Uma crônica de 2001, na data de meus 37 anos.
O rio desce sem respeitar obstáculos. Cruza-os, subverte-os e até os arrasta. Não quero ser o rio em desabalada correnteza, desrespeitando as pedras e ignorando os barrancos. Tampouco penso em arremessar-me como o Niágara ou o Iguaçu. Não me seduz, também, a imagem e semelhança do lago pacato ou do riacho represado. Penso em ser o rio normal. Aquele que segue sem muito alarde, mas não de todo ignorado. Lavando as margens e observando as paragens. Conhecendo a gente ribeirinha, sentindo o verdor das plantações. Interessa-me ver as marcas nas margens. As feridas às margens. Crianças e idosos às margens. Assim, feito o rio, quero e trago comigo essas marcas. Meus seis irmãos mortos, meu irmão vivo. Meus filhos no mais profundo mergulhar de minhas águas. Nos meus porões traiçoeiros e em meus pequenos açudes na planície. Também não ignoro minha nascente. O pequenino rasgo na terra de onde brotei, um fio tênue, um nada no tudo da Natureza.
Quero minha Iara, minha elemental, meu espírito protetor, Manitô. A Iara que, à noite, faz assombração àqueles que maltratam meu leito e roubam meus peixes, ou tentam me matar com seus dejetos venenosos. Minha Iara a tenho visto postada, de pé, sentinela, linda estátua inesquecível com seus cabelos crespos deitados sobre mim. Na noite mais tenebrosa, em que tremo com os estrondos e raios vindos do céu que me cobre, vejo minha Iara sobre mim, deitada, abraçando-me e me pondo para dormir no reboliço do meu corpo furado por grossos pingos e ventos que tentam me encrespar. Sou um rio e nada mais. E tudo que agora escrevo pode ser ficção. E tudo o que agora sinto é um murmúrio de vozes e uivos, de gritos e cantos, dizendo em uníssono: viver é fazer um pacto com o tempo, segurá-lo pela cauda e intimá-lo para uma conversa. Todavia há uma obstáculo intransponível: encontrar a cauda sem saber onde fica sua cabeça.
terça-feira, 29 de agosto de 2006
Chapeuzinho Vermelho: outra versão
Foi um conto que escrevi na época da graduação. Não insistam em críticas. Não vale a pena.
Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros... e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.
*** *** *** *** ***
Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.
*** *** *** *** ***
Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.
*** *** *** *** ***
Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:
— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!
Alimento a resposta:
— Tô ressacado!
Encontro João Lobo. Pergunta-me:
— Tem prova hoje?
Única resposta:
— Sei lá. A professora tá por aí?
Já estava.
Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros... e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.
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Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.
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Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.
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Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:
— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!
Alimento a resposta:
— Tô ressacado!
Encontro João Lobo. Pergunta-me:
— Tem prova hoje?
Única resposta:
— Sei lá. A professora tá por aí?
Já estava.
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