segunda-feira, 24 de outubro de 2005

O Rio São Francisco precisa continuar batendo no meio do mar

Nunca mais eu havia escutado Luiz Gonzaga. Riacho do Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai desaguar no São Francisco e o Rio São Francisco vai bater no meio do mar, o Rio São Francisco... mas afinal de contas que rio é esse? O Velho Chico, rio de Unidade Nacional, esse mesmo que vemos aqui à nossa frente, de águas meio esverdeadas ou meio barrentas, um olho castanho-esmeraldino, atravessado por essa ponte meio pênsil, meio sólida, caminho também de unidade. Esse mesmo rio que se despenca das Gerais, da Serra da Canastra, ali onde nada mais é do que um finíssimo nylon transparente que se anovela até Três Marias e engrossa pela Bahia até Sobradinho e vem descendo até aqui.

No último dia quatro de outubro o Velho Chico completou 504 anos de descoberto. A expedição de André Gonçalves e Americo Vespucci, em 1501, avistou sua desembocadura no dia de São Francisco de Assis e, como era de praxe, batizaram-no com o nome do despojado, humilde e revolucionário do amor santo católico. Muito antes, porém, os tupis já o haviam chamado de Opará, rio-mar. Mas essa história pertence ao tempo antigo. Meio milênio depois que é feito do rio-mar? Em que perdida memória deságua ou desaguou a fortaleza e pujança do nosso Nilo? Contradizendo a oração do Seu Padrinho Santo, o Chico só se doou e nada de bom recebeu em troca.

Três meses depois da descoberta do Rio São Francisco, a mesma expedição chega ao que se pensava fosse a desembocadura de um outro rio. D ia 1º de janeiro de 1502, uma foz enorme e o batismo Rio de Janeiro. Um engano, como mais tarde se observou, pois se tratava da Baía de Guanabara. O mar adentrava a terra, formava ilhas e criava uma das mais belas e perfeitas vistas da Terra. Subindo pelo suposto rio os portugueses se sentiram encurralados. Como a paisagem fosse bonita, clima agradável, ficaram fundeados ali. Entretanto, só em 1503 a cidade a que hoje se chama de Rio de Janeiro foi fundada. A história do Rio São Francisco e da Baía de Guanabara se unem naquele passado. Será?

Todos acompanharam no dia 18 de janeiro de 2001 o maior desastre ecológico acontecido na Baía de Guanabara. Não bastasse toda a poluição lançada todos os dias por indústrias, esgotos domésticos, refinarias de petróleo, portos e lixo em quantidade, um vazamento de óleo da ordem de 1,3 milhão dizimou 50 quilômetros de águas e manguezais. Peixes e homens, plantas e moluscos ameaçados de morte. Eu vi com meus olhos que a terra nunca há de comer, os olhos de minha alma, o que a irresponsabilidade tecnológica é capaz de operar. Quasecinco anos depois nós temos a certeza de que a Baía que antes apenas agonizava, agora morreu de vez. Mas acredito em ressurreição, sou cristão.

Em minhas mãos, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um relatório do IPEA, ligado ao Ministério do Planejamento, datado de 1972, delineava um Programa de visitas de empresários ao Vale do São Francisco e dividia a bacia do rio em áreas de aproveitamento. Uma dessas áreas era denominada Petrolina-Juazeiro. Um estudo favorável com levantamentos topográfico, industrial, demográfico, tecnológico convidava empresários a investir na região e tomava o Velho Chico como alavanca propulsora de desenvolvimento. No ano anterior vozes de alarme denunciavam a morte do rio e a formação de um deserto descendo do Ceará e penetrando os sertões de Mato Grosso do Sul, com Pantanal e tudo.

Data de 1954 as primeiras advertências. Desmatamento sem reflorestamento, causando assoreamento e entupimento do leito do rio; irrigação sem planejamento, levando à evaporação da água ou seu retorno repleto de poluentes químicos dos agrotóxicos; poucas cidades ribeirinhas têm sistema de tratamento de esgoto e jogam seus dejetos in natura no rosto do humilde Chico; a construção de barragens gigantescas sem qualquer preocupação ecológica, extraindo do companheiro Chico uma potencialidade que ele não possui; fauna e flora desrespeitadas acintosamente. Pescadores prevêem o fim do Velho Chico e eu nunca mais comi surubim.

Será que só com desastres ecológicos pesados é que se tomam providências? Será mesmo que, como diz o teólogo Leonardo Boff, o ser humano é o satã da Terra? Outro dia um amigo, voltando de Propriá, Sergipe, confessava um temor: — Acho que logo, logo atravessaremos Chiquinho a pé! Não se tomarmos as devidas precauções. Campanhas de esclarecimentos, comprometimento social, zelo pelo que dá vida. Como diz Geraldinho Azevedo, em parceria com Alceu: ... vamos salvar as serras. Eu acrescento: vamos salvar o Rio. Vamos evitar que ele desemboque na Baía de Guanabara, definhado e negro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Esse Cordel, esse Lampião

Não queremos cantar um réquiem. Nem escancarar feridas. Nos moveu o desejo de descrever lacunas, pensar sobre os vácuos, tentar pontes, mesmo que pênseis. O fenômeno Lampião é visto tantas vezes isolado, apontado como produto de séculos de desmandos e injustiças no país dos nordestinos.

A colonização naquelas plagas nordestinas se deu por ciclos. O do açúcar requeria terra para os canaviais e mão de obra para tocá-los. Antes de forjar o coronelismo e seu poderio colonial, desbaratou as populações indígenas, expulsou-as rumo ao interior, ou atou-lhes grilhões aos pés, mãos e almas. Aqueles resistentes sucumbiram às doenças. Os que conseguiram sobreviver foram se miscigenando, formando nova raça.

A civilização do couro vem encontrar essa raça em segunda geração. Os costumes, todavia, permanecem ainda inalterados. Furar a caatinga necessitava de armadura, o couro serviu de matéria prima para chapéus e vestimentas. Lampião é o fruto desse cenário. Descendente do índio, selvagem que resistiu, o tapuia, unido ao couro desse que cuidava do gado, revoltado com os atropelos dos coronéis.

Se os índios tapuias foram imortalizados em relatos de cronistas franceses a serviço do governo holandês, Lampião imortalizou-se no canto daqueles que, de tão injustiçados, não acreditavam na lei do Estado, nem na justiça dos homens. A maneira como foi imortalizado é que mudou. Da prosa descritiva daqueles cronistas, agora a sextilha e o verso de sete sílabas da poesia autêntica do Nordeste.

Pensamos essa poesia, de cordel, a provável cantora de nossos antepassados pré-cabralinos. Não o foi. A saga de destruição à cultura dos nossos povos foi encharcada por imitações do modelo europeu, tanto na forma como no conteúdo. A literatura brasileira colonial foi uma extensão européia. Mesmo a chegada do Romantismo não cantou a terra como deveria. A construção poética romântica transformou nossos índios em apolos dos salões. A busca da natureza como fonte de afirmação poética foi o passo para a brasilidade, é certo. Mas o arcadismo já cantara a mesma matéria. As epopéias árcades trazem esse indígena à cena. Assim vêm Cacambo em O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. Mas é em O Guesa, de Sousândre que se esconde o verdadeiro mito cantado americano. O Brasil é incluído no mundo americano e resgata seu passado sem a mácula da cor européia. A literatura de cordel poderia, caso lhe fosse oferecida passagem, cantar esse passado. É como se a cabeça de nossa ancestralidade tivesse sido cortada com a entrada do europeu em nossa cena. Aliás, é esse o nosso mote.

Decepados nossos ancestrais, deceparam-se os nossos heróis. O destrato dedicado ao cordelismo é a mesma ação decapitadora sob a qual caíram os tapuias do Recife, Zumbi dos Palmares, Tiradentes das Gerais, Conselheiro de Canudos, Lampião do Nordeste.

Um trabalho que pense a relação entre as epopéias nacionais e a Literatura de Cordel seria o fruto dessa breve reflexão. Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, nos pegamos àquele fato no qual todas as tentativas de escrever-se uma epopéia nacional tenham sido, de certa forma, ou de forma certa, infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a Literatura de Cordel resistiu, fundou sua própria poética, consagrou poetas, penetrou em todas as camadas sociais, influenciou escritores e estudiosos, transformou-se num símbolo, ícone, índice, signo e sinal de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior, Lampião, estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira identidade. Literatura de Cordel como tal, só acontece no Brasil.

Seria ela aquela matéria épica primitiva, cantando os heróis nacionais. A produção cordeliana encontrando o seu herói épico, Lampião, não existe outro de tão forte identidade quanto ele, baixa os fundamentos de nossa epopéia. Ele sintetiza:

a) o Brasil pré-cabralino, herdeiro dos antigos Tapuias do sertão nordestino;

b) a resistência à desordem estabelecida pelas oligarquias; e

c) o mito primordial brasileiro do viver sem lei, nem Rei, nem fé.

É histórico, reconhecido pela Igreja, em sua certidão de batismo; pelo Estado, representado pela instituição da Polícia Militar; e é maravilhoso, épico-burlesco, herói-cômico, nas façanhas do outro lado da vida como vimos anteriormente. Por tudo isso reivindicamos seja a Literatura de Cordel o caminho para uma poética dos nossos heróis degolados.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Catástrofes, futuros e bem-estar

No dia 26 de dezembro de 2004 o mar não respeitou seus limites e, provocadas por um maremoto, suas ondas gigantes subiram a terra, provocando milhares de mortes. A imprensa do mundo rodou relatos e imagens da tragédia. Foram aproximadamente 300 mil mortos e outros milhares de desabrigados e desaparecidos.

Logo após o acontecido, o mundo cristão abalou-se com a declaração de algumas seitas fundamentalistas de que o sinistro seria promessa de Deus, como ocorrera antes com Sodoma e Gomorra, arrasadas por hecatombes não muito bem esclarecidas, mas insistentemente alardeadas como manifestações da fúria divina contra o pecado.

Alguns dias depois da tragédia, em 12 de janeiro de 2005, o Clube de Paris, reunião dos países mais ricos do mundo, resolveu em assembléia extraordinária, congelar e até perdoar a dívida dos países atingidos, seguindo, assim, a orientação do G7, grupo dos países mais industrializados.

Em 13 de março de 2005, notícias afirmavam que sobreviventes e familiares das vítimas do maremoto processariam judicialmente a agência do governo americano que opera o Centro de Advertências de Tsunamis no Oceano Pacífico, acusado de não empreender ações suficientes para proteger os atingidos.

Já em 15 de março de 2005, os governos da Alemanha e da Indonésia anunciaram a criação conjunta de um projeto de alerta para tsunamis no Oceano Índico. Parte dele funcionará já em outubro de 2005, contando, até lá, com um aparato de 25 sismômetros e 10 sistemas de GPS, com sensores instalados no fundo do mar.

Esse cronograma resumido pretende refletir sobre os desdobramentos, em diversos setores da sociedade mundial, de um fenômeno cuja causa foge ao controle do homem, assentando-se sobre o que Freud disse ser uma das três causas do mal-estar de nossa civilização: a arbitrariedade da Natureza submetendo o Homem. O famoso ensaio freudiano O mal-estar da civilização aponta em seu terceiro capítulo:

Já demos a resposta pela indicação das três fontes de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade.

O que pretendemos pensar nesse post é de que maneira aquele acontecimento e seu calendário de ações mundiais posteriores refletem a consistência do movimento denominado Globalização; a eficácia do progresso na criação de elementos geradores de bem-estar; e o estabelecimento, a partir do fomento de sociedades concentracionárias, de culturas hegemônicas globais.

Partiremos, pois, de um porto não muito seguro como sói tudo ser nesse séc. XXI: a futurologia. Esse termo ambíguo e escorregadio sofre olhares desconfiados por aparentemente alinhar-se com outros de não muito, ou nenhum, respaldo científico. Não se trata, entretanto, de ciência oculta ou magística. Valemo-nos de um de seus criadores, Herman Kahn:

A verdade é que “futurólogo” é uma palavra mal inventada, porque se assemelha a astrólogo e para as pessoas isso possui muito pouca seriedade. No entanto, a futurologia não é uma ciência. Em grande parte da Europa e dos Estados Unidos é considerada um movimento ideológico de esquerdas de caráter humanístico. Nós chamamos ao nosso trabalho “investigação de política pública para saber como poder melhorar as decisões”.

O trabalho desses investigadores, presume-se daí, é observar o futuro a partir do presente, projetá-lo, sem querer adivinhá-lo. Em seus escritos, os fatos científicos e inovações tecnológicas brotam de experiências e experimentos em processo, ou processados. Se não seriam tão somente ficção científica. Na década de 1970 surge, talvez, o primeiro livro de abrangência mundial sobre o assunto e seu autor, Alvin Toffler, se tornaria best-seller. O choque do futuro em sua 5ª edição brasileira anunciava mais de cinco milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. A sua primeira parte tem o sugestivo título de A morte da permanência. Trata de aspectos da sociedade os mais variados e prevê mudanças cruciais nos relacionamentos internacionais.

O mesmo Toffler aprofunda seu olhar e dez anos depois vem com A terceira onda. Se O choque do futuro procurava analisar como nos adaptamos às mudanças e como elas acontecem, este revela um autor sob o impacto de um mundo movente, sem pedras fundamentais ou alicerces firmes. Tudo parece caminhar para o movediço. Diz Toffler:

Neste contexto confuso, os negociantes nadam contra correntes econômicas extremamente caprichosas; os políticos vêem as suas classificações subirem e descerem loucamente como bóias de cortiça; as faculdades, os hospitais e outras instituições lutam desesperadamente contra a inflação. Os sistemas de valores se estilhaçam e se destroem, enquanto os botes salva-vidas da família, da igreja e o estado são violentamente sacudidos.

Não seria só isso. A constatação apontava para uma década de mudanças e adequações tão mais violentas do que jamais se poderia pensar. O mundo estava ainda dividido nos dois blocos e a guerra fria atingira seu auge. Impensável e imperscrutável o que estaria por acontecer. Numa madrugada de outubro de 1989, uma picareta arranca pedaços do muro de Berlim. Aquele que era o ícone da bipolarização do mundo desapareceria no ar, como antes já se propusera.

Antes de completarmos o comentário sobre a trilogia de Toffler, completada com Powershift, voltemos a Herman Kahn. O seu primeiro livro sobre as mudanças no futuro, datado de 1967, O ano 2000, em colaboração com Anthony J. Wiener, antecipava aquilo que Toffler constatava, mas naufragava numa premissa, pela tensão mundial de então. Kahn acreditava num Império Soviético inexpugnável, acreditando na corrida armamentista com frutos sempre catastróficos. Viu-se o contrário. Em A prosperidade está próxima, de 1980, depois de constatar a superioridade militar soviética, conclui:

Para os soviéticos, a guerra nuclear apresenta um caminho possível, ainda que indesejável, de fazer nascer o comunismo mundial ({para que se torne o poder dominante} no mundo pós-guerra (se se saírem bem), ou então de planejar um papel bem menor para o comunismo, e para si mesmos (se se saírem mal). O argumento “mera intimidação”, portanto, não é suficiente assustador para os soviéticos.

É compreensível a leitura de Kahn. Mas entre ele e Toffler há uma diferença básica. Acreditando na bipolarização, ele pára, enquanto o outro, observando a mudança dos atores globais, percebe o deslocamento do poder. Consegue perceber sua linha migratória, seu assunto principal em Powershift:

Desde o término da Segunda Guerra mundial, duas superpotências dominaram o mundo como se fossem colossos. (...) Hoje, claro, esse ato de equilíbrio acabou.
Há uma forte razão para acreditar que as forças que agora sacodem o poder em todos os níveis do sistema humano irão tornar-se mais intensas e penetrantes no mundo imediato.
Dessa maciça reestruturação das relações do poder, tal como o deslocamento e a trituração de placas tectônicas antes de um terremoto, surgirá um dos mais raros eventos da história humana: uma revolução na própria estrutura do poder.


A metáfora para a mudança (placas tectônicas em deslocamentos) é apenas coincidência com o início de nosso ensaio, mas vem a calhar. Essa mudança, que abre rasgos no chão e na estrutura do mundo tem um nome: globalização. Se os futurólogos não cunharam a nomenclatura, a perceberam. Cada um a sua maneira.

Quando John Naisbitt publica o seu Megatendências, em 1982, prevê uma nova riqueza em gestação: o know-how, o conhecimento. E abre suas especulações com a apresentação de uma sociedade industrial migrando para uma sociedade de informação. Não só isso. Prega o poder dessa informação, afirmando: A nova fonte de poder não é o dinheiro nas mãos de poucos, mas informação nas mãos de muitos. Para, logo a seguir, advertir:

— A sociedade da informação é uma realidade econômica, e não uma abstração intelectual.
— As inovações nas comunicações e na tecnologia de computadores acelerarão o ritmo da mudança, encolhendo o tempo de transmissão das informações.


Quem duvidaria? Vejamos o tráfego de informações e o tráfico das mesmas nos milhares de sítios internéticos. Naisbitt ainda acerta: A explosão do computador doméstico está em curso. E será logo seguida de uma explosão no software, que a alimentará. E nós apenas constatamos. Exemplificando: o caso da construção de nosso pequeno calendário sobre a tsunami e suas conseqüências. Levamos pouco mais de cinco minutos para encontrar o que queríamos, na seqüência exata. Velocidade na informação e em sua busca pelo programa utilizado.

Oito anos depois, Naisbitt, em Megatrends 2000, fortalece seu ponto de vista:

Estamos nos aproximando do dia em que teremos capacidade de comunicar qualquer coisa para qualquer pessoa, em qualquer lugar, de todas as formas — voz, dados, texto ou imagem —, à velocidade da luz.

Essa eficácia aplicada à globalização é apenas uma face da mesma. A globalização não é apenas informação veloz e furiosa. E, mesmo embutindo um mecanismo unificador, sua eficácia pode também representar sua ineficácia. Aquele calendário do início mostra-nos três reações às tsunamis que podem nos embalar nessa seqüência reflexiva. Há uma reação cultural: os religiosos fundamentalistas cristãos arrefecendo suas diferenças contra os muçulmanos, já que a maioria da população atingida pertencia a países de religião islâmica; outra reação político-econômica: o Clube de Paris reunido para perdoar dívidas de endividados, mobilização global de apoio econômico e material, visitas e vistorias dos representantes políticos das nações mais ricas; e mais uma reação tecnológica: a ineficácia do equipamento do Pacífico e a construção, em parceria, de um intrincado sistema de prevenção, baseado em transmissão de dados via satélite.

Medir a eficácia globalizante pelo viés da circulação de informação resulta, dessa forma, em ação falha, desprovida de observação. E mesmo essa ação sofre resistências bem esclarecidas. Como nos mostra Milton Santos no livro Por uma outra globalização:

Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias — para aqueles que realmente podem viajar — também se difunde a idéia de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão.

Santos reverencia a técnica, mas questiona o seu alcance. Aquela velocidade e esse mundo sem distâncias não pertencem a todos. Podem até afetar, mas não mudam, não transformam. E aqui nos deparamos com o fracasso essencial do progresso e a busca incessante pelo bem-estar. Todos os futurólogos consultados são unânimes na previsão de melhoria de vida pelas mãos do progresso, esse caminhando de mãos dadas com as revoluções técnico-científicas. John Naisbitt, em Megatrends 2000:

O flagelo da AIDS e o sofrimento que tem provocado simbolizam nossa ignorância sobre nossos corpos e seus preciosos sistemas imunológicos. No entanto, à medida que aprendemos mais sobre o poder da visualização positiva e imaging na saúda das pessoas, estamos próximos da capacidade de ver dentro da própria natureza da célula humana, até mesmo o próprio código do DNA.

Alvin Toffler, em Powershift:

O que faltava era a tecnologia. A disseminação da interatividade em rede irá colocar os instrumentos para os “jogos” políticos em milhões de salas de estar. Com eles, os cidadãos poderiam, pelo menos em princípio, realizar suas próprias enquetes e formar seus próprios “partidos eletrônicos” ou “lobbies eletrônicos” e grupos de pressão em torno de vários problemas.

Herman Kahn, em O ano 2000:

A idéia de robôs a preço módico, realizando a maior parte dos serviços domésticos no ano 2000, pode ser de difícil aceitação à primeira vista. De acordo com um entusiasta (...) dentro de 10 ou 20 anos poderemos ter um robô que eliminará inteiramente todas as operações rotineiras do lar e o trabalho maçante da vida humana.

Fiquemos com as três citações. Mesmo que aconteçam, quantos de nós teremos acesso a essas maravilhas? Quando erradicaremos o vírus da AIDS do continente africano, porquanto a fome, a falta de saneamento básico, trabalho remunerado e outros flagelos são fantasmas tão presentes e tão atuantes? Para aqueles que habitam as periferias mais distantes das grandes cidades, em bolsões de miséria extrema, de que adiantará o Projeto Genoma? E a assinatura de uma tevê a cabo interativa quando estará disponível à massa? Um robô lavando roupas de quem não tem roupas no sertão nordestino do Brasil? A idéia de progresso cai por terra. Mas cai carregando uma certeza revelada por Piotr Sztompka em A sociologia da mudança social:

A explicação para tão longa trajetória (da idéia de progresso) está com certeza situada nas características fundamentais da condição humana: o eterno hiato entre a realidade e as aspirações, a existência e os sonhos. (...) O conceito de progresso alivia essa tensão existencial, projetando no futuro a esperança de um mundo melhor e dando como certo, como provável pelo menos, o seu advento.

Todos os esforços de compreensão das catástrofes naturais e as medidas tomadas para repará-las, minorá-las ou preveni-las abraçam esse conceito, essa esperança. Donos de corpos frágeis, nos debatemos meio aos perigos e armadilhas naturais. Navegar virtualmente pela rede mundial de computadores é prazeroso, mas e a conta a ser paga? E o computador para comprar? E o software para abastecê-lo? O esforço parceiro para a prevenção de tsunamis poderá resultar apenas em mais uma ação judicial de uma nação pobre contra uma nação rica. Esta que tudo pode e aquela que de tudo necessita. E o Katrina ainda estaria por vir.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Uma po-ética para os heróis degolados

1. Quanto ao que aconteceu com nossos índios, o que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

2. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. Para nações ágrafas como eram, o velho ditado latino confirmou-se: verba volant, scripta manet. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família. Um índio chamado Galdino. Um índio chamado Jesus. Dos Santos.

3. Nos anos em que se seguiu o modelo colonizador português previu-se índios sendo usados como peças de tiro ao alvo, na mira das escopetas ou primitivos parabéluns. Nos quinhentos anos separadores das agressões, do achamento ao assassinato de Galdino, as qualificadoras do crime são compatíveis e bem poderiam ser retroativas, com uma atenuante: a vítima já é tratada como ser humano, mesmo que a fogo (e aqui os casos se equiparam novamente). O genocídio deu-se enquanto o “exterminando” dormia. A metáfora para a posse do território consagra essa tese: descobrimento. Arrancou-se-lhe o cobertor, virou-se-lhe a cama, incendiou-se-lhe o sono, fecundou-se-lhe o pesadelo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Livro rasgado, terra tristonha

A semana entre os dias 11 e 17 de janeiro de 2000 teve um significado caro para o continente africano. Reunidos na cidade de Asmara, na Eritrea, intelectuais, escritores e acadêmicos de África promoveram a conferência Contra Todas Probabilidades: Línguas e Literaturas Africanas no 21º Seculo. Desse encontro foi retirada a Declaração de Asmara. Os participantes observaram que só o fortalecimento da união entre os povos africanos, respeitando suas individualidades, o investimento na literatura de línguas africanas, a busca de África falar de si em línguas não coloniais e o diálogo com outras culturas sem xenofobismo, mas resguardando e resgatando suas tradições, poderão potencializar a identidade continental.

O continente esfacelado em lutas contra o colonizador e em conflitos interétnicos é um quebra-cabeça difícil de montar. Restos mortais em solo, almas partidas na diáspora. Esse grito de Asmara poderia ser, e ainda não sabemos se o foi, o marco divisor, introdutor de um novo caminho. Entretanto uma muralha, maior que a da China e inútil como a mesma, está erguida represando o Rio Nilo, encobrindo o Kilimanjaro, assustando o antigo Cabo da Boa Esperança. A pergunta está à mesa: até onde, ou quando, escritores são capazes, com suas obras, de derrubar a grande muralha do esquartejamento cultural? Literatas quebrarão os grilhões das fronteiras políticas aprisionantes de etnias?

Aquele mesmo imperador chinês construtor da Grande Muralha também ordenou a destruição de todos os livros escritos antes de si. Foi como proteger sua terra da invasão mongol e fragilizá-la no outro extremo destruindo seu passado, atentando contra a tradição, rasgando a memória do povo e derramando sobre as águas do esquecimento milenares gerações. Semear livros seria derrubar muralhas, regar a memória, gravar e proteger genealogias. A Declaração de Asmara apregoa que as atitudes individuais sejam portentosos instrumentos de afirmação. Em cada país, estado, província ou aldeia os construtores das letras são intimados a destruir muralhas na construção ética de um novo continente.

Exemplificando: a chegada dos navegadores portugueses ao Novo Mundo foi marco de mudança crucial. Mudança para aqueles que aqui se encontravam, principalmente. A carta de Caminha relata o encontro entre os dois mundos com olhos europeus e desejos de mercador. Os habitantes da nova terra, onde havia água em abundância e beleza extenuante, são vistos como futuros cristãos, terra fértil para expansão do império católico. O que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância. Em outras palavras, o livro português esmagou a oralidade das comunidades indígenas pré-cabralinas. Asmara pede o livro como resistência, dentro do diálogo possível

Borges, o cego argentino, afirma, em sua conferência na Universidade de Belgrano:

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensão de seu corpo. (...) O livro, porém, é outra coisa: o livro é extensão da memória e da imaginação.”

Afirma para mais abaixo tomar um caminho aparentemente oposto:

(...) Scripta manent, verba volant não significa que a palavra oral seja efêmera, mas sim que a palavra escrita é algo duradouro e morto.”

A oralidade é, dessa forma, a mãe da literatura, seu ventre gestador, seu ovo e seu marsupial. A literatura ocidental é filha da oralidade grega, seja de Homero, seja de Sócrates. A palavra escrita seria o morto que vive, que resiste, que enfrenta o colonizador, carregando sob si, fundações que remontam aos antigamentes da vida.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

De um certo Memorial Tapuia

1. O mundo era verde. Houve um ano de seca, no qual, lembro de lembrança bem viva, nós não tínhamos nada para comer. E era nada mesmo. Nem farinha. Fora desse ano, antes, lembro de ter recebido de minha mãe um facão. No dia seguinte, às quatro horas da madrugada, tomávamos café com cuscuz, peixe seco, queijo de coalho e banana. Depois andamos até o ponto onde o caminhão nos apanharia e levaria para o meu primeiro dia no corte de cana-de-açúcar. Em cima do caminhão, umas quarenta pessoas. Os meninos e as mulheres imprensados no meio dos homens, todos em silêncio. O sol nasceu por trás do canavial ondulante. Era muita cana, muito verde. O vento fazia um ruído como se fosse uma cachoeira esgotando água. Já na tarefa, minha mãe seguia à frente, cortando as canas, e eu um pouco mais atrás juntando os olhos de cana, cortando as folhas e elas me cortando. A folha da cana de açúcar é um facão cujos dentes fincam-se nas mãos em forma de pelo. Foi minha primeira lição. Meu primeiro caderno tinha pautas de imensos leirões. Meu lápis escreveu naquelas linhas de terra preta, o massapé, de orvalhos cristalinos pendentes das folhas e de sangue das pernas e mãos e rosto, a cada corte sofrido no labutar contra a natureza. Minhas mãos ficaram grossas como as dos homens mais antigos.

2. Um percurso do pensar. O meu ingresso no Mestrado em Poética foi um marco. Mesmo sem bolsa, casado e com quatro filhos, aos 35 anos, tendo que trabalhar arduamente, não me deixei ser tragado pelo canavial de dissabores. Agora não eram apenas mãos grossas. Eram pés rachados, que não acreditam no terreno que pisam, e olhos fatigados, buscando cores bem mais que FLICTS. Fui moldado ao som dos cantadores. Lampião roubara meu couro para seu chapéu. Minha cartilha foi O Boi Misterioso. O Nordeste pulsa em mim. Resolvi pagar o meu tributo, meu dízimo, minha dívida-dádiva-dúvida. A dissertação Literatura de Cordel: uma poética para os heróis degolados raptou-me. Em seu emaranhado descobri ancestrais numa árvore genealógica tapuia. Encontrei meu DNA mais autóctone. Minha viagem quanto mais mar, mais sertão. Quanto mais Corcovado, mais Pico do Jabre. Quanto mais Baía de Guanabara, mais Rio São Francisco. Mais metrô, carro-de-boi. Avião, Pavão Misterioso. O sangue tapuia compreendeu: antes dos Cabrais, minhas epopéias, intercurso épico, interrompido pelo intruso opaco. Alinhei com os extintos, mas não pense em minha extinção. Quis ver a Literatura de Cordel como matéria épica. Encontrei entes soterrados que vão agora neste alforje a tiracolo.

Quis entender a relação com África. Esbarrei em Mia Couto, Pepetela. Foram uma porta e uma janela. Um abismo. Quando o mundo descobrir África-letra, o letramento será concretizado. Encontrei o negro cantar, a Negritude. O choro, lamento: Pan-africanismo. Não há o Continente Negro: há o conteúdo. Não há o deserto ao norte: o Norte é o deserto. Acredito que irei mais fundo desse navio. A união entre a Umbanda, indígena, e o Candomblé, negro. As flechas do caboclo e as achas do Preto Velho.

3. Ainda te trago em minha boca.
Ainda te trago. Em minha boca
Peripatética malagueta em cio
É fumo, fome, fama, fêmea, fim
Pode até ser água. Anágua, afago
De desorientado girassol.
Assim me entras: serpentina viva
E retornas como pirilampos
A luz fragmentada em conta-gotas
Alfinetadas feito um Raio-X.

domingo, 2 de outubro de 2005

Miguel de Valverde, pensador

1. Miguel de Valverde dizia em segredo para os que o ouviam: — Falar é para todos; ler, para alguns; escrever, para pouquíssimos; raríssimos ouvem! Essa máxima valverdiana é uma pérola, ainda mais em nossos dias de falas tão tonitruantes e intempestivas.

Esquecendo o ouvir, exercício de sábios, e o falar, ferramenta preferida dos messias, nos prendamos ao ler e escrever, tarefas árduas para todos nós. O ato de ler requer um esforço descomunal. A batalha, a guerra, a luta com as palavras, embora vã, como disse o poeta, deixa-nos marcas, cicatrizes e tatuagens para a eternidade.

Escrever é ver para crer. A captura das palavras é exercício dos mais pesados, mas há oásis e, mesmo não parecendo, há também trilhas por entre as dunas, mesmo nos mais inóspitos desertos. Minha vida é procurar essas trilhas.

2. Há certas nuanças na política brasileira que parecem ficção. A imprensa noticia diariamente casos de políticos e homens públicos envolvidos em desmandos, atos ilícitos ou/e ilegais. Brasília é alvo de constantes investidas e frases como “É preciso passar o Brasil a limpo” caíram na boca do povo.

Quando nos debruçamos sobre o passado, o mais distante passado, encontramos raízes desses males. Um poeta, nosso primeiro poeta genuinamente brasileiro, agiu como que arauto denunciador. Muito embora não tenha publicado suas obras em vida, a descoberta de sua lavra lançou novo olhar sobre a história literária brasileira. Gregório de Mattos e Guerra, o Boca do Inferno, foi o poeta.

3. Miguel de Valverde, salvo do desastre em que naufragou a nau de Vasco de Ataíde, uma das componentes da esquadra de Cabral, ao chegar em Moçambique comprou um pequeno exemplar do Dom Quijote de la Mancha, de Cervantes. No quarto escuro e decadente em que se encontrava, recolhido, demorou três dias para ler romance. Dias em que não levantou-se, nem para comer. Bebia apenas, de sua pequena moringa, um ou dois goles de água e de um pequeno cantil, feito de chifre de unicórnio, três ou quatro tragos de vinho.

Dizem e atestam alguns críticos que o Quixote inaugura o romance moderno. Traz em si uma particularidade: aproveita-se das novelas de cavalaria medievais e cria um universo repleto de citações, paródias, epígrafes. É um romance criado a partir da intertextualidade, do entrecruzamento de textos, do diálogo, do recorte. No mesmo caminho, alguns séculos depois, Ulysses, de James Joyce, reinaugura esse romance. Já a partir do título percebe-se a intertextualidade com a Odisséia, do grego Homero. Ulysses é Odisseu, herói grego na guerra contra Tróia.

A intertextualidade transformou-se na marca e no marco distintivo da literatura. O caso mais conhecido na literatura brasileira é o da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, transformada na peça literária mais parodiada e citada de nossa literatura. Desde Casimiro de Abreu cumpriu uma trajetória incomparável até os modernos e pós-modernos. Intertextualidade é lema de minha prática.

4. Naquela noite, tenebrosa noite, quando os raios e os trovões procelaram o mar e uma tempestade assolou a cidade de Maputo, Miguel de Valverde, o pensador renascentista, refugiou-se nos sonetos de Camões. E leu, nas Rimas, aquele que o poeta português dedicou à Dinamene, às margens do Mekong, depois do naufrágio e morte de sua amada. Valverde, em seus sexagenários anos, sentiu um arrepio pela espinha, que terminou por alojar-se em suas pálpebras, espremendo-lhe os olhos e fazendo-o chorar.

A noite aprofundou sua treva e o tempo aprimorou seus urros. Alguma força estranha brincava de assombração. Tempos depois, no Engenho Pau d’Arco, na vetusta Paraíba, um poeta atormentado chamado Augusto dos Anjos, leria o mesmo poema. A lua, em quarto minguante, entrava pelo vidro da janela e se pronunciava no assoalho. Lá fora, correndo pela várzea, o Rio Paraíba respirava seus mortos e banhava seus vivos. A sombra da chaminé do engenho era uma espada sombria furando o ventre azul-petróleo do céu. Augusto reparou que anjos iam e vinham na noite.

5. O que tenho me perguntado com freqüência é se, pelo menos, nesses anos todos de docência em Literatura Brasileira, sei exatamente o que é um romance. Poderia dizer que sim, pelo número de obras que já li, mas também poderia dizer que não, pelo número superior de obras que não li. O que li representa uma ponta de cigarro no deserto da produção literária do último ano do séc. XX. Produziu-se mais literatura no primeiro ano do séc. XXI do que em toda a Idade Média. O que fazer,então, num país que já entrou na história literária mundial queimando etapas e desenvolveu, às pressas, uma identidade literária recheada de êxitos?

Alguém nos disse, não sei se Saramago, que o português é a língua do isolamento. Estamos, nós lusófonos, exilados sob nossa língua. E nós, brasileiros, mais ainda: exilados sob nossas misérias, nossas valas comuns e desesperos. Sob essa égide pergunto-me novamente: o que é o romance? O que é um romance? Quais seus ingredientes? Aceito respostas, sabendo desde já que as respostas suscitarão novas e mais intrincadas perguntas. Caso cheguemos a um consenso perguntarei: o que é o romance brasileiro? O que é um romance brasileiro? E, se restar-nos um pouquinho de coragem: o que é o romance brasileiro contemporâneo?

Não nos afobemos. Como diria o poeta “vamos de mãos dadas” pelas trevas hediondas do labirinto com seu minotauro, sem fio de Ariadne ou com algum fio frágil, frívolo e fugaz, talvez frenético, frêmito, fugidio, fundido em formas fraudulentas e fechadas de fiapos. Sejamos solidários, porém: naufraguemos todos, ali à frente há uma ilha chamada CINEMA.