domingo, 15 de fevereiro de 2009

E Lampião?

A produção cordeliana encontrando o seu herói épico,

Lampião,
não existe outro de tão forte identidade quanto ele,

baixa os fundamentos de nossa epopéia.

Ele, Lampião, sintetiza: o

Brasil pré-cabralino, herdeiro dos antigos Tapuias do sertão nordestino;

a resistência à desordem estabelecida pelas oligarquias

e

o mito primordial brasileiro do viver sem lei, nem Rei, nem fé.

É histórico, reconhecido pela

Igreja,
em sua certidão de batismo;

Estado,
representado pela instituição da Polícia Militar

e

é maravilhoso,
épico-burlesco,
herói-cômico,

nas façanhas do outro lado da vida.

Por tudo isso reivindicamos seja a Literatura de Cordel o caminho para uma poética dos nossos heróis degolados.

O cordel é aqui

Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, nos pegamos àquele fato no qual todas as tentativas de escrever-se uma epopéia nacional tenham sido,

de certa forma,
ou
de forma certa,

infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a

Literatura de Cordel


resistiu,
fundou sua própria poética,
consagrou poetas,
penetrou em todas as camadas sociais,
influenciou escritores e estudiosos,
transformou-se num

símbolo,
ícone,
índice,
signo
e
sinal


de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior

Lampião,


estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira

identidade.

Literatura de Cordel como tal, só acontece no Brasil.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sempre e para sempre o cordel

O cordel continua







E vai mesmo

E transcende!

Precisa de palavras? Precisa! O cordel é fundamental e os olhos de quem não enxerga esse pormenor sejam vazados pela espada certeira de Carlos Magno e os pares de França!

Ai, que saudade de Campina Grande!

A primeira cidade onde morei depois que fui embora de Areia, aos 16 anos, foi Campina Grande. Eu venerava a cidade Rainha da Borborema e cantava com lágrimas a célebre canção de Luiz Gonzaga e Raimundo Asfora, Tropeiros da Borborema:

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos
tropeiros da Borborema

São tropas de burros que vêm do sertão
Trazendo seus fardos de pele e algodão
O passo moroso só a fome galopa
Pois tudo atropela os passos da tropa
O duro chicote cortando seus lombos
Os cascos feridos nas pedras aos tombos
A sede e a poeira o sol que desaba
Rolando caminho que nunca se acaba

Estala relho marvado
Recordar hoje é meu tema
Quero é rever os antigos
tropeiros da Borborema

Assim caminhavam as tropas cansadas
E os bravos tropeiros buscando pousada
Nos ranchos e aguadas dos tempos de outrora
Saindo mais cedo que a barra da aurora
Riqueza da terra que tanto se expande
E se hoje se chama de Campina Grande
Foi grande por eles que foram os primeiros
Ó tropas de burros, ó velhos tropeiros.


E continuo me emocionando. Tanto pela cidade, quanto pela música!

Algo sobre Janaína Azevedo, a jovem contista paraibana

Alguém apontou para o fim das grandes narrativas. Outros atestam a consolidação do romance histórico. Ainda outrem percebem formas experimentais para narrativas mixadas. Tempo de experimentos, tentativas de neo-vanguardas. A arte tomou ares de espaço, transformou-se em intervenção, trânsito, performance, piscar d'olhos. A literatura encontrou sua encruzilhada.

E a escrita de Janaína Azevedo, por onde vai?

Filha da escrita regionalista, ela não quer cantar os cenários de sua vetusta cidade, tampouco os recantos e conflitos sociais de seu nordeste medieval. Suas ações transcorrem demarcadas. E essa área de ação é definida pelas relações familiares. A base do patriarcalismo nordestino é a fundação mais profunda da família ibérica, com suas amarras religiosas extensivas à sociedade. Essas amarras são legitimadas pela tradição. A tradição perde-se no tempo e toda e qualquer novidade é medida pela sua régua. A família, laboratório literário, de Janaína encontrará mulheres

sonhadoras,
sonâmbulas,
mal-amadas,
loucas,
avançadas,
tristes.

Raras livres!

Janaína tem dois volumes de contos:

Marias. João Pessoa: Editora da UFPB, 1999. (Prêmio Novos Autores Paraibanos)

e

Orquídea de cicuta. João Pessoa: Ed. Manufatura, 2002. (Coleção Olho D’Água)

O passado trouxe-me um presente

O Nordeste brasileiro é terra fértil. Longe daquele cenário de aridez contundente, de terra rachada e rezes secando ao sol, de almas peregrinas e corpos esqueléticos, há uma terra viva e pujante. Basta uma chuvinha para a paisagem transmudar-se do vermelho para o verde, dos rostos rasgados em rugas protuberantes para o sorriso atenuante das misérias. Naquele infinito resguardam-se, em axilas geográficas e sociais, resquícios mais recônditos de tempo imóvel ou lento. No dizer de Gilberto Freyre:
Diga-se de início do Nordeste brasileiro que, considerado numa perspectiva histórico-social que seja também antropocultural, além de ecológica, é não um só, porém dois ou três: um tropicalmente úmido, outro tropicalmente árido, um terceiro intermediário; que do seu homem do litoral - área canavieira ou agrária - se pode dizer vir sendo, à sua maneira, tão válido quanto o sertanejo glorificado pelos Euclides da Cunha; que é região que se apresenta, quanto à biologia da sua população, como a mais amplamente miscigenada do Brasil, com a mistura europeu-ameríndio-africana variando em proporções, numas sub-regiões predominando, depois do europeu, o ameríndio, noutras, o africano; que assim miscigenado o Nordeste vem dando ao Brasil, desde os dias coloniais, líderes políticos, líderes militares, intelectuais, religiosos, artistas; que essa capacidade de liderança, ao lado da combativa, antecipou-se em revelar-se no século XVII, quando a gente nordestina, nem sempre auxiliada, como devia ter sido, pelas metrópoles, portuguesa ou espanhola, expulsou do Brasil o invasor norte-europeu e protestante. Liderança, então, significativamente de um branco já da terra - Vidal de Negreiros; de um ameríndio - Felipe Camarão; de um negro ou africano de origem - Henrique Dias.

Ora, os três nordestes têm nome mais apropriado, no dizer do povo:
um é o

sertão,

aquele filho maltratado e esquecido por longas datas, no qual se viu florescer uma certa “indústria da seca”, por onde filhos do solo herdaram de sua condição sub-humana atitudes atrozes, os cangaceiros, e outros apegaram-se ao transcendente, romeiros, ambos com a estampilha do fanatismo timbrado em seus invólucros e conteúdos.

O outro é o

mar,

aquele no qual se estende o que, supostamente, seja o melhor dos trópicos, a fartura de água, a palmeira, a sensualidade, as ladeiras, um rol de maravilhas para onde o primeiro Nordeste aspira.

É tão violenta a diferenciação que se transformaram em antípodas essas duas condições, ao ponto de o messiânico Antonio Conselheiro preconizar a célebre exclamação “— O sertão vai virar mar!”.

O Romance Social de 30 cantou os dois cenários. Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz abriram as portas da “seca terrível que tudo devora”, enquanto Jorge Amado banhou-nos com seu mar baiano.

Há o terceiro nordeste: aquele que situa-se entre os outros dois. Conhecido como

Zona da Mata ou Zona Canavieira.

José Lins do Rego e o mesmo Jorge Amado nos apresentam essa faixa de terra mais fértil, mais fria e mais miscigenada, como aponta o Freyre.

Por ser um entreposto meio aos dois caminhos recebeu influências de quem passa para o litoral e de quem atravessa para o sertão. Os conflitos daí resultantes, também as intersecções e acordos, sincretismos e discrepâncias, são a matéria mais visível nos estudos sócio-culturais e antropológicos. É nessa faixa de terra, nesse meio, que se encontra a conhecida região do brejo paraibano. E é nesse brejo que encontraremos o cenário para minhas inquietações político-espirituais: a fantasmagórica cidade de Areia, pequena, pacata, adormecida e pagando seus pecados sob os olhos furiosos de casarões malassombrados e um passado de terrores!

E todos estão acordados e loquazes em meu quarto insone!