sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O desenho no tapete, como diria Henry James (windows retiradas dos editoriais da Revista Confraria, com autorização)

1. Os fundamentos. “A terra é redonda como uma laranja”, afirmara José Arcádio Buendía à sua amada Úrsula. Esta convenceu-se de sua loucura, mas Macondo cumpria sua saga e nada poderia deter a civilização. Perplexo diante das maravilhas trazidas pelos ciganos, entre elas um tapete voador, Buendía idealizava instrumentos, solitário. Seu modo de ver o mundo, circunscrito aos limites de sua aldeia, tornava-se um elemento incômodo à vida pacata e leve dos seus conterrâneos.


2. Os alicerces. Se a loucura é uma marca de exclusão, seja ela, a loucura, doença ou saúde mental, nós adentramos os seus labirintos. Entretanto, olhando pela janela, fica-nos a pergunta sempre imutável de Augusto dos Anjos: “Para onde iremos, montados nesse cavalo de eletricidade?” Sabe-se apenas de uma parada gay sob bombas em Jerusalém. De um Papai Noel pedófilo, preso em Nova York. De uma bomba-atômica testada com sucesso na Coréia do Norte.

3. As estruturas. Antes do Natal, antes do Ano Novo, ouçamos atentos os conselhos dos tarólogos: aprendamos com quem dá as cartas. Se cartas marcadas, se cartas na manga, se cartas de navegação: sejam todas epístolas de bem-aventurança, de boas novas. Todavia não esqueçamos que haverá sempre um lugar em que nada se cria, nada se transforma e tudo se perde. Não seja aqui. Navegar será sempre preciso, viver é que é impreciso!


4. Os tijolos. “Quando ando pelas ruas do Rio e de Salvador, os signos corporais transformam meu corpo europeu num outro ser”. Isso foi dito por Henri-Pierre Jeudy. Quando esteve pela décima vez no Brasil, em 2005, e lançou seu livro Espelho das Cidades, o filósofo-sociólogo-escritor pensava na espetacularização das cidades como mote de suas propagandas. Sobre o Brasil e a América Latina pensaríamos mais abrangentemente. O espetáculo é geral, horizontal e verticalmente, uma parábola. Ali na esquina dos mundos estão nossos governantes espetaculares, brandindo discursos e cerrando os punhos para a CNN. Que a terra lhes seja leve.


5. A cimentação. Quando nos deparamos com o naipe afro-cubano de Buena Vista Social Club e sua sensualidade, não vemos Habana Vieja espetacularizada. Seremos videntes e veremos espectros. Ghosts de um mundo antigo, de fausto apócrifo, de riquezas saqueadas, ruínas da história. Wim Wenders o gravou em vídeo digital. A tecnologia mais avançada resgatando a tradição mais conservadora. Seria o ouro sobre o barro. Ou o diamante sobre as asas, ou o desejo do ouro e a necessidade de possuir asas.


6. As lajes.
O maior herói nacional da segunda metade dos anos 80 foi Ayrton Senna. As manhãs de domingo eram emolduradas com esses Grandes Prêmios de Fórmula 1 e os brasileiros, esses do povo, habitando as profundezas dos sertões ou a superfície urbano-periférica, faziam coro com aqueles a quem realmente o mundo dos carros de luxo e dos motores potentes e das marcas globais pertence. Éramos a nação Senna num bólide a 300 Km/h. Até o muro da Tamborello, em Imola. A morte do herói, essa morte que o Nouveau Roman tentou anunciar e que os pós-modernos alardeam, tentando “fragmentá-lo”, foi sentida ao vivo por um Brasil perplexo. O 1º de maio de 1994 não foi o Dia do Trabalhador. Foi o dia da morte do herói. O que se viu foi uma demonstração de solidão e abandono em todos os corações brasileiros. O hino da vitória calou e nunca mais o ouviríamos com a mesma emoção. Erguido o muro, nunca mais seria preenchida.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O preço da leitura (Flip, flap, flip, flap)

Outro dia ouvi não sei quem dizer (talvez João Ubaldo, não lembro) que seus personagens vão tomando vida e se alforriando de seu senhor, no caso, dele, o autor. Estou para desenterder-me (se é que já entendi) desses casos da criação literária. Estou mesmo à beira de desacreditar e duvidar de toda e qualquer referência à literatura. O caso é que à beira da derrota descobri, finalmente, duas figuras opostas em seu ofício de escreviver. E encontrei-os no mesmo lugar. Na TV, fora de qualquer coisa que se pareça com o texto escrito, esbarrei com Amós Oz e Tom Clancy. Dois nomes conhecidos, para mim apenas referências, pois nunca os havia lido. E saí atrás de suas penas. Do primeiro pus-me a caçar O mesmo mar. Do outro, Caçada ao Outubro Vermelho. E deparei-me com eles em sebo. Amós Oz estava num sebo do Largo da Carioca. Tom Clancy numa barraca em Vicente de Carvalho. Tão distantes um do outro, tanto na escrita como na geografia. Essa caçada em busca do mesmo mar fez-me pensar que vender livro também é um negócio. Pelo primeiro paguei R$ 9,90 e pelo segundo R$ 5,00. Em bom estado. E corri para casa. O próximo passo seria usufruir dos R$ 14,90 que investi nas compras. Mas será que esse prazer (o de ler, não o de consumir) vale mesmo o preço pago? Não sei avaliar, pois os mesmos livros, buscando-os num desses sites que fazem comparação de preços de produtos na internet, variavam seu preço em vários porcentos. Oz alcançava o teto de R$ 48,00 e Clancy bateu os R$ 39,00. Já fui me sentindo melhor, começara o prazer de não ter gasto R$ 87,00 pelos meus colegas, já que eles não pagariam isso por mim.


Logo depois, fui convidado para ir à Festa Literária de Parati. Não foi a organização da festa que me convidou, nem qualquer figurão literata. Foi um amigo de mesa de bar. Confessei-me avesso a esse tipo de evento. Acho que não contribui para a Literatura e sua desmistificação de coisa da elite resolvida financeiramente. Mas ele tentou convencer-me com o argumento de que Amós Oz estaria lá, numa tenda, chamada Tenda dos Autores. E eu pensei: “Pôxa, que legal, os autores ficam numa tenda, independente de seu status.” Eu pensava que era uma tenda de verdade, daquelas de acampamento, e que os autores estariam lá, por amor à literatura, acampados, conversando com os transeuntes. Seriam gente comum, já que estariam numa festa aberta ao público. Não, não era. Eu teria que pagar R$ 26,00 para entrar, sentar sem me mexer, com mais não sei quantas pessoas. Ou R$ 6,00 para ver num telão numa outra tenda chamada Tenda da Matriz. Aí pensei que isso não era para mim, era para ti, leitor amigo!


À noite, depois de rejeitar o convite do colega, fui aparteado por Márcio-André, o poeta recém-chegado ébrio e radioativo da Europa, dando-me conta de que fora convidado para a Flap. Imaginei os altos vôos do bardo já que, até então, a Flap era apenas uma revista dedicada à aviação. Não, não! Flap é a festa literária alternativa à Flip. E tem como bandeira observar o comportamento da literatura alheia ao (ou fora do) circuito comercial. Perguntei-me como se pode estar fora desse mercado, se qualquer autor que publicar um livro, um livreto, um opúsculo, uma plaquete, um cordel, está dentro? Ah! Sim! São aqueles que ainda não entraram no pequeno círculo dos convidados à mesa da Tenda dos Autores em Parati. Penso que no Brasil só um poeta conseguiu ser alternativo até o fim, sem necessitar do mercado editorial, nem de tenda: Gregório de Matos, o sobrevivente. Desejei boa sorte ao Márcio-André em seu encontro alternativo.


Entretanto, além do aparte do André, recebi também minha fatura de cartão de crédito, R$ 49,00. Mas não foi só. Nela, à parte, uma oferta imperdível: toda a obra de Paulo Coelho por R$ 99,00. Tremi, assim meio que tomado por uma energia estranha. Uma energia cósmica. E compreendi meu destino: Maktub! Aquilo era uma senha. E era premente que eu me apoderasse dessa benção. Liquidação, Paulo Coelho estava sendo liquidado. Toda a obra: R$ 99,00. E eu tinha crédito no cartão. Felizmente saí do transe rápido graças ao Mauro Halfeld e seu alerta: não ceda às tentações. Não cedi. No sebo o Coelho sai por R$ 1,00. Se vale ou não, mago leitor, resolve com tua tenda pessoal.


Outra surpresa aquela noite me traria. Ao abrir o e-mail, recebia, ali no écran, o orçamento para a publicação de meu livro, minha dissertação de mestrado: R$ 5.000,00. Com direito a lançamento na Bienal. Quando li esse nome, Bienal, desestimulei-me novamente da literatura. E passou-me pela cabeça tudo que vivi para ir à Bienal no Riocentro. Paguei R$ 15,00 para estacionar, já havia pago aproximadamente R$ 3,00 de pedágio na Linha Amarela. Mais R$ 30,00 para eu e minha esposa, mais meia para minha sogra, que é idosa, e meia para minha filha. Comemos uma pizza horrível com refrigerante quente. Fechamos a conta em R$ 100,00 numa noite. Comprei livros infantis a um vendedor encervejado e nada mais. A média do preço dos livros, na época, era de R$ 40,00. Fiquei vacinado e cético. Por isso acredito que os personagens, como ouvi alguém dizer (talvez João Ubaldo, não lembro), tomam vida própria e se alforriam da vontade do seu senhor, no caso o autor. E devem, como nós, pagar um alto preço pela ousadia!