domingo, 3 de dezembro de 2006

Oração do Rio São Francisco em tempos de poucos rios

O Rio São Francisco não nasce na Serra da Canastra. Digo isso porque a correria estressante das ruas do Rio de Janeiro me oprime. Os olhos dessas crianças nuas me espetam e essa população de rua dormindo pelas calçadas me joga contra o muro. Esse Cristo economiza abraços e atende a poucos.

Só uma coisa me alenta hoje: a saudade do meu santo rio. O Rio São Francisco, o Velho Chico, Chiquinho. Escuto o murmurar de suas verdes águas: — Deixai vir a mim as criaturas... E assim foi feito. Falar de desrespeito e depredação tornou-se obsoleto. Denunciar matanças e desmatamentos resultou nulo. Orar e orar. Pedir ao santo do seu nome a sua oração.

Lá do Cristo Redentor da cidade de Pão de Açúcar, nas Alagoas, um moleque triste escutou a confissão das águas. Segundo ele, o Velho
Chico dizia:

Ó, Senhor, criador das águas, benfeitor dos peixes, escultor de barrancas e protetor de homens fazei de mim bem mais que um instrumento de tua paz. Se paz não mais tenho faz-me levar um pouquinho aos que em mim confiam. Paz para as lavadeiras que, em Própria, choram a sua fome de pão. Que, em Brejo Grande, soltam lágrimas pelos filhos mortos no sul do país. Que, em Penedo, já perderam a fé de serem tratadas como gente sã.


Onde houver o ódio dos poderosos que eu leve o amor dos pequeninos. O amor dos que cavam a terra a plantam o aipim. Dos que cavam a terra e usam-na como cama e lençol para sempre. Dos que querem terra para suas mãos, para os seus grãos, para a sua sede. O amor que não é submisso, mas escravizado. O amor que tem coragem de um dia dizer não. Coragem diante das balas e das emboscadas, das más companhias e da solidão.


Onde houver a ofensa dos governos que eu leve o perdão dos aposentados e servidores públicos. O perdão, nunca a omissão. A luta, porque perdoar não requer calar. Perdoar não quer dizer parar. Como minhas águas, tantas e tantas vezes represadas, mas nunca paradas e que, quando em minha fúria, carregam mulharas, absorvem barreiras e escandalizam Três Marias, Xingó e Paulo Afonso.


Onde houver a discórdia dos que mandam que eu leve a união dos comandados. A suprema união dos que sonham com as mudanças, dos que querem quebrar hegemonias e oligarquias. A discórdia dos reis contra a união dos plebeus. Um povo unido é força de Deus, dizia o velho bendito e sejais bendito, Senhor. A união das águas, a união das lágrimas, a união do sangue e a união dos mesmos ideais.


Onde houver a dúvida dos que fraquejam, que eu leve a fé dos que constroem seu tempo. Na adversidade, meio ao deserto e ao clima árido, a fé dos que colhem uvas e mangas em minhas margens. Dos que colhem arroz em minhas várzeas, dos que criam peixes com minhas águas em açudes feitos. A fé dos xocós lá em Poço Redondo. A fé que cria cabras nos Escuriais. Dos que colhem cajus e criam gado em Barreiras e outros cafundós.


Onde houver o erro dos governantes que eu leve a verdade de Canudos. O bom senso dos conselheiros de encontro à insanidade dos totalitários. Os canhões abrindo fendas na cidade sitiada e a verdade expondo cada vez mais a ferida da loucura na caricatura da História. O confisco da poupança e o rombo na previdência. O fim da inflação e o pão escasso, o emprego rarefeito, a dignidade estuprada em cada lar de nordestinos.


Onde houver o desespero das crianças da Candelária que eu leve a esperança das mães de Acari. E aqui, Senhor, te peço com mais fé. A dor dos deserdados, dos que perderam seus pais, filhos ou irmãos, seja de fome, doença ou assassínio, inundai-os com as águas esmeraldas da justiça. A justiça da terra e dos céus. Pintai de verde o horizonte das famílias daqueles que foram jogados mortos em minhas águas. Eles não foram poucos.


Onde hover a tristeza dos solitários que eu leve a alegria das festas de São João. Solitário eu banho muitas terras e em todas, das Gerais, do Pernambuco, das Alagoas e do Sergipe, não há tristeza ao pé da fogueira, nas núpcias entre a concertina e o repente, entre a catira e o baião.. Das festas do Divino ao Maior São João do Mundo, deixai-me levar, Senhor, o sabor de minhas águas juninas e seus fogos de artifícios.


Onde houver as trevas da ignorância que eu leve a luz do conhecimento e da sabedoria. A escuridão dos homens dementes que teimam em querer ferir-me de morte seja massacrada pela luz de um futuro negro, sem água potável, sem terra e sem ar.. Daí-me esse poder, de entrar nas mentes e nos corações., de espraiar-me pelos mil recantos dos que querem mal à nossa casinha, nossa pequena Terra. O homem sábio seja sempre sábio e contamine os povos com ensinamentos de preservação.


Foi assim que escutei e assim reproduzo.

Apresentações

Quando de trabalhos acadêmicos fazemos sempre uma breve apresentação. Entreguei um trabalho de início de confecção de tese de doutorado há algum tempo e me surpreendi com o que escrevi lá. Como todo alcoólatra (já disse), sou pretensioso. Se não, leiam:

Breve apresentação


Este conjunto de escritos contém três partes distintas. Representam: a primeira, mapa ou organograma dos estudos e leitura feitas no segundo semestre de 2005 para compreensão do que está acontecendo no mundo no que diz respeito a cultura e produção artística na era globalizada. Foram leituras feitas em inglês tratando da presença do movimento Hip Hop nas culturas européia, japonesa e islâmica. A importância para o tema da tese é relevante na medida em que a violência assume o papel de musa inspiradora e o cenário social de seus ativistas é a rua, o gueto, a segregação, as drogas, o sexo, o lixo, a desigualdade social, a diferença atribulada e outros.


A segunda parte são anotações feitas em inglês sobre a Modernidade Reflexiva e o Risco Global. Temas abordados durante as aulas do professor Eduardo Portella que se mostraram extremamente ricos para o entendimento das novas poéticas periféricas e excluídas. O risco está em toda parte e ele mesmo se transforma em musa e agente artístico-literário. O funk carioca é um de seus porta-vozes e a literatura de Férrez um ícone desse fazer. O aparecimento da CUFA, Central Única das Favelas, no Rio de Janeiro é um fato importante para confluência militante e exemplifica o título da tese: a cidade dos lázaros.


A terceira parte é o trabalho inicial desse caminhar. A reflexão sobre progresso, tecnologia e bem-estar social. O tema é a utopia do futuro. A partir da leitura de futurólogos como Hermann Kahn, Alvin Toffler e John Naisbitt construímos um esboço de cenário, ou pano de fundo para a emergência dessas novas manufaturas artísticas, dissidentes do cânon acadêmico.


Queremos ainda pensar sobre Terrorismo e literatura, O Islã e seu caminho poético, Arquitetura e medo urbano e Poéticas de celebração. Procuramos o caminho, sabendo que ele se faz ao caminhar, basta olhar para trás e se verão os próprios passos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Outras sextilhas

Novas sextilhas da comunidade Cordel, no Orkut. A brincadeira, lá, funciona como um diálogo no qual se lança um tema e os outros vão seguindo respondendo no mesmo tom até que alguém dita outro caminho. Reproduzo as sextilhas que postei, aparentemente não terão sequência temática, nem unidade. É verdade. São apenas fragmentos de um diálogo infindável.

Meu coração é fogueira
Ardendo no seu calor
pulsando em brasa queimante
o vermelho é sua cor
sangue e chamas se cruzando
no caldeirão do amor!

A sextilha é uma estrofe
Que tem seis versos somente
Seis versos de sete sílabas
Rimando insistentemente
O segundo com o quarto
E o sexto fecha a corrente!

O verso tem vida própria
rebelde, contra a corrente
Precisa ter rédea curta
preso com a corda decente
se der muita corda a ele
ele se escapa da gente.

Há o verso traiçoeiro,
enganador de cristão.
Lhe convence que é seu,
Jura com convicção.
Quando você se descuida,
Escapa de sua mão.

Esse negócio de dar
é coisa bem complicada
porque o verso taludo
quer a coisa apimentada
desejando lhe pegar
com a calça toda arriada!

e engana quem vai embora
abandonando o cordel
devemos participar
transformando o fel em mel
À Vica que aqui fica
Eu retiro meu chapéu

O porco chia na morte
o cisne canta ao morrer
o coral dos andorinhas
quando vai anoitecer
o galo solfeja a música
chamando o sol pra nascer.

O candidato quer votos
prometendo leite e o mel,
roupa pr'o descamisado,
Livro, caneta, papel
Só não pode prometer
Sextilhas para o cordel

O nascimento se dá
depois da concepção
que se segue após a cópula
que vem depois do tesão
mas sem o bicho de pé
todo movimento é vão!

Dizem que com a cabeça
o homem tem que pensar
Porém há duas cabeças
que não querem concordar
Se uma delas não pensa
depois vai se lamentar!

As cabeças que eu tenho
vivem me dando alegria
pra elas dou proteção
também faço assepsia
Enquanto a de baixo age
a de cima fantasia!

Palavras, atos e toques
olhares, beijos, gemidos
suores, odores, seivas
mucosas, pele, tecidos,
sobre a cama dos amantes
lençóis e corpos despidos

A vida nunca adormece
E o tempo não tem senhor
A vida é paço e passagem
O tempo é rio e rumor
A vida e o tempo enrugaram
A alma do cantador!

No tempo de eu criança
Tinha tempo para tudo
Tinha tempo para o jogo
Tinha tempo para o estudo
Mandava o tempo calar-se
E o tempo ficava mudo!

Um caminho a ser seguido
Dois homens nele passando
Três dias ferindo os pés
Quatro noites caminhando
Cinco mágoas em seus peitos
Seis cordas os acalentando

Um cesto de manga espada
na missa de sétima hora
às oito brechas da noite
retirando os nove fora
a camisa dez do Rei
onze pernas de caipora

Foram doze badaladas
Dia treze, sexta-feira,
É "catorze" ou é "quatorze"?
Quinze anos, moça inteira.
Dezesseis qual é o bicho?
Diga, Valdir Oliveira!

Dezessete, idade ingrata,
Dezoito, vou me alistar
Dezenove perdi tempo
Com vinte, quero casar
Vinte e um só no baralho!
Responda, vicalomar!

Ah, meu Deus, se eu tivesse
o furor da juventude
para lançar as palavras,
sendo leve, ou sendo rude,
quebrando o verso e a rima
matando sua saúde!

Oigatê, como faz frio
nesse tal de mês de agosto
Morei em Uruguaiana
Saí de lá com desgosto
por causa de uma chinoca
que não quis beijar-me o rosto!

Agora faço as perguntas
para ver quem é o mala:
Por onde o morcego vê?
Por onde a cigarra estala?
Como é que as cobras transam?
Como o ventríloquo fala?

Por onde é que a água entra
lá no coco da palmeira?
A raiz da macaíba,
e o caule da bananeira
Onde é que se encontram?
Responda essa brincadeira!

Cozinha é comigo mesmo
quando a comida tá feita
Vá devagar no bendito
Porque se não dá maleita
Caganeira de apito
Com a tripa gaiteira estreita!

em termos alteridade
o calmo se açodará,
A patuléia se perde
e a choldra vacilará.
Os capitéis do respeito
Outrem nos ofertará?

terça-feira, 17 de outubro de 2006

O pai de Poe, o pai de Augusto e meu pai

Certa vez meu amigo Nonato Gurgel horrorizou-se ao ouvir-me dizer que ainda hoje choro a ausência de meu pai. Dizia ele que na quadragésima casa dos anos era inadmissível esse tipo de problema interior. Não pude argumentar àquela hora que chorar a ausência não equivale a se ter ou não um problema, aliás, o problema existiria caso houvesse a presença, fosse ela material ou fantasmagórica. A ausência é a lacuna e chorar a lacuna não é um ato em defesa do seu preenchimento, uma lágrima oriunda do oceano dos desesperos, uma seta, uma flecha fincando-se no estômago, atirada pelo escarcéu do que não foi. Respondo agora a Nonato, daqui do oitavo andar, nesta casa virtual cuja acolhida tem preenchido minha lacunar produção intelectual.

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Sonhei certa noite, e esta noite era treva, com um homem de sorriso leve e de mãos afáveis, de palavra doce e de terno olhar. Não foi possível. A porta da casa de número 102 da Rua São José, na cidade de Areia, no espinhaço da Serra da Borborema, nunca suportou tal simulacro. O meu sonho teria sido fomentado por alguma imagem seqüencial vista na tela espetacular do cinema da cidade. Talvez o drama da Paixão de Cristo com seus açoites e chagas abertas e um homem a tudo perdoando e abraçando até seus detratores seja o responsável por esse mal súbito descido sobre mim. Pai, porque me abandonaste?

É certo nunca ter visto meu pai. Também é certa a sua falta de responsabilidade sobre esse fato. Minha mãe, Dona Mocinha, cansou-se de esperar o seu legítimo marido, candango no planalto central, construindo Brasília e impedido, por qualquer motivo, de retornar a casa. Numa madrugada de dezembro de 1963, a noite cedendo à lua um pouco de seu reinado, adentra à câmara nupcial, mais conhecida como camarinha, aquele homem, capataz do Engenho São Francisco, no município de Pilões de Dentro, no Brejo paraibano. Ali, sem Papai Noel, fizeram-se presentes seus corpos moldados pelo trabalho árduo do dia a dia na lida com o corte da cana-de-açúcar. No doce daquele encontro, num emaranhado de líquidos, vísceras e mucosas, por alguma arte, algum ardil, algum blefe da sorte, fiz-me presente. E eis o problema, material, palpável. Fui, pela presença insistente e protuberante, a dor de cabeça, dele e dela. Minha presença fez minha mãe fugir. O medo dos parentes, o medo dos viventes fez mamãe partir e deixar seu passado morrer desassossegado nos canaviais e privou-me, dessa forma, de conhecer meu pai. Não sem antes tentar me espelir, tomando chás amargos para me abortar. Eu estava muito bem plantado, enraizado, abraçado com unhas e dentes naquele útero quente e promissor. Retorno, assim, ao início do meu relato épico.

A meu Pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que cousa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!


Também numa madrugada, a 7 de outubro de 1849, revelou-se um problema, pela ausência. O poeta Edgar Allan Poe, de vida tão atribulada e de pena tão prolífera, descia ao fundo de seu profundíssimo poço pessoal. Abandonado pelo pai, um ator de teatro decadente, e órfão de mãe, atriz idem, fora adotado por uma família decente e próspera de Richmond. Conta sua biografia de uma infância e adolescência tranqüila. Sua entrada na vida adulta trouxe-lhe, porém, freqüentes e intermináveis atritos com o pai adotivo. Confesso que a biografia de Poe, antes de sua lavra poética, inspirou-me de modo incisivo. Os seus fracassos eram o espelho para os meus fracassos. O seu gosto pela bebida, sua vida na margem e seus descompassos eram como que uma vida pregressa que eu vivera. Ausência de seu pai e a lacuna nunca preenchida pelo pai adotivo foram uma baliza para os meus gritos.

Descobri a obra de Poe na em-poe-irada biblioteca Rodrigues de Aquino, na Rua do Sertão. Dois antigos volumes editados pela Editora Globo de Porto Alegre. Um papel marrom tão velho, se desfazendo ao atrito com meus dedos, oferecia-me O Escaravelho de Ouro. Se meus ouvintes nunca leram esse conto, recomendo humildemente sua leitura. Trata ele do que se poderia chamar de escrita criptográfica. Um antigo mapa, pertencido ao pirata Capitão Kidd, contém a indicação de onde se encontra seu tesouro enterrado. O protagonista decifra a escrita e encontra o baú repleto de ouro e jóias. Também está lá, soterrado sobre a arca, um esqueleto com o crânio afundado. O lugar do achado é um intrincado caminho por entre cipós e árvores e arbustos, numa selva virgem, fechada, escura.

Nos meus treze anos aquilo era a aventura, era o insólito, era o desafio. No segundo ano da quadragésima casa da vida aquilo é o pai adotivo de Edgar sepultado sobre seu ouro, com sua razão atacada pela pena perfuro-cortante do poeta ébrio. Está lá o esqueleto e seu crânio estúpido. Está lá, sepultado e só. Pensemos, destarte, no caminho para essa construção, para esse símbolo. Penetrar no imo dessa imagem é perfazer o caminho da linguagem. O deixar-se envolver pelos atalhos da letra, mesmo sabendo-a dança imperfeita. Poe sepulta seu ausente pai adotivo, com tudo que lhe negara: uma roupa, um pedaço de pão, um pouco de cobre, já que foram esses os senhores de tamanhas desavenças. Um de seus biógrafos diz de suas últimas palavras:

— Senhor, ajudai minha pobre alma! E assim morreu, como vivera —em grande miséria e tragicamente.


Garanto-vos, senhores, que Poe foi meu pai. Meu pai ausente, meu pai presente, meu pai morto.

A meu Pai Morto

Madrugada de treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
"Acorda-o"! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

Os sonetos aqui lidos e revelados são as trilhas de minhas poucas telhas. São meu teto grávido de arestas, minhas paredes repletas de orelhas. São meus potes, são meus pratos. São meus copos e meus sarcófagos. Neles me embalo, neles me enrolo, neles me enredo, neles me emparedo, neles me sepulto, neles me degusto. São sonetos de Augusto. De Augusto dos Anjos, do Engenho Pau d’Arco, em Espírito Santo na Zona da Mata paraibana. Aquele cujo pai, senhor de engenho abastado, dono de reses e almas, trancafiá-lo-ia no desejo de ver seu filho vivo e forjaria um sucesso no qual um feto morto seria imortalizado ao pé de um tamarindeiro. Aquele mesmo pai que corta a árvore da serra e deixa o filho moço abraçar-se ao tronco e perecer com ele. Aquele pai de presença milenar, de tradições imutáveis, semeador de grilhões, doutor em algemas, guardião dos ferros. É o conservador radical autêntico das planícies e vales nordestinos, herdeiros de terras e amplidões.

Augusto chegou-me com muita fúria e em seus sonetos encontrei guarida. Poe foi meu pai, Augusto foi meu pai. Se aquele revelara o seu pai-esqueleto soterrado sobre o brilho do ouro, este o revelou amado em plena decomposição. Essa linguagem-fábula de Augusto declamei em voz alta pelos recantos de minha podridão, nas camas em que deitei, nos corpos nos quais me lambuzei, como uma cascavel que se enroscava.

Meus filhos ouviram-me muitas vezes vomitar versos. E ouviram de mim esta sentença: — Seja bom filho, seja bom marido e seja bom pai. Talvez essa lembrança tenha levado ao equívoco de minha entonação ao confessar a Nonato o meu choro lacunar. Talvez eu não tenha sido um bom filho, nem para Poe, nem para Augusto, nem para meu desorientado pai-molecular. Talvez eu não tenha sido, nem seja, um bom marido, meio às oscilações de meus sentimentos. Talvez eu não seja um bom pai. Mas a palavra “bom” sofre tantas cintilações e a palavra “pai” carrega tantas anomalias que tudo não passe de um breve sonho, de um breve desfazer-se, desmoronar-se, putrefazer-se assistido pelo tempo, esse, sim, pai e padrasto, senhor e servo, poeta e escultor, por isso

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Micro-organismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

terça-feira, 29 de agosto de 2006

As marcas nas duas margens

Uma crônica de 2001, na data de meus 37 anos.

O rio desce sem respeitar obstáculos. Cruza-os, subverte-os e até os arrasta. Não quero ser o rio em desabalada correnteza, desrespeitando as pedras e ignorando os barrancos. Tampouco penso em arremessar-me como o Niágara ou o Iguaçu. Não me seduz, também, a imagem e semelhança do lago pacato ou do riacho represado. Penso em ser o rio normal. Aquele que segue sem muito alarde, mas não de todo ignorado. Lavando as margens e observando as paragens. Conhecendo a gente ribeirinha, sentindo o verdor das plantações. Interessa-me ver as marcas nas margens. As feridas às margens. Crianças e idosos às margens. Assim, feito o rio, quero e trago comigo essas marcas. Meus seis irmãos mortos, meu irmão vivo. Meus filhos no mais profundo mergulhar de minhas águas. Nos meus porões traiçoeiros e em meus pequenos açudes na planície. Também não ignoro minha nascente. O pequenino rasgo na terra de onde brotei, um fio tênue, um nada no tudo da Natureza.

Quero minha Iara, minha elemental, meu espírito protetor, Manitô. A Iara que, à noite, faz assombração àqueles que maltratam meu leito e roubam meus peixes, ou tentam me matar com seus dejetos venenosos. Minha Iara a tenho visto postada, de pé, sentinela, linda estátua inesquecível com seus cabelos crespos deitados sobre mim. Na noite mais tenebrosa, em que tremo com os estrondos e raios vindos do céu que me cobre, vejo minha Iara sobre mim, deitada, abraçando-me e me pondo para dormir no reboliço do meu corpo furado por grossos pingos e ventos que tentam me encrespar. Sou um rio e nada mais. E tudo que agora escrevo pode ser ficção. E tudo o que agora sinto é um murmúrio de vozes e uivos, de gritos e cantos, dizendo em uníssono: viver é fazer um pacto com o tempo, segurá-lo pela cauda e intimá-lo para uma conversa. Todavia há uma obstáculo intransponível: encontrar a cauda sem saber onde fica sua cabeça.

Chapeuzinho Vermelho: outra versão

Foi um conto que escrevi na época da graduação. Não insistam em críticas. Não vale a pena.

Este 402 fica apertadíssimo em noites de lua cheia. Meus passos aumentam, quarto e sala diminuem. Cozinha e banheiro, nem falar. Cama repleta de cacos de vidros. Música inaudível. Suor, cigarros, café. A ansiedade na espera do último ato consciente. Formigação pelo corpo. Pele enrijecendo. Olhos vermelhos. Saliva, saliva. Urros... e o salto bestial janela abaixo. Estou na rua.

*** *** *** *** ***

Toda noite ela está lá. Frente ao Jaraguá. Encostada no carro. O namorado entre suas pernas. Saliva, saliva. Sussurros. Mãos entre pelos. E eu todo pelos e leve e lépido. A lua no pico do céu. Sombras. Sou a sombra. Garganta de sombra seca. Garras sedentas. Língua sequiosa. Sangue. Quero sangue. Hoje, agora. Trocam o último beijo, o último carinho, o último abraço, o último olhar.

*** *** *** *** ***

Ele parte. Como de sempre. Arrancada. Ela fita o carro até a esquina. Suspira. Me aproximo. Devagar. Ofegante. Ela abre o portão. Eu salto. Ela olha. Pavor. Meus braços abertos. Garras e navalhas. Dentes e tridentes. Antes do grito, corto-lhe a jugular. Seu olho salta, sai de órbita. Olho verde, desmatado, sem vida. Mordo-lhe o peito. Carne. Passeio a língua pelo seu rosto. Sugo sua boca. Estraçalho suas vestes. Abro seu ventre. Intestinos. Perfume quente e vermelho.

*** *** *** *** ***

Acordo. Vou ao banheiro. Espelho. Barba por fazer. Riso. Roupa no chão. Banho. Hoje tem prova de Linguística. Nada de café, nada de pão. Na primeira manhã que te perdi. Hoje tem prova. Deixo para trás o 402. Na faculdade o tempo voa. Alguém observa:

— Bicho teu olho tá vermelho pra caralho!

Alimento a resposta:

— Tô ressacado!

Encontro João Lobo. Pergunta-me:

— Tem prova hoje?

Única resposta:

— Sei lá. A professora tá por aí?

Já estava.

sábado, 29 de julho de 2006

Gonzalo Armán, um poeta em três línguas

O poeta galego Gonzalo Armán na abertura de seu livro Anacos d’alma, no poema Exilio, confessa à pátria, pela voz arrastada de um eu-lírico saudoso, “Exileime de ti, por propia escolla”. Obedecendo à língua galega, essa que lhe dá identidade, que o marca no mundo, traça seu caminho de auto-exilado, fugindo, talvez da Guerra Civil espanhola e embrenha-se pelos becos de um Brasil de sonhos. Confundido com os espanhóis imigrantes, faz questão de diferençar-se pela língua:

“Neniño que vas á escola
ai que peniña me dás,
che ensinan grego e latín
e tamén o castelán,
o idioma galego
ninguén cho cho quere ensinar.”

O percurso trilíngüe desse rico poeta, amante dos livros, cantor de quimeras e retratista social é o tema de um trabalho que gostaria muito de escrever.

Algumas coisas descartadas de um editorial para a revista Confraria

Como alguns sabem, sou editor convidado da Revista on-line Confraria. Escrevo, por vezes, o editorial. Nem sempre acerto a mão e várias horas tenho que descartar idéias. Abaixo, algumas.

1. Aconteceu o que tinha de acontecer. Lutero, quando traduziu a Bíblia para o alemão, deparou-se com um problema. O analfabetismo era total e uma cruzada de alfabetização comunitária teve de ser empreendida, senão de que adiantaria a empreitada se ninguém a iria ler?

2. Enquanto isso, nosso Brás Cubas cita Sthendal que escrevera um de seus livros para ser lido por 100 (cem) leitores. Ele, o personagem machadiano, do outro lado da morte, se contentará com 5 (cinco) e Arturo Gouveia, o contista paraibano, sentir-se-ia mimado com apenas 2 (dois), ou 1 (um).

3. Pelo viés da contramão, Charles Bukowski, depois de uma leitura de seus poemas, regada a uísque e fumo, rasgou os livros, jogou-os na platéia e vomitou a mesa, o chão e a si mesmo. Não estava sóbrio, nem pensava em leitores. O “velho safado” só pensava em mulheres e não importava seus fenótipos.

4. O narrador de O Desenho do Tapete, conto de Henry James, quis ser lido pelo próprio escritor sobre o qual escrevera no jornal O Meio, especializado em resenhas literárias e lido nas rodas de literatas e críticos. Com verdadeira obsessão procurou respaldo em cada conversa e em cada interlocutor.

5. Acontece, senhores, que a Confraria, neste um ano de aniversário, alcançou a marca de 1.000.000 (um milhão) de acessos. Nesse mundo de info-analfabetos, mundo digital em exclusão, mundo ciber-centrífugo, necessitamos bem mais do que a Bíblia de Lutero, a ironia de Brás Cubas, o vômito de Bukowsky e o cinismo de Arturo.

Sextilhas

Participo da comunidade Cordel no Orkut e lancei um tópico incentivando os outros comunitários a seguir o modelo de sextilha que deslizo a seguir. O tópico cresceu e todos passaram a se manifestar de acordo com sua inspiração. O sucesso da resposta levou-me a reproduzir aqui as matrizes incentivadoras. A numeração segue a ordem de postagem.

1.

1 mote de cantador
2 cantadores na sala
3 salas sem entrar tiros
4 tiros na senzala
5 senzalas sem portas
6 portas contêm a fala

A fala rompe as seis portas
Portas de cinco senzalas
Senzalas com quatro tiros
Rompendo suas três salas
Estas com dois cantadores
E um mote em forma de balas

2.

O olho a ré é repolho
O fã em dupla é fandango
O medo ardido, arremedo
O tantan gago no tango
O mar num caco, macaco
O rango, do orangotango!

3.

Estive ausente, voltei
Se voltei, estive ausente.
Contentemente sorri,
Se sorri, foi de contente
Na volta ninguém se perde:
Água boa é da nascente.

4.

A pedra polida é faca
a faca amolada talha
tirando leite de pedra
e o leite cortado coalha
Os pobres que não têm leite
têm pedra como mortalha

5.

Não falo da fala, falo
do falo que esfolo vivo
sem olvidar o ouvido
do fole que toca esquivo
enquanto os sapatos dançam
dando alforria ao cativo

6.

Abri a porta do sexo
e depositei meu seixo
A gueixa me deu madeixas
E a queixa veio ao meu queixo
Na cama espicho meu corpo
e nesse esguicho me deixo

7.

Abri a broca dos braços
Furei o muro da intriga
Fiz cama macia e fofa
para curar a fadiga
Diz o famoso ditado
Se um não quer não há briga!

8.

A tromba do elefante
E o rabo do tatu
O dente do javali
O bico do urubu
O peito do avestruz
E as penas do nhambu!

9.

Uirapuru com seu canto
Arara com suas cores
Araponga martelando
O beija-flor entre as flores
E eu sonhando que vôo
Debaixo dos cobertores

10.

peguei a corda no meio
puxei as pontas com fé
passei uma dentro d'outra
firmei com força até
não passar vento nem luz
desate o nó quem quiser

11.

derramei água do copo
depois que lavei a mão
uma mão lavou a outra
um pouco de fricção
e a água escorreu no piso.
Quem enxugará o chão?

12.

Onde é que nasce a lágrima?
E o sorrir, de onde vem?
O medo se aloja onde?
Por que se gosta de alguém?
De quantas rimas preciso
Para fazer cordel bem?

13.

Onde é que se compra tempo
quando tempo não se tem?
Onde se empresta carinho
para fazer no seu bem?
Como viver essa vida
Sem fazer mal a ninguém?

14.

Repare a pele do mar
se contorce, encrespa, estica
Olhe agora para o céu:
Existe pele mais rica?
Por que citar o prepúcio
que uma simples lâmina pica?

15.

Quem não tenta a brincadeira
Não é um bom brincador.
Coisa boa é brincar muito
Seja com qual coisa for.
Mas cuidado pessoal
Não se brinca com o amor!

16.

A brincadeira engrenou
O povo participando
Segurando o pé do verso
e as palavras rimando
O cordel soltando fogo
E a fogueira crepitando!

terça-feira, 20 de junho de 2006

Não posso ser contrariado, caso contrário...

Transformação

Para Iêda, no sétimo ano

Em 21 de setembro de 1999 eu me despedia da sala na qual trabalhei por sete longos e infrutíferos anos
Retiro do nosso diário secreto estas passagens

Estou nessa sala que agora sinto empoeirada e velha.
Um carpete cor de lodo, quatro computadores
ultrapassados, duas televisões e dois vídeos, vários
rádio-gravadores e uma mini-biblioteca que nada mais
me diz. Entre eles vou resgatando papéis do meu
passado recente e coisas um pouco mais antigas. No
ocaso da minha estada aqui eles estão obsoletos. Uns
vão para o lixo repousar tranquilos depois de me terem
servido e cumprido o tempo de sua vida útil. Outros
não me servem mais e acho que também vão para o lixo.
Entre minhas coisas, aqui neste bureau onde sentei
tantas vezes, está algo, ou estão coisas que me enchem de
lágrimas os olhos e de saudade o coração. Do lado
direito três moleques sapecas sorriem e dão o ar de
sua presença forte a me empurrar para o futuro. Do meu
lado esquerdo tuas fotos que me fitam de fato. Linda
mulher e lindos meus filhos. Pelejarei por eles,
vencerei tempestades e furacões e um dia descansarei
tranquilo na rede que o céu me destina e nos teus
braços serei também guri, enquanto meus pequeninos,
naquele dia já homens, velarão por mais um de seus
antepassados.

Estou aqui na minha ex-sala.

terça-feira, 13 de junho de 2006

O inverossímil amor de Miguel de Valverde, capítulo único

Naquela manhã de março, a nossa nau seguia o restante da esquadra em águas tranquilas e vento normal. Havíamos saído há alguns dias de Lisboa sob festa e adeuses sonhadores. Meu peito estava trancado, fechado a sete chaves, e lá dentro absconsos sentimentos só meus.

Não era meu desejo embarcar. Meu embarque, como o de tantos outros, se deu sob severa ordem da justiça real. Nada meu ficou em terra. Meus pais desapareceram fugindo do Santo Ofício. Meu único irmão fora queimado vivo há um ano acusado de bruxaria e pacto com o demônio. Não tive mulher, filhos ou qualquer outro laço afetivo. Ninguém no porto de Lisboa acenara para mim. E, acredito mesmo, ninguém conhecia meu rosto. Meu desfigurado e triste rosto. Naquele dia toda a solidão do mundo me visitara e eu chorei. Mas, não foi só.

Anotações para uma monografia sem pé nem cabeça (haja estômago e olfato)

Um sujeito sem lacunas
Introdução a uma teoria do sujeito pós-moderno

1. O Sujeito Romântico finca sua estaca

2. O deslocamento do sujeito moderno:

a. Marx por Althusser
b. Freud e o inconsciente
c. Saussure: a língua preexiste
d. Foucault e a “genealogia do sujeito moderno”
e. O feminismo e “o pessoal é político”

Dos namorados

Na madrugada, céu com nuvens pesadas
Rio de Janeiro, Dia dos Namorados de 2002

(bem que eu poderia ter escrito isso ontem)

Nada do que vi pelas vitrinas emocionou-me como presente para a mulher ao meu lado. Nada físico, nenhum objeto. Nem o ouro dos anéis, nem o talhe na madeira de lei ou o barro de Chico Ferreira. Um presente para ela não poderia ser resgatado da matéria. De mim não poderia dar-lhe também nada, posto que tudo o que tenho é seu e até eu mesmo o sou.

Por isso não receio em gritar: — Malditos os que inventaram o dia dos namorados e não puderam abrir uma loja na qual encontrássemos a essência da felicidade, do sorriso, do abraço. A delicadeza do cuidado com o cristal. O bem-estar de se esquentar bem juntinho no frio noturno!

Os sex-shoppings trazem pedaços de nós genitais, mas nenhuma loja traz um coração, um olhar, dois braços abertos. Parece que nossas partes mais queridas estão um pouquinho abaixo da linha da cintura. Isso me deixa desesperado. Como comprar um presente que o comércio não vende (nem poderia)?

Como exprimir-me com dinheiro se o capital que me irriga é outro? Sem taxas e sem parcelamento. Sem cobranças de juros ou pendengas judiciais. O presente a comprar me frustra, leitores. O presente a comprar me oprime. O presente me nega.

Terminantemente sou um fracassado. Felizmente no meio de tudo, quase perdido, continuo fomentando o sentimento que eterniza o Homem: a esperança!

A fé inabalável (anotações para um conto)

1. Antecedentes

A igreja cristã primitiva estava dividida entre hebreus e helenistas. Estes eram os cristãos gregos, convertidos novos, que em determinado momento reclamaram maior participação na vida da comunidade. Em assembléia, assumiram o trabalho de coordenar o serviço das mesas, a eucaristia, durante os cultos e a gerência dos bens colocados em comum. Foram indicados sete helenistas, entre eles Estêvão. Esse mesmo Estêvão passa, logo depois, a participar como pregador, devido à eloquência. Sua palavra agride um setor da Sinagoga dos Libertos, judeus ex-escravos. É levantada contra ele uma série de denúncias fraudulentas. Estêvão ‘e levado ao Sinédrio, julgado, condenado e arrastado pelas ruas, nu e amarrado, para ser apedrejado nos arredores da cidade. Sua morte é assistida pelo centurião Saulo, jovem, que virá a ser o apóstolo Paulo, fundador da igreja cristã moderna.

2. Portugal, 1506

A primavera de 1506 em Portugal chegou com flores e com a peste. 130 indivíduos morrendo por dia em Lisboa. No dia 15 de abril foi organizada uma procissão de penitência. O ato penitencial deveria sair da Igreja de São Domingos para a igreja de Santo Estêvão. Nessa igreja havia uma capela chamada de Capela de Jesus, em seu altar estava exposto um receptáculo com a Hóstia de Jesus sacramentado. Grande multidão. Penumbra e alguém vê uma luz saindo por dentro do receptáculo. Imediatamente corre-se a voz de milagre e por quatro dias a crença toma toda a cidade. Até que, no domingo, alguém duvida do que vê. Arrastado para o adro o miserável é assassinado e tem seu cadáver queimado, atiçado por um frade. Dois outros frades saem as ruas com uma cruz de madeira e um crucifixo gritando “heresia!”, incitando a turba na perseguição aos cristãos novos. Rapidamente passou-se de “heresia” para “queima-os”. Nesse dia foram mortos 500 indivíduos. A carnificina segue pela segunda-feira com maior fúria. Até a terça-feira contava-se 2000 mortos. Para acabar com o levante contra os cristãos-novos o Rei D. Manuel organizou uma brigada popular compulsória formada por fidalgos. Os dois frades, Frei João Mocho e Frei Bernardo, foram presos e executados em Évora.

3. Em Córdova, Castella

Lucero foi o primeiro inquisidor de Córdova. Seu lema: “Dá-me judeu, darte-ei queimado.” Foi tão cruel e sanguinário que recebeu o apelido de Tenebrero. Seu procedimento foi de tal maneira que uma reação moral foi movida entre o bispo, o administrador e a nobreza. Lucero declarou judeus todos que estavam contra ele. Uma apelação foi feito ao Rei Filipe e Lucero foi detido. Com a morte do Rei, tudo voltou a ser como era. Com a nomeação do Cardeal Cisneros, Tenebrero foi afastado definitivamente, todos os julgados foram considerados inocentes. Lucero não sofreu nenhuma punição pois observara os preceitos inquisitoriais. Um de seus secretários, Henrique Nunes, é convidado pelo Rei de Portugal para estabelecer a Inquisição em seu território.

4. Dom João III

O Rei D. João III assume o trono em 1524. Odeia os cristãos-novos e, aconselhado por Pedro d’Alcaçova Carneiro, destaca Jorge Temudo para espioná-los. Contrata, para a mesma empreitada, Henrique Nunes, criado do Inquisidor de Córdova, Diogo Rodrigues Lucero. Depois de seguir para Évora e estabelecer-se na família dos Valverde e escrever três cartas ao Rei instruindo-o quanto ao hábitos dos investigados, citando o nome de Miguel de Valverde, patriarca da família no seio da qual encontrava-se alojado. Henrique Nunes é descoberto, perseguido e assassinado em Olivença. Seus assassinos são descobertos: Diogo Vaz de Olivença e André Dias Viana, que, depois de terem as mãos decepadas, são torturados para entregar o mandante e enforcados em praça pública. Apesar de não entregarem ninguém, devido às cartas recebidas pelo Rei, a culpa cai sobre Miguel de Valverde. Preso, confessa sob tortura ter sido o mandante, tem seus bens confiscados, e toda a família assassinada. Seu pronunciamento diante do tribunal inquisidor fecha o conto.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

O que você pensa não corresponde...

Você pensa que abandonei meu blog. Isso. Você pensa. Saiba que não abandonei meu blog. Só me encontro desencantado, desolado, atônito. Se meu projeto de diário das férias não vingou, por pura incompetência minha, o projeto desse blog sem futuro não cairá no caminho. Estou apenas desencantado com algumas coisas que você sabe quais são.

terça-feira, 9 de maio de 2006

Diário das férias, final, sem lápide ou epitáfio

Maio, 9, fim de tarde no Rio de Janeiro


1. Como todo alcoólatra, meus planos são grandiosos, mirabolantes, coloridos. E até se desenham, têm início. E tudo fica pela metade. Abandonei o projeto do diário das férias. Eu queria retratar pormenores, pensar detalhes, apontar preciosidades escondidas. O calçamento da cidade é antigo, são pedras portuguesas e minha cabeça não suporta a solidez de tão insistentes pedradas. Sou um trôpego e tropeço, sou um íncubo na noite dos meus próprios abandonos. Por isso frustro os poucos que aqui buscam um pouco de palavras e letras e signos amontoados. Vou parar, incompetente diante da realidade, impugnado pela ficção.

2. Meu roteiro não cabe falar mal de Areia. Meu roteiro é, entretanto, uma arapuca. Falar dos meus mortos e antepassados é tarefa gostosa, tenho alegres devaneios relembrando seus rostos, seus bailados, seus discursos, suas vestimentas. O mofo da cidade, o lodo de suas ladeiras, o riso decrépito de seus casarões, o tempo imóvel no céu a pino, a roda da fortuna, girândola malfadada, a praça e o coreto: fotocromias desfocadas num preto e branco de dar dó.

3. Anteontem gritei para Ney: definitivamente Areia não tem vocação para o turismo. E aqui, ouso dizer com todo eco possível, o Festival de Artes, o sonho de minha cabisbaixa geração, é um ogro, um polvo sem ventosas, coruja sem noite, morcego que vê, cachorro louco correndo atrás dos automóveis. Areia transformou-se em um nódulo. Personalidades infames, infantes com mania de macróbios, micróbios vetustos em jantar opíparo, cujo prato principal é a paciência do povo.

4. Minha geração é o símbolo maior da orfandade. As cabeças pensantes dispensadas. As mentes impensáveis, despensadas. Lembrem-se: ouvíamos e cantávamos Chico Buarque, Tom Jobim e Elis e eles, esses três citados aí, não queriam o cálice, banhavam-se nas águas de março, repetiam nossos pais. Brigávamos entre o passado e o presente. O velho Theatro Minerva e seus administradores serviram de linha divisória. E hoje vejo claramente que tudo é passado.

5. Areia tem uma comunidade virtual no orkut. Virtual mesmo: a maioria de seus membros não vive em Areia, talvez nem tenha vivido, talvez nem seja de Areia. Não vejo os membros da cidade viva: viajam anônimos, pagam pedágio à vida, cara tarifa manter-se sempre à margem, a reboque. Não há de ser nada, depois da copa serão absorvidos em passeatas, brigas passionais, disputas eleitorais, esmolas. Não de ser nada! Uma cidade se faz com homens e homens livres. Vejo só grilhões.

6. Abandonei o diário das férias, entro na fase da expropriação, como o faz meu amigo Evo!

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Diário das férias, 7

Janeiro, dia 9, manhã

Uma de minhas saudades mais fundas está ligada às reuniões na casa de Dona Zita. A terceira casa à direita na Rua do Bode. O reduto de Pádua, Floriano, Fátima, Chiquinho, Tuda. O fim de ano, sintonizado na Rádio Campina Grande FM, era uma convergência de boas energias e bom degustar.

Dona Zita nos deixou há um tempo, logo depois de ter falado comigo, num Natal. A casa ficou triste. Papai Noel não cumpriu o trato e atrasou-se em seus presentes. Mas a tristeza é apenas pela sua ausência física, Dona Zita preenche todos os cômodos com seus passos firmes, com seus braços fortes e sua fala certa.

Quando estávamos na sala, eu e Pádua, bebericando alguma coisa, ela preparava um daqueles pratinhos e um caldinho para acompanhar o nosso constante delírio, o nosso persistente sonho. Foi nesses encontros que escutáramos Gonzaguinha, Belchior, Ednardo, Zé Ramalho. Minhas lembranças se embaralham e escuto a voz de Fátima, a mulher mais charmosa da cidade, mãe de Camila, que vi nascer e crescer. Reencontrei-as, mãe e filha, numa conversa tão agradável como nos velhos e bons tempos.

O meu amigo Pádua não quis partir conosco. Fez bem. O mundo, esse mundo imenso, é um beco escuro repleto de armadilhas. Uma ratoeira, um mundéu, uma rede, uma grade, um labirinto. Abracei-o como a um irmão e relembramos com carinho nossa trajetória, nossos amigos em comum, nossas estripulias. A casa de Dona Zita foi minha primeira casa, meu primeiro lar. Tive lá as primeiras lições de amizade e fé!

segunda-feira, 6 de março de 2006

Diário das férias, 6

Janeiro, dia 8, noite

O ano de 1998 foi aquele das trevas e da imensa luz. Fui ao fundo do poço de meus dias e ao cume dos montes de minhas noites. Sofri as dores de amores e os gozos espirituais. Do fundo da caverna vi mortos à esquerda e direita. Do alto vi vivos aos saltos e solavancos imateriais. Em minha dor mais profunda encontrei guarida em homens e mulheres de braços tão quentes e corações tão grandes. Em irmãos dedicados e vigilantes. Em amigos. Se pela manhã observei o passar da procissão católica em minha vida, à noite revivi os bons momentos passados no seio de meus irmãos da Igreja Congregacional Monte da Benção, ali na rua do Sertão, em frente à Caixa Econômica. Cheguei por lá em trapos, andrajos, com falência múltipla dos órgãos e da consciência. Eu estava morto.

Aprendi coisas belas com meus amados. O hino Quão grande és tu ainda faz eco em meu espírito. Meu primeiro interlocutor foi o Irmão Ivan, presbítero. Ivan me ouvi como um santo, paciente e meigo. Ficamos amigos tão próximos, nossos corações pensavam as mesmas coisas, comungavam os mesmos anseios. Ouvíamos Mattos Nascimento em alto som, comíamos a rapadura das orações. O Irmão Dedé, ô meu Irmão, varamos noites lendo capítulos bíblicos, observando o caminho dos justos, meditando nas palavras sinceras do Eclesiastes, buscando em Paulo orientações para a vida plena.

Hoje, observo meu filho naquele púlpito, cantando os hinos que eu já cantei, buscando as mesmas coisas, o mesmo êxtase. A vida cristã é uma vida a mais. Mas, cuidado com a intolerância religiosa, com o fanatismo que semeia guerras e promove a separação. Fica-me na pele a beleza de ver meus amigos de adolescência vivendo vida reta, à procura do correto caminho e das boas ações. Surpreendo-me também conscientizando-me que, antes de Cristo, infelizmente, se vive Paulo, ao invés do cristianismo, semeia-se um paulinismo preconceituoso e vago. Não há de ser nada, entretanto, no final dos tempos subiremos unidos ao impalpável seio de Abrahão. Ou de Alá, ou Confúcio. Por que não?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 5

Janeiro, dia 8, manhã

Olhei para a igreja matriz. Fechada. A missa está acontecendo no auditório do Centro Social Pio XII. Essa igreja matriz e esse centro são dois importantes marcos em minha vida. Na igreja fui iniciado na vida cristã. no conhecimento do catecismo, pelas mãos da Madre Trautelinde (nem sei se é assim que escreve). Alguém deverá lembrar dela. Alemã, vermelha, apontando o caminho das artes manuais, das artes cênicas e da língua alemã a quem se interessasse. Lá no centro paroquial vi seus slides sobre a vida de Estevão, o santo apedrejado e morto aos pés de Paulo, o apóstolo. Eram slides dramáticos da vida dos santos construtores e defensores da fé cristã. Por ela entrei na Cruzada Eucarística. Nas procissões e autos de fé íamos à frente rezando e cantando. Por ela penetrei no precioso e protegido Colégio Santa Rita e sua biblioteca, com a Irmã Frida tomando conta. Encenei alguns dramas no palco do Santa Rita, aliás minha vida era um drama.

O centro Social Pio XII foi a convergência para o saber. Sua biblioteca e seu museu, o Museu Regional, foram meu berço e meu porto mais que seguro. Todas as noites eu lá estava descobrindo José Américo de Almeida, Jorge Amado, Fernando Sabino, a literatura de cordel e a Imitação de Cristo, velhos missais, enciclopédias, dicionários, livros de história e história de livros. Apresentei-me, certa vez, menino sambudo, dançando um Mineiro Pau em seu auditório, nesse mesmo auditório, vi movimentos políticos sendo fundados, peças teatrais, seminários literários e culturais. O Centro foi pioneiro oferecendo aos jovens um Curso de Datilografia por anos seguidos. Tudo isso obra de Pe. Rui Vieira Barreira.

Pe. Rui foi um homem de fibra. Além de cuidar da matriz e ser um de seus idealizadores (patrocinou afrescos no teto e nas laterais) fundou em cada rua um centro social para a comunidade poder se encontrar e se constituir cidadã. Foi um homem atuante, político brilhante, professor univeritário, intelectual e vaidoso (mas quem não é?). Acredito e disse por muitas vezes, ter sido Pe. Rui o homem mais lúcido de Areia, mesmo depois de três derrames cerebrais, de sua esclerose, de sua falta de memória. Depois de Pe. Rui a igreja católica areense troca passos bêbados, desce todas as ladeiras e abandona a fé. Não encontrei Pe. Rui, entretanto seu braço está em toda parte.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 5

Janeiro, dia 8, manhã

Acordei com alguma inquietação. Luiza amanheceu estranha, longa viagem para a pequerrucha de dois anos. Vomitou ás 05:00h. Ficamos atônitos. Compreendemos depois de meia-hora que era cansaço e fome, estômago vazio. Depois do leite estava ela com a pilha renovado e eu aliviado. Tomamos café em Wilson da Padaria.

A antiga padaria de seu Edgar, pai de Wilson, sempre me intrigava. Havia um balcão antigo onde se lia, talvez, Bar da Noite, ou Bar da Lua. Não conversei sobre isso com ele. Conversamos sobre política. Ficamos por aí e eu voltei em busca do meu baú. Durante minha infância trabalhei na padaria de Seu Antonio Cavalcante, a Panificadora São Vicente, em cujo balcão atendia Zé Marimbondo.

A família Cavalcante sempre foi muito atenciosa comigo. Zezinho, Rui, Arimatéa, Paulo e Dona Suzana, os que me lembro. Está lá na Rua do Teatro a antiga padaria. Não sei o paradeiro dos meninos de Seu Antonio, sei da saudade que tenho do pão francês coberto com aquele farelinho de milho e das bolachas por lá produzidas: sete capas, regalia, sian, somassa, cafona, soda, jaú, delícia, biscoito charuto, tareco, bolo confeitado e um pão doce coberto com coco. Ao que aqui no sul chamam de pão sovado, na padaria de Seu Antonio era pão crioulo. A menor bolacha fabricada era uma tal de peteca e o menor biscoito era a raiva, broa de massa.

As duas principais padarias eram a São Vicente e a de Seu Edgar, a Panificadora Capricho, a qual Wilson comanda hoje, onde tomei café pingado com um sanduíche de queijo de coalho para matar a saudade dos meus verdes anos. Durante toda a semana em que fiquei em Areia acordei com o aroma do pão novinho penetrando delicada e sutilmente pelo postigo da janela, habitando o quarto, como num desenho animado de Tom e Jerry, me chamando para a armadilha das massas.

Que eu me lembre ainda haviam outras pequenas padarias. Na mesma Rua do Teatro havia a padaria de Seu Antonio de Zuza, com o padeiro Luizinho, fazendo o pão na mão, resistindo à tecnologia. E lá na Rua São Miguel, aquela que corre rente ao muro do cemitério, o Sr. Antonio Lopes instalou uma pequena panificação com Biu de Dona Maria Bernardo fabricando pão e outros artigos da panificação. Na década de 90, instalou-se uma padaria, com bar e lanchonete, no centro, frente à Igreja Matriz, onde hoje há um supermercado, entretanto essa década foi a década do meu exílio definitivo. Falar de pão em Areia é pedir a Deus para que todos tenham o pão.

Diário das férias, 4

Janeiro, dia 7, noite

A noite em Areia é medieval e nebulosa. O céu é visto em sua profundidade abismal, à noite, raras vezes. Quase sempre desce até nós a névoa, como se o bafo halitoso e fumegante de Deus nos envolvesse em seus mistérios e augúrios. Quando criança, com um velho mapa astronômico, eu tentava encontrar as constelações, como fiz de dentro do aeroplano da TAM. Meu sucesso fora sempre duvidoso, só encontrava brumas.

A noite não é tão somente o céu cintilante. É um todo, é o friozinho, é a esquina, é a praça, é a rua deserta, é algum amigo, em roda, contando piadas e fofocando sobre os erros do divino. Cortei o calçamento e as calçadas areenses, senti a boca de antigos botecos pelos quais perambulei em minha mocidade. Fiz um rosário de minhas lembranças. Procurei Dona Nazaré e Betila, Basto do Bar, o bar de Caju e de Mané Bidão. Lugares nos quais ensaiava algumas notas numa viola sem rumo.

O Bar do Buda foi o único no qual ouvi ópera ao ocaso de um sol brejeiro. O Buda, sofreu um infarto fulminante enquanto servia sarapatel a uns estudantes da Escola de Agronomia. Passei em frente ao antigo Bar Chaminé, reduto dos intelectuais, o preferido dos artistas durante os antigos festivais de arte da cidade. Hoje é uma sucursal da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Mais recente, o Bar Magia era o point da cidade. Era uma bar pequeno, enorme para nós leitores e subversores, boa música, todavia conservador radical, não se podia pendurar nada, fiado jamais, mesmo porque com a nossa escassez de recursos seria difícil saldar penduras.

Mas falávamos da noite e sua mística. A noite de Areia é a noite do mundo, todos os fetos dormem em paz, todos os afetos estão adormecidos e os desafetos tramam seus ardis. É a mesma noite de outras noites. O quarto da pensão de Fleuriza, onde ficamos, abria sua janela para o vale imensurável no qual o vento semeava seus uivos e adornava os corações de antigas lembranças de malassombros. A noite é boa para dormir, a noite é boa para sonhar, a noite é boa e o sol, na luta contra o nevoeiro, chega devagar, sonolento e só se firma pelas dez da manhã. A noite cobriu a cidade com um véu de esquecimento e óbito.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 3

Janeiro, dia 7, tarde

O centro da cidade de Areia não é bem um centro. É uma rua estreita equilibrando-se sobre abismos. Um traço, corda-bamba sobre o incandescente espinhaço da serra. Dali, ela desce em tentáculos pelas encostas. Capilares perdendo-se nos vales, nos quais infalivelmente há um olho d'água. O marco talvez seja o obelisco da praça da antiga prefeitura, agora restaurada com seus azulejos desenhados. E meus filhos estavam ali. Vi-os da janela do ônibus e da janela fez-se um retrospecto imagético por alguns segundos, cada um deles, três, não eram mais que bebês e já se passaram dezesseis anos do mais velho, quatorze da do meio e treze do caçula.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Diário das férias, 2

Janeiro, dia 7

Algumas sombras viajaram de muito longe para dentro de minha noite. Marcamos um encontro naquela cela. Instalaram-se entre nós três, na pequena cama na qual buscamos algum repouso. Se não repousa o mar, eu era o mar. Vozes e seus ecos, fantasmas e seus passos, lugares e seus encantos, os desencantos de alguns lugares, os lugares comuns. Sons e música, pessoas e aromas, cabelos e afagos, crentes e dementes, bêbados e ébrios, sóbrios e serenos, sereno e orvalho e um filete de paz e um alfinete de guerra e a linha tortuosa com as palavras escritas por um deus analfabeto, ou um alfabeto sem deus.

Analice e Bertrand, os arautos do sol e da brisa, saudaram-me como a um odisseu, repleto de cicatrizes. Naquele primeiro dia fui um ciclope caolho, os olhos resumiram-se no centro da testa, e esta refugiara-se na caverna medonha do meu sotaque inalterado. Um café perplexo, um amplexo, procurando nos pés um nexo, no coração um anexo, um desconexo dançarino de street dance, a dança dos salões. A mala azul, enorme. O mar verde, amorfo.

O caminho, a estrada, a BR, para Areia, é a via das maravilhas. As paisagens agem e ardem em eco. Quais mãos trabalharam na confecção desse origami? A planície sem fim, cada casinha perdida ao lado de um cajueiro. Estradas de terra vicinais, plantações de abacaxis, um pedaço da mata atlântica. Uma árvore de Natal trabalhada na horizontal. Barraquinhas de frutas e seus sitiantes, cabeças de gado, Café do Vento (nome poético escondendo a bifurcação para Sapé, Mari e Guarabira) e a macaxeira com carne de sol lá no Cajá.

Entrada para Juarez Távora, a rodovia tão estreita e sinuosa como a pedra de São Sebastião, rios secos, açudes petrificados nos portões milenares do brejo. Vai assim até Alagoa Grande, a cidade quente, no sopé da Serra da Borborema. Uma nuvem de gafanhotos pousou em meu corpo: cadê a Lagoa do Paó? Diluiu-se entre as alimárias ou foi sorvida pela fenda de Sumatra, num choque de placas tectônicas? A resposta cruel me foi oferecida na antiga ponte levada pelo estouro da barragem, represa de Camará. Quase dois anos sem ser reconstruída. O paradoxo da ilha em terra. Haverá inseticida para essa peste?

Come-se muita poeira no atalho para o asfalto. Nele, depois da reta por entre o canavial a brotar, a curva fechada para a encosta serpeante, subida para a Vila Real do Brejo de Areia. Um feto de alegria é um embrião de confetes. Uma pedra, uma árvore, um bambu, todos são totens dos meus verdes anos, de minhas aventuras, dos meus insucessos com as mulheres, dos meus sucessos com o fracasso. É uma armadilha atrás da outra até a entrada da Célula Mater da Inteligência paraibana, a maior das armadilhas.

Da subida, a visão medieval do Convento das Irmãs Franciscanas, suas altas paredes e suas profundas fundações. O totalitarismo cristão e a educação caminham sabiamente de mãos dadas e bocas fechadas. As pedras têm cor e cheiro de sangue, a argamassa tem peso e imagem de esperança. Areia criou-se conservadora e escravocrata, imortalizou-se como vanguardista e abolicionista, permanece perplexa e parada sem compreender o seu destino.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Diário das férias

Janeiro, dia 6

Embarquei em um dos velhos e temidos aviões da TAM. Fui para o Nordeste: João Pessoa. Escala e conexão em Recife. A chuva caíra sobre o Rio durante toda a semana. Mas acima das nuvens escondia-se a imensidão. O profundo e bordado espaço sideral, com seus sóis, estrelas, planetas e satélites artificiais, uma estação orbital e a Lua invisivel.

Foi a primeira viagem de Luiza. Dormiu pouco e certamente não sofreu as sensações que eu sofri. Minha esposa, acostumada aos solavancos aéreos, cansada, buscava refúgio por trás dos óculos e eu brasa acesa na noite do bólide, navegando o espaço, com espaços imensos por dentro e por fora. Janelinha aberta, contei estrelas, apontei constelações e outros corpos precipitados pela estrada de nada, ou de vento, ou de nuvens, ou de breu.

Aos 10 mil metros subindo não existe esperança, só ansiedade. Nada é parâmetro para nada, entretanto ainda pude pensar na beleza acima e abaixo. Não existia ali nem céu, nem terra. Muito baixo para estar no céu e muito alto para estar na terra. Estávamos, suponho, no horizonte. E acreditei ver constelações abaixo, luzes de cidades que nem sei quais: rios de lava, estrelas-do-mar, crocodilos e polvos, desenhos luminosos e explosões.

E acreditei ver constelações acima: sagitário, o cruzeiro do sul, ursa maior, as três marias ou o cinturão de órion. É, eu estava com medo. Para onde iria correndo minha sombra naquele cavalo de eletricidade, como perguntaria Augusto. O homem fragmentado da pós-modernidade já não voa. O homem sequestrado nos bolsões periféricos da miséria urbana, também não. O homem romântico e seu fantasma teima em olhar para o lado e flagrar alguém a fitá-lo. Alguém que se solidarize com seus pensamentos.

Mas a mulher, com sua pele negra, com sua boca doce, com sua mão afável e com olhos dormitando, perde-se dentro do seu próprio vôo, de sua própria noite, de seu próprio destino. Seu coração, dentro da nave, àquela hora, pertencia a outro deus, talvez Morfeu, talvez Tupã, talvez Odin ou Iemanjá. 03:00h: bem-vindos a João Pessoa, tempo bom, temperatura amena e R$ 55,00 de taxi atá o Pouso das Águas, na praia de Cabo Branco.