sábado, 29 de julho de 2006

Gonzalo Armán, um poeta em três línguas

O poeta galego Gonzalo Armán na abertura de seu livro Anacos d’alma, no poema Exilio, confessa à pátria, pela voz arrastada de um eu-lírico saudoso, “Exileime de ti, por propia escolla”. Obedecendo à língua galega, essa que lhe dá identidade, que o marca no mundo, traça seu caminho de auto-exilado, fugindo, talvez da Guerra Civil espanhola e embrenha-se pelos becos de um Brasil de sonhos. Confundido com os espanhóis imigrantes, faz questão de diferençar-se pela língua:

“Neniño que vas á escola
ai que peniña me dás,
che ensinan grego e latín
e tamén o castelán,
o idioma galego
ninguén cho cho quere ensinar.”

O percurso trilíngüe desse rico poeta, amante dos livros, cantor de quimeras e retratista social é o tema de um trabalho que gostaria muito de escrever.

Algumas coisas descartadas de um editorial para a revista Confraria

Como alguns sabem, sou editor convidado da Revista on-line Confraria. Escrevo, por vezes, o editorial. Nem sempre acerto a mão e várias horas tenho que descartar idéias. Abaixo, algumas.

1. Aconteceu o que tinha de acontecer. Lutero, quando traduziu a Bíblia para o alemão, deparou-se com um problema. O analfabetismo era total e uma cruzada de alfabetização comunitária teve de ser empreendida, senão de que adiantaria a empreitada se ninguém a iria ler?

2. Enquanto isso, nosso Brás Cubas cita Sthendal que escrevera um de seus livros para ser lido por 100 (cem) leitores. Ele, o personagem machadiano, do outro lado da morte, se contentará com 5 (cinco) e Arturo Gouveia, o contista paraibano, sentir-se-ia mimado com apenas 2 (dois), ou 1 (um).

3. Pelo viés da contramão, Charles Bukowski, depois de uma leitura de seus poemas, regada a uísque e fumo, rasgou os livros, jogou-os na platéia e vomitou a mesa, o chão e a si mesmo. Não estava sóbrio, nem pensava em leitores. O “velho safado” só pensava em mulheres e não importava seus fenótipos.

4. O narrador de O Desenho do Tapete, conto de Henry James, quis ser lido pelo próprio escritor sobre o qual escrevera no jornal O Meio, especializado em resenhas literárias e lido nas rodas de literatas e críticos. Com verdadeira obsessão procurou respaldo em cada conversa e em cada interlocutor.

5. Acontece, senhores, que a Confraria, neste um ano de aniversário, alcançou a marca de 1.000.000 (um milhão) de acessos. Nesse mundo de info-analfabetos, mundo digital em exclusão, mundo ciber-centrífugo, necessitamos bem mais do que a Bíblia de Lutero, a ironia de Brás Cubas, o vômito de Bukowsky e o cinismo de Arturo.

Sextilhas

Participo da comunidade Cordel no Orkut e lancei um tópico incentivando os outros comunitários a seguir o modelo de sextilha que deslizo a seguir. O tópico cresceu e todos passaram a se manifestar de acordo com sua inspiração. O sucesso da resposta levou-me a reproduzir aqui as matrizes incentivadoras. A numeração segue a ordem de postagem.

1.

1 mote de cantador
2 cantadores na sala
3 salas sem entrar tiros
4 tiros na senzala
5 senzalas sem portas
6 portas contêm a fala

A fala rompe as seis portas
Portas de cinco senzalas
Senzalas com quatro tiros
Rompendo suas três salas
Estas com dois cantadores
E um mote em forma de balas

2.

O olho a ré é repolho
O fã em dupla é fandango
O medo ardido, arremedo
O tantan gago no tango
O mar num caco, macaco
O rango, do orangotango!

3.

Estive ausente, voltei
Se voltei, estive ausente.
Contentemente sorri,
Se sorri, foi de contente
Na volta ninguém se perde:
Água boa é da nascente.

4.

A pedra polida é faca
a faca amolada talha
tirando leite de pedra
e o leite cortado coalha
Os pobres que não têm leite
têm pedra como mortalha

5.

Não falo da fala, falo
do falo que esfolo vivo
sem olvidar o ouvido
do fole que toca esquivo
enquanto os sapatos dançam
dando alforria ao cativo

6.

Abri a porta do sexo
e depositei meu seixo
A gueixa me deu madeixas
E a queixa veio ao meu queixo
Na cama espicho meu corpo
e nesse esguicho me deixo

7.

Abri a broca dos braços
Furei o muro da intriga
Fiz cama macia e fofa
para curar a fadiga
Diz o famoso ditado
Se um não quer não há briga!

8.

A tromba do elefante
E o rabo do tatu
O dente do javali
O bico do urubu
O peito do avestruz
E as penas do nhambu!

9.

Uirapuru com seu canto
Arara com suas cores
Araponga martelando
O beija-flor entre as flores
E eu sonhando que vôo
Debaixo dos cobertores

10.

peguei a corda no meio
puxei as pontas com fé
passei uma dentro d'outra
firmei com força até
não passar vento nem luz
desate o nó quem quiser

11.

derramei água do copo
depois que lavei a mão
uma mão lavou a outra
um pouco de fricção
e a água escorreu no piso.
Quem enxugará o chão?

12.

Onde é que nasce a lágrima?
E o sorrir, de onde vem?
O medo se aloja onde?
Por que se gosta de alguém?
De quantas rimas preciso
Para fazer cordel bem?

13.

Onde é que se compra tempo
quando tempo não se tem?
Onde se empresta carinho
para fazer no seu bem?
Como viver essa vida
Sem fazer mal a ninguém?

14.

Repare a pele do mar
se contorce, encrespa, estica
Olhe agora para o céu:
Existe pele mais rica?
Por que citar o prepúcio
que uma simples lâmina pica?

15.

Quem não tenta a brincadeira
Não é um bom brincador.
Coisa boa é brincar muito
Seja com qual coisa for.
Mas cuidado pessoal
Não se brinca com o amor!

16.

A brincadeira engrenou
O povo participando
Segurando o pé do verso
e as palavras rimando
O cordel soltando fogo
E a fogueira crepitando!