sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Fim de ano

Sob a luz dos olhares estrangeiros
O menino Aderaldo se esquiva
A pupila em seu olho é diamante
Mesmo opaca se vê que está ativa
Todo o corpo é o olho que, brilhante,
Ilumina as veredas, chama viva.

Sua voz é cabeça de aríete
Represada que já não se contém
Os dormentes não sustentam seu trilho
Nem suportam as rodas de seu trem
Se a sua pupila excede em brilho
Não se sabe a origem desse bem.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

A lembrança ou O Natal é possível?

Era noite de Natal e eu, exilado poeta faminto, empreendi minha pequena jornada. Não havia qualquer lugar específico para chegar. Eu procurava tão somente um onde, fosse marquise, degrau ou porta para recostar a cabeça e descansar daqueles dias fatigantes, desesperados, de solidão e medo. Naquela noite eu não tinha mais casa. Minha noite primeira na rua, meu batismo sob as estrelas.

A Cidade Maravilhosa havia me presenteado com coisas muito boas. Trabalho e guarida. Abrira seus imensos braços e abraços. Agora, entretanto, tudo se perdera, fluira, escorrera por entre meus inábeis dedos e fugira como um crocodilo amarelo pela imensidão subterrânea de seus esgotos.

Eu caminhava olhando para os lados e para trás, nunca para a frente. Ruas iluminadas, sons pelos bares, pessoas em suas casas sorrindo e se abraçando, envolvidas numa aura tênue, embalada pela emoção de uma cerveja ou um gole de espumante. Percebi olhares vivos, corpos bailando, carregados por invisíveis guindastes de ânimo. Algum namorado, encostado num carro, beijava sua amada com ternura e crianças disputavam doces em correria de inocente vida.

Um movimento acontecia comigo. Aquele caminho me conduzia de volta para dentro de mim. Observava grupos de mendigos, conversando alegres, bebendo aguardente, fumando um cigarro, partilhando sobras de algum restaurante e uma fogueira. Repartiam em latas sua comida. Bebiam do mesmo copo. Ali, na roda comensal, talvez não pensassem em suas vidas individuais, mas na vida de todos, no destino comum de todos os homens.

Resolvi ir pela areia da praia e já estava quase cansado. Não encontrara um lugar. Todos os bancos de praça estavam ocupados. A praia era um bom lugar. Aqui e acolá grupos estavam reunidos em círculo, cantando. Casais sentados lado a lado trocavam olhares e carícias. Um homem com um cão. Uma senhora com crianças e o profundo mar testemunhando a vida.

Dentro de mim fui encontrando pessoas desaparecidas. A Rua do Bode estava ali reunida em uma enorme mesa de Natal. Participei daquela primeira e única ceia interior. Era muita gente e cada um havia levado sua contribuição. Uma enorme árvore de Natal, com presentes depositados em seus pés, piscava como um imenso olho mágico. Meu primeiro dia de encontro com os pesados grilhões da dor. O mar invadiu-me os olhos. Aquele salgado sabor. Salgado saber.

Ora, ora! O amor não foi inventado por sacerdotes ou xamãs em seus transes, fraudulentos ou não. Não é criação literária reunida em alguma antologia de Natal. Moisés não nos trouxe o amor, nem Buda o revelou. Sim, porque o amor não é criação, criatura. O amor é o criador. O amor é o destino comum dos homens. É uma jornada para a cama macia. É o imutável olhar da vida.

Cada passo trocado naquela noite foi uma experiência esotérica, uma vivência exotérica, a dialética intersecção dentro/fora. Todos os Natais reúnem-se assim dentro de mim. A noite de Natal, porque o Natal é luz nas trevas. O amor é aquela estrela de Belém apontando o norte de cada um. Meu norte é além. Meu norte e meu Natal.
Reúnem-se em meu cenáculo interior todos os meus antepassados: mamãe, meus sete irmãos adormecidos, meu irmão vivo. Ali estão amigos que há muito não vejo, nem sei seus paradeiros. Ali estão inimigos fantasiosos e fantásticos. Cada pedra-de-fogo da antiga Rua do Bode e cada paralelepídedo que vi sendo colocado. Vejo ali minha primeira namorada. Meu primeiro amigo de verdade, ali. As paisagens e as aventuras. O Rio do Canto, o Engenho de Seu Juju, o Rio Pinturas e a Barragem do Pau-Ferro.

Ali, naquele canto, está o Cine Educativo Municipal e meu primeiro filme abobalhado: Esse pato vale ouro. Vejo Júlio Verne sentado, pensativo. Pedro Américo e Padre Rui, dupla inseparável. O amor é assim como uma dupla inseparável: Cristo e o Natal. O amor é cada migalha lembrada. A soma geral e a prova dos nove de todos os meus erros. O amor é a avalanche provocada pelos meus acertos. A tempestade de minhas buscas.

Lá longe, onde o amor foi aprisionado e não saiu às ruas, há muita dor. Essa verdade me faz acreditar que as verdades às vezes levam aos erros. Minha jornada prossegue. Prossegue comigo. Com minhas encruzilhadas. O Natal é a grande encruzilhada, a bifurcação, o dilema. Para um lado e para o outro: o que fazer? O amor é o Natal, a decisão, a escolha.

Escolhi sentar-me frente ao mar, numa pequena gruta. O amor é essa gruta frente ao grande mar. O Natal, aquele Natal comigo mendicante, é um mar. Espumas das ondas quebrando pertinho, o barulhinho insondável dos seres dialogantes dentro do mar. Dentro de nós, o marulhar das vozes de nossas convicções. O imutável mar. O profundíssimo mar do amor e suas desconfianças e seus ciúmes. O amor não é o monstro do mar.

O amor, como um bom escoteiro, marcou o caminho, iluminou a noite, indicou-me as boas trilhas, alertou-me para os riscos do atalho e trouxe-me a esta gruta. Aqui do lado, enquanto eu tentava descansar, uma senhora sofria toda a noite com dores de parto. Seu homem, um senhor não muito idoso, mas marcado pelo tempo de seus suores, foi sempre prestativo e carinhoso. Ainda a pouco ouvi um choro manso de recém-nascido. Como pode alguém ser tão irresponsável e dar à luz aqui entre esses montes de lixo?

Talvez seja madrugada. Olho para o horizonte e Vênus brilha sobre nossas cabeças. Já ouvi alguma movimentação e algumas pessoas, quem sabe importunadas pelo insistente choro daquele rebento, tenham vindo para reclamar suas queixas de não poderem dormir tranquilas. Esse moleque parece que mexeu com tudo ao redor. O milagre da vida, não é? O galo cantou um canto mais forte, mais gutural e arrastado. Uma vaca e suas crias mugiram em uníssono. Senti o cheiro do café.

Não posso me envolver com essa história. São estranhos, embora mendigos como agora eu sou. Mas há uma força me puxando, ou me jogando, para dar uma olhada naquele outro lá, que nem sabe que nasceu.

Meu Deus, não se parece nada com o pai e, da mãe, traz apenas a cor. Qual o futuro dessa criança? Não pode ser lá muito bom. Mas, fazer o quê? O amor é como esse menino: talvez não tenha origem, nem pedigree, seus pais terrenos não lhes fazem herdar qualquer traço genético, e por isso mesmo, inquieta os vizinhos e faz pensar.
Mas, de verdade, o que é o Natal? Será o Natal o tempo das nossas dúvidas? O covil dos nossos medos? A caverna de nossas trevas?
Ou será o Natal uma margem suspensa para todas as respostas? A mansão espetacular de nossa coragem? O acesso universal de nossas luzes?

Como o Natal, seremos nós anuais e nos renovamos e morremos e ressuscitamos? Nasceremos com Cristo ou a estrebaria dos nossos desesperos nos bastam?

E esses três Reis Magos, porque insistem em nos visitar? Presentes: insenso para purificar e perfumar, mas que, como toda a fumaça, se dissipa e exige mais fogo, mais incenso, vigília? Mirra, o que seria tal erva, se é mesmo erva e não a encontramos pelos mercados, na Pérsia ou em Caruaru? O ouro, para que queremos o ouro? Para comprar? Para guardar? Para adorar?

Esses animais teimosos continuam a nos lamber? Nossos pais velarão por nós? Afinal, nascemos para ser recenseados? O Cristo, aquele pobre Cristo, nasceu durante um recenseamento da população? E nós, a que população pertencemos neste Natal? Aos excluídos, sejam sem-terra, sem-teto, sem-sonho, sem-vergonha, sem-amor, sem-vida, cem condenados... ?

Esta janela não me parece segura. Por ela testemunhamos a morte e as muralhas do Natal. O Natal, para alguns, por trás dos muros, paredes e pisos dos shoppings. O Natal para aqueles que observam o outdoor da mortadela como substituta do peru e não poderão comprá-la.

O Natal é a solidão dos muros dessas imensas carceragens e casas de detenção? O Natal é o Parque do Flamengo, cada ponte, cada bueiro, cada pé-de-escada, barraco? O Natal será formado pelos fogos e pelas nozes desfilando em carros alegóricos e lágrimas na contra-mão da riqueza?

Literatura de Cordel: um ícone nordestino

Quando Euclides da Cunha partiu para fazer a cobertura jornalística do episódio de Canudos não esperava encontrar uma criança de 13 anos presa e interrogada se estava contra a República recém-proclamada. Tampouco esperava escutar a resposta seca e ingênua dessa mesma criança, em forma interrogativa: — ... Mas Deus está de que lado?

Canudos, como está n"Os Sertões", abriu os olhos do Brasil. A República vomita sobre os seguidores do Conselheiro centenas de fardados e seus canhões, promove um massacre, estabelece o terror, o Apocalipse. Era como se um povoado erguido do barro, vermelho como o resto do sertão, fosse a última bastilha a ser vencida para a República poder reinar em paz. E, como no antigo império romano, patrocinou-se a PAX.

O messiânico Antônio Conselheiro passou para a posteridade como um lunático. Uma obnubilada besta do analfabeto sertão nordestino. Uma xerografia tosca de Moisés, o libertador do povo hebreu. Um ogro voraz, um dragão lançando chamas e enxofre sobre o futuro glorioso da República brasileira. As insígnias, a algum custo, diga-se, sepultaram os “insanos” numa cratera de insanidade.

O poeta Ivanildo Vila Nova, da estirpe dos trovadores medievais, filho direto de Homero, segundo a genealogia olímpica, escreve e canta, ao som de sua “lira”, esquisita viola nordestina de dez cordas, que “a história fará sua homenagem à figura de Antônio Conselheiro.”

O resgate da figura do Conselheiro, sua metamorfose de marginal em herói, foi consolidada pela literatura. A partir das páginas de Euclides a sua trajetória foi revista e a história recontada. Como um marco divisório estabeleceram-se duas verdades: uma, anterior aos escritos euclidianos, representando uma comunidade rebelde e louca; e outra, posterior, mostrando apenas mais um povoado utópico, fruto das desigualdades sócio-político-econômicas do Nordeste brasileiro.

Canudos e seus personagens escapolem da História e põem os pés no mítico. O fato histórico recebe a aderência mítica e se reproduz em diversas formas poéticas por todo o Brasil. Transforma-se em um exemplo de formação épica. Um ícone de formação da nação Nordestina. Mas não é só.

Assim como o Conselheiro, outros personagens nordestinos habitaram essa seara. O Pe. Cícero Romão Batista, no Juazeiro do Norte, passou de simples cônego sertanejo a poderoso e inexpugnável ícone mítico. Fundador da República do Juazeiro do Norte, declarou guerra às forças militares do Ceará e exigiu libertação política, cingindo como capitão a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Essa elevação de Pe. Cícero é fruto do desejo do povo nordestino de ter entre si, em seu meio, um salvador, um messias que o guie por entre os becos da fome rumo à terra onde jorre leite e mel. A história mostra que essa terra, o Nordeste, é uma mina desses heróis. Todos eles saídos do real, com seus poderes limitados, para povoar o imaginário dos super-poderes. Conselheiro e Pe. Cícero são apenas dois exemplos dessa construção, que arrebatados de sua condição humana transformam-se em ícaros sertanejos na boca e na escrita dos bardos e vates.

Para a representação desses heróis o nordestino criou uma forma literária particular, a que a academia cunhou de Literatura de Cordel, como sendo apenas um braço da Literatura Popular em Verso.

Tenho defendido o enquadramento definitivo dessa Literatura na formação da Literatura Brasileira. Muito embora seja vista como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, em nenhum outro país do mundo se observa fenômeno parecido. Popularizada em papel jornal em folhetos de oito páginas se viu difundida e aos poucos penetrou nas casas de intelectuais e artistas que viram nela uma fonte de inesgotável inspiração. A Literatura de Cordel é a forma pela qual os nordestinos resolveram imortalizar seus heróis para vencer sua frágil condição humana.

"Forrobodó" ou "for all", de onde vem a palavra forró?

A banda paraibana Cabruêra desceu ao sul e instalou-se no Rio de Janeiro em setembro de 2001. Lá, fundou a Cabrahouse, primeiro em Copacabana, depois em Santa Teresa, tradicional bairro de artistas. Ao chegar, debutou na TVE e lançou disco no palco da resistência cultural carioca, o Teatro Rival, e assim seguiu arrebanhando um cordão de adoradores. Zé Guilherme, o Munganzé, um dos melhores percussionistas do Brasil, um dos pilares da Cabruêra, vindo aqui em casa, incitou-me a explicar a origem do termo “forró” para uma oficina de percussão no Festival de Inverno de São João del Rey, em Minas Gerais, onde a banda tocaria.

Pois bem. Discutíamos a gênese da palavra a partir de duas explicações para o que se passou a chamar de forró. A primeira está ligada à construção da malha ferroviária no interior de Pernambuco por engenheiros ingleses que, em suas horas de folga, patrocinavam pequenas rodas nas quais a liberdade, municiada pelo consumo de álcool, pontuou a descontração e a dança. Essas rodas eram “for all”, para todos, no idioma nativo dos ingleses. Daí a pronúncia aberta “forró”. Sem registro que legitime tal origem, fica-se no âmbito da lenda.

A segunda é apresentada pelo folclorista Rodrigues de Carvalho, em seu Cancioneiro do Norte de 1903, aponta uma associação entre forró e forrobodó, festa popular das pontas de rua, baile popular aberto para toda a população pobre. Câmara Cascudo registra a mesma origem fazendo um levantamento da aparição do termo desde 1833, para encontrar um variante datada de 1952, num semanário chamado A Lanceta, sem indicação de local. O termo é forrobodança, uma espécie de dança chula popular.

Acredito que essas duas teses sejam insuficientes, mesmo porque fica difícil determinar data para surgimento de qualquer palavra. Respeitando a pesquisa, talento e autoridade dos dois folcloristas, lanço uma terceira via. Quero aproximar o termo português forró, ao termo árabe alforria, liberdade dada aos escravos. Quando um destes era alforriado a palavra “fôrro” servia-lhe de epíteto, recebendo, inclusive um par de sapatos, se para dançar, não sabemos. Elomar, em sua cantiga O Violeiro, canta “Deus fez os home e os bicho tudo fôrro...”. De forria para fôrro, de fôrro para forró, celebração da liberdade, da quebra do jugo e dos grilhões. Não é isso que o forró faz?

Os testemunhos populares na diferenciação entre as festas de São João, festa popular, marca indelével das tradições nordestinas, e Natal, tradição européia, servem de esteio para minha tese. Enquanto a festa de Natal é descrita como uma festa formal, o São João prega a liberdade, é festa livre e comunitária, não requer roupa nova, nem champanhe para comemorar. E todas as classes e raças são chamadas ao arrasta-pé, criando um valor fundamental para a miscigenação de raças e culturas, no dizer de Darcy Ribeiro, e imprescindível para a construção do humanismo, segundo Jorge Amado.

Gonzaga e Jackson

O que nos interessa, também, é a divulgação desse ritmo propagada pelo pioneiro Luiz Gonzaga, primeiro nordestino a assumir compromisso com esse suposto novo estilo musical, depois de fazer o caminho do sul. Falar de Gonzaga é repetir-se, sempre. Sua história e sua vida estão na boca do povo e dos artistas, transformado em ícone institucional na etno-musicalidade brasileira. Muito embora construindo uma realidade folclórica do Nordeste, com seus vaqueiros e cangaceiros, plantou a semente da música popular regional nordestina em todo o Brasil. Asa Branca transformando-se na bandeira, estandarte dessa visão.

Gonzaga sofre, entretanto, críticas oriundas de um outro mito: Jackson do Pandeiro. O ritmista paraibano apregoava que o baião originou-se do coco e que o feito do Rei do Baião não passava de um novo invólucro para um velho ritmo. Zé Guilherme me diz que o jornalista Rômulo Azevêdo, de Campina Grande, numa tentativa de conciliação entre os pilares formadores do forró, um paraibano e o outro pernambucano, defende o império imaginário de Parabuco, um híbrido situado entre Caruaru, a capital do forró, e Campina Grande, terra do maior São João do Mundo. Essa, talvez seja a melhor opção, o lúdico, a criatividade, a liberdade, a alforria

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

O decálogo

Enquanto o CHU 3622 corta a Avenida Brasil, ao lado dessa mulher, sinto os arrepios provocados por cada palavra sua. O frio, amigo desses abalos, é fortalecido pela temperatura exterior. A tensão da noite mal atravessada me acompanha e meus olhos temem olhar para o lado. Os confusos pensamentos me enervam. Consigo retirar, porém, ileso, o meu decálogo, do meio destes escombros em que se transforma, a cada discussão, meu universo. Começo a lê-lo:


1. Acredito no amor. Este amor que não é apenas belo, forte e tudo suporta. Acredito no amor onde (o amor é um espaço) o lado humano pobre vem à tona, na revelação do vil e do hediondo e na superação deles todos. A minha banda podre me acompanha onde quer que eu vá. O meu amor tem que revelá-la à minha amada. Acredito, também, no amor débil, abalado e temeroso, fruto das histórias e do histórico de cada um. E cada vez mais tendo a acreditar que, assim como os ombros, o amor não suporta tudo.

2. Acredito no amor. Este amor que não se mede pelo tamanho dos presentes que recebo ou que oferto. Cuja métrica vai além do que vejo e do que sinto. O amor que briga, mas não desaquece, que entorna o caldo sem quebrar a tijela, que faz cair o pão, mas proteje a margarina, que faz dormir separado e não desarruma a cama, que pode até cancelar um toque, mas conserva o abraço.

3. Acredito no amor. Este inveterado amor das indecências. O amor dos impropérios e das loucuras. O amor que espera a amada com uma pedra na mão para arremessar contra o pára-brisa. O amor que diz transformar a vida do amado num inferno. O amor que entra numa discussão pela madrugada. O amor que fecha a casa, desliga o celular, escreve um epílogo, rasga um cartão, vai dormir no chão e ameaça ir embora.

4. Acredito no amor. Esse amor que faz o casamento. Que leva duas pessoas ao altar, ao juiz, à polícia, ao mesmo teto, embora todos digam, e a vida prove, que isso não dá certo. O amor dos enganos e dos desenganos, das ilusões e desilusões, da fé e da descrença, dos contraditórios querer e mal-querer.

5. Acredito no amor. Este amor que abdica dos cinco seguintes pontos do decálogo e oferta a lacuna para que a amada os escreva e partilhe a vida, construa a casa e pense na decoração, lave a roupa e solicite ajuda para estendê-la, faça o arroz e apregoe os males da farofinha, peça um leitinho sem estar muito quente, coma um pão com passas e zombe do passado, acredite no futuro e vá ao shopping comprar presente, queira ter filhos sem amar a gestação e o parto, vá ao dentista e procure os dentes de alho.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Nem só de pão vive o homem

1. Olho para trás, por sobre os ombros, e contemplo, ruminando, a carga desses últimos anos. Escrevi, certa vez, estar recolhendo as folhas de minha pequena árvore. Escrevo, agora, recolher os frutos da árvore, tantas e tantas vezes replantada, tantas e tantas vezes agredida e tantas e tantas vezes reavivada: a árvore dos meus princípios, a árvore da minha vida, minha Árvore de Esmeralda.

2. Embora a lágrima escorra-me pelo rosto, um sorriso me adorna a face e um brilho, a luz do meu Caminho, se posta meio às minhas nuvens, abre as pedras da inundação e eleva as águas do deserto. Mas o que quero gritar às águas turvas do Mar Vermelho? O que pretendo fazer com o embornal tão bem recomendado pelos chefes de minha missão? Quem me livrará dos dilemas e das bifurcações, dos medos e dos pesadelos, das serpentes e das bestas insanas, dos crocodilos habitantes de minha alma e dos malfadados anjos das minhas decepções?

3. Guiar-me, eu e meu povo, legião de antepassados no mundo espiritual, descendentes neste mundo visível, irmãos em espírito e carne e esta menina negra, minha razão e emoção, pelas veredas do sertão mais profundo, com seus esconderijos, cavernas, mandacarus, cacimbas envenenadas e rios caudalosos: eis minha tarefa. Um cajado, miopia, pés errantes, mãos atrevidas, boca senhora: minha balística.

4. Imprensado contra as rochas, esmagado pelas intempéries, não me afasto do meu alicerce. Não temo a dor (se preciso for), o ódio (se preciso for), o amor (se não for preciso), a precisão (certeira e precisa) da dor de nunca mais poder cantar, do ódio dos que não acreditam no amor, do amor em sua versão mais profunda.

5. Preciso da dor, sim, em meu caminho. Ela me ensina a não furar meus pés, nem os outros corações. Ensina-me a deixar-me furar os olhos e a humilhar-me face à humildade. É a dor que me faz dar saltos para a eternidade.

6. Preciso do ódio, sim, em minha estrada. Ele me ensina quão vil sentimento o é. Me ensina a edificar a Grande Muralha do meu coração, para barrar sua entrada e suas investidas. É o ódio dos homens que me faz ser Homem, que me faz Ser, que me Faz.

7. Preciso do amor. Preciso do Amor. Preciso do AMOR. Do amor da mulher e do seu afeto, do seu corpo, da sua fúria (malcriada fúria). Do Amor dos vivos (enquanto não existam mortos), dos seus sons e silêncios, da sua alteridade. Do AMOR de Deus, o misericordioso, o fiel, o compassivo, habitando as altas esferas, os misteriosos corações astrais (etéreos) e sua pitada, feita sopro, dando vida.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Lobisomem, Nosferatu

Dizem
que em noites de lua cheia
um lobo/homem
perdido
pelas
praças
e
passeios
perambula

e um uivo canto lamento
ele solta

— Chapeuzinho, não mate o bicho. Talvez ele se salve de tal maldição.

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

O rinoceronte

Reflito: — Há uma dor agora viva. Uma dor sem lugar nas estantes dos meus medos. Recebi um rinoceronte de presente e descobri que o feitiço-fechadura do meu corpo perdeu o efeito. O amor em mim é um rinoceronte. Uma fera aparentemente brava, agressiva, dura e imbatível. E foi assim: atacou-me, chifrou-me, derribou-me. Meu corpo fechado, ilusão infantil, sangrou pelos poros. A fera dentro de mim, tão viva e tão sem controle. O rinoceronte não se adaptava a seu novo habitat: um esturricante deserto, uma paisagem onde a vida a custa de muita insistência, floria tímida e rara. O meu amor/rinoceronte cavava a areia mórbida. Nada a encontrar. Poeira, muita poeira. Recebi uma fera de presente. Um presente para os meus atribulados sonhos. Meu corpo fechado era uma fraude.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

O Auto de Zé Limeira, excertos

1. Uma lembrança

Lembro de dois cantadores
Em peleja acelerada
Como dois troncos serrados
Vertendo seiva encarnada
Debulhando suas rimas
Com plainas, lixas e limas
Numa tarde ensangüentada

O mote deveras rico
Serviçal de vida inteira
Tratava de um cantador
Que se chamou Zé Limeira
E foi o mestre entre os mestres
Com versos nada rupestres
Em construções de primeira

Recordo até minha idade:
Perto da troca de dentes.
Olhando aquelas estátuas
Com vozes tão estridentes
Arremessando seus dotes
Como pesados lingotes
Nos ouvidos dos presentes

Não esqueci um só verso
Passados já tantos anos
Ofereço o testemunho
Bem antes que os desenganos
Da velhice traiçoeira
Armem sua ratoeira
Por dentro dos meus arcanos


2. A terra aos mortos

— No sertão, sob o sol da Borborema.
Numa terra regada a pedra e osso
O lagarto equilibra seu pescoço
Com a cauda apontando a parte extrema
O seu corpo parece um teorema
De incógnitas perdidas na paisagem
Há um corte suspenso nessa imagem
Vertical, fura o Jabre as nuvens raras.
Batizado nas águas do Espinharas
Zé Limeira parece uma visagem.

— Apesar de sertão o clima é frio
Frio e seco como soi acontecer
Nessa terra em que a vida quer nascer
E só nasce vencendo um desafio:
O verter-se em esforço no vazio
Que abomina, assustando a floração.
Dessa forma estrangula o seu pulmão
Com as garras astutas de um tridente
(a esmola na cuia do indigente)
Zé Limeira transforma pedra em pão

— Para o frio noturno e o sol diário
Indumentos que imitam passarinho
Variando da mescla para o linho
E alpercatas cruzando o pó calcáreo
(Uma orquídea vestida em um sudário;
uma túnica sobre os mandacarus)
Macambira cruzada com umbus,
Resistentes espécies da secura
Água/sal versus rocha/rapadura
Zé Limeira vencendo os urubus.


— Se o passado contasse verdadeiro
O olhar de quem olha saberia
Que há bilhões de instantes não havia
Um lugar sem brasão e sem letreiro
Sobre o qual há carcaças no terreiro
E Reis Magos são quadro empoeirado
Mas um Astro Cadente iluminado
Se aloja tal/qual um caranguejo
A suar no mormaço sertanejo
Zé Limeira é o Verbo Anunciado

— Pare o tempo, o vento, o mundo inteiro,
As espécies, os bichos, as vontades.
Pare o mal e parem as maldades
Pare o bem, o bom. Pare o luzeiro
Que alumia e que queima o juazeiro,
Pare a força dessas contradições,
Pare a regra geral das ilusões
E a caldeira que energiza tudo
Pois do alto do céu vem um entrudo
Zé Limeira puxando seus cordões!

....

3. A pedra aos homens

— O que faz essa pedra no caminho
Caminhando assim como nós todos?
Desatando os nós de suas veias
Numa crosta de sertanejos lodos?
Pedra crua, maciço monolito,
Escapando da vida em seus engodos?

— Uma rocha marrom alucinada
Carregando outras rochas no cascalho
Arrastando esculturas naturais
Num acorde por dentro de um chocalho
Um granito moldando-se nos espinhos
Metamorfoseado em espantalho

— O chão árido é lima espontânea
Aplainando e alisando a superfície
Extraindo os excessos e os reveses
E expulsando da pedra a imundície
Que as lembranças entalham em seu dorso
Espalhando destroços na planície

— Há um canto estranho e monocórdico
Retotono cantar a insistir
Em pregar as surpresas de outro canto
Invertendo o que a gente quer ouvir
Pois se fosse sair virá suar
E se fosse coar veio cair

— Armadilhas que a pedra já limada
Oferece aos incautos em seus trilhos
É a luz sobre a treva da mesmice
Extraindo qual prisma outros mil brilhos
Onde viesse falha era folia
Onde folhas viria, ao invés, filhos.

— As espadas nas vísceras antagônicas
Recortando lugares preciosos
Arranhões no relevo da retina
Estragando a visão dos belicosos
Que se prostam a seus pés desnorteados
Zé Limeira, flagelo de orgulhosos.

...

4. A luta aos vivos

— Cantador tem que ter tino
E o trabalhador, coragem.
Se cantoria é trabalho,
Inaugura a mestiçagem:
A poesia e o trabalho
Dentro da mesma embalagem

— Ao cantador, paramentos.
Ao trabalhador, também.
Se cantar é trabalhar
Inaugura o vai-e-vem
De vestir e despir versos
Sem precisar de ninguém

— Quando o cantar cai por dentro
Do trabalhar pra viver
E se viver já é luta
Que não se deve perder
Quem canta está trabalhando
Trabalhador passa a ser

— Do cantar para o trabalho
Migramos todos os dias
Com a viola enlaçando
O grito das agonias
E a cova estomacal
Sepultando as alegrias

— O homem-rocha vestindo
Seu canto desbravador
Traça seu mapa epopéico
Em todo lugar que for
No mais negro território
Zé Limeira planta flor

— Cuspindo barro, tijolos.
De um depósito de poeira
Que traz em sua garganta
Ardendo em brasa, caieira,
O mapa paraibano
É o mar de Zé Limeira

— Foi o caminho mostrado
norteando quem escuta
Para quem tem paladar
Sentir o gosto da fruta
Zé Limeira é o resumo:
Aos arrogantes, cicuta!

...

5. O invólucro e suas virtudes


— Anéis em todos os dedos
Esporões nos calcanhares
Dentes de ouro fincados
Nos ossos maxilares
Dois olhos de vaga-lume
Pele estirada em curtume
(Couraça medieval)
Lenço vermelho ao pescoço
Envolto nesse arcabouço
Zé Limeira é imortal

— Uns óculos sintetizando
Funções paradoxais
Fazendo o de perto, longe.
Do longe, o perto demais.
Telescópio e microscópio
Como as trompas de falópio
Servindo à fecundação
Ou como a válvula mitral
Misterioso portal
Do sangue, no coração.

— O ventre já guarnecido
O tórax, um compressor.
Mais de mil libras forçando
As cordas do cantador
Neurônios de energia
Suprindo a anestesia
Do outro desafiante
O olho castanho-escuro
Furando o imo do muro
Mesmo feito de diamante

— Descendo o suor na fronte
Olhos-d’água tão profusos
Enchendo o lago poético
De apetrechos confusos
Mas com qualquer maestria
Que o rumo da cantoria
Mudava e desarrumava
E as bocas dos que ouviam
Se fechavam, se abriam.
E a boca da noite amava

— Protagonizando a quebra
Do léxico preso ao sintático
Amalgamando prefixos
Fazendo o texto antiestático
Inflou o campo semântico
A partir do verso quântico
Moldou o novo repente
O fruto que os povos pedem
Roubou do Jardim do Éden
Zé Limeira é a Serpente!

...

6. Despedidas

Quanto aos sonhos do Homem, eu que narro,
Não me alembro de tê-los anotados.
Mas se o sonho se perde num escarro
E as lembranças sucumbem aos bocados,
Para que se alembrar do sonho alheio,
Para que martelar no aperreio?

Martelar quer dizer bater martelos.
Sextilhar, a matraca das sextilhas.
Castelar, pois seria erguer castelos.
Armadilhar, armar as armadilhas.
Zé Limeira, portanto, martelou,
Sextilhou, castelou, armadilhou!

Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.

O meu medo era o Cristo ali deitado
Com o povo a beijar seu manto santo.
Um cheiro de morte e de pecado
Sentimento de dor e de espanto.
Zé Limeira despiu a fantasia
Ao mostrar-me que tudo é heresia!

Chego ao fim do relato duvidando
Do engenho empregado à narrativa,
Pois se a pena quer pássaros voando
Toda ave quer ver a pena viva.
Fecho a tampa do poço da lembrança
E sepulto meus mortos de criança!

* * * * *

Escrevi o Auto de Zé Limeira em 2002 a pedido de Zé Guilherme, então membro da banda (ou bando) Cabruêra. Foi feita uma gravação com música de Artur Pessoa em 2004, no disco O Samba da Minha Terra. Aqui apenas alguns momentos do folheto.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

O Rio São Francisco precisa continuar batendo no meio do mar

Nunca mais eu havia escutado Luiz Gonzaga. Riacho do Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai desaguar no São Francisco e o Rio São Francisco vai bater no meio do mar, o Rio São Francisco... mas afinal de contas que rio é esse? O Velho Chico, rio de Unidade Nacional, esse mesmo que vemos aqui à nossa frente, de águas meio esverdeadas ou meio barrentas, um olho castanho-esmeraldino, atravessado por essa ponte meio pênsil, meio sólida, caminho também de unidade. Esse mesmo rio que se despenca das Gerais, da Serra da Canastra, ali onde nada mais é do que um finíssimo nylon transparente que se anovela até Três Marias e engrossa pela Bahia até Sobradinho e vem descendo até aqui.

No último dia quatro de outubro o Velho Chico completou 504 anos de descoberto. A expedição de André Gonçalves e Americo Vespucci, em 1501, avistou sua desembocadura no dia de São Francisco de Assis e, como era de praxe, batizaram-no com o nome do despojado, humilde e revolucionário do amor santo católico. Muito antes, porém, os tupis já o haviam chamado de Opará, rio-mar. Mas essa história pertence ao tempo antigo. Meio milênio depois que é feito do rio-mar? Em que perdida memória deságua ou desaguou a fortaleza e pujança do nosso Nilo? Contradizendo a oração do Seu Padrinho Santo, o Chico só se doou e nada de bom recebeu em troca.

Três meses depois da descoberta do Rio São Francisco, a mesma expedição chega ao que se pensava fosse a desembocadura de um outro rio. D ia 1º de janeiro de 1502, uma foz enorme e o batismo Rio de Janeiro. Um engano, como mais tarde se observou, pois se tratava da Baía de Guanabara. O mar adentrava a terra, formava ilhas e criava uma das mais belas e perfeitas vistas da Terra. Subindo pelo suposto rio os portugueses se sentiram encurralados. Como a paisagem fosse bonita, clima agradável, ficaram fundeados ali. Entretanto, só em 1503 a cidade a que hoje se chama de Rio de Janeiro foi fundada. A história do Rio São Francisco e da Baía de Guanabara se unem naquele passado. Será?

Todos acompanharam no dia 18 de janeiro de 2001 o maior desastre ecológico acontecido na Baía de Guanabara. Não bastasse toda a poluição lançada todos os dias por indústrias, esgotos domésticos, refinarias de petróleo, portos e lixo em quantidade, um vazamento de óleo da ordem de 1,3 milhão dizimou 50 quilômetros de águas e manguezais. Peixes e homens, plantas e moluscos ameaçados de morte. Eu vi com meus olhos que a terra nunca há de comer, os olhos de minha alma, o que a irresponsabilidade tecnológica é capaz de operar. Quasecinco anos depois nós temos a certeza de que a Baía que antes apenas agonizava, agora morreu de vez. Mas acredito em ressurreição, sou cristão.

Em minhas mãos, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um relatório do IPEA, ligado ao Ministério do Planejamento, datado de 1972, delineava um Programa de visitas de empresários ao Vale do São Francisco e dividia a bacia do rio em áreas de aproveitamento. Uma dessas áreas era denominada Petrolina-Juazeiro. Um estudo favorável com levantamentos topográfico, industrial, demográfico, tecnológico convidava empresários a investir na região e tomava o Velho Chico como alavanca propulsora de desenvolvimento. No ano anterior vozes de alarme denunciavam a morte do rio e a formação de um deserto descendo do Ceará e penetrando os sertões de Mato Grosso do Sul, com Pantanal e tudo.

Data de 1954 as primeiras advertências. Desmatamento sem reflorestamento, causando assoreamento e entupimento do leito do rio; irrigação sem planejamento, levando à evaporação da água ou seu retorno repleto de poluentes químicos dos agrotóxicos; poucas cidades ribeirinhas têm sistema de tratamento de esgoto e jogam seus dejetos in natura no rosto do humilde Chico; a construção de barragens gigantescas sem qualquer preocupação ecológica, extraindo do companheiro Chico uma potencialidade que ele não possui; fauna e flora desrespeitadas acintosamente. Pescadores prevêem o fim do Velho Chico e eu nunca mais comi surubim.

Será que só com desastres ecológicos pesados é que se tomam providências? Será mesmo que, como diz o teólogo Leonardo Boff, o ser humano é o satã da Terra? Outro dia um amigo, voltando de Propriá, Sergipe, confessava um temor: — Acho que logo, logo atravessaremos Chiquinho a pé! Não se tomarmos as devidas precauções. Campanhas de esclarecimentos, comprometimento social, zelo pelo que dá vida. Como diz Geraldinho Azevedo, em parceria com Alceu: ... vamos salvar as serras. Eu acrescento: vamos salvar o Rio. Vamos evitar que ele desemboque na Baía de Guanabara, definhado e negro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Esse Cordel, esse Lampião

Não queremos cantar um réquiem. Nem escancarar feridas. Nos moveu o desejo de descrever lacunas, pensar sobre os vácuos, tentar pontes, mesmo que pênseis. O fenômeno Lampião é visto tantas vezes isolado, apontado como produto de séculos de desmandos e injustiças no país dos nordestinos.

A colonização naquelas plagas nordestinas se deu por ciclos. O do açúcar requeria terra para os canaviais e mão de obra para tocá-los. Antes de forjar o coronelismo e seu poderio colonial, desbaratou as populações indígenas, expulsou-as rumo ao interior, ou atou-lhes grilhões aos pés, mãos e almas. Aqueles resistentes sucumbiram às doenças. Os que conseguiram sobreviver foram se miscigenando, formando nova raça.

A civilização do couro vem encontrar essa raça em segunda geração. Os costumes, todavia, permanecem ainda inalterados. Furar a caatinga necessitava de armadura, o couro serviu de matéria prima para chapéus e vestimentas. Lampião é o fruto desse cenário. Descendente do índio, selvagem que resistiu, o tapuia, unido ao couro desse que cuidava do gado, revoltado com os atropelos dos coronéis.

Se os índios tapuias foram imortalizados em relatos de cronistas franceses a serviço do governo holandês, Lampião imortalizou-se no canto daqueles que, de tão injustiçados, não acreditavam na lei do Estado, nem na justiça dos homens. A maneira como foi imortalizado é que mudou. Da prosa descritiva daqueles cronistas, agora a sextilha e o verso de sete sílabas da poesia autêntica do Nordeste.

Pensamos essa poesia, de cordel, a provável cantora de nossos antepassados pré-cabralinos. Não o foi. A saga de destruição à cultura dos nossos povos foi encharcada por imitações do modelo europeu, tanto na forma como no conteúdo. A literatura brasileira colonial foi uma extensão européia. Mesmo a chegada do Romantismo não cantou a terra como deveria. A construção poética romântica transformou nossos índios em apolos dos salões. A busca da natureza como fonte de afirmação poética foi o passo para a brasilidade, é certo. Mas o arcadismo já cantara a mesma matéria. As epopéias árcades trazem esse indígena à cena. Assim vêm Cacambo em O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. Mas é em O Guesa, de Sousândre que se esconde o verdadeiro mito cantado americano. O Brasil é incluído no mundo americano e resgata seu passado sem a mácula da cor européia. A literatura de cordel poderia, caso lhe fosse oferecida passagem, cantar esse passado. É como se a cabeça de nossa ancestralidade tivesse sido cortada com a entrada do europeu em nossa cena. Aliás, é esse o nosso mote.

Decepados nossos ancestrais, deceparam-se os nossos heróis. O destrato dedicado ao cordelismo é a mesma ação decapitadora sob a qual caíram os tapuias do Recife, Zumbi dos Palmares, Tiradentes das Gerais, Conselheiro de Canudos, Lampião do Nordeste.

Um trabalho que pense a relação entre as epopéias nacionais e a Literatura de Cordel seria o fruto dessa breve reflexão. Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, nos pegamos àquele fato no qual todas as tentativas de escrever-se uma epopéia nacional tenham sido, de certa forma, ou de forma certa, infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a Literatura de Cordel resistiu, fundou sua própria poética, consagrou poetas, penetrou em todas as camadas sociais, influenciou escritores e estudiosos, transformou-se num símbolo, ícone, índice, signo e sinal de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior, Lampião, estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira identidade. Literatura de Cordel como tal, só acontece no Brasil.

Seria ela aquela matéria épica primitiva, cantando os heróis nacionais. A produção cordeliana encontrando o seu herói épico, Lampião, não existe outro de tão forte identidade quanto ele, baixa os fundamentos de nossa epopéia. Ele sintetiza:

a) o Brasil pré-cabralino, herdeiro dos antigos Tapuias do sertão nordestino;

b) a resistência à desordem estabelecida pelas oligarquias; e

c) o mito primordial brasileiro do viver sem lei, nem Rei, nem fé.

É histórico, reconhecido pela Igreja, em sua certidão de batismo; pelo Estado, representado pela instituição da Polícia Militar; e é maravilhoso, épico-burlesco, herói-cômico, nas façanhas do outro lado da vida como vimos anteriormente. Por tudo isso reivindicamos seja a Literatura de Cordel o caminho para uma poética dos nossos heróis degolados.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Catástrofes, futuros e bem-estar

No dia 26 de dezembro de 2004 o mar não respeitou seus limites e, provocadas por um maremoto, suas ondas gigantes subiram a terra, provocando milhares de mortes. A imprensa do mundo rodou relatos e imagens da tragédia. Foram aproximadamente 300 mil mortos e outros milhares de desabrigados e desaparecidos.

Logo após o acontecido, o mundo cristão abalou-se com a declaração de algumas seitas fundamentalistas de que o sinistro seria promessa de Deus, como ocorrera antes com Sodoma e Gomorra, arrasadas por hecatombes não muito bem esclarecidas, mas insistentemente alardeadas como manifestações da fúria divina contra o pecado.

Alguns dias depois da tragédia, em 12 de janeiro de 2005, o Clube de Paris, reunião dos países mais ricos do mundo, resolveu em assembléia extraordinária, congelar e até perdoar a dívida dos países atingidos, seguindo, assim, a orientação do G7, grupo dos países mais industrializados.

Em 13 de março de 2005, notícias afirmavam que sobreviventes e familiares das vítimas do maremoto processariam judicialmente a agência do governo americano que opera o Centro de Advertências de Tsunamis no Oceano Pacífico, acusado de não empreender ações suficientes para proteger os atingidos.

Já em 15 de março de 2005, os governos da Alemanha e da Indonésia anunciaram a criação conjunta de um projeto de alerta para tsunamis no Oceano Índico. Parte dele funcionará já em outubro de 2005, contando, até lá, com um aparato de 25 sismômetros e 10 sistemas de GPS, com sensores instalados no fundo do mar.

Esse cronograma resumido pretende refletir sobre os desdobramentos, em diversos setores da sociedade mundial, de um fenômeno cuja causa foge ao controle do homem, assentando-se sobre o que Freud disse ser uma das três causas do mal-estar de nossa civilização: a arbitrariedade da Natureza submetendo o Homem. O famoso ensaio freudiano O mal-estar da civilização aponta em seu terceiro capítulo:

Já demos a resposta pela indicação das três fontes de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade.

O que pretendemos pensar nesse post é de que maneira aquele acontecimento e seu calendário de ações mundiais posteriores refletem a consistência do movimento denominado Globalização; a eficácia do progresso na criação de elementos geradores de bem-estar; e o estabelecimento, a partir do fomento de sociedades concentracionárias, de culturas hegemônicas globais.

Partiremos, pois, de um porto não muito seguro como sói tudo ser nesse séc. XXI: a futurologia. Esse termo ambíguo e escorregadio sofre olhares desconfiados por aparentemente alinhar-se com outros de não muito, ou nenhum, respaldo científico. Não se trata, entretanto, de ciência oculta ou magística. Valemo-nos de um de seus criadores, Herman Kahn:

A verdade é que “futurólogo” é uma palavra mal inventada, porque se assemelha a astrólogo e para as pessoas isso possui muito pouca seriedade. No entanto, a futurologia não é uma ciência. Em grande parte da Europa e dos Estados Unidos é considerada um movimento ideológico de esquerdas de caráter humanístico. Nós chamamos ao nosso trabalho “investigação de política pública para saber como poder melhorar as decisões”.

O trabalho desses investigadores, presume-se daí, é observar o futuro a partir do presente, projetá-lo, sem querer adivinhá-lo. Em seus escritos, os fatos científicos e inovações tecnológicas brotam de experiências e experimentos em processo, ou processados. Se não seriam tão somente ficção científica. Na década de 1970 surge, talvez, o primeiro livro de abrangência mundial sobre o assunto e seu autor, Alvin Toffler, se tornaria best-seller. O choque do futuro em sua 5ª edição brasileira anunciava mais de cinco milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. A sua primeira parte tem o sugestivo título de A morte da permanência. Trata de aspectos da sociedade os mais variados e prevê mudanças cruciais nos relacionamentos internacionais.

O mesmo Toffler aprofunda seu olhar e dez anos depois vem com A terceira onda. Se O choque do futuro procurava analisar como nos adaptamos às mudanças e como elas acontecem, este revela um autor sob o impacto de um mundo movente, sem pedras fundamentais ou alicerces firmes. Tudo parece caminhar para o movediço. Diz Toffler:

Neste contexto confuso, os negociantes nadam contra correntes econômicas extremamente caprichosas; os políticos vêem as suas classificações subirem e descerem loucamente como bóias de cortiça; as faculdades, os hospitais e outras instituições lutam desesperadamente contra a inflação. Os sistemas de valores se estilhaçam e se destroem, enquanto os botes salva-vidas da família, da igreja e o estado são violentamente sacudidos.

Não seria só isso. A constatação apontava para uma década de mudanças e adequações tão mais violentas do que jamais se poderia pensar. O mundo estava ainda dividido nos dois blocos e a guerra fria atingira seu auge. Impensável e imperscrutável o que estaria por acontecer. Numa madrugada de outubro de 1989, uma picareta arranca pedaços do muro de Berlim. Aquele que era o ícone da bipolarização do mundo desapareceria no ar, como antes já se propusera.

Antes de completarmos o comentário sobre a trilogia de Toffler, completada com Powershift, voltemos a Herman Kahn. O seu primeiro livro sobre as mudanças no futuro, datado de 1967, O ano 2000, em colaboração com Anthony J. Wiener, antecipava aquilo que Toffler constatava, mas naufragava numa premissa, pela tensão mundial de então. Kahn acreditava num Império Soviético inexpugnável, acreditando na corrida armamentista com frutos sempre catastróficos. Viu-se o contrário. Em A prosperidade está próxima, de 1980, depois de constatar a superioridade militar soviética, conclui:

Para os soviéticos, a guerra nuclear apresenta um caminho possível, ainda que indesejável, de fazer nascer o comunismo mundial ({para que se torne o poder dominante} no mundo pós-guerra (se se saírem bem), ou então de planejar um papel bem menor para o comunismo, e para si mesmos (se se saírem mal). O argumento “mera intimidação”, portanto, não é suficiente assustador para os soviéticos.

É compreensível a leitura de Kahn. Mas entre ele e Toffler há uma diferença básica. Acreditando na bipolarização, ele pára, enquanto o outro, observando a mudança dos atores globais, percebe o deslocamento do poder. Consegue perceber sua linha migratória, seu assunto principal em Powershift:

Desde o término da Segunda Guerra mundial, duas superpotências dominaram o mundo como se fossem colossos. (...) Hoje, claro, esse ato de equilíbrio acabou.
Há uma forte razão para acreditar que as forças que agora sacodem o poder em todos os níveis do sistema humano irão tornar-se mais intensas e penetrantes no mundo imediato.
Dessa maciça reestruturação das relações do poder, tal como o deslocamento e a trituração de placas tectônicas antes de um terremoto, surgirá um dos mais raros eventos da história humana: uma revolução na própria estrutura do poder.


A metáfora para a mudança (placas tectônicas em deslocamentos) é apenas coincidência com o início de nosso ensaio, mas vem a calhar. Essa mudança, que abre rasgos no chão e na estrutura do mundo tem um nome: globalização. Se os futurólogos não cunharam a nomenclatura, a perceberam. Cada um a sua maneira.

Quando John Naisbitt publica o seu Megatendências, em 1982, prevê uma nova riqueza em gestação: o know-how, o conhecimento. E abre suas especulações com a apresentação de uma sociedade industrial migrando para uma sociedade de informação. Não só isso. Prega o poder dessa informação, afirmando: A nova fonte de poder não é o dinheiro nas mãos de poucos, mas informação nas mãos de muitos. Para, logo a seguir, advertir:

— A sociedade da informação é uma realidade econômica, e não uma abstração intelectual.
— As inovações nas comunicações e na tecnologia de computadores acelerarão o ritmo da mudança, encolhendo o tempo de transmissão das informações.


Quem duvidaria? Vejamos o tráfego de informações e o tráfico das mesmas nos milhares de sítios internéticos. Naisbitt ainda acerta: A explosão do computador doméstico está em curso. E será logo seguida de uma explosão no software, que a alimentará. E nós apenas constatamos. Exemplificando: o caso da construção de nosso pequeno calendário sobre a tsunami e suas conseqüências. Levamos pouco mais de cinco minutos para encontrar o que queríamos, na seqüência exata. Velocidade na informação e em sua busca pelo programa utilizado.

Oito anos depois, Naisbitt, em Megatrends 2000, fortalece seu ponto de vista:

Estamos nos aproximando do dia em que teremos capacidade de comunicar qualquer coisa para qualquer pessoa, em qualquer lugar, de todas as formas — voz, dados, texto ou imagem —, à velocidade da luz.

Essa eficácia aplicada à globalização é apenas uma face da mesma. A globalização não é apenas informação veloz e furiosa. E, mesmo embutindo um mecanismo unificador, sua eficácia pode também representar sua ineficácia. Aquele calendário do início mostra-nos três reações às tsunamis que podem nos embalar nessa seqüência reflexiva. Há uma reação cultural: os religiosos fundamentalistas cristãos arrefecendo suas diferenças contra os muçulmanos, já que a maioria da população atingida pertencia a países de religião islâmica; outra reação político-econômica: o Clube de Paris reunido para perdoar dívidas de endividados, mobilização global de apoio econômico e material, visitas e vistorias dos representantes políticos das nações mais ricas; e mais uma reação tecnológica: a ineficácia do equipamento do Pacífico e a construção, em parceria, de um intrincado sistema de prevenção, baseado em transmissão de dados via satélite.

Medir a eficácia globalizante pelo viés da circulação de informação resulta, dessa forma, em ação falha, desprovida de observação. E mesmo essa ação sofre resistências bem esclarecidas. Como nos mostra Milton Santos no livro Por uma outra globalização:

Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias — para aqueles que realmente podem viajar — também se difunde a idéia de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão.

Santos reverencia a técnica, mas questiona o seu alcance. Aquela velocidade e esse mundo sem distâncias não pertencem a todos. Podem até afetar, mas não mudam, não transformam. E aqui nos deparamos com o fracasso essencial do progresso e a busca incessante pelo bem-estar. Todos os futurólogos consultados são unânimes na previsão de melhoria de vida pelas mãos do progresso, esse caminhando de mãos dadas com as revoluções técnico-científicas. John Naisbitt, em Megatrends 2000:

O flagelo da AIDS e o sofrimento que tem provocado simbolizam nossa ignorância sobre nossos corpos e seus preciosos sistemas imunológicos. No entanto, à medida que aprendemos mais sobre o poder da visualização positiva e imaging na saúda das pessoas, estamos próximos da capacidade de ver dentro da própria natureza da célula humana, até mesmo o próprio código do DNA.

Alvin Toffler, em Powershift:

O que faltava era a tecnologia. A disseminação da interatividade em rede irá colocar os instrumentos para os “jogos” políticos em milhões de salas de estar. Com eles, os cidadãos poderiam, pelo menos em princípio, realizar suas próprias enquetes e formar seus próprios “partidos eletrônicos” ou “lobbies eletrônicos” e grupos de pressão em torno de vários problemas.

Herman Kahn, em O ano 2000:

A idéia de robôs a preço módico, realizando a maior parte dos serviços domésticos no ano 2000, pode ser de difícil aceitação à primeira vista. De acordo com um entusiasta (...) dentro de 10 ou 20 anos poderemos ter um robô que eliminará inteiramente todas as operações rotineiras do lar e o trabalho maçante da vida humana.

Fiquemos com as três citações. Mesmo que aconteçam, quantos de nós teremos acesso a essas maravilhas? Quando erradicaremos o vírus da AIDS do continente africano, porquanto a fome, a falta de saneamento básico, trabalho remunerado e outros flagelos são fantasmas tão presentes e tão atuantes? Para aqueles que habitam as periferias mais distantes das grandes cidades, em bolsões de miséria extrema, de que adiantará o Projeto Genoma? E a assinatura de uma tevê a cabo interativa quando estará disponível à massa? Um robô lavando roupas de quem não tem roupas no sertão nordestino do Brasil? A idéia de progresso cai por terra. Mas cai carregando uma certeza revelada por Piotr Sztompka em A sociologia da mudança social:

A explicação para tão longa trajetória (da idéia de progresso) está com certeza situada nas características fundamentais da condição humana: o eterno hiato entre a realidade e as aspirações, a existência e os sonhos. (...) O conceito de progresso alivia essa tensão existencial, projetando no futuro a esperança de um mundo melhor e dando como certo, como provável pelo menos, o seu advento.

Todos os esforços de compreensão das catástrofes naturais e as medidas tomadas para repará-las, minorá-las ou preveni-las abraçam esse conceito, essa esperança. Donos de corpos frágeis, nos debatemos meio aos perigos e armadilhas naturais. Navegar virtualmente pela rede mundial de computadores é prazeroso, mas e a conta a ser paga? E o computador para comprar? E o software para abastecê-lo? O esforço parceiro para a prevenção de tsunamis poderá resultar apenas em mais uma ação judicial de uma nação pobre contra uma nação rica. Esta que tudo pode e aquela que de tudo necessita. E o Katrina ainda estaria por vir.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Uma po-ética para os heróis degolados

1. Quanto ao que aconteceu com nossos índios, o que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância.

2. Salvo alguns topônimos e termos culinários, a herança tupi naufragou na Baía de Todos os Santos. Para nações ágrafas como eram, o velho ditado latino confirmou-se: verba volant, scripta manet. A flecha tombou cansada, adormeceu na calçada, perdendo o último ônibus da história. O caso do índio Galdino Jesus dos Santos, incendiado por adolescentes em Brasília, capital federal da república brasileira, em abril de 1997, é o ápice indicador do genocídio. O seu nome, o nome do índio, é o atestado final da desgraça: um sobrenome adquirido dos sem família. Um índio chamado Galdino. Um índio chamado Jesus. Dos Santos.

3. Nos anos em que se seguiu o modelo colonizador português previu-se índios sendo usados como peças de tiro ao alvo, na mira das escopetas ou primitivos parabéluns. Nos quinhentos anos separadores das agressões, do achamento ao assassinato de Galdino, as qualificadoras do crime são compatíveis e bem poderiam ser retroativas, com uma atenuante: a vítima já é tratada como ser humano, mesmo que a fogo (e aqui os casos se equiparam novamente). O genocídio deu-se enquanto o “exterminando” dormia. A metáfora para a posse do território consagra essa tese: descobrimento. Arrancou-se-lhe o cobertor, virou-se-lhe a cama, incendiou-se-lhe o sono, fecundou-se-lhe o pesadelo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Livro rasgado, terra tristonha

A semana entre os dias 11 e 17 de janeiro de 2000 teve um significado caro para o continente africano. Reunidos na cidade de Asmara, na Eritrea, intelectuais, escritores e acadêmicos de África promoveram a conferência Contra Todas Probabilidades: Línguas e Literaturas Africanas no 21º Seculo. Desse encontro foi retirada a Declaração de Asmara. Os participantes observaram que só o fortalecimento da união entre os povos africanos, respeitando suas individualidades, o investimento na literatura de línguas africanas, a busca de África falar de si em línguas não coloniais e o diálogo com outras culturas sem xenofobismo, mas resguardando e resgatando suas tradições, poderão potencializar a identidade continental.

O continente esfacelado em lutas contra o colonizador e em conflitos interétnicos é um quebra-cabeça difícil de montar. Restos mortais em solo, almas partidas na diáspora. Esse grito de Asmara poderia ser, e ainda não sabemos se o foi, o marco divisor, introdutor de um novo caminho. Entretanto uma muralha, maior que a da China e inútil como a mesma, está erguida represando o Rio Nilo, encobrindo o Kilimanjaro, assustando o antigo Cabo da Boa Esperança. A pergunta está à mesa: até onde, ou quando, escritores são capazes, com suas obras, de derrubar a grande muralha do esquartejamento cultural? Literatas quebrarão os grilhões das fronteiras políticas aprisionantes de etnias?

Aquele mesmo imperador chinês construtor da Grande Muralha também ordenou a destruição de todos os livros escritos antes de si. Foi como proteger sua terra da invasão mongol e fragilizá-la no outro extremo destruindo seu passado, atentando contra a tradição, rasgando a memória do povo e derramando sobre as águas do esquecimento milenares gerações. Semear livros seria derrubar muralhas, regar a memória, gravar e proteger genealogias. A Declaração de Asmara apregoa que as atitudes individuais sejam portentosos instrumentos de afirmação. Em cada país, estado, província ou aldeia os construtores das letras são intimados a destruir muralhas na construção ética de um novo continente.

Exemplificando: a chegada dos navegadores portugueses ao Novo Mundo foi marco de mudança crucial. Mudança para aqueles que aqui se encontravam, principalmente. A carta de Caminha relata o encontro entre os dois mundos com olhos europeus e desejos de mercador. Os habitantes da nova terra, onde havia água em abundância e beleza extenuante, são vistos como futuros cristãos, terra fértil para expansão do império católico. O que se viu, testemunhado pelo tempo, foi o massacre, a derrocada de nações autóctones, o extermínio, o saque. À cruz fincada sucedeu a espada idem. Ao latim da primeira missa sucedeu a língua portuguesa engolida tal qual um aríete, cordas vocais abaixo. Às lendas e mitos, histórias de cavalaria, resquícios romanos e gregos. Fundava-se sobre a fragilidade da cultura oral os alicerces do seu próprio sepulcro que todo o esplendor romântico indianista não conseguiu cantar, ou por omissão, ou por ignorância. Em outras palavras, o livro português esmagou a oralidade das comunidades indígenas pré-cabralinas. Asmara pede o livro como resistência, dentro do diálogo possível

Borges, o cego argentino, afirma, em sua conferência na Universidade de Belgrano:

“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensão de seu corpo. (...) O livro, porém, é outra coisa: o livro é extensão da memória e da imaginação.”

Afirma para mais abaixo tomar um caminho aparentemente oposto:

(...) Scripta manent, verba volant não significa que a palavra oral seja efêmera, mas sim que a palavra escrita é algo duradouro e morto.”

A oralidade é, dessa forma, a mãe da literatura, seu ventre gestador, seu ovo e seu marsupial. A literatura ocidental é filha da oralidade grega, seja de Homero, seja de Sócrates. A palavra escrita seria o morto que vive, que resiste, que enfrenta o colonizador, carregando sob si, fundações que remontam aos antigamentes da vida.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

De um certo Memorial Tapuia

1. O mundo era verde. Houve um ano de seca, no qual, lembro de lembrança bem viva, nós não tínhamos nada para comer. E era nada mesmo. Nem farinha. Fora desse ano, antes, lembro de ter recebido de minha mãe um facão. No dia seguinte, às quatro horas da madrugada, tomávamos café com cuscuz, peixe seco, queijo de coalho e banana. Depois andamos até o ponto onde o caminhão nos apanharia e levaria para o meu primeiro dia no corte de cana-de-açúcar. Em cima do caminhão, umas quarenta pessoas. Os meninos e as mulheres imprensados no meio dos homens, todos em silêncio. O sol nasceu por trás do canavial ondulante. Era muita cana, muito verde. O vento fazia um ruído como se fosse uma cachoeira esgotando água. Já na tarefa, minha mãe seguia à frente, cortando as canas, e eu um pouco mais atrás juntando os olhos de cana, cortando as folhas e elas me cortando. A folha da cana de açúcar é um facão cujos dentes fincam-se nas mãos em forma de pelo. Foi minha primeira lição. Meu primeiro caderno tinha pautas de imensos leirões. Meu lápis escreveu naquelas linhas de terra preta, o massapé, de orvalhos cristalinos pendentes das folhas e de sangue das pernas e mãos e rosto, a cada corte sofrido no labutar contra a natureza. Minhas mãos ficaram grossas como as dos homens mais antigos.

2. Um percurso do pensar. O meu ingresso no Mestrado em Poética foi um marco. Mesmo sem bolsa, casado e com quatro filhos, aos 35 anos, tendo que trabalhar arduamente, não me deixei ser tragado pelo canavial de dissabores. Agora não eram apenas mãos grossas. Eram pés rachados, que não acreditam no terreno que pisam, e olhos fatigados, buscando cores bem mais que FLICTS. Fui moldado ao som dos cantadores. Lampião roubara meu couro para seu chapéu. Minha cartilha foi O Boi Misterioso. O Nordeste pulsa em mim. Resolvi pagar o meu tributo, meu dízimo, minha dívida-dádiva-dúvida. A dissertação Literatura de Cordel: uma poética para os heróis degolados raptou-me. Em seu emaranhado descobri ancestrais numa árvore genealógica tapuia. Encontrei meu DNA mais autóctone. Minha viagem quanto mais mar, mais sertão. Quanto mais Corcovado, mais Pico do Jabre. Quanto mais Baía de Guanabara, mais Rio São Francisco. Mais metrô, carro-de-boi. Avião, Pavão Misterioso. O sangue tapuia compreendeu: antes dos Cabrais, minhas epopéias, intercurso épico, interrompido pelo intruso opaco. Alinhei com os extintos, mas não pense em minha extinção. Quis ver a Literatura de Cordel como matéria épica. Encontrei entes soterrados que vão agora neste alforje a tiracolo.

Quis entender a relação com África. Esbarrei em Mia Couto, Pepetela. Foram uma porta e uma janela. Um abismo. Quando o mundo descobrir África-letra, o letramento será concretizado. Encontrei o negro cantar, a Negritude. O choro, lamento: Pan-africanismo. Não há o Continente Negro: há o conteúdo. Não há o deserto ao norte: o Norte é o deserto. Acredito que irei mais fundo desse navio. A união entre a Umbanda, indígena, e o Candomblé, negro. As flechas do caboclo e as achas do Preto Velho.

3. Ainda te trago em minha boca.
Ainda te trago. Em minha boca
Peripatética malagueta em cio
É fumo, fome, fama, fêmea, fim
Pode até ser água. Anágua, afago
De desorientado girassol.
Assim me entras: serpentina viva
E retornas como pirilampos
A luz fragmentada em conta-gotas
Alfinetadas feito um Raio-X.

domingo, 2 de outubro de 2005

Miguel de Valverde, pensador

1. Miguel de Valverde dizia em segredo para os que o ouviam: — Falar é para todos; ler, para alguns; escrever, para pouquíssimos; raríssimos ouvem! Essa máxima valverdiana é uma pérola, ainda mais em nossos dias de falas tão tonitruantes e intempestivas.

Esquecendo o ouvir, exercício de sábios, e o falar, ferramenta preferida dos messias, nos prendamos ao ler e escrever, tarefas árduas para todos nós. O ato de ler requer um esforço descomunal. A batalha, a guerra, a luta com as palavras, embora vã, como disse o poeta, deixa-nos marcas, cicatrizes e tatuagens para a eternidade.

Escrever é ver para crer. A captura das palavras é exercício dos mais pesados, mas há oásis e, mesmo não parecendo, há também trilhas por entre as dunas, mesmo nos mais inóspitos desertos. Minha vida é procurar essas trilhas.

2. Há certas nuanças na política brasileira que parecem ficção. A imprensa noticia diariamente casos de políticos e homens públicos envolvidos em desmandos, atos ilícitos ou/e ilegais. Brasília é alvo de constantes investidas e frases como “É preciso passar o Brasil a limpo” caíram na boca do povo.

Quando nos debruçamos sobre o passado, o mais distante passado, encontramos raízes desses males. Um poeta, nosso primeiro poeta genuinamente brasileiro, agiu como que arauto denunciador. Muito embora não tenha publicado suas obras em vida, a descoberta de sua lavra lançou novo olhar sobre a história literária brasileira. Gregório de Mattos e Guerra, o Boca do Inferno, foi o poeta.

3. Miguel de Valverde, salvo do desastre em que naufragou a nau de Vasco de Ataíde, uma das componentes da esquadra de Cabral, ao chegar em Moçambique comprou um pequeno exemplar do Dom Quijote de la Mancha, de Cervantes. No quarto escuro e decadente em que se encontrava, recolhido, demorou três dias para ler romance. Dias em que não levantou-se, nem para comer. Bebia apenas, de sua pequena moringa, um ou dois goles de água e de um pequeno cantil, feito de chifre de unicórnio, três ou quatro tragos de vinho.

Dizem e atestam alguns críticos que o Quixote inaugura o romance moderno. Traz em si uma particularidade: aproveita-se das novelas de cavalaria medievais e cria um universo repleto de citações, paródias, epígrafes. É um romance criado a partir da intertextualidade, do entrecruzamento de textos, do diálogo, do recorte. No mesmo caminho, alguns séculos depois, Ulysses, de James Joyce, reinaugura esse romance. Já a partir do título percebe-se a intertextualidade com a Odisséia, do grego Homero. Ulysses é Odisseu, herói grego na guerra contra Tróia.

A intertextualidade transformou-se na marca e no marco distintivo da literatura. O caso mais conhecido na literatura brasileira é o da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, transformada na peça literária mais parodiada e citada de nossa literatura. Desde Casimiro de Abreu cumpriu uma trajetória incomparável até os modernos e pós-modernos. Intertextualidade é lema de minha prática.

4. Naquela noite, tenebrosa noite, quando os raios e os trovões procelaram o mar e uma tempestade assolou a cidade de Maputo, Miguel de Valverde, o pensador renascentista, refugiou-se nos sonetos de Camões. E leu, nas Rimas, aquele que o poeta português dedicou à Dinamene, às margens do Mekong, depois do naufrágio e morte de sua amada. Valverde, em seus sexagenários anos, sentiu um arrepio pela espinha, que terminou por alojar-se em suas pálpebras, espremendo-lhe os olhos e fazendo-o chorar.

A noite aprofundou sua treva e o tempo aprimorou seus urros. Alguma força estranha brincava de assombração. Tempos depois, no Engenho Pau d’Arco, na vetusta Paraíba, um poeta atormentado chamado Augusto dos Anjos, leria o mesmo poema. A lua, em quarto minguante, entrava pelo vidro da janela e se pronunciava no assoalho. Lá fora, correndo pela várzea, o Rio Paraíba respirava seus mortos e banhava seus vivos. A sombra da chaminé do engenho era uma espada sombria furando o ventre azul-petróleo do céu. Augusto reparou que anjos iam e vinham na noite.

5. O que tenho me perguntado com freqüência é se, pelo menos, nesses anos todos de docência em Literatura Brasileira, sei exatamente o que é um romance. Poderia dizer que sim, pelo número de obras que já li, mas também poderia dizer que não, pelo número superior de obras que não li. O que li representa uma ponta de cigarro no deserto da produção literária do último ano do séc. XX. Produziu-se mais literatura no primeiro ano do séc. XXI do que em toda a Idade Média. O que fazer,então, num país que já entrou na história literária mundial queimando etapas e desenvolveu, às pressas, uma identidade literária recheada de êxitos?

Alguém nos disse, não sei se Saramago, que o português é a língua do isolamento. Estamos, nós lusófonos, exilados sob nossa língua. E nós, brasileiros, mais ainda: exilados sob nossas misérias, nossas valas comuns e desesperos. Sob essa égide pergunto-me novamente: o que é o romance? O que é um romance? Quais seus ingredientes? Aceito respostas, sabendo desde já que as respostas suscitarão novas e mais intrincadas perguntas. Caso cheguemos a um consenso perguntarei: o que é o romance brasileiro? O que é um romance brasileiro? E, se restar-nos um pouquinho de coragem: o que é o romance brasileiro contemporâneo?

Não nos afobemos. Como diria o poeta “vamos de mãos dadas” pelas trevas hediondas do labirinto com seu minotauro, sem fio de Ariadne ou com algum fio frágil, frívolo e fugaz, talvez frenético, frêmito, fugidio, fundido em formas fraudulentas e fechadas de fiapos. Sejamos solidários, porém: naufraguemos todos, ali à frente há uma ilha chamada CINEMA.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

E eis o corpo humano

No ano de 1543, o médico Andrea Vesalius, nascido em Bruxelas, publica um livro em sete volumes chamado De Humani Corporis Fabrica, Libre Septem, mais conhecido como o Fabrica. Considerado um dos maiores livros da medicina de todos os tempos, essa obra é a primeira tentativa real de representar o corpo humano anatomicamente por meio da ilustração. Anatomistas anteriores a Vesalius tentaram, mas esbarraram em leis que não permitiam a dissecção de seres humanos, além do que suas tentativas estavam presas aos erros e equívocos do nome mais conhecido da medicina da antiguidade, Galeno.

Sucessor de Hipócrates e Aristóteles, Galeno descreveu o corpo humano a partir de suas observações como médico do Coliseu Romano, quando atendia gladiadores e cristãos feridos na arena. Em seus braços passaram corpos abertos e suas vísceras expostas, seu sangue jorrando, suas vidas fugindo. Embora participasse desse espetáculo, Galeno nunca dissecou cadáveres humanos. Trabalhava apenas com animais, fazia suas aproximações e tirava conclusões. Suas descrições do corpo humano se aproximam muitas vezes do corpo de bodes e cachorros. Entretanto os erros de Galeno perduraram por 14 séculos e eram tidos no grau de sagrados.

O primeiro a realizar e descrever dissecações de humanos foi Mondino DeLuzzi, de Bolonha. Escreveu em 1316 seu livro Anathomia que, mesmo trabalhando com humanos, não percebeu os equívocos de Galeno. Dessa forma, o baço continuou desembocando no estômago, o fígado continuou apresentando cinco lóbulos, o coração aparecia ainda com três ventrículos.

Berengario da Carpi, em 1521 foi o dono da voz rebelada na Renascença. Em seu Comentários à Anathomia, teve a coragem de corrigir Galeno. O coração perdeu um ventrículo, o útero deixou de ser segmentado e outros órgão tomaram localização exata. O corpo humano representado por Galeno e Mondino, abandonava sua característica deturpada e começava a parecer-se com o Homem.

Quando Vesalius publica sua Fabrica o mundo conhece pela primeira vez a representação realística da anatomia humana. As descrições passam a ter o suporte da ilustração. O homem de papel alcança o status de mimesis. O ilustrador, John Stefanus, pintou à mão cada figura, cada esboço foi estudado com apuro e tempo que veio sacudir a medicina e a ciência, adormecidas que estavam pelo ferro inquisidor da Igreja Católica.

O Livro 2 da Fabrica é uma respresentação de todos os músculos do corpo humano. São treze ilustrações de homens musculosos exibindo detalhes do mais profundo ao superficial.

O trabalho de Vesalius não foi de todo perfeito, alguns órgãos e vísceras não foram bem localizados e outros deixaram de ser citados. Ele trabalhava muitas vezes com corpos já em putrefação e muitos desses órgãos não mais existiam ou se confundiam com outros. O pâncreas, os ovários e as glândulas supra-renais não foram vistos por ele.

Ao dissecar corpos femininos, pelo menos dois, Vesalius descobriu o hímen guardando a cavidade vaginal. Porém, um de seus seguidores, Gabriel Falópio, foi quem descobriu e nomeou os ovários e suas trompas, que têm seu nome. Vagina, placenta e útero são designações dadas por Falópio.

Aqueles que vieram depois de Vesalius encontraram um caminho já mapeado. Enquanto ele teve de descobrir o caminho à mão, seus seguidores apenas seguiram seus esquemas, aproveitando para corrigir algum deslize do mestre. O corpo humano iniciava sua trajetória de objeto mais representado da ciência e da literatura.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Bifurcações

O sábado lá em Areia, cidadezinha esquecida no interior da Paraíba, é o dia da feira. Dia de festa para a criançada. Neste dia, Lucas, 11 anos, não sabe, mas terá quatro encontros decisivos. Vai à feira com Zuzu, 10 anos, comprar rapadura. Dá-se a seqüência de encontros:

1. O ventríloquo com seu boneco Benedito: a idéia de um boneco que fala impressiona tanto que Lucas espera ele ser deixado num canto da barraca do propagandista para observá-lo mais de perto. E o boneco, deitado, abre os olhos e pergunta: — O que quer? Lucas corre e se perde do amigo.

Meu coração é um galo
Cantando toda manhã
De olhos abertos canta
passando a guriatã
E nessa metamorfose
Sem linha e agulha cose
Meu sentimento de lã

O meu peito é o terreiro
Onde o mesmo galo cisca
O alimento do galo
Tem substância que arrisca
Coceira de carrapicho
E o galo ciscando o lixo
Não fecha o olho, nem pisca

Meu galo canta sozinho
No seu terreiro limpinho
Em serenatas de vida
Fugindo do desalinho
Com a rima dos menestréis
Meu galo cava com os pés
Os alicerces de um ninho


2. Os emboladores de coco: fugindo do boneco, Lucas se encontra no centro da roda onde dois emboladores divertem a platéia com seus repentes ao som do pandeiro. Um deles ao ver o menino assustado faz um verso sobre sua cara branca e surpresa. Envergonhado, Lucas escapa sufocado do meio da roda.

— Menino tomai cuidado
Com as vozes que escutais
Porque o poço da vida
Já nos dá vozes de mais
Esse boneco não fala
Há outra fala por trás

— Não zombe assim do rapaz
Pois isso ele já entende
Mesmo o boneco falando
A voz não o surpreende
O ventríloquo é um boneco
Que outro boneco suspende

— Quando essa luz se acende
A luz da sabedoria
De ver além do que é visto
Ciente da fantasia
A lua ultrapassa a noite
E o sol subjuga o dia

— Você usa a poesia
Para ilustrar a dureza
De despir a ignorância
E promover a surpresa
De ofuscar a mentira
Com a luz da verdade acesa.


3. No setor de carnes, o açougueiro se acidenta cortando o braço: Lucas percebe que a carne e o sangue do homem são iguais ao que está exposto à venda. A visão do homem sangrando, de sua carne exposta e das carnes sobre o balcão, também sangrando, lhe causam um mal-estar.

Do bumba-meu-boi eu quero o boi
Morto. Vida pr’irmãos mortos, cem
Vidas embevecidas de dor, esfomeadas
Ao depois, ao durante e mesm’ao antes.
Arlequins, Mateus e Catirinas
Aos cantos de comida em desatino
Do cavalo marinho no quintal,
Numa festa de barro, lama e lodo,
Aos gemidos de cinco violados
Degustaram Bandeira+Cabral.


4. Atordoado, Lucas sai do mercado :reencontra Zuzu que segue com um bando de meninos atrás de um palhaço gritando: — Hoje tem espetáculo? Incorpora-se ao cortejo rindo, guardando os pedaços daquela feira para suas bifurcações futuras.


Sexta-feira da paixão o tempo pára.
Não o tempo contado nos relógios,
Mas um tempo que a fé cristã instaura,
Da paixão que fugiu aos necrológios.
A tarde traz nuvens desenhadas
Que assassinam o céu a punhaladas.

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

A mulher que amo

A mulher que amo é negra. Tem pele negra e me visita à noite: minha Lilith particular, minha fada madrinha e ela mesma a própria Cinderela, cujo sapato de cristal do tempo rolou pela escadaria dos séculos e ficou em minha mão de milenar sentinela, à espera da completude.

A mulher que amo tem um corpo negro. Tem seios gostosos que me enchem de água o palato, irrigando minha língua de saudade e meus lábios de misterioso desejo. É ela quem oferta úberes macios às minhas mãos. Um ventre para repousar minha nuca, um colo para satisfazer meu cansaço.

A mulher que amo tem um rosto forte. Tem olhos que vêem. Mais que vêem, falam; mais que falam, cantam; mais que cantam, choram; mais que choram: portas para um coração bondoso, com rosas vermelhas para que o meu, num instante de sonho, seja surpreendido com carinho extremo e beleza além.

A mulher que amo me diz cada coisa que qualquer de fora pensaria até que o Universo ruiria e a Via Láctea, rua espiralada, engoliria o Sol, por conseguinte a Terra, e a trombada cósmica nunca existiria. Ela tem coragem de se expressar. Não se omite e fala, e grita se preciso pelo seu espaço.

A mulher que eu amo carrega sobre si armas de guerreira que não foge ao embate, mesmo com receios de se espatifar contra a dor mais cruel. Quantas mil batalhas ela enfrentou, quantos inimigos foram derrotados e quantos não fugiram ao sentir a ira da mulher mais forte que eu já encontrei.

A mulher que eu amo me estende a mão. A mulher que eu amo se estende viva sobre a minha vida e se alastra vívida sobre o meu viver. Derrama seus óleos pela minha boca. Inebria minha alma com doces palavras. Entorpece meu corpo com carinhos caros e com beijos certeiros me põe para dormir.

A mulher que eu amo tem um gênio forte. Não deixa que eu dite minhas regras tolas e nem quer que as dela sejam a cartilha mais original. Não se entrega ao tronco nem à submissão. Como luta e briga e se engalfinha pelo que acredita e como está aberta a ouvir meus grilos e me entender.

Não tenho qualquer receio de falar mais alto: — A mulher que eu amo me dá um prazer inteiro quando me abre as pernas e me oferta o céu e todas as portas do paraíso carnal. A mulher que amo é um vendaval e seu sexo pulsa entre os lábios meus.

A mulher que amo e amo tanto faz-me acreditar que escrever é um ato santo. Ela é meu salaminho, meu polenguinho, minha pinha. A mulher que amo me alça à categoria de príncipe encantado e eu a promovo de coca-cola simples para chá mate light. Em que bocas encontrarei a mulher que amo?

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Corpos novos, velhas prisões

Em fins do século XVIII começou-se a produção de obras que fugiam ao modelo realista. Ora, essas obras tiveram inspiração no modelo gótico, medieval, e muitas foram consideradas inferiores ou primitivas. O modelo iluminado não comportava trevas, escuridão. Em 1818, porém, surge uma novela capaz de mudar esse paradigma.

A história do cientista que em sua obstinação buscava resposta para a energia vital e o reavivamento de um cadáver é o argumento que fez de Frankenstein, de Mary Shelley, uma das mais conhecidas obras do mundo.

O cientista Victor Frankenstein é um jovem a quem a vida fascina. Criar a vida seria para ele a suprema realização. Seus conhecimentos de Anatomia e Física levam-no a imaginar-se capaz de produzir a centelha primordial.

Frankenstein rouba cadáveres e com eles produz seus experimentos. Ele não quer tão somente conhecer o corpo humano. Seu cérebro busca mais. Quer o que hoje está se tentando produzir, a experiência vital, a inseminação in vitro, a clonagem. Sem a tecnologia, nem os avanços científicos de hoje, acredita que a eletricidade, num crédito desesperado aos avanços e descobertas tecnológicas da época, ofertaria a vida.

A história contemporânea e a sociedade moderna abrigam descendentes do monstro Frankenstein. Durante a Segunda Guerra o apelo nazista voltava-se para a criação da raça perfeita. Experimentos criaram aberrações. Milhares de deformados, outros milhares de mortos. Membros, órgãos e vísceras transportados em experiências fracassadas. A maior produção de intervenções corporais da história humana, para, como na caso da literatura, apenas desvelar a loucura de certas mentes.

Transplantes e implantes para a regeneração ou estética do corpo são realizados nos porões de clínicas, como naquele mesmo ambiente medieval em que magos e médicos produziam seus estudos. Um implante de mão num paciente neo-zeolandês, um indecifrável Michel Jackson, os silicones em corpos redondos ou de relevo irregular, bocas e narizes diminuídos ou aumentados, operações de retiradas de órgãos genitais foram fortalecidos aparentadamente à busca desesperada do Barão de Frankenstein.

A modernidade alinha-se com o gótico. Corpos perfurados por metal, piercings e implantes de próteses são herança do homem na busca do invólucro, do simulacro para sua identidade. Uma mudança cosmética, de apetrechos. Se a novela de Mary Shelley causou espanto, hoje ela convive anônima, meio a corpos reavivados por auto-intervenções.

A construção do corpo tem sido a febre social de muitos tempos. Faraós dormem em suas tumbas preparados para o retorno final. Homens são congelados, na crença de que um dia todos os males tenham cura. A Internet causa espanto com parceiros que se conhecem apenas por uma foto ou outra, que não são exatamente as suas, mas a idealização de si mesmo.

Enquanto isso, Dolly, a nossa ovelha clonada, foi sacrificada. O primeiro ser, fruto de clonagem, envelheceu precocemente, vulnerável e pálida, num recanto, sem pompa ou circunstância.

Há duas forças inexpugnáveis no Universo: o tempo e a vida. Um fez pacto com o outro e a matéria submete-se a ambos. Resta a máxima de Miguel de Valverde, mais uma vez: a vida é ávida. A vida mente, avidamente.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Ocaso e escuridão: impactos de aríete na epiderme do dia

Poderia utilizar como epígrafe para esse bate-papo, como indicador apenas ilustrativo, ou como parte essencial do contexto, ou apenas como visão, produto do surto e do estado de nervos, duas lembranças tênues e vagas, ecos de leituras remotas que empreendi por alguma obrigação acadêmica. A primeira diz respeito ao Dilema do Jacaré, citado talvez por Zenão de Aléia ou Sêneca ou Tirésias:

1. Conta-se que um magistrado teve sua única filha raptada por um jacaré. Procurando-o, ouviu do raptor a seguinte proposta: — Para ter tua filha de volta terás que me dizer acertadamente o que farei com ela: se vou devorá-la ou se vou devolvê-la. Se errares já sabeis o seu destino.

A segunda citada por Tom Zé, nunca por Roberto Carlos ou Julio Iglesias

2. Conta-se que Euclides da Cunha chegando a Salvador para a cobertura da Guerra dos Canudos deparou-se com o seguinte quadro: uma criança, detida nos arredores de Remanso, estava sendo interrogada por um delegado de polícia sobre a organização do povo de Canudos e a ideologia do Conselheiro, ao que pergunta ou pergunta-se: —...mas Deus está de que lado?

Sejam essas duas reminiscências os nossos arautos: o dilema entre o acerto e o erro. Pois no caso do jacaré tanto o acerto como o erro levarão à dor. Instaura-se o mal-estar, suspende-se o tempo, aumenta-se o incômodo gerado por aquele velho sentimento de impotência, regente da orquestra das lágrimas. Esse imbróglio interior não tem, ou tem, como causa o mundo conhecido. Mesmo se sabendo que um jacaré jamais raptará alguém, o pacto para um caminho ideal de reflexão, sobre essa hipotética encruzilhada, é costurado entre nós desta sala, extensão do Universo, e o texto daquela ante-sala, extensão da Mente. É típico dos gregos a formulação do enigma, o edificar a esfinge, o especular sobre o destino. E essa esfinge, o jacaré, e esse Édipo avesso, o magistrado, se embrulham por duas figuras apenas citadas e que não podem ser vistas: a filha raptada e o ato final do raptor. O magistrado diante do despenhadeiro do erro, pois se acertar, perde, e se errar, perde também, espreme o seu peito contra o desconhecido, que ele não vê, no âmago do jacaré, transformando este mesmo jacaré em seu pesadelo acordado, sem apocalipse, sem revelação.

Pensemos agora na criança interrogada, perdendo a inocência ao especular sobre o desconhecido partido tomado por Deus, meio a desgraça de seu povo. O delegado, parente daquele jacaré, do dilema, é uma intrusão em sua simples meta de seguir a construção de um vilarejo pobre e miserável sob a pregação da austeridade e do sofrimento como ferramentas para a divinização. Ela, a criança, é o próprio seqüestrado, cuja formulação do dilema colocará por terra o seu seqüestrador que, se responder sobre qual dos lados repousa a benção de Deus, ferirá fatalmente toda a tradição cristã, desfigurando assim a empreitada das forças federais e fundamentando o sentimento messiânico do seqüestrado.

Gostaríamos, a muito custo, mas não ilegitimamente, de unificar os dois dilemas numa proposição que una a tristeza por não se poder entender aquilo que se vê, o medo por se entender aquilo que se vê e a angústia por não se poder nem ver nem entender. Minha argonave partiu da Grécia e aportou na fundação do Brasil, na Bahia do Monte Pascoal, no Nordeste insular e paradoxal. Senão, vejamos.

A música popular regional nordestina, essa que facilmente se chama forró, em todas as suas dimensões, assenta-se sobre dois pilares: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O primeiro revela aos olhos da nação as agruras do espaço físico, geográfico, das secas e cheias, de rios efêmeros e fomes perenes, bem como o ambiente político com seus coronéis e padres, o poder paralelo dos cangaceiros e as mortes por vingança, o enxoval do vaqueiro e as festas populares. O outro nos apresenta os cabarés e as umbigadas, a ginga da peixeira e as aventuras dos forrozeiros, o amor putânico e o rala-coxa, mais alegre e urbano, enquanto o primeiro é predominantemente rural. Resumem, portanto, ou melhor, sintetizam a mitologia nordestina. Temos falado até agora no par semiológico ver/não ver, luz/trevas. Antes, porém, do avanço, relato uma conversa partilhada com o professor Eduardo Portella quando afirmava ele que o povo dos cafundós (sim, lá também existem os cafundós!) da Europa do Leste, dos interiores tchecos, sérvios, húngaros, bósnios e além, sofrem de uma predisposição para a angústia. Tentei inserir uma certa angústia do homem nordestino, mas a conversa não evoluiu. Fiquei inseminado pelo tema e saí perseguindo meus murmúrios. Deságua aqui nesta Baía, no coração do Leblon, a minha inquietação. Situações circunstanciais de opressão pelo meio ao que parece podem fomentar uma certa ponta de angústia. Pensei, assim, na aridez da vida dos miseráveis de Canudos que não sabiam, ou não conheciam, ou não viam motivo para tanta guerra. Alastrei meu olhar para os desdentados dos vales profundos, viventes-plantas cujas unhas dos pés nunca arranharam um pedaço de pão quente saído do forno ainda há pouco. Vi alguns migrantes caídos na Cinelândia. Abismando-me com essas paisagens distantes e essas outras presentes, calei. Ver dói, não ver, idem. Isso que senti aportou em Gonzaga e Jackson.

A música mais conhecida de Gonzaga é Asa Branca. Qualquer funkeiro ou rapper, rockeiro ou erudito conhece seus acordes simples, sua letra grave e sua estrutura quadrada. Mas olhemos para a letra com mais demora. Deixemo-la irrigar-nos.

Asa Branca

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Até mesmo o asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro não chores não, viu
Que eu voltarei, viu meu coração.

Agora vejamos essa outra canção:

Assum preto

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor .

Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió

Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vezes a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Assum Preto, o meu cantá
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meu

Muito bem, as duas são de Gonzaga e Humberto Teixeira. Pensemos em nossos dilemas epigráficos: sofrer por ver e sofrer por não ver, em suas leituras livres. E, agora, volvamos um olhar sobre o título atribuído a esse roteiro: ocaso e escuridão. Se em Asa Branca o ato de ver causa o desespero, porque não dizer a angústia, por poder observar que tudo está sendo devorado e que o dilema se instaura (partir ou morrer), em Assum Preto dá-se o contrário: não ver proporcionará o cantar mais lindo. A reflexão vai bem mais além quando se prefere trocar a luz dos olhos pelas grades da prisão. Agora intelectualizemos o par opositivo: diante da luz, a angústia, longe da luz, o belo. Parece-me o paradoxo ditado e vivido por Homero, em si próprio, fundando toda a literatura universal, inclusive a metamorfose coleóptera de Gregor Samsa. Agora pairemos sobre esta outra canção cantada por Jackson:

Lamento cego

Irmão, que está me escutando
Preste bem atenção.
Já vi um cego contando
Sua história num rojão.

Quem vê a luz deste mundo
Não sabe o que é sofrer.
Que sofrimento profundo
Querer ver e não poder.

Irmão, mais triste eu fico
Com tanta ingratidão
Dois gravetos de angico
Me tiraram a visão.

Por isso nós tamo aqui
Eu e minha viola.
Por Jesus vamos pedir
Meu irmão, me dê uma esmola

Que Deus recompense então
A sua caridade
E lhe dê sempre a visão
Saúde e felicidade.

É uma composição de Jackson e Nivaldo Lima. Vejamos como se instaura a nossa bifurcação. Vimos que em Asa Branca ver é tomar consciência das próprias catástrofes e ser obrigado a optar sobre um dilema, enquanto em Assum Preto, não ver é proporcionar a manifestação do Belo. Aqui neste lamento há o maldizer por não poder enxergar ou como diz a letra “que sofrimento profundo querer ver e não poder.” Mas, afinal, que sofrimento é esse? Qual o seu nome? Onde se instala? Nossa sociedade globalizada é de alma visual. A visão sobrepõe-se ao tato e ao metafísico. O fim do pensar. A velocidade. A banalização da sexo, da violência e da literatura são ferramentas poderosas no processo de massificação e homogeneização cultural. As nossas empresas de telefonia celular sabem disso. Suas máquinas não mais só falam, elas fotografam, elas transmitem ao vivo. O cego de Jackson sofre por miseravelmente não poder ver, não sentir-se inserido nas cores. Roga a esmola e em contrapartida oferece como paga a recompensa de Deus com a visão eterna, com a saúde e com a felicidade. Contraditoriamente, já que estamos dialogando sobre dilemas, o fim das promessas do progresso e do bem-estar oferecido pela tecnologia e pela técnica, as benesses do paraíso, o leite e o mel, esses dons assinados pelo mesmo Deus, não nos presenteiam mais com saúde e felicidade. Veja-se o colapso da saúde nos países periféricos e a escassez do emprego em todo o mundo. O dilema de Hamlet passaria de ser ou não ser a ver ou não ver. A angústia da Europa Oriental não é maior lá ou cá. Não há predisposição deste ou daquele povo. Se a algum tempo a Ilustração nos ofereceu a Luz, a pós-modernidade nos apresenta a conta e a Light, extensão do Mundo-Capital-Consumo, foi privatizada.

Ainda nos resta o diálogo dos dois cegos citados por Leonardo Mota em seu Cantadores. Diz o primeiro:

Tenham pena deste cego,
Filhos da Virge Maria;
Eu sou cego de nascença,
Nunca vi a luz do dia!

Ao que o outro respondeu:

Quem nasceu cego da vista
E dela não se lucrou,
Não sente tanto ser cego
Como quem viu e cegou!

Um embate sobre a maior miséria. Agora ouçamos: perguntei a um desses policiais que participaram do massacre do Carandiru qual jacaré seqüestrara minha lâmpada de Aladim. Veio-me a resposta como uma bala: surda, certeira e devastadora extraída do poema de Drummond:

Nesse país é proibido sonhar.

Findo senhores com uma canção do Cego Aderaldo, um parvo cuja angústia foi ver demais:

As três lágrimas

Eu ainda era pequeno
mas me lembro bem
de ver minha pobre Mãe
em negra viuvez.
Meu pai jazia morto
Estendido em um caixão
E eu chorei então
Pela primeira vez!

E a pobre minha Mãe
Daquilo estremeceu:
De uma moléstia forte
A minha mãe morreu.
Fiquei coberto em luto
E tudo se desfez
E eu chorei então
Pela segunda vez.

Então, o Deus da Glória,
O mais sublime artista,
Decretou lá do Céu,
Perdi a minha vista.
Fiquei na escuridão,
Ceguei com rapidez
E eu chorei então
Pela terceira vez.

Meus prantos se enxugaram.
Das lágrimas que corriam
Chegou-me a poesia
E eu me consolei.
Sem pai, sem mãe, sem vista,
Meus olhos se apagaram;
Tristonhos se fecharam
E eu nunca mais chorei.

A busca incessante

Estive buscando a construção de um blog. Alguns elementos me moveram nessa direção. Acredito ganhar um pouco de disciplina com isso. Não só. Talvez desenvolva um pouco os meandros da escrita, sabendo, porém, ser filho legítimo e primevo da oralidade. Não vou discutir essas distâncias agora, introduzirei o problema noutros posts. Por enquanto esta é a minha inscrição. Ainda mais hoje, 26 de setembro, primavera aqui no hemisfério sul, dia do segundo aniversário de Rosa Luiza, minha filha.