terça-feira, 4 de setembro de 2007

MUHAMMAD IBRAHIM BU'ALLU

Traduzi para a revista Confraria dois pequenos textos do escritor marroquino Muhammad Ibrahim Bu'allu. Doutor em Filosofia e professor na Universidade de Rabat, Marrocos, escreveu "O jinete e o cavalo". É a primeira tradução para o português, mesmo que insignificante, de sua pena. Parte de suas Historietas em minuto


A árvore

Sentaram-se debaixo da árvore para, sob sua sombra, protegerem-se do sol, tiraram a comida de suas marmitas, colocaram diante de si e começaram a comer em grupo; logo deitaram no chão antes que terminasse o tempo do almoço e da sesta e tivessem que voltar ao trabalho duro novamente.

A sonolência desceu sua mão pesada sobre suas pálpebras, enquanto as folhas compunham a música da canção que embalava seus sonhos. Já têm com essa árvore encontros diários que se repetem desde que ali chegaram; mais ainda, ela se converteu em sua sala de jantar, na qual almoçam e compartilham o pão.

Um deles pensou: é a única árvore por aqui. E estava certo. Este lugar antes era um verde de árvores, no entanto eles mesmos, era seu trabalho, as arrancavam pela raiz. Casas tomariam conta da paisagem.

Alguns pássaros iniciaram uma sinfonia, um diálogo musical com as folhas, ramos e galhos, e a música os reconfortou e quiseram ficar ali, à sombra fresca, por mais tempo; todavia alguém grita, ferindo a harmonia, o fim do descanso.

Levantados, seguiriam de volta ao trabalho, porém a voz rouca dava ordem para permanecerem ali; veio até eles, postou-se ao centro, definiu suas ordens e se foi.

O tempo pareceu suspender-se frente ao silêncio profundo de seus olhares. Não se sabe de sua comoção, sabe-se apenas que com suas picaretas arrancaram-na pela raiz, afugentando os pássaros.




O homem silencioso

Em qualquer botequim, bar ou lugar de reuniões ele está lá; sempre presente, pensativo com seu cigarro entre os lábios, que, de vez em quando, segura com a mão e bate a cinza.

Todas as línguas repetem seu nome; seu lugar está guardado em todos os encontros, festivos ou não. Se alguém quer conhecê-lo, basta saudá-lo com o olhar, balançando a cabeça. Ele responderá da mesma forma. Ninguém, entrementes, é capaz de conhecer sua opinião sobre isso ou aquilo.

Sabe escutar; pelo menos é o que parece; se não escuta seu interlocutor, da mesma maneira que não fala, não é possível demonstrar e só ele poderia confessá-lo.

Todos acham que não é perigoso; mas quem seria capaz de provar tal fato sobre um indivíduo presente em todas as rodas sem que ele expresse opiniões sobre o que se fala...

Alguém tentou. E esteve com ele diversas vezes; conversou com ele sobre diversos assuntos; o homem silencioso movera sua cabeça afirmativamente em relação a tudo que ouvira. Então este alguém convenceu-se de que ele não era perigoso, pois expusera uma idéia que ele aceitara, para, logo, lançar outra idéia, de sentido oposto, e ele também concordara. Na verdade, o homem silencioso escuta mas não ouve e está presente em toda parte e o mundo todo o conhece.

Três coisas as quais eu não quero nem devo esquecer

1. A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina.

2. É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia-a-dia, na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais, privando-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Mas não sem antes tentar espelir-me, tomando chás amargos para abortar. Todavia eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes àquele útero quente e promissor.

3. O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.