quinta-feira, 29 de maio de 2008

para colocar as coisas em seus lugares

Está claro para todos a divisão adotada pelas academias, leiam-se universidades, confrarias de letras, mercado editorial, professores e alunos dos cursos de letras e outros, pois bem, está claro, uma divisão sólida e bem administrada, entre literatura erudita e literatura popular. Essa divisão abarca outras artes como a música, a pintura, o teatro. Será preciso abrandar as diferenças, diminuir o preconceito, aclarar idéias, pensar.

Popular seria aquela poesia produzida pelo povo, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, freqüentadora da escola, bancária, como diria Paulo Freire. A distinção está posta à mesa, cabe-nos digeri-la. Vamos além, entretanto: cabe-nos ruminá-la.

Na sala de aula temos estudado poetas nordestinos os mais diversos: Manuel Bandeira, Gregório de Mattos, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos. São os formadores de nossa veia culta, esmiuçados até seus mais insignificantes detalhes. A contribuição desses poetas é imensa e oferta ao Brasil sua face literária mais importante. São os nossos autores clássicos. Esses estão de um lado, habitam os livros, as bienais de literatura, os documentários, com justo merecimento.

Caminhando em estrada paralela, vezes em veredas, estradas vicinais, ao som do orvalho nos capins, aos pingos de canto de algum pássaro bravio, outros poetas, conhecidos na sombra, vivos nas ruas, nos cafés, no trabalho. São os poetas populares. Esquecidos da escola, habitam o folclore e o exotismo. Sua pena, sua letra, desce à mesma seara.

Os autores da literatura de cordel formam desse lado, do lado popular. E sua produção intelectual, também. Chegamos, pois a nossa encruzilhada. Se a literatura de cordel está colocada sob a égide da cultura popular, encontra-se segregada e desprovida de fundamentos teóricos mais persistentes que a façam entrar pela porta da frente da casa de nossos intelectuais. Mas, antes de entrarmos nesse raciocínio, faz-se mister, diferençar a poesia de cordel de outras formas de poesia nascidas e cultuadas no Nordeste brasileiro.

É muito comum os estudiosos de cordel colocarem no mesmo saco cordel e repente. Além de serem, o cordel e o repente, completamente distintos, encontram-se em lugares opostos no panorama da poesia nordestina. Vejamos.

O cordel e o repente são apenas mais dois no paradigma poético do Nordeste. Os meios de comunicação, embalados por opiniões equivocadas, propagou uma falsa unidade em todo produto poético emanado dos autores populares. Procuraremos apontar as diferenças e aproximações.

Há duas vertentes poéticas no Nordeste, como no mundo: a oral e a escrita. Na primeira encontraremos, cada uma com suas características e singularides:

o repente de cantoria,
o coco de embolada,
o aboio,
a glosa,
a adivinha,
a pulha.

Colocamos em ordem de complexidade criativa, com o repente de cantoria se apresentando como o sistema mais diversificado e complexo. Não vou esmiuçar, pelo menos agora, pois não tenho fôlego suficiente, essas categorias, vou apenas citá-las deixando ao leitor a tarefa do aprofundar-se.

Na vertente escrita:

a literatura de cordel
e
a poesia matuta.

Citaremos, ainda, uma categoria oriunda dos cantadores repentistas: as canções, que pela sua excelência poética eram, além de cantadas e apreciadas, vendidas em folhas soltas pelo próprio autor ou por revendedor de folhetos de cordel.

Alerto que esse rústico mapa da poesia nordestina é tão somente uma indicação para quem quiser aprofundar-se e estudar com mais afinco. Infelizmente, da mesma forma que aconteceu com o forró, quando não se consegue distinguir xote, baião, rojão, xaxado, coco, cometeu-se o engano de se reunir essa diversidade sob o guarda-chuva da literatura de cordel... (Vai continuar)

A tempo: Fique bem claro que odeio rótulos. Logo, não faço distinção entre poetas populares e eruditos: há lixo nos dois cestos. Pouco trigo e muito joio.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Ainda o boníssimo Leandro Gomes de Barros

Não foi a protuberância glútea da Mulher Melancia, seus requebros e reflexos auditivos, tampouco seu minúsculo “short” e pernas bronze-torneadas. Nada disso. Também não foi a barba de Fidel Castro e sua renúncia a comandante da outrora onírica ilha. Nada disso. Minha comoção deu-se pela passagem dos 90 anos de morte de Leandro Gomes de Barros: o criador do sistema de produção da Literatura de Cordel.

Esse Leandro, além de ter escrito aproximadamente mil folhetos de cordel, vertendo para sextilhas, décimas ou quadrões, velhas histórias da Península Ibérica, fundou a tradição do herói nordestino, oferecendo caracteres épicos à literatura feita por poetas que não frenquentaram a escola nem se deixaram moldar pelos modismos europeus da época. Sim, porque o cordel nasceu paralelo à escola romântica sem dela tomar conhecimento.

Apesar de ser a única forma original de poesia brasileira, com temas e forma únicos, essa poesia e esse poeta são vistos pela maioria dos que estudam letras e produzem literatura no Brasil como menores, transitam o caminho do exótico, enclausurados no folclore (essa palavra infame), sucumbem às falsas teorias, harmonizam-se com a margem, são naufragados pela ignorância geral. É uma pena. Mas a resistência pede passagem e nós estamos aqui como bastiões da tradição cordélica.

De Leandro disse Carlos Drummond de Andrade: “Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo à má informação porque o título, a ser concebido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de ‘Ouvir Estrelas’.”

Acrescentava que Leandro “... não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”. Disse-nos desse mesmo Leandro, o velho e bom Câmara Cascudo: “Um dia, quando se fizer a colheita do folclore poético, reaparecerá o humilde Leandro Gomes de Barros, vivendo de fazer versos, espalhando uma onda sonora de entusiasmo e de alacridade na face triste do sertão”. Sofremos desse mal de memória e de preconceito.


Mais ainda foi dito de Leandro: “Viveu unicamente do produto de suas histórias rimadas, que ainda hoje são as melhores da literatura de cordel.” A sua importância transcende o simples fazer e editar e comercializar versos de cordel. Foi o primeiro a preocupar-se com o material físico, com o folheto em si. Passou a imprimir fotografias em suas capas e desenhos de arte. Fundou sua própria tipografia, criou campanhas de marketing para seus folhetos, distribuiu-os pelo Nordeste afora, deu-lhes dignidade.

Foi o primeiro a se preocupar com direitos autorais. Passou a escrever acrósticos nos versos finas de seus folhetos e não conseguindo, assim, vencer a “pirataria”, sim, porque muitos se aproveitavam para reproduzir seus folhetos assinando-os, passou a estampar sua fotografia na contracapa dos mesmos com os seguintes dizeres: “ Aos meus caros leitores do Brasil — Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas — aviso que desta data em diante todos os meus folhetos completos trarão o meu retrato.”

A seguir dá o motivo de tal decisão: “Faço este aviso afim de prevenir aos incautos que têem sido enganados na sua boa fé por vendedores de folhetos menos sérios que têem alterado e publicado os meus livros, comettendo assim um crime vergonhoso.” Assina e data Recife, 9 de 7 de 1917. Como se vê a fama de Leandro extrapolou o Nordeste e enveredou pelo Norte do Brasil. Acredito mesmo que tenha sido o autor mais lido e publicado naquela época. Se a famigerada lista de mais vendidos atentasse para isso teríamos um “best seller”.

É uma pena, sob o signo da irresponsabilidade e preconceito, que a literatura de cordel e Leandro, em particular, não figurem nos manuais de história da literatura brasileira com a devida reverência. Se o cordel é marca identitária nordestina, nada deve à produção poética dos gabinetes e das academias, dos poetas herméticos e dos círculos literários do sul do país. A espera da colheita, como disse, Cascudo, não surtirá efeito algum. O que conta é a semeadura. Ainda estamos relegados à curiosidade.

Portanto, senhores, reitero minha emoção construída não com a bunda da Mulher Melancia, nem com a barba empoeirada de Fidel, mas com a pena e a atitude empreendedora do maior poeta nordestino de todos os tempos, aquele que descortinou uma pátria nova, que fundou um caminho e uma tradição, que nos ofereceu a dignidade de não esperar migalhas das grandes editoras nem de incentivos do governo ou de empresas multinações, que acreditou em si e na sua veia, o príncipe de nós todos: Leandro Gomes de Barros.