terça-feira, 28 de setembro de 2010

Citações

1. Reproduzo o quase sempre esquecido Salim Miguel:
"Eu disse, no começo desta nossa conversa, que os temas com que o escritor trabalha são relativamente os mesmos desde o início dos tempos. Agora, no meu caso, não tenho personagens nem temas. Temas ou personagens é que me procuram. Para alguns digo: 'tudo bem, vamos trabalhar'; para outros: 'procure outro escritor porque não consigo chegar aonde tu queres'."



2. Reproduzo o que disse João Antonio:
"Em se tratando de literatura brasileira, o sujeito que achar que sabe alguma coisa, ou que acreditar na glória literária, é um puro e simples idiota, é um otário, como diriam os meus personagens, absolutamente desavisado. A realidade brasileira é muito superior ao que a arte brasileira já fez; nós ainda não temos uma literatura à altura da multiplicidade de realidades brasileiras e da grandiosidade dessas realidades. Por exemplo: nós não temos uma boa literatura sobre futebol, nós não temos uma boa literatura sobre favela, nós não temos uma boa literatura sobre samba, nós não temos uma boa literatura sobre êxodo rural; nós não temos obras tópicas, por exemplo, as coisas de Graciliano Ramos, Lima Barreto, e outros exemplos bons."

sábado, 25 de setembro de 2010

Lançamentos

1.

Seguindo o seu rumo, na senda do cordel, a Editora Luzeiro, relança, repaginado e com nova capa, o clássico de Antonio Teodoro dos Santos, Lampião, o Rei do Cangaço. Biografia do famoso capitão Virgulino, esse cordel tem como aspecto marcante a utilização das cantigas populares, louvando ou condenando o cangaceiro.

2.

O Mistério da Pele da Novilha é o novo livro em cordel do poeta Josué Gonçalves de Araújo. Uma narrativa forte e original. Com essa obra, o autor se consolida entre os cordelistas mais interessantes dessa geração. Se com O Coronel Avarento já se revelava uma ótima pena, com esse, ele se supera. E mais material bélico a sair.

3.

A Visita de Lampião a Padre Cícero no Céu é mais um lançamento da Luzeiro. O cordel de Varneci Nascimento é um divisor, pois reavalia o mito lampiônico a partir do mito católico da salvação. As personalidades controversas dos dois herois sertanejos, a la Virgílio, perambulam pelos também controversos Céu e Inferno, estabelecimentos e repartições da mitologia cristã. Cordel que dialoga com o lançamento no cinema de Nosso Lar.

Anotações para uma poética cordelial V

1.
Há uma insistência entre os pesquisadores e alguns poetas em vincular a xilogravura ao cordel. Em certo momento da década de 50 do século passado, essas duas artes se encontraram, mas são autônomas. A xilogravura é só mais um processo ilustrativo do cordel. Não o representa, nem é uma sua extensão.

2.
O romance sumiu do cordel. O cordel de gracejo, o cordel pedagógico, o cordel das adaptações estão tomando o lugar das pelejas, dos romances, das aventuras originais. Os cordéis sobre seu Lunga são best-sellers, sobre o peido, sobre a bunda, etc. Mas e os romances? Quem tem fôlego para o cordel original? Motivos não faltam? Faltarão poetas?

Anotações para uma poética cordelial IV

1.
O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, afirmou-me: vejo o cordel não como poesia, mas como gênero literário. E eu concordo, discordando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!

Responde o amigo Cláudio Portella:

Amigo Aderaldo, eu não afirmei isso. Eu disse que talvez possa ser assim. Não sou um estudioso do cordel, nem pretendo ser. Só fomentei a crítica sobre o assunto. Nada mais! Já vai longe meu tempo de afirmações. Abração carinhoso do seu, CP.


Obrigado pelo puxão de orelhas.

Comment by Cláudio Portella — 26 September 2010 @ 10:23 pm
2.
Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.

3.
Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.

4.
Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

Anotações para uma poética cordelial III

1.
O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda.

2.
O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3.

3.
Passo a acreditar que cordelista não é só aquele que produz o poema em cordel, mas todo mundo que, de alguma forma, contaminou-se enamorado por esse fenômeno poético. Assim, são cordelistas os que o fazem, escrevendo, lendo, ouvindo ou estudando. Até os que se negam a recebê-lo, o são.

4.
O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

Anotações para uma poética cordelial II

1.
As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.

2.
Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.

3.
O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.

4.
Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.

Anotações para uma poética cordelial

1.
Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.

2.
Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.

3.
Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.

4.
O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

A Bagaceira



No prefácio de A Bagaceira, o célebre livro de José Américo de Almeida (que vi morrer solitário), está um decálogo interessante. Diz um dos mandamentos:
"— Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: É não ter o que comer na terra de Canaã."


A Bagaceira, publicado em 28, como sabemos, inaugurou o ciclo do Romance Regionalista brasileiro, da década de 30.

A Arte de Escrever, por Schopenhauer

Citando Schopenhauer em A Arte de Escrever:

“Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros."