1. No dia 4 de março passado completaram-se 90 anos da morte do maior poeta cordelista do Brasil: Leandro Gomes de barros. Minha alegria de ter cruzado com Leandro e com sua obra é o que deve ser contado. Decidi reler toda a obra do bardo e identificar algumas peculiaridades. E assim vai: Leandro foi um homem de seu tempo. Filho da primeira revolução industrial, não vacilou e aliou-se à máquina. Dessa forma ilustrou a capa de seus folhetos com fotografia, mídia recém-descoberta. É célebre a estampa de seu busto na contracapa de seus folhetos para evitar falsificação, o tão moderno "pirata" de hoje. Montou sua própria tipografia e começou a publicação em série de seu lavra. Contactou distribuidores e pensou uma estrutura de marketing positivo. E aqui há uma observação a fazer. Quando se diz que Leandro viveu do que escreveu é informação incompleta. Pois não só escreveu, como produziu, diagramou, distribuiu, contabilizou, imprimiu, corrigiu, enfim foi o super-homem na linha de produção. Da concepção, escrita, impressão e distribuição foi ele o responsável. Viveu de seu trabalho diuturno. Leandro só pensava em cordel e em como aprimorá-lo, transformando-o em um item agradável aos olhos, ao tato e à mente. Literatura e entretenimento, isso o que queria Leandro.
Um poema perdido de Leandro?
Conta-nos Sebastião Nunes da Silva de fato acontecido entre Leandro e seu amigo e contraparente Francisco das Chagas Batista, quando este residia em Guarabira-PB. Numa das constantes visitas de Leandro, foram a um casamento a cavalo. Desse passeio resultou um poema de Leandro intitulado O Poltro do Meu Colega, referência ao cavalo desengonçado por ele montado. Ainda não encontrei tal poema, tampouco encontrei alguém que já o tenha lido. Sei apenas, noticiado pelo Nunes Batista, da resposta escrita em folheto por Chagas Batista e também desaparecida do acervo da Biblioteca Nacional. Transcrevo a primeira estrofe. No caso de não haver empecilho quanto aos direitos autorais posso transcrevê-la totalmente:
Leandro Gomes, um dia
Precisou de meu cavalo,
Falou-me para alugá-lo
Disse que me pagaria!
Eu não marquei a quantia
E entreguei-lhe o sendeiro,
Ele que é mau cavaleiro
Lá no caminho caiu,
E ao voltar, me iludiu
Não quis pagar meu dinheiro...
Um equívoco de Câmara Cascudo
Depois da morte de Leandro, em 1918, sua obra foi administrada por seu genro Pedro Batista. Depois, por volta dos anos 20, os direitos autorais foram adquiridos pelo poeta João Martins de Ataíde que passou a assinar os folhetos, adulterando, inclusive, os acrósticos leandrinos. Aconteceu o mesmo quando da aquisição por José Bernardo da Silva que, omitindo o nome de Leandro, anotava-se como editor proprietário. Esses subterfúgios levaram Câmara Cascudo, o nosso impagável estudioso, a cometer um equívoco. Em seu Vaqueiros e Cantadores ele nos dá a autoria de A História de Pedro Cem como sendo de João Martins de Ataíde, à página 259, do nº 81 da coleção Reconquista do Brasil (Nova Série). Diz:
“O poeta popular João Martins de Ataíde reconstituiu o romance, escrevendo-o em sextilhas, ao gosto das cantorias nordestinas. Há várias edições. A que transcrevo é de junho de 1932, impressa em Recife, Pernambuco. Pedro cem continua tendo leitores e sua existência servindo de exemplo apavorador.”
Quatro versões para O Soldado Jogador
A primeira história de Leandro que li foi O Soldado Jogador. Anotada por Leonardo Mota e ouvida do Cego Aderaldo, foi transcrita em Cantadores. O que pretendo é descrever as cinco primeira estrofes de quatro versões que tenho para essa história para que observemos as mudanças no texto de cada uma delas. É claro que não atrapalham o sentido geral da obra, mas pode, além de servir de curiosidade, dar testemunho de que se pode fazer algo pior com as obras dos nossos autores de cordel. Por isso, certa vez, quando o nosso Marco Haurélio estava na Luzeiro, pedi que a editora observasse o ISBN das publicações. Dessa forma se evitaria a intervenção na obra definitiva. Transcrevo a versão de Leota, ouvida do Cego Aderaldo:
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte,
Jogador de profissão;
Nunca ele foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses, nesse tempo,
Tinham por obrigação
— o militar e o civil —
Seguir a Religião;
O Papa fazia a lei,
Botava em circulação.
Ricarte, soldado velho,
Com trinta anos de tarimba,
Aonde ele achava jogo
De sete e meio ou marimba,
Dizia logo: —“Eu vou ver
Água na minha cacimba!”
Um dia, faltou-lhe o soldo...
Ricarte pôs-se a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar...
Era domingo e a Missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um xis!
Fiado nem se falava,
Pois um soldado francês,
Na bodega em que comprava,
Só pegava um objeto
Porém depois que pagava...
MOTA, Leonardo. Cantadores. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. Pg. 110-114
Versão da Antologia da Casa de Rui Barbosa
Perceba-se que não interferi na acentuação gráfica como era na época.
Era um soldado Francês
Que se chamava Ricardo
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bôlso
O resultado da arte.
Os franceses neste tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricardo soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde achava jôgo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo eu vou ver
Água em minha cacimba.
Um dia faltou-lhe saldo
Pôs-se Ricardo a pensar
Onde podia haver jôgo
Que ele podesse jogar
Era domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um X
A crédito êle nem falava
Pois um soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Antologia. Tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Casa de Rui Barbosa, 1964. Coleção de textos da língua portuguesa moderna-4. Pp. 457-460.
A versão de Irani Medeiros
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricarte soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jôgo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: eu vou ver
Água na minha cacimba.
Um dia faltou-lhe o soldado
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um xis
A crédito êle nem falava
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
MEDEIROS, Irani (org). Leandro Gomes de Barros. No reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Idéia, 2002.
A versão da Queima-Bucha
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricarte, soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jogo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: — Eu vou ver
Água na minha cacimba!
Um dia faltou-lhe o soldo
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era Domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um "xis"
A crédito ele nem falava,
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
BARROS, Leandro Gomes de. O soldado jogador. Mossoró: Queima-Bucha, 2005.
quinta-feira, 20 de março de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
A volta do filho pródigo e a seara de Saramago
É verdade, fui demitido. O processo foi lento, gradual e doloroso. Não que eu esteja assado, mas que fui sendo assado. Ou fritado, como se diz na política. E o melhor: havia começado a ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Se vocês já o leram devem se lembrar de que a frase inicial do romance inacabado, de mais de mil páginas, é “Uma pressão barométrica mínina pairava sobre o Atlântico”. Deu-se o contrário comigo e meu romance poderia iniciar-se assim “Uma pressão apoplética máxima pairava sobre meus santos”. Mas não o direi, sei da ignorância dos dirigentes do mísero futebol educacional brasileiro, no qual a educação é apenas um detalhe, mínimo. Nem aqui é genuflexório para lamentação. Vou apenas relatar minha última noite.
No dia 20 de dezembro, a partir das 19:00h, iniciaram-se as defesas de monografia de três orientandas minhas. Entre elas, Suzana seguiu a literatura infantil, a Rosana, a literatura de cordel e a Rosiane resolvera trabalhar certas intertextualidades no poema A seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto. Contei o fato para o Zé e ele prontificou-se a ajudar no que fosse preciso. Paraibano de Uiraúna (e os paraibanos formam uma estranha confraria de quasímodos determinados), ele, o Nêumanne, é autor do premiado O silêncio do delator e ficou entusiasmado. Quando soube da defesa, na impossibilidade de se fazer presente, pediu que Ipojuca Pontes, o cineasta de A volta do filho pródigo, o representasse à mesa examinadora.
Comentei com alguns colegas o fato de termos o Ipojuca na faculdade e marcáramos as defesas para a biblioteca, o lugar mais apropriado para a recepção, em meio a livros, computadores e um pouco de silêncio. Descobri que o professor Antonio Niddan tinha consigo guardado a sete chaves o original do roteiro do filme de Ipojuca. Imaginei ser uma boa hora para, depois de 20 e poucos anos, o material retornar às mãos do dono e convenci o Niddan a devolver, em solenidade, durante a defesa da Rosiane, o roteiro perdido. E assim foi feito. Era o nosso último dia letivo e haveria logo depois uma confraternização entre os alunos do curso de letras, promovida pelas recém licenciadas.
Terminadas as defesas, atribuídas as notas, todas aprovadas com nota máxima pela excelência dos trabalhos, aconteceu o que eu não esperava. Foi projetada na parede uma apresentação em minha homenagem. E ali, no calor daquela hora, me emocionei e quase fui às lágrimas, aplaudido pelo público de alunos e amigos. Mas a festa não era minha. Era das graduandas, era do Nêumanne, era do Ipojuca. Notei que na platéia estava a chefe do departamento de pessoal da instituição. Quando tudo acabou, os comes e bebes findos, a biblioteca rearrumada, os equipamentos guardados, os alunos já partindo para casa, fui abordado por ela parabenizando-me pelo trabalho, mas escondendo aquele ar indescritível de quem vai produzir uma nódoa, dizendo querer falar comigo a sós.
E assim se deu o fato às 22:20h, término do último horário de aula do último dia letivo do ano. Ali, na sala do famigerado relógio de ponto, recebi o aviso de dispensa, sem precisar cumprir aviso prévio. Naquele momento desceu sobre mim um alívio por todo o corpo, uma alegria pela alma, o descanso de um período de atrito e atribulações, de enfrentamento e boicote, de discussões e bate-boca. Era o fim dos meus salários sempre atrasados e o início de uma temporada de paz. Se o trabalho é o jugo da humanidade, os patrões, desde Labão, são, em tempos diferentes, o algodão doce e a esponja de fel no paladar do professor.
Cumpriu-se o ciclo inexplicável da vida. A volta do filho pródigo voltou para o seu autor, A seara de Saramago retornou ao berço da história literária, os alunos encaminharam-se para seus sonhos individuais, as monografias desceram ao mofo da biblioteca, suas autoras desceram ao vazio do pós-guerra, a faculdade emergiu na escuridão de suas lâmpadas e luzes apagadas. Eu voltei para casa, onde me esperava, indiferente às calamidades e celebrações, O homem sem qualidades. Nunca mais tive insônia. Boa noite!
No dia 20 de dezembro, a partir das 19:00h, iniciaram-se as defesas de monografia de três orientandas minhas. Entre elas, Suzana seguiu a literatura infantil, a Rosana, a literatura de cordel e a Rosiane resolvera trabalhar certas intertextualidades no poema A seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto. Contei o fato para o Zé e ele prontificou-se a ajudar no que fosse preciso. Paraibano de Uiraúna (e os paraibanos formam uma estranha confraria de quasímodos determinados), ele, o Nêumanne, é autor do premiado O silêncio do delator e ficou entusiasmado. Quando soube da defesa, na impossibilidade de se fazer presente, pediu que Ipojuca Pontes, o cineasta de A volta do filho pródigo, o representasse à mesa examinadora.
Comentei com alguns colegas o fato de termos o Ipojuca na faculdade e marcáramos as defesas para a biblioteca, o lugar mais apropriado para a recepção, em meio a livros, computadores e um pouco de silêncio. Descobri que o professor Antonio Niddan tinha consigo guardado a sete chaves o original do roteiro do filme de Ipojuca. Imaginei ser uma boa hora para, depois de 20 e poucos anos, o material retornar às mãos do dono e convenci o Niddan a devolver, em solenidade, durante a defesa da Rosiane, o roteiro perdido. E assim foi feito. Era o nosso último dia letivo e haveria logo depois uma confraternização entre os alunos do curso de letras, promovida pelas recém licenciadas.
Terminadas as defesas, atribuídas as notas, todas aprovadas com nota máxima pela excelência dos trabalhos, aconteceu o que eu não esperava. Foi projetada na parede uma apresentação em minha homenagem. E ali, no calor daquela hora, me emocionei e quase fui às lágrimas, aplaudido pelo público de alunos e amigos. Mas a festa não era minha. Era das graduandas, era do Nêumanne, era do Ipojuca. Notei que na platéia estava a chefe do departamento de pessoal da instituição. Quando tudo acabou, os comes e bebes findos, a biblioteca rearrumada, os equipamentos guardados, os alunos já partindo para casa, fui abordado por ela parabenizando-me pelo trabalho, mas escondendo aquele ar indescritível de quem vai produzir uma nódoa, dizendo querer falar comigo a sós.
E assim se deu o fato às 22:20h, término do último horário de aula do último dia letivo do ano. Ali, na sala do famigerado relógio de ponto, recebi o aviso de dispensa, sem precisar cumprir aviso prévio. Naquele momento desceu sobre mim um alívio por todo o corpo, uma alegria pela alma, o descanso de um período de atrito e atribulações, de enfrentamento e boicote, de discussões e bate-boca. Era o fim dos meus salários sempre atrasados e o início de uma temporada de paz. Se o trabalho é o jugo da humanidade, os patrões, desde Labão, são, em tempos diferentes, o algodão doce e a esponja de fel no paladar do professor.
Cumpriu-se o ciclo inexplicável da vida. A volta do filho pródigo voltou para o seu autor, A seara de Saramago retornou ao berço da história literária, os alunos encaminharam-se para seus sonhos individuais, as monografias desceram ao mofo da biblioteca, suas autoras desceram ao vazio do pós-guerra, a faculdade emergiu na escuridão de suas lâmpadas e luzes apagadas. Eu voltei para casa, onde me esperava, indiferente às calamidades e celebrações, O homem sem qualidades. Nunca mais tive insônia. Boa noite!
querem me obrigar a usar o powerpoint
Ando desanimado. Dizem os alunos ”O professor Aderaldo está fadado ao suicídio!” ou “ O professor Aderaldo é um porre”. Tudo isso porque insisto em ser um mestre inovador e introduzir em sala de aula a leitura obrigatória. Repito com ênfase garrafal LEITURA OBRIGATÓRIA. Não engulo alguns pedagogos e pedagogas alardeando por aí, nesses seminários e congressos masturbatórios, a necessidade de a sala de aula (e a aula em si) competir com a internet, com o cinema, com a televisão. Querem me obrigar a traduzir para apresentações digitais (em PowerPoint, em Flash e em outras paranóias) minha escrita cadavérica no quadro-verde, ou branco (por onde andará o quadro-negro?), ao sabor do improviso requerido pelo momentâneo assédio dos meus interlocutores. Querem me transformar em um amasiado com o datashow. Num andróide com a mão aleijada em mouse.
Os alunos, e esses pedagogos e pedagogas, necessitam compreender o seu dever de se adaptarem à sala de aula (e a aula em si). Entendê-la como o espaço-tempo no qual o mundo fica suspenso, onde o prazer deve se confundir com o dever, o cansaço transmutar-se em força de vontade e a imagem projetada (na tela, na parede ou noutra coisa qualquer) diluir-se em palavras escritas e faladas, ouvidas e lidas e compreendidas. Nenhuma imagem falará mais que uma simples linha de Cervantes. Nenhuma imagem interpretará verdadeiramente a cicatriz de Ulisses. Sejam esses duvidantes consumidos no inferno de Dante, percam com Milton o paraíso, não subam ao sétimo céu, tomem a cicuta de Sócrates, reencarnem como O Diabo na Carne de Miss Jones e assumam a identidade de Linda Lovelace. Essa coisa de perfumar a sala de aula é transformá-la em escola de samba para o fatídico Carnaval da Sapucaí educacional.
Sou professor de Teoria da Literatura, o que já é uma emboscada, uma armadilha, um alçapão fedido. Obrigo-me a ler poetas medíocres, eles mesmos professores também, contistas com as favas contadas, romances tristes vendidos pelas editoras como a vanguarda da vanguarda da vanguarda, crônicas corroídas por bronquites crônicas. Para quê? Para retornar aos clássicos e maldizer e imprecar pelos corredores das faculdades e centros culturais e livrarias e ruas e vielas e sebos e sebosos. E agora toco com minhas teclas nesse outro monstro chamado “faculdade”. Em cada casebre ergue-se sobre o nada uma delas, tantas já apareceram e desapareceram, todas oferecendo cursos de letras e pedagogia e sonegando o pagamento aos professores que, por essa e por outras, descem a ladeira da motivação e, ao se depararem com a classe não-leitora, arrolam todos no saco putrefacto de sua indiferença. E temos ainda, nós professores, de tratar com donos de faculdades odiosos e chefes cujo cargo é apenas fruto do velho e nepótico QI.
Essa constelação “maravilhosa” é meu sepulcro caiado. Minha pedra de Roseta ao contrário. Meu cálice de fel. E tem mais: essa coisa de aula de Língua Portuguesa. Uma fraude, um acinte. E, por favor, leitor cruel, não pare sem ler tudo. Vou destrinçar. Esses professores de Português e gramáticos pregando insistentemente a gramática como regente da língua deviam ser condenados a falar para sempre, em todos os momentos de sua vida, de acordo com a gramática que vomitam. Vendem-nos a idéia apocalíptica aos berros: “para se escrever bem é necessário o conhecimento dela (da gramática).” Ora, a gramática é apenas uma amostragem de como a língua deve funcionar, não tem poder de polícia. Além do mais fica-nos a pergunta “Como é possível todo mundo ser obrigado a estudar por vinte anos a gramática e assim mesmo não saber nada de sua língua (pelo menos de acordo com o que se ensina nas escolas)?” Alguma coisa está errada. Porque a língua não se prende a um punhado de regras ou a como se deva ou não escrever uma palavra.
E retornamos ao nosso primeiro parágrafo. Só a leitura insistente será capaz de oferecer alguma saída para o exército de alunos trancafiados em suas próprias ignorâncias e enjaulados pela nossa. A reclamação mais viva e vívida, entre eles (os alunos), é a de que não têm tempo para ler. Então, por que estão fazendo o curso de Letras? Outros dizem não gostar da leitura. E me pergunto, em voz altíssima, como é isso. A nossa matéria básica é a leitura, não há outra. Deparo-me com alunos que: a) não gostam de ler; b)não sabem ler; c)lêem, mas não entendem o que leram (ou seja não sabem ler) e d)os turistas (os melhores, pelo menos não nos entubam). Em suma, a coisa é feia.
Agora, falando sério, já que o assunto acima é trivial e vulgar e redundante, há outra coisa insuportável. É aquela lista dos mais lidos (ou mais comprados). Todas elas! Parece haver um complô social contra nossa literatura. Dos dez livros de ficção mais lidos (e averiguo toda semana) aparece um ou outro nacional. E esse só entra na lista se, na semana, na segunda-feira, tiver aparecido no programa do Jô. Aí, nossa classe intelectual brasileira resolve ir às nossas horríveis livrarias procurar o famigerado. Passada a segunda semana, o dito cujo some para sempre. É um caso de polícia. Bem como é outro caso o preço médio do livro. Quando tocamos nesse assunto, toda linha de produção e comercialização se contorce e começa o jogo de empurra. Outro dia vi, com meus olhos esbugalhados e ensangüentados, boquiaberto e mudo, uma grande editora incinerar 100 mil volumes e outra vender como papel reciclável 50 mil. Nesse cenário desagradável repito com Adorno: não é possível mais fazer poesia. Entretanto pela quantidade de poetas existentes em nossos cursos de Letras, alunos e professores, Adorno está ultrapassado. Talvez chamando o Capitão Nascimento azeite-se a confusão, ou melhor, a discussão (ou será discursão?)!
Os alunos, e esses pedagogos e pedagogas, necessitam compreender o seu dever de se adaptarem à sala de aula (e a aula em si). Entendê-la como o espaço-tempo no qual o mundo fica suspenso, onde o prazer deve se confundir com o dever, o cansaço transmutar-se em força de vontade e a imagem projetada (na tela, na parede ou noutra coisa qualquer) diluir-se em palavras escritas e faladas, ouvidas e lidas e compreendidas. Nenhuma imagem falará mais que uma simples linha de Cervantes. Nenhuma imagem interpretará verdadeiramente a cicatriz de Ulisses. Sejam esses duvidantes consumidos no inferno de Dante, percam com Milton o paraíso, não subam ao sétimo céu, tomem a cicuta de Sócrates, reencarnem como O Diabo na Carne de Miss Jones e assumam a identidade de Linda Lovelace. Essa coisa de perfumar a sala de aula é transformá-la em escola de samba para o fatídico Carnaval da Sapucaí educacional.
Sou professor de Teoria da Literatura, o que já é uma emboscada, uma armadilha, um alçapão fedido. Obrigo-me a ler poetas medíocres, eles mesmos professores também, contistas com as favas contadas, romances tristes vendidos pelas editoras como a vanguarda da vanguarda da vanguarda, crônicas corroídas por bronquites crônicas. Para quê? Para retornar aos clássicos e maldizer e imprecar pelos corredores das faculdades e centros culturais e livrarias e ruas e vielas e sebos e sebosos. E agora toco com minhas teclas nesse outro monstro chamado “faculdade”. Em cada casebre ergue-se sobre o nada uma delas, tantas já apareceram e desapareceram, todas oferecendo cursos de letras e pedagogia e sonegando o pagamento aos professores que, por essa e por outras, descem a ladeira da motivação e, ao se depararem com a classe não-leitora, arrolam todos no saco putrefacto de sua indiferença. E temos ainda, nós professores, de tratar com donos de faculdades odiosos e chefes cujo cargo é apenas fruto do velho e nepótico QI.
Essa constelação “maravilhosa” é meu sepulcro caiado. Minha pedra de Roseta ao contrário. Meu cálice de fel. E tem mais: essa coisa de aula de Língua Portuguesa. Uma fraude, um acinte. E, por favor, leitor cruel, não pare sem ler tudo. Vou destrinçar. Esses professores de Português e gramáticos pregando insistentemente a gramática como regente da língua deviam ser condenados a falar para sempre, em todos os momentos de sua vida, de acordo com a gramática que vomitam. Vendem-nos a idéia apocalíptica aos berros: “para se escrever bem é necessário o conhecimento dela (da gramática).” Ora, a gramática é apenas uma amostragem de como a língua deve funcionar, não tem poder de polícia. Além do mais fica-nos a pergunta “Como é possível todo mundo ser obrigado a estudar por vinte anos a gramática e assim mesmo não saber nada de sua língua (pelo menos de acordo com o que se ensina nas escolas)?” Alguma coisa está errada. Porque a língua não se prende a um punhado de regras ou a como se deva ou não escrever uma palavra.
E retornamos ao nosso primeiro parágrafo. Só a leitura insistente será capaz de oferecer alguma saída para o exército de alunos trancafiados em suas próprias ignorâncias e enjaulados pela nossa. A reclamação mais viva e vívida, entre eles (os alunos), é a de que não têm tempo para ler. Então, por que estão fazendo o curso de Letras? Outros dizem não gostar da leitura. E me pergunto, em voz altíssima, como é isso. A nossa matéria básica é a leitura, não há outra. Deparo-me com alunos que: a) não gostam de ler; b)não sabem ler; c)lêem, mas não entendem o que leram (ou seja não sabem ler) e d)os turistas (os melhores, pelo menos não nos entubam). Em suma, a coisa é feia.
Agora, falando sério, já que o assunto acima é trivial e vulgar e redundante, há outra coisa insuportável. É aquela lista dos mais lidos (ou mais comprados). Todas elas! Parece haver um complô social contra nossa literatura. Dos dez livros de ficção mais lidos (e averiguo toda semana) aparece um ou outro nacional. E esse só entra na lista se, na semana, na segunda-feira, tiver aparecido no programa do Jô. Aí, nossa classe intelectual brasileira resolve ir às nossas horríveis livrarias procurar o famigerado. Passada a segunda semana, o dito cujo some para sempre. É um caso de polícia. Bem como é outro caso o preço médio do livro. Quando tocamos nesse assunto, toda linha de produção e comercialização se contorce e começa o jogo de empurra. Outro dia vi, com meus olhos esbugalhados e ensangüentados, boquiaberto e mudo, uma grande editora incinerar 100 mil volumes e outra vender como papel reciclável 50 mil. Nesse cenário desagradável repito com Adorno: não é possível mais fazer poesia. Entretanto pela quantidade de poetas existentes em nossos cursos de Letras, alunos e professores, Adorno está ultrapassado. Talvez chamando o Capitão Nascimento azeite-se a confusão, ou melhor, a discussão (ou será discursão?)!
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