sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Fim de ano

Sob a luz dos olhares estrangeiros
O menino Aderaldo se esquiva
A pupila em seu olho é diamante
Mesmo opaca se vê que está ativa
Todo o corpo é o olho que, brilhante,
Ilumina as veredas, chama viva.

Sua voz é cabeça de aríete
Represada que já não se contém
Os dormentes não sustentam seu trilho
Nem suportam as rodas de seu trem
Se a sua pupila excede em brilho
Não se sabe a origem desse bem.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

A lembrança ou O Natal é possível?

Era noite de Natal e eu, exilado poeta faminto, empreendi minha pequena jornada. Não havia qualquer lugar específico para chegar. Eu procurava tão somente um onde, fosse marquise, degrau ou porta para recostar a cabeça e descansar daqueles dias fatigantes, desesperados, de solidão e medo. Naquela noite eu não tinha mais casa. Minha noite primeira na rua, meu batismo sob as estrelas.

A Cidade Maravilhosa havia me presenteado com coisas muito boas. Trabalho e guarida. Abrira seus imensos braços e abraços. Agora, entretanto, tudo se perdera, fluira, escorrera por entre meus inábeis dedos e fugira como um crocodilo amarelo pela imensidão subterrânea de seus esgotos.

Eu caminhava olhando para os lados e para trás, nunca para a frente. Ruas iluminadas, sons pelos bares, pessoas em suas casas sorrindo e se abraçando, envolvidas numa aura tênue, embalada pela emoção de uma cerveja ou um gole de espumante. Percebi olhares vivos, corpos bailando, carregados por invisíveis guindastes de ânimo. Algum namorado, encostado num carro, beijava sua amada com ternura e crianças disputavam doces em correria de inocente vida.

Um movimento acontecia comigo. Aquele caminho me conduzia de volta para dentro de mim. Observava grupos de mendigos, conversando alegres, bebendo aguardente, fumando um cigarro, partilhando sobras de algum restaurante e uma fogueira. Repartiam em latas sua comida. Bebiam do mesmo copo. Ali, na roda comensal, talvez não pensassem em suas vidas individuais, mas na vida de todos, no destino comum de todos os homens.

Resolvi ir pela areia da praia e já estava quase cansado. Não encontrara um lugar. Todos os bancos de praça estavam ocupados. A praia era um bom lugar. Aqui e acolá grupos estavam reunidos em círculo, cantando. Casais sentados lado a lado trocavam olhares e carícias. Um homem com um cão. Uma senhora com crianças e o profundo mar testemunhando a vida.

Dentro de mim fui encontrando pessoas desaparecidas. A Rua do Bode estava ali reunida em uma enorme mesa de Natal. Participei daquela primeira e única ceia interior. Era muita gente e cada um havia levado sua contribuição. Uma enorme árvore de Natal, com presentes depositados em seus pés, piscava como um imenso olho mágico. Meu primeiro dia de encontro com os pesados grilhões da dor. O mar invadiu-me os olhos. Aquele salgado sabor. Salgado saber.

Ora, ora! O amor não foi inventado por sacerdotes ou xamãs em seus transes, fraudulentos ou não. Não é criação literária reunida em alguma antologia de Natal. Moisés não nos trouxe o amor, nem Buda o revelou. Sim, porque o amor não é criação, criatura. O amor é o criador. O amor é o destino comum dos homens. É uma jornada para a cama macia. É o imutável olhar da vida.

Cada passo trocado naquela noite foi uma experiência esotérica, uma vivência exotérica, a dialética intersecção dentro/fora. Todos os Natais reúnem-se assim dentro de mim. A noite de Natal, porque o Natal é luz nas trevas. O amor é aquela estrela de Belém apontando o norte de cada um. Meu norte é além. Meu norte e meu Natal.
Reúnem-se em meu cenáculo interior todos os meus antepassados: mamãe, meus sete irmãos adormecidos, meu irmão vivo. Ali estão amigos que há muito não vejo, nem sei seus paradeiros. Ali estão inimigos fantasiosos e fantásticos. Cada pedra-de-fogo da antiga Rua do Bode e cada paralelepídedo que vi sendo colocado. Vejo ali minha primeira namorada. Meu primeiro amigo de verdade, ali. As paisagens e as aventuras. O Rio do Canto, o Engenho de Seu Juju, o Rio Pinturas e a Barragem do Pau-Ferro.

Ali, naquele canto, está o Cine Educativo Municipal e meu primeiro filme abobalhado: Esse pato vale ouro. Vejo Júlio Verne sentado, pensativo. Pedro Américo e Padre Rui, dupla inseparável. O amor é assim como uma dupla inseparável: Cristo e o Natal. O amor é cada migalha lembrada. A soma geral e a prova dos nove de todos os meus erros. O amor é a avalanche provocada pelos meus acertos. A tempestade de minhas buscas.

Lá longe, onde o amor foi aprisionado e não saiu às ruas, há muita dor. Essa verdade me faz acreditar que as verdades às vezes levam aos erros. Minha jornada prossegue. Prossegue comigo. Com minhas encruzilhadas. O Natal é a grande encruzilhada, a bifurcação, o dilema. Para um lado e para o outro: o que fazer? O amor é o Natal, a decisão, a escolha.

Escolhi sentar-me frente ao mar, numa pequena gruta. O amor é essa gruta frente ao grande mar. O Natal, aquele Natal comigo mendicante, é um mar. Espumas das ondas quebrando pertinho, o barulhinho insondável dos seres dialogantes dentro do mar. Dentro de nós, o marulhar das vozes de nossas convicções. O imutável mar. O profundíssimo mar do amor e suas desconfianças e seus ciúmes. O amor não é o monstro do mar.

O amor, como um bom escoteiro, marcou o caminho, iluminou a noite, indicou-me as boas trilhas, alertou-me para os riscos do atalho e trouxe-me a esta gruta. Aqui do lado, enquanto eu tentava descansar, uma senhora sofria toda a noite com dores de parto. Seu homem, um senhor não muito idoso, mas marcado pelo tempo de seus suores, foi sempre prestativo e carinhoso. Ainda a pouco ouvi um choro manso de recém-nascido. Como pode alguém ser tão irresponsável e dar à luz aqui entre esses montes de lixo?

Talvez seja madrugada. Olho para o horizonte e Vênus brilha sobre nossas cabeças. Já ouvi alguma movimentação e algumas pessoas, quem sabe importunadas pelo insistente choro daquele rebento, tenham vindo para reclamar suas queixas de não poderem dormir tranquilas. Esse moleque parece que mexeu com tudo ao redor. O milagre da vida, não é? O galo cantou um canto mais forte, mais gutural e arrastado. Uma vaca e suas crias mugiram em uníssono. Senti o cheiro do café.

Não posso me envolver com essa história. São estranhos, embora mendigos como agora eu sou. Mas há uma força me puxando, ou me jogando, para dar uma olhada naquele outro lá, que nem sabe que nasceu.

Meu Deus, não se parece nada com o pai e, da mãe, traz apenas a cor. Qual o futuro dessa criança? Não pode ser lá muito bom. Mas, fazer o quê? O amor é como esse menino: talvez não tenha origem, nem pedigree, seus pais terrenos não lhes fazem herdar qualquer traço genético, e por isso mesmo, inquieta os vizinhos e faz pensar.
Mas, de verdade, o que é o Natal? Será o Natal o tempo das nossas dúvidas? O covil dos nossos medos? A caverna de nossas trevas?
Ou será o Natal uma margem suspensa para todas as respostas? A mansão espetacular de nossa coragem? O acesso universal de nossas luzes?

Como o Natal, seremos nós anuais e nos renovamos e morremos e ressuscitamos? Nasceremos com Cristo ou a estrebaria dos nossos desesperos nos bastam?

E esses três Reis Magos, porque insistem em nos visitar? Presentes: insenso para purificar e perfumar, mas que, como toda a fumaça, se dissipa e exige mais fogo, mais incenso, vigília? Mirra, o que seria tal erva, se é mesmo erva e não a encontramos pelos mercados, na Pérsia ou em Caruaru? O ouro, para que queremos o ouro? Para comprar? Para guardar? Para adorar?

Esses animais teimosos continuam a nos lamber? Nossos pais velarão por nós? Afinal, nascemos para ser recenseados? O Cristo, aquele pobre Cristo, nasceu durante um recenseamento da população? E nós, a que população pertencemos neste Natal? Aos excluídos, sejam sem-terra, sem-teto, sem-sonho, sem-vergonha, sem-amor, sem-vida, cem condenados... ?

Esta janela não me parece segura. Por ela testemunhamos a morte e as muralhas do Natal. O Natal, para alguns, por trás dos muros, paredes e pisos dos shoppings. O Natal para aqueles que observam o outdoor da mortadela como substituta do peru e não poderão comprá-la.

O Natal é a solidão dos muros dessas imensas carceragens e casas de detenção? O Natal é o Parque do Flamengo, cada ponte, cada bueiro, cada pé-de-escada, barraco? O Natal será formado pelos fogos e pelas nozes desfilando em carros alegóricos e lágrimas na contra-mão da riqueza?

Literatura de Cordel: um ícone nordestino

Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — ... Mas Deus está de que lado?

Canudos, como está n"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”

O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.

Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.

Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.

Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.

Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal em folhetos de oito páginas se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.

"Forrobodó" ou "for all", de onde vem a palavra forró?

A banda paraibana Cabruêra desceu ao sul e instalou-se no Rio de Janeiro em setembro de 2001. Lá, fundou a Cabrahouse, primeiro em Copacabana, depois em Santa Teresa, tradicional bairro de artistas. Ao chegar, debutou na TVE e lançou disco no palco da resistência cultural carioca, o Teatro Rival, e assim seguiu arrebanhando um cordão de adoradores. Zé Guilherme, o Munganzé, um dos melhores percussionistas do Brasil, um dos pilares da Cabruêra, vindo aqui em casa, incitou-me a explicar a origem do termo “forró” para uma oficina de percussão no Festival de Inverno de São João del Rey, em Minas Gerais, onde a banda tocaria.

Pois bem. Discutíamos a gênese da palavra a partir de duas explicações para o que se passou a chamar de forró. A primeira está ligada à construção da malha ferroviária no interior de Pernambuco por engenheiros ingleses que, em suas horas de folga, patrocinavam pequenas rodas nas quais a liberdade, municiada pelo consumo de álcool, pontuou a descontração e a dança. Essas rodas eram “for all”, para todos, no idioma nativo dos ingleses. Daí a pronúncia aberta “forró”. Sem registro que legitime tal origem, fica-se no âmbito da lenda.

A segunda é apresentada pelo folclorista Rodrigues de Carvalho, em seu Cancioneiro do Norte de 1903, aponta uma associação entre forró e forrobodó, festa popular das pontas de rua, baile popular aberto para toda a população pobre. Câmara Cascudo registra a mesma origem fazendo um levantamento da aparição do termo desde 1833, para encontrar um variante datada de 1952, num semanário chamado A Lanceta, sem indicação de local. O termo é forrobodança, uma espécie de dança chula popular.

Acredito que essas duas teses sejam insuficientes, mesmo porque fica difícil determinar data para surgimento de qualquer palavra. Respeitando a pesquisa, talento e autoridade dos dois folcloristas, lanço uma terceira via. Quero aproximar o termo português forró, ao termo árabe alforria, liberdade dada aos escravos. Quando um destes era alforriado a palavra “fôrro” servia-lhe de epíteto, recebendo, inclusive um par de sapatos, se para dançar, não sabemos. Elomar, em sua cantiga O Violeiro, canta “Deus fez os home e os bicho tudo fôrro...”. De forria para fôrro, de fôrro para forró, celebração da liberdade, da quebra do jugo e dos grilhões. Não é isso que o forró faz?

Os testemunhos populares na diferenciação entre as festas de São João, festa popular, marca indelével das tradições nordestinas, e Natal, tradição européia, servem de esteio para minha tese. Enquanto a festa de Natal é descrita como uma festa formal, o São João prega a liberdade, é festa livre e comunitária, não requer roupa nova, nem champanhe para comemorar. E todas as classes e raças são chamadas ao arrasta-pé, criando um valor fundamental para a miscigenação de raças e culturas, no dizer de Darcy Ribeiro, e imprescindível para a construção do humanismo, segundo Jorge Amado.

Gonzaga e Jackson

O que nos interessa, também, é a divulgação desse ritmo propagada pelo pioneiro Luiz Gonzaga, primeiro nordestino a assumir compromisso com esse suposto novo estilo musical, depois de fazer o caminho do sul. Falar de Gonzaga é repetir-se, sempre. Sua história e sua vida estão na boca do povo e dos artistas, transformado em ícone institucional na etno-musicalidade brasileira. Muito embora construindo uma realidade folclórica do Nordeste, com seus vaqueiros e cangaceiros, plantou a semente da música popular regional nordestina em todo o Brasil. Asa Branca transformando-se na bandeira, estandarte dessa visão.

Gonzaga sofre, entretanto, críticas oriundas de um outro mito: Jackson do Pandeiro. O ritmista paraibano apregoava que o baião originou-se do coco e que o feito do Rei do Baião não passava de um novo invólucro para um velho ritmo. Zé Guilherme me diz que o jornalista Rômulo Azevêdo, de Campina Grande, numa tentativa de conciliação entre os pilares formadores do forró, um paraibano e o outro pernambucano, defende o império imaginário de Parabuco, um híbrido situado entre Caruaru, a capital do forró, e Campina Grande, terra do maior São João do Mundo. Essa, talvez seja a melhor opção, o lúdico, a criatividade, a liberdade, a alforria

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

O decálogo

Enquanto o CHU 3622 corta a Avenida Brasil, ao lado dessa mulher, sinto os arrepios provocados por cada palavra sua. O frio, amigo desses abalos, é fortalecido pela temperatura exterior. A tensão da noite mal atravessada me acompanha e meus olhos temem olhar para o lado. Os confusos pensamentos me enervam. Consigo retirar, porém, ileso, o meu decálogo, do meio destes escombros em que se transforma, a cada discussão, meu universo. Começo a lê-lo:


1. Acredito no amor. Este amor que não é apenas belo, forte e tudo suporta. Acredito no amor onde (o amor é um espaço) o lado humano pobre vem à tona, na revelação do vil e do hediondo e na superação deles todos. A minha banda podre me acompanha onde quer que eu vá. O meu amor tem que revelá-la à minha amada. Acredito, também, no amor débil, abalado e temeroso, fruto das histórias e do histórico de cada um. E cada vez mais tendo a acreditar que, assim como os ombros, o amor não suporta tudo.

2. Acredito no amor. Este amor que não se mede pelo tamanho dos presentes que recebo ou que oferto. Cuja métrica vai além do que vejo e do que sinto. O amor que briga, mas não desaquece, que entorna o caldo sem quebrar a tijela, que faz cair o pão, mas proteje a margarina, que faz dormir separado e não desarruma a cama, que pode até cancelar um toque, mas conserva o abraço.

3. Acredito no amor. Este inveterado amor das indecências. O amor dos impropérios e das loucuras. O amor que espera a amada com uma pedra na mão para arremessar contra o pára-brisa. O amor que diz transformar a vida do amado num inferno. O amor que entra numa discussão pela madrugada. O amor que fecha a casa, desliga o celular, escreve um epílogo, rasga um cartão, vai dormir no chão e ameaça ir embora.

4. Acredito no amor. Esse amor que faz o casamento. Que leva duas pessoas ao altar, ao juiz, à polícia, ao mesmo teto, embora todos digam, e a vida prove, que isso não dá certo. O amor dos enganos e dos desenganos, das ilusões e desilusões, da fé e da descrença, dos contraditórios querer e mal-querer.

5. Acredito no amor. Este amor que abdica dos cinco seguintes pontos do decálogo e oferta a lacuna para que a amada os escreva e partilhe a vida, construa a casa e pense na decoração, lave a roupa e solicite ajuda para estendê-la, faça o arroz e apregoe os males da farofinha, peça um leitinho sem estar muito quente, coma um pão com passas e zombe do passado, acredite no futuro e vá ao shopping comprar presente, queira ter filhos sem amar a gestação e o parto, vá ao dentista e procure os dentes de alho.