sexta-feira, 30 de setembro de 2005

E eis o corpo humano

No ano de 1543, o médico Andrea Vesalius, nascido em Bruxelas, publica um livro em sete volumes chamado De Humani Corporis Fabrica, Libre Septem, mais conhecido como o Fabrica. Considerado um dos maiores livros da medicina de todos os tempos, essa obra é a primeira tentativa real de representar o corpo humano anatomicamente por meio da ilustração. Anatomistas anteriores a Vesalius tentaram, mas esbarraram em leis que não permitiam a dissecção de seres humanos, além do que suas tentativas estavam presas aos erros e equívocos do nome mais conhecido da medicina da antiguidade, Galeno.

Sucessor de Hipócrates e Aristóteles, Galeno descreveu o corpo humano a partir de suas observações como médico do Coliseu Romano, quando atendia gladiadores e cristãos feridos na arena. Em seus braços passaram corpos abertos e suas vísceras expostas, seu sangue jorrando, suas vidas fugindo. Embora participasse desse espetáculo, Galeno nunca dissecou cadáveres humanos. Trabalhava apenas com animais, fazia suas aproximações e tirava conclusões. Suas descrições do corpo humano se aproximam muitas vezes do corpo de bodes e cachorros. Entretanto os erros de Galeno perduraram por 14 séculos e eram tidos no grau de sagrados.

O primeiro a realizar e descrever dissecações de humanos foi Mondino DeLuzzi, de Bolonha. Escreveu em 1316 seu livro Anathomia que, mesmo trabalhando com humanos, não percebeu os equívocos de Galeno. Dessa forma, o baço continuou desembocando no estômago, o fígado continuou apresentando cinco lóbulos, o coração aparecia ainda com três ventrículos.

Berengario da Carpi, em 1521 foi o dono da voz rebelada na Renascença. Em seu Comentários à Anathomia, teve a coragem de corrigir Galeno. O coração perdeu um ventrículo, o útero deixou de ser segmentado e outros órgão tomaram localização exata. O corpo humano representado por Galeno e Mondino, abandonava sua característica deturpada e começava a parecer-se com o Homem.

Quando Vesalius publica sua Fabrica o mundo conhece pela primeira vez a representação realística da anatomia humana. As descrições passam a ter o suporte da ilustração. O homem de papel alcança o status de mimesis. O ilustrador, John Stefanus, pintou à mão cada figura, cada esboço foi estudado com apuro e tempo que veio sacudir a medicina e a ciência, adormecidas que estavam pelo ferro inquisidor da Igreja Católica.

O Livro 2 da Fabrica é uma respresentação de todos os músculos do corpo humano. São treze ilustrações de homens musculosos exibindo detalhes do mais profundo ao superficial.

O trabalho de Vesalius não foi de todo perfeito, alguns órgãos e vísceras não foram bem localizados e outros deixaram de ser citados. Ele trabalhava muitas vezes com corpos já em putrefação e muitos desses órgãos não mais existiam ou se confundiam com outros. O pâncreas, os ovários e as glândulas supra-renais não foram vistos por ele.

Ao dissecar corpos femininos, pelo menos dois, Vesalius descobriu o hímen guardando a cavidade vaginal. Porém, um de seus seguidores, Gabriel Falópio, foi quem descobriu e nomeou os ovários e suas trompas, que têm seu nome. Vagina, placenta e útero são designações dadas por Falópio.

Aqueles que vieram depois de Vesalius encontraram um caminho já mapeado. Enquanto ele teve de descobrir o caminho à mão, seus seguidores apenas seguiram seus esquemas, aproveitando para corrigir algum deslize do mestre. O corpo humano iniciava sua trajetória de objeto mais representado da ciência e da literatura.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Bifurcações

O sábado lá em Areia, cidadezinha esquecida no interior da Paraíba, é o dia da feira. Dia de festa para a criançada. Neste dia, Lucas, 11 anos, não sabe, mas terá quatro encontros decisivos. Vai à feira com Zuzu, 10 anos, comprar rapadura. Dá-se a seqüência de encontros:

1. O ventríloquo com seu boneco Benedito: a idéia de um boneco que fala impressiona tanto que Lucas espera ele ser deixado num canto da barraca do propagandista para observá-lo mais de perto. E o boneco, deitado, abre os olhos e pergunta: — O que quer? Lucas corre e se perde do amigo.

Meu coração é um galo
Cantando toda manhã
De olhos abertos canta
passando a guriatã
E nessa metamorfose
Sem linha e agulha cose
Meu sentimento de lã

O meu peito é o terreiro
Onde o mesmo galo cisca
O alimento do galo
Tem substância que arrisca
Coceira de carrapicho
E o galo ciscando o lixo
Não fecha o olho, nem pisca

Meu galo canta sozinho
No seu terreiro limpinho
Em serenatas de vida
Fugindo do desalinho
Com a rima dos menestréis
Meu galo cava com os pés
Os alicerces de um ninho


2. Os emboladores de coco: fugindo do boneco, Lucas se encontra no centro da roda onde dois emboladores divertem a platéia com seus repentes ao som do pandeiro. Um deles ao ver o menino assustado faz um verso sobre sua cara branca e surpresa. Envergonhado, Lucas escapa sufocado do meio da roda.

— Menino tomai cuidado
Com as vozes que escutais
Porque o poço da vida
Já nos dá vozes de mais
Esse boneco não fala
Há outra fala por trás

— Não zombe assim do rapaz
Pois isso ele já entende
Mesmo o boneco falando
A voz não o surpreende
O ventríloquo é um boneco
Que outro boneco suspende

— Quando essa luz se acende
A luz da sabedoria
De ver além do que é visto
Ciente da fantasia
A lua ultrapassa a noite
E o sol subjuga o dia

— Você usa a poesia
Para ilustrar a dureza
De despir a ignorância
E promover a surpresa
De ofuscar a mentira
Com a luz da verdade acesa.


3. No setor de carnes, o açougueiro se acidenta cortando o braço: Lucas percebe que a carne e o sangue do homem são iguais ao que está exposto à venda. A visão do homem sangrando, de sua carne exposta e das carnes sobre o balcão, também sangrando, lhe causam um mal-estar.

Do bumba-meu-boi eu quero o boi
Morto. Vida pr’irmãos mortos, cem
Vidas embevecidas de dor, esfomeadas
Ao depois, ao durante e mesm’ao antes.
Arlequins, Mateus e Catirinas
Aos cantos de comida em desatino
Do cavalo marinho no quintal,
Numa festa de barro, lama e lodo,
Aos gemidos de cinco violados
Degustaram Bandeira+Cabral.


4. Atordoado, Lucas sai do mercado :reencontra Zuzu que segue com um bando de meninos atrás de um palhaço gritando: — Hoje tem espetáculo? Incorpora-se ao cortejo rindo, guardando os pedaços daquela feira para suas bifurcações futuras.


Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

A mulher que amo

A mulher que amo é negra. Tem pele negra e me visita à noite: minha Lilith particular, minha fada madrinha e ela mesma a própria Cinderela, cujo sapato de cristal do tempo rolou pela escadaria dos séculos e ficou em minha mão de milenar sentinela, à espera da completude.

A mulher que amo tem um corpo negro. Tem seios gostosos que me enchem de água o palato, irrigando minha língua de saudade e meus lábios de misterioso desejo. É ela quem oferta úberes macios às minhas mãos. Um ventre para repousar minha nuca, um colo para satisfazer meu cansaço.

A mulher que amo tem um rosto forte. Tem olhos que vêem. Mais que vêem, falam; mais que falam, cantam; mais que cantam, choram; mais que choram: portas para um coração bondoso, com rosas vermelhas para que o meu, num instante de sonho, seja surpreendido com carinho extremo e beleza além.

A mulher que amo me diz cada coisa que qualquer de fora pensaria até que o Universo ruiria e a Via Láctea, rua espiralada, engoliria o Sol, por conseguinte a Terra, e a trombada cósmica nunca existiria. Ela tem coragem de se expressar. Não se omite e fala, e grita se preciso pelo seu espaço.

A mulher que eu amo carrega sobre si armas de guerreira que não foge ao embate, mesmo com receios de se espatifar contra a dor mais cruel. Quantas mil batalhas ela enfrentou, quantos inimigos foram derrotados e quantos não fugiram ao sentir a ira da mulher mais forte que eu já encontrei.

A mulher que eu amo me estende a mão. A mulher que eu amo se estende viva sobre a minha vida e se alastra vívida sobre o meu viver. Derrama seus óleos pela minha boca. Inebria minha alma com doces palavras. Entorpece meu corpo com carinhos caros e com beijos certeiros me põe para dormir.

A mulher que eu amo tem um gênio forte. Não deixa que eu dite minhas regras tolas e nem quer que as dela sejam a cartilha mais original. Não se entrega ao tronco nem à submissão. Como luta e briga e se engalfinha pelo que acredita e como está aberta a ouvir meus grilos e me entender.

Não tenho qualquer receio de falar mais alto: — A mulher que eu amo me dá um prazer inteiro quando me abre as pernas e me oferta o céu e todas as portas do paraíso carnal. A mulher que amo é um vendaval e seu sexo pulsa entre os lábios meus.

A mulher que amo e amo tanto faz-me acreditar que escrever é um ato santo. Ela é meu salaminho, meu polenguinho, minha pinha. A mulher que amo me alça à categoria de príncipe encantado e eu a promovo de coca-cola simples para chá mate light. Em que bocas encontrarei a mulher que amo?

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Corpos novos, velhas prisões

Em fins do século XVIII começou-se a produção de obras que fugiam ao modelo realista. Ora, essas obras tiveram inspiração no modelo gótico, medieval, e muitas foram consideradas inferiores ou primitivas. O modelo iluminado não comportava trevas, escuridão. Em 1818, porém, surge uma novela capaz de mudar esse paradigma.

A história do cientista que em sua obstinação buscava resposta para a energia vital e o reavivamento de um cadáver é o argumento que fez de Frankenstein, de Mary Shelley, uma das mais conhecidas obras do mundo.

O cientista Victor Frankenstein é um jovem a quem a vida fascina. Criar a vida seria para ele a suprema realização. Seus conhecimentos de Anatomia e Física levam-no a imaginar-se capaz de produzir a centelha primordial.

Frankenstein rouba cadáveres e com eles produz seus experimentos. Ele não quer tão somente conhecer o corpo humano. Seu cérebro busca mais. Quer o que hoje está se tentando produzir, a experiência vital, a inseminação in vitro, a clonagem. Sem a tecnologia, nem os avanços científicos de hoje, acredita que a eletricidade, num crédito desesperado aos avanços e descobertas tecnológicas da época, ofertaria a vida.

A história contemporânea e a sociedade moderna abrigam descendentes do monstro Frankenstein. Durante a Segunda Guerra o apelo nazista voltava-se para a criação da raça perfeita. Experimentos criaram aberrações. Milhares de deformados, outros milhares de mortos. Membros, órgãos e vísceras transportados em experiências fracassadas. A maior produção de intervenções corporais da história humana, para, como na caso da literatura, apenas desvelar a loucura de certas mentes.

Transplantes e implantes para a regeneração ou estética do corpo são realizados nos porões de clínicas, como naquele mesmo ambiente medieval em que magos e médicos produziam seus estudos. Um implante de mão num paciente neo-zeolandês, um indecifrável Michel Jackson, os silicones em corpos redondos ou de relevo irregular, bocas e narizes diminuídos ou aumentados, operações de retiradas de órgãos genitais foram fortalecidos aparentadamente à busca desesperada do Barão de Frankenstein.

A modernidade alinha-se com o gótico. Corpos perfurados por metal, piercings e implantes de próteses são herança do homem na busca do invólucro, do simulacro para sua identidade. Uma mudança cosmética, de apetrechos. Se a novela de Mary Shelley causou espanto, hoje ela convive anônima, meio a corpos reavivados por auto-intervenções.

A construção do corpo tem sido a febre social de muitos tempos. Faraós dormem em suas tumbas preparados para o retorno final. Homens são congelados, na crença de que um dia todos os males tenham cura. A Internet causa espanto com parceiros que se conhecem apenas por uma foto ou outra, que não são exatamente as suas, mas a idealização de si mesmo.

Enquanto isso, Dolly, a nossa ovelha clonada, foi sacrificada. O primeiro ser, fruto de clonagem, envelheceu precocemente, vulnerável e pálida, num recanto, sem pompa ou circunstância.

Há duas forças inexpugnáveis no Universo: o tempo e a vida. Um fez pacto com o outro e a matéria submete-se a ambos. Resta a máxima de Miguel de Valverde, mais uma vez: a vida é ávida. A vida mente, avidamente.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Ocaso e escuridão: impactos de aríete na epiderme do dia

Poderia utilizar como epígrafe para esse bate-papo, como indicador apenas ilustrativo, ou como parte essencial do contexto, ou apenas como visão, produto do surto e do estado de nervos, duas lembranças tênues e vagas, ecos de leituras remotas que empreendi por alguma obrigação acadêmica. A primeira diz respeito ao Dilema do Jacaré, citado talvez por Zenão de Aléia ou Sêneca ou Tirésias:

1. Conta-se que um magistrado teve sua única filha raptada por um jacaré. Procurando-o, ouviu do raptor a seguinte proposta: — Para ter tua filha de volta terás que me dizer acertadamente o que farei com ela: se vou devorá-la ou se vou devolvê-la. Se errares já sabeis o seu destino.

A segunda citada por Tom Zé, nunca por Roberto Carlos ou Julio Iglesias

2. Conta-se que Euclides da Cunha chegando a Salvador para a cobertura da Guerra dos Canudos deparou-se com o seguinte quadro: uma criança, detida nos arredores de Remanso, estava sendo interrogada por um delegado de polícia sobre a organização do povo de Canudos e a ideologia do Conselheiro, ao que pergunta ou pergunta-se: —...mas Deus está de que lado?

Sejam essas duas reminiscências os nossos arautos: o dilema entre o acerto e o erro. Pois no caso do jacaré tanto o acerto como o erro levarão à dor. Instaura-se o mal-estar, suspende-se o tempo, aumenta-se o incômodo gerado por aquele velho sentimento de impotência, regente da orquestra das lágrimas. Esse imbróglio interior não tem, ou tem, como causa o mundo conhecido. Mesmo se sabendo que um jacaré jamais raptará alguém, o pacto para um caminho ideal de reflexão, sobre essa hipotética encruzilhada, é costurado entre nós desta sala, extensão do Universo, e o texto daquela ante-sala, extensão da Mente. É típico dos gregos a formulação do enigma, o edificar a esfinge, o especular sobre o destino. E essa esfinge, o jacaré, e esse Édipo avesso, o magistrado, se embrulham por duas figuras apenas citadas e que não podem ser vistas: a filha raptada e o ato final do raptor. O magistrado diante do despenhadeiro do erro, pois se acertar, perde, e se errar, perde também, espreme o seu peito contra o desconhecido, que ele não vê, no âmago do jacaré, transformando este mesmo jacaré em seu pesadelo acordado, sem apocalipse, sem revelação.

Pensemos agora na criança interrogada, perdendo a inocência ao especular sobre o desconhecido partido tomado por Deus, meio a desgraça de seu povo. O delegado, parente daquele jacaré, do dilema, é uma intrusão em sua simples meta de seguir a construção de um vilarejo pobre e miserável sob a pregação da austeridade e do sofrimento como ferramentas para a divinização. Ela, a criança, é o próprio seqüestrado, cuja formulação do dilema colocará por terra o seu seqüestrador que, se responder sobre qual dos lados repousa a benção de Deus, ferirá fatalmente toda a tradição cristã, desfigurando assim a empreitada das forças federais e fundamentando o sentimento messiânico do seqüestrado.

Gostaríamos, a muito custo, mas não ilegitimamente, de unificar os dois dilemas numa proposição que una a tristeza por não se poder entender aquilo que se vê, o medo por se entender aquilo que se vê e a angústia por não se poder nem ver nem entender. Minha argonave partiu da Grécia e aportou na fundação do Brasil, na Bahia do Monte Pascoal, no Nordeste insular e paradoxal. Senão, vejamos.

A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina. Temos falado até agora no par semiológico ver/não ver, luz/trevas. Antes, porém, do avanço, relato uma conversa partilhada com o professor Eduardo Portella quando afirmava ele que o povo dos cafundós (sim, lá também existem os cafundós!) da Europa do Leste, dos interiores tchecos, sérvios, húngaros, bósnios e além, sofrem de uma predisposição para a angústia. Tentei inserir uma certa angústia do homem nordestino, mas a conversa não evoluiu. Fiquei inseminado pelo tema e saí perseguindo meus murmúrios. Deságua aqui nesta Baía, no coração do Leblon, a minha inquietação. Situações circunstanciais de opressão pelo meio ao que parece podem fomentar uma certa ponta de angústia. Pensei, assim, na aridez da vida dos miseráveis de Canudos que não sabiam, ou não conheciam, ou não viam motivo para tanta guerra. Alastrei meu olhar para os desdentados dos vales profundos, viventes-plantas cujas unhas dos pés nunca arranharam um pedaço de pão quente saído do forno ainda há pouco. Vi alguns migrantes caídos na Cinelândia. Abismando-me com essas paisagens distantes e essas outras presentes, calei. Ver dói, não ver, idem. Isso que senti aportou em Gonzaga e Jackson.

A música mais conhecida de Gonzaga é Asa Branca. Qualquer funkeiro ou rapper, rockeiro ou erudito conhece seus acordes simples, sua letra grave e sua estrutura quadrada. Mas olhemos para a letra com mais demora. Deixemo-la irrigar-nos.

Asa Branca

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Até mesmo o asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chores não, viu
Que eu voltarei, viu meu coração.

Agora vejamos essa outra canção:

Assum preto

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor .

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vezes a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Assum Preto, o meu cantá
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meu

Muito bem, as duas são de Gonzaga e Humberto Teixeira. Pensemos em nossos dilemas epigráficos: sofrer por ver e sofrer por não ver, em suas leituras livres. E, agora, volvamos um olhar sobre o título atribuído a esse roteiro: ocaso e escuridão. Se em Asa Branca o ato de ver causa o desespero, porque não dizer a angústia, por poder observar que tudo está sendo devorado e que o dilema se instaura (partir ou morrer), em Assum Preto dá-se o contrário: não ver proporcionará o cantar mais lindo. A reflexão vai bem mais além quando se prefere trocar a luz dos olhos pelas grades da prisão. Agora intelectualizemos o par opositivo: diante da luz, a angústia, longe da luz, o belo. Parece-me o paradoxo ditado e vivido por Homero, em si próprio, fundando toda a literatura universal, inclusive a metamorfose coleóptera de Gregor Samsa. Agora pairemos sobre esta outra canção cantada por Jackson:

Lamento cego

Irmão, que está me escutando
Preste bem atenção.
Já vi um cego contando
Sua história num rojão.

Quem vê a luz deste mundo
Não sabe o que é sofrer.
Que sofrimento profundo
Querer ver e não poder.

Irmão, mais triste eu fico
Com tanta ingratidão
Dois gravetos de angico
Me tiraram a visão.

Por isso nós tamo aqui
Eu e minha viola.
Por Jesus vamos pedir
Meu irmão, me dê uma esmola

Que Deus recompense então
A sua caridade
E lhe dê sempre a visão
Saúde e felicidade.

É uma composição de Jackson e Nivaldo Lima. Vejamos como se instaura a nossa bifurcação. Vimos que em Asa Branca ver é tomar consciência das próprias catástrofes e ser obrigado a optar sobre um dilema, enquanto em Assum Preto, não ver é proporcionar a manifestação do Belo. Aqui neste lamento há o maldizer por não poder enxergar ou como diz a letra “que sofrimento profundo querer ver e não poder.” Mas, afinal, que sofrimento é esse? Qual o seu nome? Onde se instala? Nossa sociedade globalizada é de alma visual. A visão sobrepõe-se ao tato e ao metafísico. O fim do pensar. A velocidade. A banalização da sexo, da violência e da literatura são ferramentas poderosas no processo de massificação e homogeneização cultural. As nossas empresas de telefonia celular sabem disso. Suas máquinas não mais só falam, elas fotografam, elas transmitem ao vivo. O cego de Jackson sofre por miseravelmente não poder ver, não sentir-se inserido nas cores. Roga a esmola e em contrapartida oferece como paga a recompensa de Deus com a visão eterna, com a saúde e com a felicidade. Contraditoriamente, já que estamos dialogando sobre dilemas, o fim das promessas do progresso e do bem-estar oferecido pela tecnologia e pela técnica, as benesses do paraíso, o leite e o mel, esses dons assinados pelo mesmo Deus, não nos presenteiam mais com saúde e felicidade. Veja-se o colapso da saúde nos países periféricos e a escassez do emprego em todo o mundo. O dilema de Hamlet passaria de ser ou não ser a ver ou não ver. A angústia da Europa Oriental não é maior lá ou cá. Não há predisposição deste ou daquele povo. Se a algum tempo a Ilustração nos ofereceu a Luz, a pós-modernidade nos apresenta a conta e a Light, extensão do Mundo-Capital-Consumo, foi privatizada.

Ainda nos resta o diálogo dos dois cegos citados por Leonardo Mota em seu Cantadores. Diz o primeiro:

Tenham pena deste cego,
Filhos da Virge Maria;
Eu sou cego de nascença,
Nunca vi a luz do dia!

Ao que o outro respondeu:

Quem nasceu cego da vista
E dela não se lucrou,
Não sente tanto ser cego
Como quem viu e cegou!

Um embate sobre a maior miséria. Agora ouçamos: perguntei a um desses policiais que participaram do massacre do Carandiru qual jacaré seqüestrara minha lâmpada de Aladim. Veio-me a resposta como uma bala: surda, certeira e devastadora extraída do poema de Drummond:

Nesse país é proibido sonhar.

Findo senhores com uma canção do Cego Aderaldo, um parvo cuja angústia foi ver demais:

As três lágrimas

Eu ainda era pequeno
mas me lembro bem
de ver minha pobre Mãe
em negra viuvez.
Meu pai jazia morto
Estendido em um caixão
E eu chorei então
Pela primeira vez!

E a pobre minha Mãe
Daquilo estremeceu:
De uma moléstia forte
A minha mãe morreu.
Fiquei coberto em luto
E tudo se desfez
E eu chorei então
Pela segunda vez.

Então, o Deus da Glória,
O mais sublime artista,
Decretou lá do Céu,
Perdi a minha vista.
Fiquei na escuridão,
Ceguei com rapidez
E eu chorei então
Pela terceira vez.

Meus prantos se enxugaram.
Das lágrimas que corriam
Chegou-me a poesia
E eu me consolei.
Sem pai, sem mãe, sem vista,
Meus olhos se apagaram;
Tristonhos se fecharam
E eu nunca mais chorei.

A busca incessante

Estive buscando a construção de um blog. Alguns elementos me moveram nessa direção. Acredito ganhar um pouco de disciplina com isso. Não só. Talvez desenvolva um pouco os meandros da escrita, sabendo, porém, ser filho legítimo e primevo da oralidade. Não vou discutir essas distâncias agora, introduzirei o problema noutros posts. Por enquanto esta é a minha inscrição. Ainda mais hoje, 26 de setembro, primavera aqui no hemisfério sul, dia do segundo aniversário de Rosa Luiza, minha filha.