia
Do outro desafiante
O olho castanho-escuro
Furando o imo do muro
Mesmo feito de diamante
— Descendo o suor na fronte
Olhos-d’água tão profusos
Enchendo o lago poético
De apetrechos confusos
Mas com qualquer maestria
Que o rumo da cantoria
Mudava e desarrumava
E as bocas dos que ouviam
Se fechavam, se abriam.
E a boca da noite amava
— Protagonizando a quebra
Do léxico preso ao sintático
Amalgamando prefixos
Fazendo o texto antiestático
Inflou o campo semântico
A partir do verso quântico
Moldou o novo repente
O fruto que os povos pedem
Roubou do Jardim do Éden
Zé Limeira é a Serpente!
...
6. Despedidas
Quanto aos sonhos do Homem, eu que narro,
Não me alembro de tê-los anotados.
Mas se o sonho se perde num escarro
E as lembranças sucumbem aos bocados,
Para que se alembrar do sonho alheio,
Para que martelar no aperreio?
Martelar quer dizer bater martelos.
Sextilhar, a matraca das sextilhas.
Castelar, pois seria erguer castelos.
Armadilhar, armar as armadilhas.
Zé Limeira, portanto, martelou,
Sextilhou, castelou, armadilhou!
Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.
O meu medo era o Cristo ali deitado
Com o povo a beijar seu manto santo.
Um cheiro de morte e de pecado
Sentimento de dor e de espanto.
Zé Limeira despiu a fantasia
Ao mostrar-me que tudo é heresia!
Chego ao fim do relato duvidando
Do engenho empregado à narrativa,
Pois se a pena quer pássaros voando
Toda ave quer ver a pena viva.
Fecho a tampa do poço da lembrança
E sepulto meus mortos de criança!
* * * * *
Escrevi o Auto de Zé Limeira em 2002 a pedido de Zé Guilherme, então membro da banda (ou bando) Cabruêra. Foi feita uma gravação com música de Artur Pessoa em 2004, no disco O Samba da Minha Terra. Aqui apenas alguns momentos do folheto.
Lembro de dois cantadores
Em peleja acelerada
Como dois troncos serrados
Vertendo seiva encarnada
Debulhando suas rimas
Com plainas, lixas e limas
Numa tarde ensangüentada
O mote deveras rico
Serviçal de vida inteira
Tratava de um cantador
Que se chamou Zé Limeira
E foi o mestre entre os mestres
Com versos nada rupestres
Em construções de primeira
Recordo até minha idade:
Perto da troca de dentes.
Olhando aquelas estátuas
Com vozes tão estridentes
Arremessando seus dotes
Como pesados lingotes
Nos ouvidos dos presentes
Não esqueci um só verso
Passados já tantos anos
Ofereço o testemunho
Bem antes que os desenganos
Da velhice traiçoeira
Armem sua ratoeira
Por dentro dos meus arcanos
2. A terra aos mortos
— No sertão, sob o sol da Borborema.
Numa terra regada a pedra e osso
O lagarto equilibra seu pescoço
Com a cauda apontando a parte extrema
O seu corpo parece um teorema
De incógnitas perdidas na paisagem
Há um corte suspenso nessa imagem
Vertical, fura o Jabre as nuvens raras.
Batizado nas águas do Espinharas
Zé Limeira parece uma visagem.
— Apesar de sertão o clima é frio
Frio e seco como soi acontecer
Nessa terra em que a vida quer nascer
E só nasce vencendo um desafio:
O verter-se em esforço no vazio
Que abomina, assustando a floração.
Dessa forma estrangula o seu pulmão
Com as garras astutas de um tridente
(a esmola na cuia do indigente)
Zé Limeira transforma pedra em pão
— Para o frio noturno e o sol diário
Indumentos que imitam passarinho
Variando da mescla para o linho
E alpercatas cruzando o pó calcáreo
(Uma orquídea vestida em um sudário;
uma túnica sobre os mandacarus)
Macambira cruzada com umbus,
Resistentes espécies da secura
Água/sal versus rocha/rapadura
Zé Limeira vencendo os urubus.
— Se o passado contasse verdadeiro
O olhar de quem olha saberia
Que há bilhões de instantes não havia
Um lugar sem brasão e sem letreiro
Sobre o qual há carcaças no terreiro
E Reis Magos são quadro empoeirado
Mas um Astro Cadente iluminado
Se aloja tal/qual um caranguejo
A suar no mormaço sertanejo
Zé Limeira é o Verbo Anunciado
— Pare o tempo, o vento, o mundo inteiro,
As espécies, os bichos, as vontades.
Pare o mal e parem as maldades
Pare o bem, o bom. Pare o luzeiro
Que alumia e que queima o juazeiro,
Pare a força dessas contradições,
Pare a regra geral das ilusões
E a caldeira que energiza tudo
Pois do alto do céu vem um entrudo
Zé Limeira puxando seus cordões!
....
3. A pedra aos homens
— O que faz essa pedra no caminho
Caminhando assim como nós todos?
Desatando os nós de suas veias
Numa crosta de sertanejos lodos?
Pedra crua, maciço monolito,
Escapando da vida em seus engodos?
— Uma rocha marrom alucinada
Carregando outras rochas no cascalho
Arrastando esculturas naturais
Num acorde por dentro de um chocalho
Um granito moldando-se nos espinhos
Metamorfoseado em espantalho
— O chão árido é lima espontânea
Aplainando e alisando a superfície
Extraindo os excessos e os reveses
E expulsando da pedra a imundície
Que as lembranças entalham em seu dorso
Espalhando destroços na planície
— Há um canto estranho e monocórdico
Retotono cantar a insistir
Em pregar as surpresas de outro canto
Invertendo o que a gente quer ouvir
Pois se fosse sair virá suar
E se fosse coar veio cair
— Armadilhas que a pedra já limada
Oferece aos incautos em seus trilhos
É a luz sobre a treva da mesmice
Extraindo qual prisma outros mil brilhos
Onde viesse falha era folia
Onde folhas viria, ao invés, filhos.
— As espadas nas vísceras antagônicas
Recortando lugares preciosos
Arranhões no relevo da retina
Estragando a visão dos belicosos
Que se prostam a seus pés desnorteados
Zé Limeira, flagelo de orgulhosos.
...
4. A luta aos vivos
— Cantador tem que ter tino
E o trabalhador, coragem.
Se cantoria é trabalho,
Inaugura a mestiçagem:
A poesia e o trabalho
Dentro da mesma embalagem
— Ao cantador, paramentos.
Ao trabalhador, também.
Se cantar é trabalhar
Inaugura o vai-e-vem
De vestir e despir versos
Sem precisar de ninguém
— Quando o cantar cai por dentro
Do trabalhar pra viver
E se viver já é luta
Que não se deve perder
Quem canta está trabalhando
Trabalhador passa a ser
— Do cantar para o trabalho
Migramos todos os dias
Com a viola enlaçando
O grito das agonias
E a cova estomacal
Sepultando as alegrias
— O homem-rocha vestindo
Seu canto desbravador
Traça seu mapa epopéico
Em todo lugar que for
No mais negro território
Zé Limeira planta flor
— Cuspindo barro, tijolos.
De um depósito de poeira
Que traz em sua garganta
Ardendo em brasa, caieira,
O mapa paraibano
É o mar de Zé Limeira
— Foi o caminho mostrado
norteando quem escuta
Para quem tem paladar
Sentir o gosto da fruta
Zé Limeira é o resumo:
Aos arrogantes, cicuta!
...
5. O invólucro e suas virtudes
— Anéis em todos os dedos
Esporões nos calcanhares
Dentes de ouro fincados
Nos ossos maxilares
Dois olhos de vaga-lume
Pele estirada em curtume
(Couraça medieval)
Lenço vermelho ao pescoço
Envolto nesse arcabouço
Zé Limeira é imortal
— Uns óculos sintetizando
Funções paradoxais
Fazendo o de perto, longe.
Do longe, o perto demais.
Telescópio e microscópio
Como as trompas de falópio
Servindo à fecundação
Ou como a válvula mitral
Misterioso portal
Do sangue, no coração.
— O ventre já guarnecido
O tórax, um compressor.
Mais de mil libras forçando
As cordas do cantador
Neurônios de energia
Suprindo a anestesia
Do outro desafiante
O olho castanho-escuro
Furando o imo do muro
Mesmo feito de diamante
— Descendo o suor na fronte
Olhos-d’água tão profusos
Enchendo o lago poético
De apetrechos confusos
Mas com qualquer maestria
Que o rumo da cantoria
Mudava e desarrumava
E as bocas dos que ouviam
Se fechavam, se abriam.
E a boca da noite amava
— Protagonizando a quebra
Do léxico preso ao sintático
Amalgamando prefixos
Fazendo o texto antiestático
Inflou o campo semântico
A partir do verso quântico
Moldou o novo repente
O fruto que os povos pedem
Roubou do Jardim do Éden
Zé Limeira é a Serpente!
...
6. Despedidas
Quanto aos sonhos do Homem, eu que narro,
Não me alembro de tê-los anotados.
Mas se o sonho se perde num escarro
E as lembranças sucumbem aos bocados,
Para que se alembrar do sonho alheio,
Para que martelar no aperreio?
Martelar quer dizer bater martelos.
Sextilhar, a matraca das sextilhas.
Castelar, pois seria erguer castelos.
Armadilhar, armar as armadilhas.
Zé Limeira, portanto, martelou,
Sextilhou, castelou, armadilhou!
Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.
O meu medo era o Cristo ali deitado
Com o povo a beijar seu manto santo.
Um cheiro de morte e de pecado
Sentimento de dor e de espanto.
Zé Limeira despiu a fantasia
Ao mostrar-me que tudo é heresia!
Chego ao fim do relato duvidando
Do engenho empregado à narrativa,
Pois se a pena quer pássaros voando
Toda ave quer ver a pena viva.
Fecho a tampa do poço da lembrança
E sepulto meus mortos de criança!
* * * * *
Escrevi o Auto de Zé Limeira em 2002 a pedido de Zé Guilherme, então membro da banda (ou bando) Cabruêra. Foi feita uma gravação com música de Artur Pessoa em 2004, no disco O Samba da Minha Terra. Aqui apenas alguns momentos do folheto.
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