O TVBrasil (TVE) faz matéria sobre a poesia de Moçambique e fala da performance The Polyphonic Baobab Embolada, promovida pela Confraria do Vento no teatro Sergio Porto, am 25 de setembro. Mia Couto, José Craveirinha, Jonathan Morley, Márcio-André e Aderaldo Cangaceiro.
[youtube http://www.youtube.com/watch?v=gXEfdMQQ9Zs&hl=pt-br&fs=1]
terça-feira, 21 de outubro de 2008
The polyphonic baobab embolada
Aderaldo Cangaceiro (violão), Márcio-André (violino) e Jonathan Morley (cítara), na Estação da Letras, em 23 de setembro: poemas, sons e improviso.
[youtube http://www.youtube.com/watch?v=2C03wzq1Gjk&hl=pt-br&fs=1]
[youtube http://www.youtube.com/watch?v=2C03wzq1Gjk&hl=pt-br&fs=1]
domingo, 5 de outubro de 2008
sábado, 19 de julho de 2008
De físicos e críticos
- 1. Outro dia citei num artigo para a revista Confraria o físico Alan Lightman. No seu livro Viagens no tempo e o cachimbo do vovô Joe ele executa um lirismo tal sobre os fenômenos físicos que chega a ferir os olhos de alguns poetas. Esse diálogo entre ciência e poesia (leia-se literatura) parecia impossível a algum tempo. Defendia-se cada coisa em seu lugar. É bem a opinião de Sílvio Romero: “Deixemo-nos de confusão: uma coisa é a arte, outra coisa é a ciência, outra a moral, outra a religião. A arte não deve sair de seus domínios...” Pensando a arquitetura como arte, o que fazer com o pensamento do Sr. Romero? Que o responda Bruneleschi. E a idéia de Número Áureo aplicada aos sonetos de Camões?
2. Agripino Grieco sobre Emílio de Meneses: “Com o seu ventre rotundo, o seu bigode de duelista gascão, e o seu tríplice queixo de glutão rabelaisiano, Emílio de Meneses valeu por um bicho único em nossa fauna poética.” Meu Deus, por onde anda a poesia do Sr. Emílio de Meneses e mesmo as críticas do Sr. Agripino Grieco? De vez em quando a academia vasculha seu lixo extraordinário e recicla algum papel velho molhado de húmus, alguma glândula descartada de seus hospitais e, depois de muita lavagem, polimento e zelo, apresenta-nos a peça como vanguarda e diz-se que é uma re-visitação. Todos os anos há o revolvimento dos restos mortais de Machado de Assis e de Guimarães Rosa.
- 3. Naquela brilhante coleção Fortuna Crítica, dirigida por Afrânio Coutinho, com seleção e textos de Sonia Brayner, o volume dedicado a Cassiano Ricardo traz uma polêmica entre Wilson Martins e o próprio Cassiano. Um desacordo entre a leitura de um e a prática poética do outro. A coisa acirra a tal altura que chega o poeta a dizer: “... c) Devo esclarecer ainda que não fui eu quem lhe enviou Jeremias, nem Reflexões. Não por falta de apreço, mas, por que não o confessar? Por um vago receio de que W. M. viesse a concordar comigo. Ficaria eu então duvidando de minha atual concepção de poesia.” Nesse ponto a coleção cumpre um papel vivificador, depurador. Ler um crítico sendo defenestrado pelo autor da obra.
4. Já em A arte de escrever, Schopenhauer é categórico, incisivo, azedo ao elaborar uma trilogia para os tipos de escritores: “ Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros.” Cabe-nos, pelo menos para mim, uma reflexão sobre minha inclusão nessas categorias. Nem vou fazê-la agora!
- 5. Na Estética Literária, Alceu Amoroso Lima em um tópico intitulado Literatura surpreende-se com a “massa” de leitores no mundo. Assim: “A vulgarização da imprensa e a diminuição crescente do índice de analfabetos, por toda parte, estendem a literatura, cada vez mais, a massa cada vez maiores da população do universo./ De privilégio limitado a certas classes e a certos redutos da humanidade — como foi sempre em todas as civilizações, inclusive na Idade Média — tornou-se hoje a literatura um patrimônio quase universal, de que participam as multidões em grau crescente.” Escrito isso em 1945 quando a guerra havia devastado o globo, o mundo desorientado, tentando juntar seus pedaços, é de extrema benevolência o grande crítico.
6. Um pouco antes diria Ronald de Carvalho: “Entre nós, porém, onde a crítica literária é exercida, realmente, por um ou outro escritor de verdade, é vulgar supor, mercê da filáucia de divertidos paspalhões fantasiados de criticalhos, que a poesia moderna ainda não ultrapassou brincadeiras do ‘Toi et Moi’ do menino Paul Geraldy. Mal dirigido, em geral, desconhece o público letrado nomes que são vulgares na Europa e na América... O resto do mundo para nós é um mistério. Não admira, pois, que famoso escritor latino-americano afirmasse que a poesia brasileira era um eterno soneto, continuamente emendado, ora para melhor, ora para pior, consoante às preferências das novas gerações.” É sério!
- 7. Alan Lightman: “Alguns anos depois (meu pai), enviou-me uma curiosa fotografia de si mesmo quando criança, ao lado do vovô Joe, somente os dois, de mãos dadas em frente a uma casa branca de ripas de madeira. Meu pai vestia calções; vovô Joe, de bigodes, usava um chapéu, exatamente como eu o imaginava pelos aromas de seu cachimbo. Escrevi o ensaio e enviei-o pelo correio a meu pai. Foi quando, milagrosamente, começamos realmente a conversar um com o outro. E eu, já bem a caminho de tornar-me tão calado como ele, descobri que através das coisas que escrevia era capaz de me abrir e de comover as pessoas que me são caras.”
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Os velhos amores
Não sou negro, nem poeta,
não estou na moda nem nas rodas literárias,
Não vou às Bienais, nem a saraus
escrevo pouco, e só!
Não sou ativista, nem índio aculturado
não vejo filme cabeça nem me masturbo o intelecto
Não como carne, nem bebo cerveja
escrevo pouco, e só!
Não curto Caetano, nem outros baianos
não amo minha terra, nem a terra alheia
Não canto serestas, nem toco chorinho
escrevo pouco, e só!
Agora, quer ver me animar?
Me abre uma jaca mole,
bem amarelinha, madura e silente
com sua pele áspera
seu visgo entranhado
seu caroço grave
seu cheiro insistente
em seu despudor.
Aí, escreverei muito, e acompanhado!
Só!
não estou na moda nem nas rodas literárias,
Não vou às Bienais, nem a saraus
escrevo pouco, e só!
Não sou ativista, nem índio aculturado
não vejo filme cabeça nem me masturbo o intelecto
Não como carne, nem bebo cerveja
escrevo pouco, e só!
Não curto Caetano, nem outros baianos
não amo minha terra, nem a terra alheia
Não canto serestas, nem toco chorinho
escrevo pouco, e só!
Agora, quer ver me animar?
Me abre uma jaca mole,
bem amarelinha, madura e silente
com sua pele áspera
seu visgo entranhado
seu caroço grave
seu cheiro insistente
em seu despudor.
Aí, escreverei muito, e acompanhado!
Só!
terça-feira, 1 de julho de 2008
Psicanalíticas
1.
De cabelo em pé?
Lacan
ou
laquê!
2.
No divã ninguém
Se Freud...
3.
Comi minha mãe,
Matei meu pai e
Acordei!
4.
Saiu correndo e gritando pelo consultório.
Não fora ela,
Nem Gikovate,
Fora Woody Allen!
5.
A Revolução reconhece
A influência
De Sigmund Freud
Sobre Fidel:
Charutos, barbas e longos discursos
6.
— Minha mãe me disse
Para não conversar com estranhos.
O senhor não ouvirá nada de mim!
E o analista:
— Quer falar sobre isso?
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Juninas
1.
Tem tanta fogueira... :
Inquisição.
2.
Danei a faca no tronco da bananeira... :
Crime ambiental.
3.
O céu fica colorido com tantas estrelas e balões... :
Contravenção.
4.
Vi no dedo um compromisso... :
Adultério.
5.
Menino, segura o fole, não deixe o fole parar:
Trabalho escravo.
6.
Só falta uma medida provisória
para acabar com a tradição
em nome dos bons costumes
e da correção política.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
para colocar as coisas em seus lugares
Está claro para todos a divisão adotada pelas academias, leiam-se universidades, confrarias de letras, mercado editorial, professores e alunos dos cursos de letras e outros, pois bem, está claro, uma divisão sólida e bem administrada, entre literatura erudita e literatura popular. Essa divisão abarca outras artes como a música, a pintura, o teatro. Será preciso abrandar as diferenças, diminuir o preconceito, aclarar idéias, pensar.
Popular seria aquela poesia produzida pelo povo, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, freqüentadora da escola, bancária, como diria Paulo Freire. A distinção está posta à mesa, cabe-nos digeri-la. Vamos além, entretanto: cabe-nos ruminá-la.
Na sala de aula temos estudado poetas nordestinos os mais diversos: Manuel Bandeira, Gregório de Mattos, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos. São os formadores de nossa veia culta, esmiuçados até seus mais insignificantes detalhes. A contribuição desses poetas é imensa e oferta ao Brasil sua face literária mais importante. São os nossos autores clássicos. Esses estão de um lado, habitam os livros, as bienais de literatura, os documentários, com justo merecimento.
Caminhando em estrada paralela, vezes em veredas, estradas vicinais, ao som do orvalho nos capins, aos pingos de canto de algum pássaro bravio, outros poetas, conhecidos na sombra, vivos nas ruas, nos cafés, no trabalho. São os poetas populares. Esquecidos da escola, habitam o folclore e o exotismo. Sua pena, sua letra, desce à mesma seara.
Os autores da literatura de cordel formam desse lado, do lado popular. E sua produção intelectual, também. Chegamos, pois a nossa encruzilhada. Se a literatura de cordel está colocada sob a égide da cultura popular, encontra-se segregada e desprovida de fundamentos teóricos mais persistentes que a façam entrar pela porta da frente da casa de nossos intelectuais. Mas, antes de entrarmos nesse raciocínio, faz-se mister, diferençar a poesia de cordel de outras formas de poesia nascidas e cultuadas no Nordeste brasileiro.
É muito comum os estudiosos de cordel colocarem no mesmo saco cordel e repente. Além de serem, o cordel e o repente, completamente distintos, encontram-se em lugares opostos no panorama da poesia nordestina. Vejamos.
O cordel e o repente são apenas mais dois no paradigma poético do Nordeste. Os meios de comunicação, embalados por opiniões equivocadas, propagou uma falsa unidade em todo produto poético emanado dos autores populares. Procuraremos apontar as diferenças e aproximações.
Há duas vertentes poéticas no Nordeste, como no mundo: a oral e a escrita. Na primeira encontraremos, cada uma com suas características e singularides:
o repente de cantoria,
o coco de embolada,
o aboio,
a glosa,
a adivinha,
a pulha.
Colocamos em ordem de complexidade criativa, com o repente de cantoria se apresentando como o sistema mais diversificado e complexo. Não vou esmiuçar, pelo menos agora, pois não tenho fôlego suficiente, essas categorias, vou apenas citá-las deixando ao leitor a tarefa do aprofundar-se.
Na vertente escrita:
a literatura de cordel
e
a poesia matuta.
Citaremos, ainda, uma categoria oriunda dos cantadores repentistas: as canções, que pela sua excelência poética eram, além de cantadas e apreciadas, vendidas em folhas soltas pelo próprio autor ou por revendedor de folhetos de cordel.
Alerto que esse rústico mapa da poesia nordestina é tão somente uma indicação para quem quiser aprofundar-se e estudar com mais afinco. Infelizmente, da mesma forma que aconteceu com o forró, quando não se consegue distinguir xote, baião, rojão, xaxado, coco, cometeu-se o engano de se reunir essa diversidade sob o guarda-chuva da literatura de cordel... (Vai continuar)
Popular seria aquela poesia produzida pelo povo, os não letrados, os trabalhadores rurais, os habitantes dos guetos. Erudita seria aquela produzida pela elite intelectual, freqüentadora da escola, bancária, como diria Paulo Freire. A distinção está posta à mesa, cabe-nos digeri-la. Vamos além, entretanto: cabe-nos ruminá-la.
Na sala de aula temos estudado poetas nordestinos os mais diversos: Manuel Bandeira, Gregório de Mattos, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos. São os formadores de nossa veia culta, esmiuçados até seus mais insignificantes detalhes. A contribuição desses poetas é imensa e oferta ao Brasil sua face literária mais importante. São os nossos autores clássicos. Esses estão de um lado, habitam os livros, as bienais de literatura, os documentários, com justo merecimento.
Caminhando em estrada paralela, vezes em veredas, estradas vicinais, ao som do orvalho nos capins, aos pingos de canto de algum pássaro bravio, outros poetas, conhecidos na sombra, vivos nas ruas, nos cafés, no trabalho. São os poetas populares. Esquecidos da escola, habitam o folclore e o exotismo. Sua pena, sua letra, desce à mesma seara.
Os autores da literatura de cordel formam desse lado, do lado popular. E sua produção intelectual, também. Chegamos, pois a nossa encruzilhada. Se a literatura de cordel está colocada sob a égide da cultura popular, encontra-se segregada e desprovida de fundamentos teóricos mais persistentes que a façam entrar pela porta da frente da casa de nossos intelectuais. Mas, antes de entrarmos nesse raciocínio, faz-se mister, diferençar a poesia de cordel de outras formas de poesia nascidas e cultuadas no Nordeste brasileiro.
É muito comum os estudiosos de cordel colocarem no mesmo saco cordel e repente. Além de serem, o cordel e o repente, completamente distintos, encontram-se em lugares opostos no panorama da poesia nordestina. Vejamos.
O cordel e o repente são apenas mais dois no paradigma poético do Nordeste. Os meios de comunicação, embalados por opiniões equivocadas, propagou uma falsa unidade em todo produto poético emanado dos autores populares. Procuraremos apontar as diferenças e aproximações.
Há duas vertentes poéticas no Nordeste, como no mundo: a oral e a escrita. Na primeira encontraremos, cada uma com suas características e singularides:
o repente de cantoria,
o coco de embolada,
o aboio,
a glosa,
a adivinha,
a pulha.
Colocamos em ordem de complexidade criativa, com o repente de cantoria se apresentando como o sistema mais diversificado e complexo. Não vou esmiuçar, pelo menos agora, pois não tenho fôlego suficiente, essas categorias, vou apenas citá-las deixando ao leitor a tarefa do aprofundar-se.
Na vertente escrita:
a literatura de cordel
e
a poesia matuta.
Citaremos, ainda, uma categoria oriunda dos cantadores repentistas: as canções, que pela sua excelência poética eram, além de cantadas e apreciadas, vendidas em folhas soltas pelo próprio autor ou por revendedor de folhetos de cordel.
Alerto que esse rústico mapa da poesia nordestina é tão somente uma indicação para quem quiser aprofundar-se e estudar com mais afinco. Infelizmente, da mesma forma que aconteceu com o forró, quando não se consegue distinguir xote, baião, rojão, xaxado, coco, cometeu-se o engano de se reunir essa diversidade sob o guarda-chuva da literatura de cordel... (Vai continuar)
A tempo: Fique bem claro que odeio rótulos. Logo, não faço distinção entre poetas populares e eruditos: há lixo nos dois cestos. Pouco trigo e muito joio.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Ainda o boníssimo Leandro Gomes de Barros
Não foi a protuberância glútea da Mulher Melancia, seus requebros e reflexos auditivos, tampouco seu minúsculo “short” e pernas bronze-torneadas. Nada disso. Também não foi a barba de Fidel Castro e sua renúncia a comandante da outrora onírica ilha. Nada disso. Minha comoção deu-se pela passagem dos 90 anos de morte de Leandro Gomes de Barros: o criador do sistema de produção da Literatura de Cordel.
Esse Leandro, além de ter escrito aproximadamente mil folhetos de cordel, vertendo para sextilhas, décimas ou quadrões, velhas histórias da Península Ibérica, fundou a tradição do herói nordestino, oferecendo caracteres épicos à literatura feita por poetas que não frenquentaram a escola nem se deixaram moldar pelos modismos europeus da época. Sim, porque o cordel nasceu paralelo à escola romântica sem dela tomar conhecimento.
Apesar de ser a única forma original de poesia brasileira, com temas e forma únicos, essa poesia e esse poeta são vistos pela maioria dos que estudam letras e produzem literatura no Brasil como menores, transitam o caminho do exótico, enclausurados no folclore (essa palavra infame), sucumbem às falsas teorias, harmonizam-se com a margem, são naufragados pela ignorância geral. É uma pena. Mas a resistência pede passagem e nós estamos aqui como bastiões da tradição cordélica.
De Leandro disse Carlos Drummond de Andrade: “Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo à má informação porque o título, a ser concebido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de ‘Ouvir Estrelas’.”
Acrescentava que Leandro “... não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”. Disse-nos desse mesmo Leandro, o velho e bom Câmara Cascudo: “Um dia, quando se fizer a colheita do folclore poético, reaparecerá o humilde Leandro Gomes de Barros, vivendo de fazer versos, espalhando uma onda sonora de entusiasmo e de alacridade na face triste do sertão”. Sofremos desse mal de memória e de preconceito.
Mais ainda foi dito de Leandro: “Viveu unicamente do produto de suas histórias rimadas, que ainda hoje são as melhores da literatura de cordel.” A sua importância transcende o simples fazer e editar e comercializar versos de cordel. Foi o primeiro a preocupar-se com o material físico, com o folheto em si. Passou a imprimir fotografias em suas capas e desenhos de arte. Fundou sua própria tipografia, criou campanhas de marketing para seus folhetos, distribuiu-os pelo Nordeste afora, deu-lhes dignidade.
Foi o primeiro a se preocupar com direitos autorais. Passou a escrever acrósticos nos versos finas de seus folhetos e não conseguindo, assim, vencer a “pirataria”, sim, porque muitos se aproveitavam para reproduzir seus folhetos assinando-os, passou a estampar sua fotografia na contracapa dos mesmos com os seguintes dizeres: “ Aos meus caros leitores do Brasil — Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas — aviso que desta data em diante todos os meus folhetos completos trarão o meu retrato.”
A seguir dá o motivo de tal decisão: “Faço este aviso afim de prevenir aos incautos que têem sido enganados na sua boa fé por vendedores de folhetos menos sérios que têem alterado e publicado os meus livros, comettendo assim um crime vergonhoso.” Assina e data Recife, 9 de 7 de 1917. Como se vê a fama de Leandro extrapolou o Nordeste e enveredou pelo Norte do Brasil. Acredito mesmo que tenha sido o autor mais lido e publicado naquela época. Se a famigerada lista de mais vendidos atentasse para isso teríamos um “best seller”.
É uma pena, sob o signo da irresponsabilidade e preconceito, que a literatura de cordel e Leandro, em particular, não figurem nos manuais de história da literatura brasileira com a devida reverência. Se o cordel é marca identitária nordestina, nada deve à produção poética dos gabinetes e das academias, dos poetas herméticos e dos círculos literários do sul do país. A espera da colheita, como disse, Cascudo, não surtirá efeito algum. O que conta é a semeadura. Ainda estamos relegados à curiosidade.
Portanto, senhores, reitero minha emoção construída não com a bunda da Mulher Melancia, nem com a barba empoeirada de Fidel, mas com a pena e a atitude empreendedora do maior poeta nordestino de todos os tempos, aquele que descortinou uma pátria nova, que fundou um caminho e uma tradição, que nos ofereceu a dignidade de não esperar migalhas das grandes editoras nem de incentivos do governo ou de empresas multinações, que acreditou em si e na sua veia, o príncipe de nós todos: Leandro Gomes de Barros.
Esse Leandro, além de ter escrito aproximadamente mil folhetos de cordel, vertendo para sextilhas, décimas ou quadrões, velhas histórias da Península Ibérica, fundou a tradição do herói nordestino, oferecendo caracteres épicos à literatura feita por poetas que não frenquentaram a escola nem se deixaram moldar pelos modismos europeus da época. Sim, porque o cordel nasceu paralelo à escola romântica sem dela tomar conhecimento.
Apesar de ser a única forma original de poesia brasileira, com temas e forma únicos, essa poesia e esse poeta são vistos pela maioria dos que estudam letras e produzem literatura no Brasil como menores, transitam o caminho do exótico, enclausurados no folclore (essa palavra infame), sucumbem às falsas teorias, harmonizam-se com a margem, são naufragados pela ignorância geral. É uma pena. Mas a resistência pede passagem e nós estamos aqui como bastiões da tradição cordélica.
De Leandro disse Carlos Drummond de Andrade: “Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo à má informação porque o título, a ser concebido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de ‘Ouvir Estrelas’.”
Acrescentava que Leandro “... não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”. Disse-nos desse mesmo Leandro, o velho e bom Câmara Cascudo: “Um dia, quando se fizer a colheita do folclore poético, reaparecerá o humilde Leandro Gomes de Barros, vivendo de fazer versos, espalhando uma onda sonora de entusiasmo e de alacridade na face triste do sertão”. Sofremos desse mal de memória e de preconceito.
Mais ainda foi dito de Leandro: “Viveu unicamente do produto de suas histórias rimadas, que ainda hoje são as melhores da literatura de cordel.” A sua importância transcende o simples fazer e editar e comercializar versos de cordel. Foi o primeiro a preocupar-se com o material físico, com o folheto em si. Passou a imprimir fotografias em suas capas e desenhos de arte. Fundou sua própria tipografia, criou campanhas de marketing para seus folhetos, distribuiu-os pelo Nordeste afora, deu-lhes dignidade.
Foi o primeiro a se preocupar com direitos autorais. Passou a escrever acrósticos nos versos finas de seus folhetos e não conseguindo, assim, vencer a “pirataria”, sim, porque muitos se aproveitavam para reproduzir seus folhetos assinando-os, passou a estampar sua fotografia na contracapa dos mesmos com os seguintes dizeres: “ Aos meus caros leitores do Brasil — Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas — aviso que desta data em diante todos os meus folhetos completos trarão o meu retrato.”
A seguir dá o motivo de tal decisão: “Faço este aviso afim de prevenir aos incautos que têem sido enganados na sua boa fé por vendedores de folhetos menos sérios que têem alterado e publicado os meus livros, comettendo assim um crime vergonhoso.” Assina e data Recife, 9 de 7 de 1917. Como se vê a fama de Leandro extrapolou o Nordeste e enveredou pelo Norte do Brasil. Acredito mesmo que tenha sido o autor mais lido e publicado naquela época. Se a famigerada lista de mais vendidos atentasse para isso teríamos um “best seller”.
É uma pena, sob o signo da irresponsabilidade e preconceito, que a literatura de cordel e Leandro, em particular, não figurem nos manuais de história da literatura brasileira com a devida reverência. Se o cordel é marca identitária nordestina, nada deve à produção poética dos gabinetes e das academias, dos poetas herméticos e dos círculos literários do sul do país. A espera da colheita, como disse, Cascudo, não surtirá efeito algum. O que conta é a semeadura. Ainda estamos relegados à curiosidade.
Portanto, senhores, reitero minha emoção construída não com a bunda da Mulher Melancia, nem com a barba empoeirada de Fidel, mas com a pena e a atitude empreendedora do maior poeta nordestino de todos os tempos, aquele que descortinou uma pátria nova, que fundou um caminho e uma tradição, que nos ofereceu a dignidade de não esperar migalhas das grandes editoras nem de incentivos do governo ou de empresas multinações, que acreditou em si e na sua veia, o príncipe de nós todos: Leandro Gomes de Barros.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Sobre Leandro Gomes de Barros
1. No dia 4 de março passado completaram-se 90 anos da morte do maior poeta cordelista do Brasil: Leandro Gomes de barros. Minha alegria de ter cruzado com Leandro e com sua obra é o que deve ser contado. Decidi reler toda a obra do bardo e identificar algumas peculiaridades. E assim vai: Leandro foi um homem de seu tempo. Filho da primeira revolução industrial, não vacilou e aliou-se à máquina. Dessa forma ilustrou a capa de seus folhetos com fotografia, mídia recém-descoberta. É célebre a estampa de seu busto na contracapa de seus folhetos para evitar falsificação, o tão moderno "pirata" de hoje. Montou sua própria tipografia e começou a publicação em série de seu lavra. Contactou distribuidores e pensou uma estrutura de marketing positivo. E aqui há uma observação a fazer. Quando se diz que Leandro viveu do que escreveu é informação incompleta. Pois não só escreveu, como produziu, diagramou, distribuiu, contabilizou, imprimiu, corrigiu, enfim foi o super-homem na linha de produção. Da concepção, escrita, impressão e distribuição foi ele o responsável. Viveu de seu trabalho diuturno. Leandro só pensava em cordel e em como aprimorá-lo, transformando-o em um item agradável aos olhos, ao tato e à mente. Literatura e entretenimento, isso o que queria Leandro.
Um poema perdido de Leandro?
Conta-nos Sebastião Nunes da Silva de fato acontecido entre Leandro e seu amigo e contraparente Francisco das Chagas Batista, quando este residia em Guarabira-PB. Numa das constantes visitas de Leandro, foram a um casamento a cavalo. Desse passeio resultou um poema de Leandro intitulado O Poltro do Meu Colega, referência ao cavalo desengonçado por ele montado. Ainda não encontrei tal poema, tampouco encontrei alguém que já o tenha lido. Sei apenas, noticiado pelo Nunes Batista, da resposta escrita em folheto por Chagas Batista e também desaparecida do acervo da Biblioteca Nacional. Transcrevo a primeira estrofe. No caso de não haver empecilho quanto aos direitos autorais posso transcrevê-la totalmente:
Leandro Gomes, um dia
Precisou de meu cavalo,
Falou-me para alugá-lo
Disse que me pagaria!
Eu não marquei a quantia
E entreguei-lhe o sendeiro,
Ele que é mau cavaleiro
Lá no caminho caiu,
E ao voltar, me iludiu
Não quis pagar meu dinheiro...
Um equívoco de Câmara Cascudo
Depois da morte de Leandro, em 1918, sua obra foi administrada por seu genro Pedro Batista. Depois, por volta dos anos 20, os direitos autorais foram adquiridos pelo poeta João Martins de Ataíde que passou a assinar os folhetos, adulterando, inclusive, os acrósticos leandrinos. Aconteceu o mesmo quando da aquisição por José Bernardo da Silva que, omitindo o nome de Leandro, anotava-se como editor proprietário. Esses subterfúgios levaram Câmara Cascudo, o nosso impagável estudioso, a cometer um equívoco. Em seu Vaqueiros e Cantadores ele nos dá a autoria de A História de Pedro Cem como sendo de João Martins de Ataíde, à página 259, do nº 81 da coleção Reconquista do Brasil (Nova Série). Diz:
“O poeta popular João Martins de Ataíde reconstituiu o romance, escrevendo-o em sextilhas, ao gosto das cantorias nordestinas. Há várias edições. A que transcrevo é de junho de 1932, impressa em Recife, Pernambuco. Pedro cem continua tendo leitores e sua existência servindo de exemplo apavorador.”
Quatro versões para O Soldado Jogador
A primeira história de Leandro que li foi O Soldado Jogador. Anotada por Leonardo Mota e ouvida do Cego Aderaldo, foi transcrita em Cantadores. O que pretendo é descrever as cinco primeira estrofes de quatro versões que tenho para essa história para que observemos as mudanças no texto de cada uma delas. É claro que não atrapalham o sentido geral da obra, mas pode, além de servir de curiosidade, dar testemunho de que se pode fazer algo pior com as obras dos nossos autores de cordel. Por isso, certa vez, quando o nosso Marco Haurélio estava na Luzeiro, pedi que a editora observasse o ISBN das publicações. Dessa forma se evitaria a intervenção na obra definitiva. Transcrevo a versão de Leota, ouvida do Cego Aderaldo:
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte,
Jogador de profissão;
Nunca ele foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses, nesse tempo,
Tinham por obrigação
— o militar e o civil —
Seguir a Religião;
O Papa fazia a lei,
Botava em circulação.
Ricarte, soldado velho,
Com trinta anos de tarimba,
Aonde ele achava jogo
De sete e meio ou marimba,
Dizia logo: —“Eu vou ver
Água na minha cacimba!”
Um dia, faltou-lhe o soldo...
Ricarte pôs-se a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar...
Era domingo e a Missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um xis!
Fiado nem se falava,
Pois um soldado francês,
Na bodega em que comprava,
Só pegava um objeto
Porém depois que pagava...
MOTA, Leonardo. Cantadores. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. Pg. 110-114
Versão da Antologia da Casa de Rui Barbosa
Perceba-se que não interferi na acentuação gráfica como era na época.
Era um soldado Francês
Que se chamava Ricardo
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bôlso
O resultado da arte.
Os franceses neste tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricardo soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde achava jôgo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo eu vou ver
Água em minha cacimba.
Um dia faltou-lhe saldo
Pôs-se Ricardo a pensar
Onde podia haver jôgo
Que ele podesse jogar
Era domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um X
A crédito êle nem falava
Pois um soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Antologia. Tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Casa de Rui Barbosa, 1964. Coleção de textos da língua portuguesa moderna-4. Pp. 457-460.
A versão de Irani Medeiros
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricarte soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jôgo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: eu vou ver
Água na minha cacimba.
Um dia faltou-lhe o soldado
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um xis
A crédito êle nem falava
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
MEDEIROS, Irani (org). Leandro Gomes de Barros. No reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Idéia, 2002.
A versão da Queima-Bucha
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricarte, soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jogo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: — Eu vou ver
Água na minha cacimba!
Um dia faltou-lhe o soldo
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era Domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um "xis"
A crédito ele nem falava,
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
BARROS, Leandro Gomes de. O soldado jogador. Mossoró: Queima-Bucha, 2005.
Um poema perdido de Leandro?
Conta-nos Sebastião Nunes da Silva de fato acontecido entre Leandro e seu amigo e contraparente Francisco das Chagas Batista, quando este residia em Guarabira-PB. Numa das constantes visitas de Leandro, foram a um casamento a cavalo. Desse passeio resultou um poema de Leandro intitulado O Poltro do Meu Colega, referência ao cavalo desengonçado por ele montado. Ainda não encontrei tal poema, tampouco encontrei alguém que já o tenha lido. Sei apenas, noticiado pelo Nunes Batista, da resposta escrita em folheto por Chagas Batista e também desaparecida do acervo da Biblioteca Nacional. Transcrevo a primeira estrofe. No caso de não haver empecilho quanto aos direitos autorais posso transcrevê-la totalmente:
Leandro Gomes, um dia
Precisou de meu cavalo,
Falou-me para alugá-lo
Disse que me pagaria!
Eu não marquei a quantia
E entreguei-lhe o sendeiro,
Ele que é mau cavaleiro
Lá no caminho caiu,
E ao voltar, me iludiu
Não quis pagar meu dinheiro...
Um equívoco de Câmara Cascudo
Depois da morte de Leandro, em 1918, sua obra foi administrada por seu genro Pedro Batista. Depois, por volta dos anos 20, os direitos autorais foram adquiridos pelo poeta João Martins de Ataíde que passou a assinar os folhetos, adulterando, inclusive, os acrósticos leandrinos. Aconteceu o mesmo quando da aquisição por José Bernardo da Silva que, omitindo o nome de Leandro, anotava-se como editor proprietário. Esses subterfúgios levaram Câmara Cascudo, o nosso impagável estudioso, a cometer um equívoco. Em seu Vaqueiros e Cantadores ele nos dá a autoria de A História de Pedro Cem como sendo de João Martins de Ataíde, à página 259, do nº 81 da coleção Reconquista do Brasil (Nova Série). Diz:
“O poeta popular João Martins de Ataíde reconstituiu o romance, escrevendo-o em sextilhas, ao gosto das cantorias nordestinas. Há várias edições. A que transcrevo é de junho de 1932, impressa em Recife, Pernambuco. Pedro cem continua tendo leitores e sua existência servindo de exemplo apavorador.”
Quatro versões para O Soldado Jogador
A primeira história de Leandro que li foi O Soldado Jogador. Anotada por Leonardo Mota e ouvida do Cego Aderaldo, foi transcrita em Cantadores. O que pretendo é descrever as cinco primeira estrofes de quatro versões que tenho para essa história para que observemos as mudanças no texto de cada uma delas. É claro que não atrapalham o sentido geral da obra, mas pode, além de servir de curiosidade, dar testemunho de que se pode fazer algo pior com as obras dos nossos autores de cordel. Por isso, certa vez, quando o nosso Marco Haurélio estava na Luzeiro, pedi que a editora observasse o ISBN das publicações. Dessa forma se evitaria a intervenção na obra definitiva. Transcrevo a versão de Leota, ouvida do Cego Aderaldo:
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte,
Jogador de profissão;
Nunca ele foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses, nesse tempo,
Tinham por obrigação
— o militar e o civil —
Seguir a Religião;
O Papa fazia a lei,
Botava em circulação.
Ricarte, soldado velho,
Com trinta anos de tarimba,
Aonde ele achava jogo
De sete e meio ou marimba,
Dizia logo: —“Eu vou ver
Água na minha cacimba!”
Um dia, faltou-lhe o soldo...
Ricarte pôs-se a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar...
Era domingo e a Missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um xis!
Fiado nem se falava,
Pois um soldado francês,
Na bodega em que comprava,
Só pegava um objeto
Porém depois que pagava...
MOTA, Leonardo. Cantadores. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. Pg. 110-114
Versão da Antologia da Casa de Rui Barbosa
Perceba-se que não interferi na acentuação gráfica como era na época.
Era um soldado Francês
Que se chamava Ricardo
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bôlso
O resultado da arte.
Os franceses neste tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricardo soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde achava jôgo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo eu vou ver
Água em minha cacimba.
Um dia faltou-lhe saldo
Pôs-se Ricardo a pensar
Onde podia haver jôgo
Que ele podesse jogar
Era domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um X
A crédito êle nem falava
Pois um soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Antologia. Tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Casa de Rui Barbosa, 1964. Coleção de textos da língua portuguesa moderna-4. Pp. 457-460.
A versão de Irani Medeiros
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricarte soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jôgo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: eu vou ver
Água na minha cacimba.
Um dia faltou-lhe o soldado
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um xis
A crédito êle nem falava
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
MEDEIROS, Irani (org). Leandro Gomes de Barros. No reino da poesia sertaneja. João Pessoa: Idéia, 2002.
A versão da Queima-Bucha
Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.
Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação
O militar ou civil
Seguir a religião
O Papa deitava a lei
Botava em circulação.
Ricarte, soldado velho
Com trinta anos de tarimba
Aonde ele achava jogo
De lasquinê ou marimba
Dizia logo: — Eu vou ver
Água na minha cacimba!
Um dia faltou-lhe o soldo
Pôs-se Ricarte a pensar
Onde podia haver jogo
Que ele pudesse jogar
Era Domingo e a missa
Não havia de tardar.
Dinheiro não tinha um "xis"
A crédito ele nem falava,
Pois o soldado francês
Na taberna onde comprava
Só pegava no objeto
Porém depois que pagava.
BARROS, Leandro Gomes de. O soldado jogador. Mossoró: Queima-Bucha, 2005.
quarta-feira, 19 de março de 2008
A volta do filho pródigo e a seara de Saramago
É verdade, fui demitido. O processo foi lento, gradual e doloroso. Não que eu esteja assado, mas que fui sendo assado. Ou fritado, como se diz na política. E o melhor: havia começado a ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Se vocês já o leram devem se lembrar de que a frase inicial do romance inacabado, de mais de mil páginas, é “Uma pressão barométrica mínina pairava sobre o Atlântico”. Deu-se o contrário comigo e meu romance poderia iniciar-se assim “Uma pressão apoplética máxima pairava sobre meus santos”. Mas não o direi, sei da ignorância dos dirigentes do mísero futebol educacional brasileiro, no qual a educação é apenas um detalhe, mínimo. Nem aqui é genuflexório para lamentação. Vou apenas relatar minha última noite.
No dia 20 de dezembro, a partir das 19:00h, iniciaram-se as defesas de monografia de três orientandas minhas. Entre elas, Suzana seguiu a literatura infantil, a Rosana, a literatura de cordel e a Rosiane resolvera trabalhar certas intertextualidades no poema A seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto. Contei o fato para o Zé e ele prontificou-se a ajudar no que fosse preciso. Paraibano de Uiraúna (e os paraibanos formam uma estranha confraria de quasímodos determinados), ele, o Nêumanne, é autor do premiado O silêncio do delator e ficou entusiasmado. Quando soube da defesa, na impossibilidade de se fazer presente, pediu que Ipojuca Pontes, o cineasta de A volta do filho pródigo, o representasse à mesa examinadora.
Comentei com alguns colegas o fato de termos o Ipojuca na faculdade e marcáramos as defesas para a biblioteca, o lugar mais apropriado para a recepção, em meio a livros, computadores e um pouco de silêncio. Descobri que o professor Antonio Niddan tinha consigo guardado a sete chaves o original do roteiro do filme de Ipojuca. Imaginei ser uma boa hora para, depois de 20 e poucos anos, o material retornar às mãos do dono e convenci o Niddan a devolver, em solenidade, durante a defesa da Rosiane, o roteiro perdido. E assim foi feito. Era o nosso último dia letivo e haveria logo depois uma confraternização entre os alunos do curso de letras, promovida pelas recém licenciadas.
Terminadas as defesas, atribuídas as notas, todas aprovadas com nota máxima pela excelência dos trabalhos, aconteceu o que eu não esperava. Foi projetada na parede uma apresentação em minha homenagem. E ali, no calor daquela hora, me emocionei e quase fui às lágrimas, aplaudido pelo público de alunos e amigos. Mas a festa não era minha. Era das graduandas, era do Nêumanne, era do Ipojuca. Notei que na platéia estava a chefe do departamento de pessoal da instituição. Quando tudo acabou, os comes e bebes findos, a biblioteca rearrumada, os equipamentos guardados, os alunos já partindo para casa, fui abordado por ela parabenizando-me pelo trabalho, mas escondendo aquele ar indescritível de quem vai produzir uma nódoa, dizendo querer falar comigo a sós.
E assim se deu o fato às 22:20h, término do último horário de aula do último dia letivo do ano. Ali, na sala do famigerado relógio de ponto, recebi o aviso de dispensa, sem precisar cumprir aviso prévio. Naquele momento desceu sobre mim um alívio por todo o corpo, uma alegria pela alma, o descanso de um período de atrito e atribulações, de enfrentamento e boicote, de discussões e bate-boca. Era o fim dos meus salários sempre atrasados e o início de uma temporada de paz. Se o trabalho é o jugo da humanidade, os patrões, desde Labão, são, em tempos diferentes, o algodão doce e a esponja de fel no paladar do professor.
Cumpriu-se o ciclo inexplicável da vida. A volta do filho pródigo voltou para o seu autor, A seara de Saramago retornou ao berço da história literária, os alunos encaminharam-se para seus sonhos individuais, as monografias desceram ao mofo da biblioteca, suas autoras desceram ao vazio do pós-guerra, a faculdade emergiu na escuridão de suas lâmpadas e luzes apagadas. Eu voltei para casa, onde me esperava, indiferente às calamidades e celebrações, O homem sem qualidades. Nunca mais tive insônia. Boa noite!
No dia 20 de dezembro, a partir das 19:00h, iniciaram-se as defesas de monografia de três orientandas minhas. Entre elas, Suzana seguiu a literatura infantil, a Rosana, a literatura de cordel e a Rosiane resolvera trabalhar certas intertextualidades no poema A seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto. Contei o fato para o Zé e ele prontificou-se a ajudar no que fosse preciso. Paraibano de Uiraúna (e os paraibanos formam uma estranha confraria de quasímodos determinados), ele, o Nêumanne, é autor do premiado O silêncio do delator e ficou entusiasmado. Quando soube da defesa, na impossibilidade de se fazer presente, pediu que Ipojuca Pontes, o cineasta de A volta do filho pródigo, o representasse à mesa examinadora.
Comentei com alguns colegas o fato de termos o Ipojuca na faculdade e marcáramos as defesas para a biblioteca, o lugar mais apropriado para a recepção, em meio a livros, computadores e um pouco de silêncio. Descobri que o professor Antonio Niddan tinha consigo guardado a sete chaves o original do roteiro do filme de Ipojuca. Imaginei ser uma boa hora para, depois de 20 e poucos anos, o material retornar às mãos do dono e convenci o Niddan a devolver, em solenidade, durante a defesa da Rosiane, o roteiro perdido. E assim foi feito. Era o nosso último dia letivo e haveria logo depois uma confraternização entre os alunos do curso de letras, promovida pelas recém licenciadas.
Terminadas as defesas, atribuídas as notas, todas aprovadas com nota máxima pela excelência dos trabalhos, aconteceu o que eu não esperava. Foi projetada na parede uma apresentação em minha homenagem. E ali, no calor daquela hora, me emocionei e quase fui às lágrimas, aplaudido pelo público de alunos e amigos. Mas a festa não era minha. Era das graduandas, era do Nêumanne, era do Ipojuca. Notei que na platéia estava a chefe do departamento de pessoal da instituição. Quando tudo acabou, os comes e bebes findos, a biblioteca rearrumada, os equipamentos guardados, os alunos já partindo para casa, fui abordado por ela parabenizando-me pelo trabalho, mas escondendo aquele ar indescritível de quem vai produzir uma nódoa, dizendo querer falar comigo a sós.
E assim se deu o fato às 22:20h, término do último horário de aula do último dia letivo do ano. Ali, na sala do famigerado relógio de ponto, recebi o aviso de dispensa, sem precisar cumprir aviso prévio. Naquele momento desceu sobre mim um alívio por todo o corpo, uma alegria pela alma, o descanso de um período de atrito e atribulações, de enfrentamento e boicote, de discussões e bate-boca. Era o fim dos meus salários sempre atrasados e o início de uma temporada de paz. Se o trabalho é o jugo da humanidade, os patrões, desde Labão, são, em tempos diferentes, o algodão doce e a esponja de fel no paladar do professor.
Cumpriu-se o ciclo inexplicável da vida. A volta do filho pródigo voltou para o seu autor, A seara de Saramago retornou ao berço da história literária, os alunos encaminharam-se para seus sonhos individuais, as monografias desceram ao mofo da biblioteca, suas autoras desceram ao vazio do pós-guerra, a faculdade emergiu na escuridão de suas lâmpadas e luzes apagadas. Eu voltei para casa, onde me esperava, indiferente às calamidades e celebrações, O homem sem qualidades. Nunca mais tive insônia. Boa noite!
querem me obrigar a usar o powerpoint
Ando desanimado. Dizem os alunos ”O professor Aderaldo está fadado ao suicídio!” ou “ O professor Aderaldo é um porre”. Tudo isso porque insisto em ser um mestre inovador e introduzir em sala de aula a leitura obrigatória. Repito com ênfase garrafal LEITURA OBRIGATÓRIA. Não engulo alguns pedagogos e pedagogas alardeando por aí, nesses seminários e congressos masturbatórios, a necessidade de a sala de aula (e a aula em si) competir com a internet, com o cinema, com a televisão. Querem me obrigar a traduzir para apresentações digitais (em PowerPoint, em Flash e em outras paranóias) minha escrita cadavérica no quadro-verde, ou branco (por onde andará o quadro-negro?), ao sabor do improviso requerido pelo momentâneo assédio dos meus interlocutores. Querem me transformar em um amasiado com o datashow. Num andróide com a mão aleijada em mouse.
Os alunos, e esses pedagogos e pedagogas, necessitam compreender o seu dever de se adaptarem à sala de aula (e a aula em si). Entendê-la como o espaço-tempo no qual o mundo fica suspenso, onde o prazer deve se confundir com o dever, o cansaço transmutar-se em força de vontade e a imagem projetada (na tela, na parede ou noutra coisa qualquer) diluir-se em palavras escritas e faladas, ouvidas e lidas e compreendidas. Nenhuma imagem falará mais que uma simples linha de Cervantes. Nenhuma imagem interpretará verdadeiramente a cicatriz de Ulisses. Sejam esses duvidantes consumidos no inferno de Dante, percam com Milton o paraíso, não subam ao sétimo céu, tomem a cicuta de Sócrates, reencarnem como O Diabo na Carne de Miss Jones e assumam a identidade de Linda Lovelace. Essa coisa de perfumar a sala de aula é transformá-la em escola de samba para o fatídico Carnaval da Sapucaí educacional.
Sou professor de Teoria da Literatura, o que já é uma emboscada, uma armadilha, um alçapão fedido. Obrigo-me a ler poetas medíocres, eles mesmos professores também, contistas com as favas contadas, romances tristes vendidos pelas editoras como a vanguarda da vanguarda da vanguarda, crônicas corroídas por bronquites crônicas. Para quê? Para retornar aos clássicos e maldizer e imprecar pelos corredores das faculdades e centros culturais e livrarias e ruas e vielas e sebos e sebosos. E agora toco com minhas teclas nesse outro monstro chamado “faculdade”. Em cada casebre ergue-se sobre o nada uma delas, tantas já apareceram e desapareceram, todas oferecendo cursos de letras e pedagogia e sonegando o pagamento aos professores que, por essa e por outras, descem a ladeira da motivação e, ao se depararem com a classe não-leitora, arrolam todos no saco putrefacto de sua indiferença. E temos ainda, nós professores, de tratar com donos de faculdades odiosos e chefes cujo cargo é apenas fruto do velho e nepótico QI.
Essa constelação “maravilhosa” é meu sepulcro caiado. Minha pedra de Roseta ao contrário. Meu cálice de fel. E tem mais: essa coisa de aula de Língua Portuguesa. Uma fraude, um acinte. E, por favor, leitor cruel, não pare sem ler tudo. Vou destrinçar. Esses professores de Português e gramáticos pregando insistentemente a gramática como regente da língua deviam ser condenados a falar para sempre, em todos os momentos de sua vida, de acordo com a gramática que vomitam. Vendem-nos a idéia apocalíptica aos berros: “para se escrever bem é necessário o conhecimento dela (da gramática).” Ora, a gramática é apenas uma amostragem de como a língua deve funcionar, não tem poder de polícia. Além do mais fica-nos a pergunta “Como é possível todo mundo ser obrigado a estudar por vinte anos a gramática e assim mesmo não saber nada de sua língua (pelo menos de acordo com o que se ensina nas escolas)?” Alguma coisa está errada. Porque a língua não se prende a um punhado de regras ou a como se deva ou não escrever uma palavra.
E retornamos ao nosso primeiro parágrafo. Só a leitura insistente será capaz de oferecer alguma saída para o exército de alunos trancafiados em suas próprias ignorâncias e enjaulados pela nossa. A reclamação mais viva e vívida, entre eles (os alunos), é a de que não têm tempo para ler. Então, por que estão fazendo o curso de Letras? Outros dizem não gostar da leitura. E me pergunto, em voz altíssima, como é isso. A nossa matéria básica é a leitura, não há outra. Deparo-me com alunos que: a) não gostam de ler; b)não sabem ler; c)lêem, mas não entendem o que leram (ou seja não sabem ler) e d)os turistas (os melhores, pelo menos não nos entubam). Em suma, a coisa é feia.
Agora, falando sério, já que o assunto acima é trivial e vulgar e redundante, há outra coisa insuportável. É aquela lista dos mais lidos (ou mais comprados). Todas elas! Parece haver um complô social contra nossa literatura. Dos dez livros de ficção mais lidos (e averiguo toda semana) aparece um ou outro nacional. E esse só entra na lista se, na semana, na segunda-feira, tiver aparecido no programa do Jô. Aí, nossa classe intelectual brasileira resolve ir às nossas horríveis livrarias procurar o famigerado. Passada a segunda semana, o dito cujo some para sempre. É um caso de polícia. Bem como é outro caso o preço médio do livro. Quando tocamos nesse assunto, toda linha de produção e comercialização se contorce e começa o jogo de empurra. Outro dia vi, com meus olhos esbugalhados e ensangüentados, boquiaberto e mudo, uma grande editora incinerar 100 mil volumes e outra vender como papel reciclável 50 mil. Nesse cenário desagradável repito com Adorno: não é possível mais fazer poesia. Entretanto pela quantidade de poetas existentes em nossos cursos de Letras, alunos e professores, Adorno está ultrapassado. Talvez chamando o Capitão Nascimento azeite-se a confusão, ou melhor, a discussão (ou será discursão?)!
Os alunos, e esses pedagogos e pedagogas, necessitam compreender o seu dever de se adaptarem à sala de aula (e a aula em si). Entendê-la como o espaço-tempo no qual o mundo fica suspenso, onde o prazer deve se confundir com o dever, o cansaço transmutar-se em força de vontade e a imagem projetada (na tela, na parede ou noutra coisa qualquer) diluir-se em palavras escritas e faladas, ouvidas e lidas e compreendidas. Nenhuma imagem falará mais que uma simples linha de Cervantes. Nenhuma imagem interpretará verdadeiramente a cicatriz de Ulisses. Sejam esses duvidantes consumidos no inferno de Dante, percam com Milton o paraíso, não subam ao sétimo céu, tomem a cicuta de Sócrates, reencarnem como O Diabo na Carne de Miss Jones e assumam a identidade de Linda Lovelace. Essa coisa de perfumar a sala de aula é transformá-la em escola de samba para o fatídico Carnaval da Sapucaí educacional.
Sou professor de Teoria da Literatura, o que já é uma emboscada, uma armadilha, um alçapão fedido. Obrigo-me a ler poetas medíocres, eles mesmos professores também, contistas com as favas contadas, romances tristes vendidos pelas editoras como a vanguarda da vanguarda da vanguarda, crônicas corroídas por bronquites crônicas. Para quê? Para retornar aos clássicos e maldizer e imprecar pelos corredores das faculdades e centros culturais e livrarias e ruas e vielas e sebos e sebosos. E agora toco com minhas teclas nesse outro monstro chamado “faculdade”. Em cada casebre ergue-se sobre o nada uma delas, tantas já apareceram e desapareceram, todas oferecendo cursos de letras e pedagogia e sonegando o pagamento aos professores que, por essa e por outras, descem a ladeira da motivação e, ao se depararem com a classe não-leitora, arrolam todos no saco putrefacto de sua indiferença. E temos ainda, nós professores, de tratar com donos de faculdades odiosos e chefes cujo cargo é apenas fruto do velho e nepótico QI.
Essa constelação “maravilhosa” é meu sepulcro caiado. Minha pedra de Roseta ao contrário. Meu cálice de fel. E tem mais: essa coisa de aula de Língua Portuguesa. Uma fraude, um acinte. E, por favor, leitor cruel, não pare sem ler tudo. Vou destrinçar. Esses professores de Português e gramáticos pregando insistentemente a gramática como regente da língua deviam ser condenados a falar para sempre, em todos os momentos de sua vida, de acordo com a gramática que vomitam. Vendem-nos a idéia apocalíptica aos berros: “para se escrever bem é necessário o conhecimento dela (da gramática).” Ora, a gramática é apenas uma amostragem de como a língua deve funcionar, não tem poder de polícia. Além do mais fica-nos a pergunta “Como é possível todo mundo ser obrigado a estudar por vinte anos a gramática e assim mesmo não saber nada de sua língua (pelo menos de acordo com o que se ensina nas escolas)?” Alguma coisa está errada. Porque a língua não se prende a um punhado de regras ou a como se deva ou não escrever uma palavra.
E retornamos ao nosso primeiro parágrafo. Só a leitura insistente será capaz de oferecer alguma saída para o exército de alunos trancafiados em suas próprias ignorâncias e enjaulados pela nossa. A reclamação mais viva e vívida, entre eles (os alunos), é a de que não têm tempo para ler. Então, por que estão fazendo o curso de Letras? Outros dizem não gostar da leitura. E me pergunto, em voz altíssima, como é isso. A nossa matéria básica é a leitura, não há outra. Deparo-me com alunos que: a) não gostam de ler; b)não sabem ler; c)lêem, mas não entendem o que leram (ou seja não sabem ler) e d)os turistas (os melhores, pelo menos não nos entubam). Em suma, a coisa é feia.
Agora, falando sério, já que o assunto acima é trivial e vulgar e redundante, há outra coisa insuportável. É aquela lista dos mais lidos (ou mais comprados). Todas elas! Parece haver um complô social contra nossa literatura. Dos dez livros de ficção mais lidos (e averiguo toda semana) aparece um ou outro nacional. E esse só entra na lista se, na semana, na segunda-feira, tiver aparecido no programa do Jô. Aí, nossa classe intelectual brasileira resolve ir às nossas horríveis livrarias procurar o famigerado. Passada a segunda semana, o dito cujo some para sempre. É um caso de polícia. Bem como é outro caso o preço médio do livro. Quando tocamos nesse assunto, toda linha de produção e comercialização se contorce e começa o jogo de empurra. Outro dia vi, com meus olhos esbugalhados e ensangüentados, boquiaberto e mudo, uma grande editora incinerar 100 mil volumes e outra vender como papel reciclável 50 mil. Nesse cenário desagradável repito com Adorno: não é possível mais fazer poesia. Entretanto pela quantidade de poetas existentes em nossos cursos de Letras, alunos e professores, Adorno está ultrapassado. Talvez chamando o Capitão Nascimento azeite-se a confusão, ou melhor, a discussão (ou será discursão?)!
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